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quinta-feira, 28 de maio de 2026

O ANJO RENEGADO: SODOMA (ABRIL 2026)

Imagem gerada por IA (Copilot)

 

TEMA

Desde quando frequentava o catecismo, toda vez que me deparava com a passagem da destruição das cidades de Sodoma e de Gomorra na bíblia, ficava imaginando como deveria ter sido, pois sempre achei falta de explicações e descrições, na verdade, de detalhes que demonstrassem como foi aquela tal “chuva de fogo”. Agora, quando adulto, tomado pela curiosidade, fui investigar melhor esse episódio, pois sempre me interessei por eventos catastróficos, buscando referências míticas e históricas. Quando meu parceiro teve a ideia de escrever um cordel sobre anjos, pois buscamos temas novos para nossos enredos, veio a ideia de relacioná-los a algumas cidades citadas no velho testamento e descrever com mais afinco o drama humano. Acompanhada dessa temática surgiu a sugestão de rechear a trama com um dilema vivido por um dos anjos durante a destruição da primeira cidade. Assim teve início a criação dessa saga que será desenvolvida em quatro cordéis.

SINOPSE

Dois forasteiros caminham pela estrada empoeirada em direção à cidade de Sodoma. Ambos estão incumbidos de uma terrível missão a cumprir: destruir a cidade cujos pecados atingiram o mais alto dos céus. Porém surge um contratempo: por intercessão de Abraão, eles deverão retirar os justos de lá antes do prazo final para começar a destruição total. Theliel tem esperança na humanidade, acreditando no seu poder de mudança, já Uriel pensa que seu companheiro superestima a bondade do homem, o qual usou seu livre-arbítrio para ofender cada vez mais a Deus. Eles adentram a grande cidade, disfarçados e atentos ao comportamento de seus habitantes. Acompanhe, neste primeiro volume, a saga de um anjo que ainda acredita na bondade do homem e se encontra disposto a lutar por ele com todas as suas forças.

 

Oito horas da manhã,

Dona Noemi saiu.

Ao mercado principal

Depressa se dirigiu.

O movimento era intenso

E aquele calor imenso

Da forma que sempre viu.

 

Nas ruas empoeiradas,

Caminhava com cuidado.

Chegando próximo à feira,

Movimento tresloucado:

Grande vaivém de pessoas,

Certas caras nada boas,

Andavam pra todo lado.

 

Vendedores mais diversos

Numa grande gritaria,

Oferecendo produtos

Que usavam no dia a dia,

Como era de costume:

Peixe, verdura e legume,

Muita fruta e especiaria.

 

Cada um na sua banca

Como o melhor vendedor:

Peixes frescos e salgados

Que exalavam certo odor.

As moscas sobrevoavam

E sobre os peixes pousavam,

Formando um quadro de horror.

 

Noemi foi a uma banca

Adquirindo cordeiro,

Depois comprou mais produtos

Junto com o verdureiro,

Mas, ao sair do lugar,

Parou quando viu passar

Um estranho forasteiro.


terça-feira, 26 de maio de 2026

O VOO 535 (MARÇO 2026)

Gerada por IA

 

TEMA

 O homem sempre foi fascinado pela ficção científica. Neste gênero, escritores puderam dar asas à sua imaginação, vislumbrados pelas conquistas no âmbito científico. Um dos temas mais fascinantes e visitados foi a viagem no tempo, explorada em seus diversos nuances. Quando esse tema liga-se a um avião lotado de passageiros, o enredo torna-se mais interessante como no livro “Fenda no tempo” do escritor Stephen King e, mais próximo de nossos dias, a minissérie que explorou o desaparecimento de um avião comercial. Tendo como base esses elementos e adicionando uma pitada de mundo pós-apocalíptico, somado a uma nada convencional epidemia zumbi surgiu a ideia deste cordel, totalmente ambientado em território brasileiro.

 

SINOPSE

Em uma bela manhã de inverno, no aeroporto de Curitiba, os passageiros do voo 535 embarcam sob os cuidados do comandante Herondino e de sua tripulação. A viagem corre às mil maravilhas até que o avião, repentinamente, acaba sendo envolvido por uma estranha tempestade, passando por uma grande turbulência. Apesar do susto, nenhum incidente de natureza grave é registrado a bordo. Ao fazer sua primeira escala, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, passageiros e tripulantes encontram o local, sempre tão movimentado, agora completamente deserto. Não há qualquer movimento ou ainda qualquer forma de vida. O que terá acontecido? Onde foram parar todos? Essas e tantas outras perguntas esperam por você nesse nosso primeiro cordel de ficção científica. Embarque conosco nessa viagem.


Sete horas da manhã,

Aeroporto Afonso Pena,

Cidade de Curitiba.

A senhora Madalena,

Ao lado de seu esposo,

Só observava a cena.

 

Muitas pessoas nas filas

Pra despachar a bagagem;

Outras tomavam café,

Mostrando camaradagem.

Os jovens faziam selfies

Com a bonita paisagem.

 

O inverno havia chegado,

Baixado a temperatura.

Enfrentar o frio lá fora

Só podia ser loucura.

O cruel vento açoitava

Com requintes de tortura.

 

Chocolate com canela,

Um belo dum cappuccino.

De lá da cafeteria

Vinha um aroma divino,

Agradando paladares

No período matutino.

 

Cada pessoa vestida

Com o seu casaco quente.

O frio forte dominava

Aquele enorme ambiente,

Que cada vez mais se enchia

Com todo tipo de gente:


quinta-feira, 21 de maio de 2026

O REINO ENCANTADO DE KANTHAR (FEVEREIRO 2026)

Criado por IA

TEMA

As histórias de aventuras sempre foram muito comuns desde o século XIX, figurando entre os diversos romances. Também eram bem frequentes, entre os clássicos universais, as aventuras que tinham crianças e jovens no papel de protagonista como “As aventuras de Tom Sawyer”, “O livro da selva” entre tantos outros. No Brasil, personagens como Xisto (da histórica Coleção Vaga-Lume) povoaram o imaginário das crianças e jovens. Mas o que dizer das narrativas clássicas, que envolviam outros mundos, como “As crônicas de Nárnia”? Foi inspirado nesses heróis e universos que surgiu a ideia para esse cordel. Aliado a isso, o desejo comum a toda criança que sonha ser herói, em especial, quando essa criança vive em condições especiais. Todos esses elementos juntos foram considerados oportunos para um grande enredo.

SINOPSE

Pedrinho é um menino que vive mal humorado e muito triste devido à condição em que se encontra: por causa de um problema extremamente grave nas pernas, nunca conseguiu andar e vive preso a uma cadeira de rodas. Apesar da dedicação exemplar de seus pais para com ele e mesmo com todos os recursos financeiros de que seu pai dispõe, não deixando faltar nada ao filho, proporcionando a ele o bom e o melhor que se pode oferecer, Pedrinho jamais se sentiu feliz. Todos os médicos foram consultados e nada mais poder feito pelo garoto. Como uma última tentativa, os pais resolvem mudar de ares e levar o menino para uma linda fazenda que possuem, à qual nunca o levaram por ser muito distante e não possuir o conforto de que ele necessitava. Pedrinho nem imagina que está prestes a viver uma experiência mágica que vai transformar sua vida para sempre.


Seu nome era Pedro Silva,

Mas o chamavam Pedrinho.

Tinha doze anos de idade,

Era um menino magrinho,

Vivia triste apesar

De ganhar todo carinho.

 

Pedrinho nascera assim,

Seu parto foi complicado:

As pernas atrofiadas

Talvez foi o resultado.

Diversos especialistas

Já havia visitado.

 

Muitas fisioterapias,

Por fortes dores passou,

Tratamento alternativo,

De tudo experimentou,

Porém, no final das contas,

Nada disso adiantou.

 

O seu pai era empresário,

Morava na capital,

Porém tinha um belo sítio

Longe, na zona rural,

Mas nunca havia levado

Pedrinho a esse local.

 

A casa da capital

Era toda adaptada

Para a cadeira de rodas

Moderna, motorizada,

Assim, para o garotinho

Ali não faltava nada.


terça-feira, 17 de março de 2026

A CIDADE DAS ALMAS PERDIDAS: A ROMARIA DOS CONDENADOS (JANEIRO 2026)

 

Feito pela IA Copilot

TEMA

É muito antiga, nos países de cultura católica, a difusão de diversas histórias (lendas urbanas) que buscam demonstrar as consequências atribuídas ao desrespeito pelas tradições religiosas. Há uma vasta variedade de maldições ou castigos divinos originados na cultura popular, advindos, muitas vezes, de Portugal que serviu como nossa matriz cultural religiosa. Todas essas narrativas giram em torno de locais e rituais sagrados, milagres e prodígios, buscando estabelecer regras morais e evidenciar a intervenção divina por meio de histórias que acontecem em ambientes envolvidos pelo sobrenatural, produzindo enredos os quais alimentam o medo e reforçando a importância do sagrado em nosso cotidiano. Foram desses elementos que surgiu esse cordel.

SINOPSE

Seis amigos preparam-se para um feriado de muita diversão. A caminhonete já está abastecida com muita bebida e carne para fazer aquele churrasco caprichado. Eles resolvem partir no Dia de finados, logo de manhã. Antes de saírem da cidade, passam em frente ao cemitério para zombar das pessoas que vão até lá para prestar homenagem aos seus mortos e depois partem às gargalhadas. Mas, de um trecho em diante, a viagem parece tomar um rumo inesperado. Eles acabam chegando a uma cidade muito estranha, silenciosa e tomada por uma atmosfera inquietante. Romarias misteriosas, habitantes perturbadores e outros sinais de que algo errado predomina naquele lugar. Os seis amigos tentam entender que segredos guardam aquela cidade e como se faz para sair dela. Prepare-se para uma história de suspense, medo e horror. 


Era Dia de Finados,

Seis amigos combinaram

Se divertir por aí...

Suas coisas arrumaram,

Colocaram na picape,

Às dez horas viajaram.

 

Iriam em três casais:

Samuel e Guiomar;

Rosana com Antenor;

Michele com Valdemar.

Levavam muita cerveja

E maconha pra fumar.

 

Alguns quilos de picanha,

Tudo a vácuo embalado.

Mais outros cortes de carne,

Tudo estava preparado.

Deixaram sua cidade,

Cada qual mais animado.

 

Compraram os mantimentos

No início da semana

Para fazer a farofa

Daquele jeito bacana

Que quem sabia fazer

Era somente a Rosana.

 

Salada de maionese

Também outras iguarias

As quais iriam ser feitas

Naqueles próximos dias.

Um verdadeiro banquete

Dispensando as honrarias.


sexta-feira, 13 de março de 2026

OS DOIS LOBOS (DEZEMBRO 2025)

 

Capa gerada por IA

TEMA

Poucos são os ensinamentos que nos chegaram dos povos ancestrais, infelizmente, devido ao sentimento de soberba do colonizador europeu, o qual pensava não ter nada a aprender com as nações indígenas. Por meio de narrativas, alguns conhecimentos, transmitidos de geração para geração, sobreviveram ao tempo e nos presenteiam com sua sabedoria e um modo particular diferente de encarar a vida e seus desafios. Por se tratar de uma cultura de base oral, a liderança sempre ficava a cargo do integrante mais velho da tribo, pois, segundo o entendimento deles, aquele que viveu mais tempo, possui uma quantidade maior de experiências de vida, contribuindo para um grau de sabedoria maior, fator esse que endossa a sua autoridade sobre o grupo. Da admiração por essa sabedoria, surgiu a ideia de adaptar para o cordel esse conto pertencente à nação Cherokee.  

SINOPSE

O conselho da tribo reúne-se para discutir o problema de um dos seus membros: um jovem que, a partir do momento em que foi vítima de uma injustiça, passou a ter um temperamento explosivo acompanhando de uma visão amarga da vida e um desejo contínuo de vingança. A preocupação deles é que tal comportamento o conduza para um caminho sem volta. O avô pede permissão ao conselho para que, antes de qualquer decisão, possa conversar a sós com ele. Para isso o convida para um passeio pela floresta, ao qual o jovem aceita, apesar de um tanto desconfiado. Uma cena, ao mesmo tempo, tão comum e tão surpreendente, vai fazer com que aquele jovem aprenda uma maravilhosa lição de vida.


Sabe-se que as narrativas

Surgiram na Antiguidade,

Presentes em cada povo,

Com muita simplicidade,

Porém sempre revestidas

Dos nuances da verdade.


Todos os povos carregam

Sinais de sua presença,

Podendo ser atestada

Como marca de nascença.

Para contar uma delas

Agora peço licença.


Existe uma bela história 

De um tempo já bem distante,

Vem da nação Cherokee,

Uma história interessante

Que mostra a sabedoria

Desse povo cativante.


Sabemos que entre os indígenas

A marca da autoridade

Pra sempre vem imbuída

Por uma questão de idade,

Os mais velhos respeitados

Por toda a comunidade.


Um dos jovens desta tribo,

Que vivia amargurado,

Reclamava aos quatro ventos

O seu canto angustiado

E o motivo disso tudo

É ter sido injustiçado.


terça-feira, 4 de novembro de 2025

O VALE DOS SENTIMENTOS (NOVEMBRO 2025)

Crédito: Arnaldo Júnior

 TEMA

Muitos são os contos antigos que nos chegam, difundidos em diversas versões, que tratam sobre lições de valor. Claro que encontramos uma boa parte deles cuja abordagem assemelha-se ao tom moralizante das fábulas, mas, por outro lado, muitas são as histórias que nos encantam, em especial aquelas que trabalham com as analogias, utilizando-se do mesmo expediente das parábolas: o de transformar toda e qualquer abstração em elementos concretos.  Dentre esses contos, li há muito tempo atrás uma versão (pois existem tantas e tão interessantes) de “O vale dos sentimentos”, de autoria desconhecida, em uma revistinha da Turma da Mônica e fiquei encantado. Tantos anos depois, não resisti à tentação de adaptar para o cordel essa história, que ainda trago nítida na minha lembrança de leitor, criando também a minha versão.

SINOPSE

Em um lugar distante de nossa realidade, existe um maravilhoso vale e, no seio desse vale, há uma pequena e charmosa vila, com casinhas coloridas, cada uma decorada à sua maneira. Apesar de parecer um lugar como qualquer outro, o que faz desse local extraordinário é o fato de que nele vivem reunidos todos os sentimentos em um clima de harmonia mesmo com as diferenças entre eles. No centro do vale, vive o mais importante dos sentimentos. Num belo dia de sol, a raiva, único sentimento a morar sozinha e isolada dos demais, está elaborando mais um de seus planos maléficos ao preparar uma poção muito poderosa e assustadora que se precipita sobre o vale. Não perca essa bela analogia ao comportamento humano, adaptada para o cordel de um conto antigo e de origem desconhecida.

A história que agora conto

É antiga de verdade,

Lá do começo dos tempos

Por volta da antiguidade.

Vem de uma longínqua época

Bem antes da humanidade.

 

Bastante longe daqui.

Muito, mas muito distante,

Em um canto deste mundo,

Sem mais terras adiante,

Existia em segredo

Um lugar interessante.

 

Lá onde o grande oceano

Acaba numa montanha.

Era um gigante maciço

De uma altitude tamanha

Que guardava um belo bosque

No fundo de sua entranha.

 

Um campo de vivo verde

Se estendia como um manto

Por cada palmo de terra,

Encobrindo a todo canto,

Como o mais nobre tecido

Fiado qual por encanto.

 

Logo após um grande vale,

Por todos lados florido.

Ao fundo uma cachoeira,

Um lago bem colorido

Que abrigava no seu centro

Um reino desconhecido.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

JOÃO CORAGEM CONTRA O BANDO DO PAVIO CURTO (OUTUBRO 2025)

Crédito: Hadoock de Aninha

 

TEMA

Por muito tempo, os filmes de faroeste fizeram grande sucesso tendo, como pano de fundo, a ocupação do velho-oeste americano. Diversos filmes foram surgindo, tendo a figura do pistoleiro, a do matador e os memoráveis duelos à luz do dia em cidades empoeiradas no meio do nada, rendendo vários filmes de ação, regados a muitas chuvas de balas. Algumas associações já chegaram a ser feitas com as regiões Centro-Oeste e Nordeste do nosso país, no começo de suas povoações, chamadas, em seus lugares mais distantes e ermos, de “terra de ninguém”, onde a única lei a vigorar era a “lei do mais forte”, assim como naqueles filmes. Foi pensando nesse sertão distante e sem lei, na figura do matador de aluguel e dos grandes duelos que surgiu esse cordel, também inspirado no conto extraordinário de Guimarães Rosa intitulado “A hora e a vez de Augusto Matraga”, resultando em uma breve história que pudesse reunir violência e redenção.  

SINOPSE

João Coragem é um matador profissional. Não temendo ninguém, fez da morte o seu ofício, trabalhando para quem pagasse melhor. Indiferente e acostumado à violência, acaba sendo abandonado pela mulher que teme por sua vida e pela vida da filha, deixando-o sozinho. Seu nome e sua fama vão crescendo por toda a região, o que lhe garante que nunca fique desempregado, mas, por outro lado, passa a acumular inimigos. Certo dia, após uma missão malsucedida, resolve deixar de vez o nefasto ofício e procurar pela paz que jamais teve, mudando-se para uma pequena e pacata cidade onde ninguém o conhecia. Depois de algum tempo, quando João parece, enfim, ter encontrado a verdadeira vida, eis que um acontecimento repentino obriga João a fazer uma escolha definitiva que vai selar o seu destino. Não perca esse faroeste à brasileira.

 

Passou já se faz um tempo                                       

Essa tal famosa história.

Como tudo começou

Está vivo na memória,

Nem os anos apagaram

Essa real trajetória.

 

Vivia nas cercanias                                                       

Um famoso foragido,

Homem de muita frieza,

Coração endurecido.

Matava sem hesitar,

Sempre muito decidido.

 

Era como um mercenário:                                         

Servia a quem mais pagava.

Pra manter a profissão,

Ao matar nunca hesitava.

Ninguém se postava contra,

O povo atemorizava.

 

Ganhou cada vez mais fama    

De notável matador.

Era uma chama do mal,

Alimentada na dor.

A Dona Morte clamava

Por mais um adorador.

 

Portava a morte consigo,

Por isso sua presença,

Claro sinal de má sorte.

Agonia tão imensa,

Muito forte se tornava

Como uma mortal doença.

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

A MALDIÇÃO DE NARCISO (SETEMBRO 2022)

Imagem gerada por IA

TEMA

Antes do pensamento racional e criterioso e do método científico, o mundo era povoado por mitos, um sistema de crenças que ilustrava ou até mesmo buscava explicar as questões mais constantes, presentes no cotidiano da humanidade. A riqueza da mitologia grega, a mais difundida no ocidente, sobreviveu até hoje, por meio de narrativas fantásticas, cheias de simbolismo, que intrigam e fascinam crianças e adultos. Entre essas histórias, uma das mais célebres é a do jovem Narciso, cuja influência é tão forte que criou o termo “narcisismo” usado pela psicologia e tão comentado atualmente. Isso sem falar na flor, que também leva seu nome. Foi pensando nesse mito, que eu resolvi recontar essa história, mas não resisti à tentação de fazer algumas alterações no seu desfecho, provocando uma pequena releitura a respeito da vaidade exacerbada.  

SINOPSE

Narciso é um jovem de beleza inigualável, por isso motivo de assunto, principalmente entre as moças, por toda a região. Acontece que esse presente divino veio acompanhado de uma vaidade sem limites. A decisão por priorizar a beleza física diante de qualquer outro valor humano, transformou o formoso jovem em uma pessoa arrogante. A pobre mãe, preocupada com o futuro do filho por causa de tal comportamento, recorre ao oráculo buscando por algum esclarecimento. Perante uma resposta estarrecedora, ela se dá conta de que seu filho caminha para um terrível desfecho. Poderá Narciso mudar o próprio destino? O que pode haver de tão terrível em seu futuro? Lei esta adaptação para o cordel em busca de respostas e se delicie com um dos mais famosos mitos gregos.

A beleza é mesmo um dom,

Não é fácil de negar.

Quando ela sai do tom,

Acaba por soçobrar,

Pois não traz nada de bom

Pra poder acrescentar.

 

No momento em que a beleza

Transforma-se em vaidade,

Nega a pura natureza

E vira futilidade.

Perde o status de grandeza

Pra virar mediocridade.

 

Preste atenção nessa história

Que eu irei te descrever,

Vou buscar lá na memória

Para que possa entender.

Beleza que só quer glória,

Termina por padecer.

 

Muito tempo vou voltar

Ao berço da narrativa.

Espero te emocionar,

A história é reflexiva.                                                                           

Tanta gente vai ficar

Depois dela, pensativa.

 

A distante Grécia Antiga,

O destino da viagem.

Meu amigo, minha amiga,

Venho pedindo passagem.

Sem descanso e sem fadiga

Pra buscar a personagem.

 

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O MISTÉRIO DA CASA NA COLINA (AGOSTO 2025)

Imagem gerada por IA

 

TEMA

A temática dos causos de assombração, envolvendo o chamado “mundo sobrenatural”, sempre foram muito comuns e, portanto, apreciadas na cultura do sertanejo. São incontáveis as narrativas desse gênero, trazidas, inicialmente, do continente europeu, muito antes das lendas urbanas, dando origem a cordéis e até mesmo presentes em modas de viola como “Relógio quebrado”, de composição de José Russo e Teddy Vieira e ouvida na voz da dupla Nestor e Nestorzinho. Tais enredos sempre envolvem a questão de se crer ou não em relatos desse tipo, levando um protagonista incrédulo, que se tornou comum, muitas vezes aparecer na pele de corajoso e destemido, envolvido em alguma espécie de aposta, guiado em uma jornada ao desconhecido e trazendo desfechos um tanto inesperados. A partir desta expectativa, nasceu este cordel.

SINOPSE

 No bar de uma cidadezinha do interior, os homens estão reunidos, como de costume, para contar e ouvir diversos casos de assombração e mistério. Em meio a uma dessas narrativas, eis que ergue um forasteiro, chegado há pouco tempo àquela região. Ele zomba da natureza de tais histórias e alega que tudo isso não passa de fruto de superstições e crendices desse povo. Após dizer que essas histórias são causadas pela ignorância dessas pessoas, ele desafia que eles escolham um desses locais assombrados para que ele, com sua racionalidade imbatível e coragem, prove a todos eles que não passa de mais uma besteira. Eles então o enviam a uma casa amaldiçoada da qual ninguém nunca mais voltou. O que acontecerá a ele? Conseguirá vencer o tal desafio e provar de que tudo não passa mesmo de pura fantasia. Descubra o que existe, afinal, por trás de tanto mistério.

 Deixando a cidade grande

E o furor da capital,

Vamos para o interior

E seu clima especial,

Sua gente hospitaleira,

De cultura sem igual.

 

Não irei citar seu nome,

Pois não fará diferença.

Não aumenta ou diminui

A nossa devida crença.

Há tantas pelo Brasil,

Muito mais do que se pensa.

 

O povo desse lugar

Sempre gostou duma prosa,

Conversa tão animada

Numa amizade gostosa

Com gente descontraída

E para lá de amistosa.

 

Vamos ver do que se trata,

Meu caro amigo leitor,

Pois o rumo dessa prosa

Será muito tentador.

Vai deixá-lo curioso

Sobre qual o seu teor.

 

Foi numa mesa de bar                                

Que essa história começou.

Em uma dessas conversas,

Não sei quem iniciou.

Só sei que foi desse jeito

Que o fato se consumou.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

FAZENDEIRO JEREMIAS E A PROFECIA DO BOI TUFÃO (JULHO 2025)

Imagem gerada por IA

 TEMA

        As profecias sempre desempenharam um papel de destaque na história do homem. Presentes desde os tempos mais remotos, baseadas na previsão do futuro com base no cumprimento do destino, elas alcançaram todas as culturas, em todos os cantos do globo. Seu clima místico atingiu às mais diversas crenças, inclusive encontram-se diversos registros na bíblia. A ideia principal gira em torno de que o destino de cada homem já foi escrito e, portanto, torna-se inevitável. Aliada a esse misticismo, vem a figura da cigana, sempre envolta nessa espécie de aura, tomada como clarividente, associada às práticas como a quiromancia e outras mais. Que tal tudo isso tendo o sertão baiano como pano de fundo? Foi daí que nasceu esse cordel como uma adaptação da música “Boi Tufão” composta por Jerônimo Divino Tomaz (Crioulo).

SINOPSE

No sertão da Bahia, no ano de 1900, aconteceu a chegada de uma renomada cigana que viera da Europa. Ana Maria, como era conhecida, era muito famosa por nunca ter errado uma sequer das previsões que fizera. Curioso por saber de seu futuro, o fazendeiro Jeremias, o mais poderoso e rico daquela região, marca uma consulta com ela. A profecia feita pela cigana atinge, como uma bomba, o coração orgulhoso daquele homem que, num primeiro momento recusa-se a acreditar no que ouve, porém, mais tarde, resolve provar, para o mundo e para si mesmo, que é possível mudar o destino. Com uma decisão muito difícil para tomar, o fazendeiro faz uma escolha dolorosa a fim de garantir o futuro de alguém muito querido. Contudo, sua decisão cobrará um preço muito caro por isso. Poderá, enfim, Jeremias, subjugar o destino? Não perca essa emocionante história.


Há muitos e muitos séculos
Que nem consigo contar,
Para as bandas lá da Grécia
Todos ouviam falar
Que das garras do destino
Ninguém consegue escapar.

Uma famosa tragédia
Chamada Édipo Rei,
Que se passou lá em Tebas
Outro dia contarei,
É um bom exemplo disso.
Agora que me lembrei.

Mas vamos deixar a Grécia
E também o seu passado.
Voltemos cá pro Brasil,
Onde estou acostumado
Para vos contar um caso
Que ficou muito afamado.

Milhares de léguas longe, 
Cá no sertão nordestino.
No estado da Bahia,
Conta-se que um menino
Lá por mil e novecentos
Encontrou o seu destino.

Seu pai era muito rico,
Importante fazendeiro:
Jeremias, o seu nome,
Homem de muito dinheiro
E por todos conhecido
Naquele sertão inteiro.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

A SEMENTE DA VERDADE (JUNHO 2025)

Imagem gerada por IA 

 

TEMA

            São inúmeras as lições de sabedorias contidas nas mais diversas tradições ao redor do mundo por meio de seus contos de origem popular. Tendo como berço a tradição oral e, por isso, de autoria desconhecida. Séculos mais tarde, quando surge o movimento de registrar no papel tais histórias para que elas não desapareçam essas narrativas viajaram pelo tempo, chegando até os nossos dias, algumas um pouco modificadas, outras já nem tanto, inclusive podendo ser encontradas em versões diferentes. Mas não foi somente uma viagem temporal, pois elas também atravessaram o oceano, vindas de culturas milenares como Japão, China e Índia, do longínquo oriente e hoje estão presentes em todos os cantos do planeta. Essa narrativa surgiu da vontade de resgatar uma dessas histórias, que não se trata de uma história infantil, mas um conto chinês que serve para a toda a família refletir sobre a questão da ética.

 SINOPSE

                 Em um reino tomado pela paz e pela harmonia, vive um imperador muito sábio e muito querido por todo o povo por ser considerado um homem bastante justo e ponderado em suas decisões. Depois de muito tempo no comando do reino, ele já começa a se sentir muito velho e sem o vigor de antes para liderar o seu povo. Como dedicou sua vida inteira ao serviço de todos, acabou optando por não casar nem formar uma família, portanto, agora idoso, não possui um descendente para ocupar o trono e seguir o seu caminho. Diante do urgente problema, reúne o seu conselho para comunicar a sua decisão antes de torná-la pública: irá submeter a um teste todos os jovens do reino que desejem o trono, portanto, seu comunicado dever ser levado aos quatro cantos do reino, sem exceção. Que espécie de teste aguarda os jovens? Como ele pode determinar quem está apto a ser um grande imperador? Não perca essa bela história.

 

A história que eu vou contar
Não foi criada por mim.
Nasceu pra lá do Oriente,
Em terras que não têm fim.
Foi há milhares de anos
E começa bem assim:
 
Lá para o lado dos campos,
Em uma casa modesta,
Vivia humilde família
E por sinal muito honesta.
Trabalhava na lavoura,
Muito próximo à floresta.
 
Propriedade pequena,
Com muito para fazer:
Cuidando da plantação
Para ter o que colher.
Todos ali ajudavam,
Pois assim tinha de ser.
 
Cada qual com sua parte,
Sem ninguém sair do trilho,
Inclusive uma criança,
Que era o mais novo filho,
Admirado por todos
Como um garoto de brilho.
 
Todo mundo já notara
Que o referido menino
Demonstrava seu talento
Desde muito pequenino:
Nasceu pra mexer na terra,
Era esse o seu destino.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

TIÃO VALENTÃO E ROSA FORMOSA (MAIO 2025)

 

Capa de Hadoock de Aninha


TEMA

Quantos enredos na literatura já não exploraram a figura do “valente”, seja na condição de um embuste ou de verdadeira coragem? Desde os contos do regionalismo universal de Guimarães Rosa em personagens como Targino e Augusto Matraga até os cordéis clássicos com protagonistas como Antônio Cobra Choca (Antônio Vila Nova) e o Valentão do Mundo (Severino Milanês) e tantos outros que poderiam ser citados aqui temos o exemplo dessa personagem característica do sertão. Escolhida a figura do valentão por que não o introduzir numa história de amor, daquelas típicas dos folhetins do século XIX, com um tom açucarado? O resultado foi essa história classificada por mim mesmo como clichê, com espaço de destaque para um momento de dramaticidade inspirado nas páginas do romance “Quo vadis” (1896). Pode parecer muita idealização, mas foi uma tentativa de adoçar um pouco a vida do leitor um tanto enfadado pelo amargor da realidade.

SINOPSE

Essa é a história de duas personagens: Tião, um valente à moda antiga, no mais puro sentido da palavra. Famoso por não ter medo de nada e de ninguém, seu nome corre de boca em boca pelo sertão como o homem mais temido da região; Rosa, uma bela moça da cidade, fina, sofisticada, simpática, muito gentil e atenciosa, não havendo quem não goste dela. Quis o destino caprichoso que essas pessoas pertencentes a dois mundos tão distantes acabassem se encontrando em circunstâncias para lá de inesperadas. Após esse encontro, marcado por fortes emoções, a vida não será mais a mesma para nenhum deles. O que realmente mudará no destino de cada um? Poderão esses dois mundos em contraste conviver em completa harmonia superando tamanhas diferenças? 

Sempre dizem que o amor
É capaz de coisa tanta,
Com poder devastador,
Ele encanta e desencanta.
Entre a paixão e o fervor
Se rebaixa ou se levanta.

O leitor deve pensar:
Essa é mais uma daquelas
Histórias de se esperar:
Cenas e tramas singelas
Como tantas a rodar,
Com moças bastante belas.

Também deve haver mocinho
Que ofereça proteção,
Tirando da rosa o espinho
E trazendo a salvação.
Seguem o mesmo caminho
E se acaba a narração.

Não está de todo errado
Sobre aquilo que vai ler.
Este tema bem usado
Eu também quis escrever.
Mas foi bem elaborado.
Continue para ver.

Eu peço, neste momento,
Somente um pouco de crédito,
Pois não há regulamento,
Nenhuma espécie de édito
Ao citar tal sentimento.
Mais nada também de inédito. 

sábado, 13 de setembro de 2025

QUANDO A MORTE ENTROU DE FÉRIAS (ABRIL 2025)

Capa de Isadora Oliveira Monteiro

TEMA

Muitos homens já chegaram a sonhar com a imortalidade. Para a humanidade, desde os tempos mais remotos, a morte é o inimigo a ser batido. Por isso, as ideias mais surreais tentaram tal façanha, tendo todas fracassado, uma a uma. Hoje a ciência, em especial a medicina, tem se debruçado a encontrar formas de prolongar a vida das pessoas. Inspirado no romance “As intermitências da morte” (2005), do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que trabalha brilhantemente com a possibilidade de um mundo sem a morte, explorando todos os aspectos que a envolvem: religião, economia, relacionamentos familiares, estrutura do estado entre outros, veio a ideia dessa narrativa que busca simular as consequências de um mundo sem a morte e, além de tudo, compreender a sua influência, invisível para muitos, em nossa vida social.

SINOPSE

Tudo começa quando a Morte, de maneira repentina, convoca todos os súditos de seu reino para um pronunciamento, fato totalmente inédito até então, portanto, despertando a suspeita de quase todos, que não deixam de especular a razão para tal acontecimento. No dia e hora marcados, tão esperados por todos, os quais não deixaram de comparecer à convocação, ela faz o grande anúncio: pela primeira vez, em milhares de séculos, ela resolveu tirar as tão merecidas férias, portanto deixará de agir, aproveitando também para observar como a humanidade vai lidar com a chance da imortalidade por algum tempo. Os servos ficam todos espantados com a notícia e são tomados pelos mais variados questionamentos: será essa uma boa ideia? Não ficará o mundo à beira do caos sem ela? Como os homens irão se comportar sabendo que não correm nenhum risco de morrer?

Seguem as primeiras estrofes:

Num reino muito distante

Bem pra lá do fim do mundo
Nas fronteiras do além,

Em um abismo profundo,
Reina toda absoluta
Em um solo infecundo.
 
A figura mais ilustre  
Da qual se teve notícia.
A ela ninguém engana
Com astúcia ou com malícia.
Ela é mais do que real,
Mas, para alguns, fictícia.
 
Dentre todo o universo          
É a Senhora Suprema.
A sua onipotência
Supera qualquer dilema.
Diante de sua face,
Não existe quem não trema.

Pois ela se encontra acima
De tudo que é mortal.
Tem natureza infinita,
Paira sobre o bem e o mal,
A razão e o sentimento.
Algo sobrenatural.
 
Alguns a chamam Destino,
Outros chamam de Má Sorte,
Às vezes Fatalidade,
A palavra é sempre forte.
Porém todos a conhecem
Tão simplesmente por Morte.



 

CORDEL DA VIOLÊNCIA

Crédito: Enrico Hanel (PEXELS) “Quem pode mais, chora menos” Já diz o velho ditado. O homem se faz violento Pra não ser violentado Pois arma...