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| Crédito: Anurag Jamwal (PEXELS) |
Clemência peço, senhora,
Por não amar
Tanto quanto merece.
A flor da paixão brotou
Após semear em meu ser.
Agora já não mais cresce!
Seu coração é rosa nobre,
Em meu peito não floresce.
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| Crédito: Clayton Leite (PEXELS) |
Onde não se encontra um só acostamento
Qualquer parada é expressamente proibida.
A marcha à ré uma manobra praticamente impossível
Aqui não se permite olhar por sobre os ombros
Quem decide correr o risco de bruscas freadas
Acaba por sofrer o iminente atropelamento...
As bifurcações exigem instantâneas tomadas de decisões
Tudo se movimenta em constante velocidade
Nada consiste em obstáculo para a passagem do tempo,
Na verdade não resta tempo para mais nada.
A ação é a única forma de resposta imediata
Não há espaço para lembranças nem previsões
Somente o agora transita por esta via.
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| Crédito: Rô Acunha (PEXELS) |
Quem dera ter em minhas mãos teu rosto
Encarar os teus olhos de esmeralda
Banhada em flores como uma grinalda
De teus lábios maduros ter o gosto.
Provar o doce em tua boca de mel
Afagar teus cabelos sob o vento
Que lhe confere o terno movimento
Tornar-me teu amante mais fiel.
De joelhos jurar-te amor eterno
E não me afastar nem em pensamento
Envolver-te no abraço mais fraterno.
Olhos nos olhos mostrar meu sentimento
Entregar-me do jeito mais que terno
Pra tornar imortal este momento.
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| Foto cedida pela autora |
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| Crédito: @coldbeer |
Montei num cavalo do tipo fogoso
Queria mostrar que era grande ginete
Eu tinha treinado em um bom cavalete
Por isso me achava um peão tão garboso
Fiz pose de bravo, subindo orgulhoso
Mas mal me sentei, começou a pular
Direto pro chão conseguiu me jogar
Foi dura a tal queda e aprendi a lição
De forma que agora só faço canção
Nos dez de galope na beira do mar.
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| Crédito: Johannes Plenio (PEXELS) |
Talvez eu esqueça as juras
De amor que tu não cumpriste,
Talvez se acabem as lágrimas
De dor que tu jamais viste,
Talvez apague pra sempre
O dia em que tu partiste.
Talvez chegue enfim o dia
Que provarei liberdade,
Talvez o meu peito possa
Não mais doer de saudade,
Talvez eu veja de novo
A tal da felicidade.
Talvez certo dia possa
Tomar-te o arrependimento,
Talvez tomes consciência
De todo o meu sofrimento,
Talvez finalmente entendas
Este meu padecimento.
Talvez eu até consiga
Livrar-me desse embaraço,
Talvez ver que em sua vida
Jamais tive algum espaço,
Talvez parta para outra
Dando fim a tal cansaço.
Talvez possas enxergar
Todo o mal que me tem feito,
Talvez retorne à lembrança
Promessas de amor perfeito,
Talvez saibas de uma vez
Que sempre foi do teu jeito.
Talvez veja que a mentira
Sempre foi o teu caminho,
Talvez eu enfim aceite
Que só caminhas sozinho,
Talvez eu até desista
De implorar o teu carinho.
Talvez o cruel remorso
Para sempre te persiga,
Talvez me faça entender
Que não passei de uma amiga,
Talvez também me convença:
Foi inútil cada briga.
Talvez a vida me ensine
A caminhar solitária,
Talvez a trilha se mostre
Bem mais extraordinária,
Talvez ache na amizade
Relação mais solidária.
Talvez tu por fim descubras
O verdadeiro sentido,
Talvez tu sintas na pele
A dor de ser esquecido,
Talvez possas entender
O quanto tenho sofrido.
Talvez após a jornada
Estejas bem mais maduro,
Talvez sejas para alguém
Aquele porto seguro,
Talvez sejas uma porta
Em direção ao futuro.
Talvez seja eu a última
A quem cobriste de enganos,
Talvez não apliques mais
Os teus gestos mais insanos,
Talvez tenhas mais juízo
Após o passar dos anos.
Talvez eu encontre alguém
Que não desfaça o que fiz,
Talvez eu ainda encontre
Motivo pra ser feliz,
Talvez o elixir do tempo
Apague esta cicatriz.
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| Crédito: Mihman Duganli (PEXELS) |
Um menino faceiro acena do outro lado da janela...
Cá dentro, contento-me em apenas assistir.
Exige minha atenção por meio de insistentes braços
Não ouso sair, ele não me inspira confiança.
Além do mais, anda por caminhos incertos
E não sou afeito a aventuras.
Tranquei-as todas no baú de minha mocidade
Agora só inicio minhas jornadas na companhia do previsível...
Embora o menino persista de um jeito todo convidativo
Meu coração já não está para surpresas
A idade não permite navegar ao sabor das ondas
Ele pode oferecer-me um mundo de novidades
Prefiro continuar com os pés cravados no chão
E a linha de chegada ao alcance dos olhos.
Tudo o mais, deixo à mocidade com seus ares de ousadia...
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| Crédito: Ekaterina Belinskaya (PEXELS) |
O caminho mais curto para a fama
Os aplausos de um público que inflama
A sensação de estar em plena graça.
Mas a plateia um dia fica escassa
E a voz inflada do ego já reclama
Migalhas de sucesso ele então clama
Não basta desejar, logo fracassa.
Pois o sucesso é uma curta estrada
Da qual nunca se sabe qual o fim
Nem quando ela será interditada.
Pois um dia o fracasso chega, enfim,
E a mente que não for tão preparada
Vai passar sua vida inteira assim.
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| Crédito: Pavel Danilyuk (PEXELS) |
Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitor, todos que me acompanham nessa viagem alucinante pelo vasto universo da literatura. Seguimos desbravando os clássicos e seus criadores. Vamos deixar a tenebrosa Transilvânia e a experiência de terror que vivemos na Romênia e vamos, mais uma vez, voltar à charmosa França, para isso vamos acessar a nossa “playlist” com a canção “O vermelho e o negro” na voz de Angélica Rizzi. Enquanto isso vamos nos dirigir ao ano de 1830, chamado de Tempo da Restauração. Após nossa devida localização, vamos apresentar nosso protagonista, o jovem Julien Sorel, rapaz inteligente e bonito, que passa o tempo lendo ou envolvido no mundo dos sonhos, em vez de trabalhar com seus irmãos no ofício de carpinteiro. Mais tarde, ele vira um acólito e acaba recebendo a função de tutor dos filhos do prefeito. Ah! Julien também se mostra um rapaz ambicioso. Um dos seus artifícios para impressionar as pessoas é citar partes da bíblia que ele memorizou (hoje, na era da internet, para pousar de intelectual, as pessoas copiam e colam, não é? Ou pedem para a IA).
Julien, trabalhando como tutor na casa do prefeito, acaba se apaixonando pela esposa dele por causa da forma muito gentil com que ela o trata. Ela, uma mulher ingênua, quando se dá conta, também está apaixonada pelo jovem. Como não é difícil de imaginar, o leitor já pressupõe que vamos presenciar um caso de adultério, ação comum nesses romances, (vamos lembrar nossa Madame Bovary) e está totalmente correto. Acontece que a camareira da senhora Renal também estava apaixonada por Julien, mas foi recusada por ele. Ah, caro leitor, nunca subestime um coração desprezado, pois ele é capaz de tantas coisas (como nos casos do sombrio Heathcliff e do pobre Werther). Ao descobrir o caso dos dois, ela não teve a menor dúvida: espalhou para toda a cidade. Como se isso não bastasse, o prefeito ainda recebe uma carta anônima. Diante do escândalo, o superior de Julien retira o rapaz e o manda a um seminário em outra cidade. Logo depois de livrá-lo de perseguições, ele o recomenda ao cargo de secretário do Marquês de La Mole.
Julien, então, parte para Paris e passa a conviver com a família do marquês. Agora ele tem acesso à alta sociedade, aos ambientes cheios de pompas e pessoas de grande influência, o que, de início o vislumbra, devido à sua ambição, mas isso de nada adianta porque as pessoas ainda o veem como um mero plebeu por causa de suas origens. O jovem aprende, da forma mais dura, os mecanismos de hipocrisia da elite, os quais jamais possibilitarão que alguém capaz como ele possa ascender socialmente. Mas também se pode observar uma contradição no rapaz: ele odeia a classe alta, mas quer pertencer a ela. Certo dia, Julien é levado a uma reunião secreta e é enviado em uma perigosa missão secreta, na qual leva uma carta política a um destinatário desconhecido, mas mal sabe ele que se trata de uma conspiração, pondo em risco sua vida.
Além disso, Julien desenvolve uma paixão pela filha do marquês, a qual também começa a nutrir certo interesse por ele, mas tem suas ressalvas por ele pertencer a uma classe social inferior. Entre altos e baixos, encontros e desencontros, seduções e rejeições, Julien segue os conselhos de um conhecido russo a fim de tentar conquistar de vez o coração de Mathilde. Quando o plano enfim parece estar dando certo, ela fica grávida dele e ele acaba caindo nas graças do marquês, pronto a receber propriedade, título de nobreza e um posto no exército, o pai da moça recebe uma carta da senhora Rênal, antiga amante de Julien, denunciando como um oportunista, um rapaz que seduz mulheres ingênuas. Inconformado com isso, Julien vai À procura da ex-amante e atira nela dentro da igreja, durante a missa. A partir daí, segue-se sua prisão e condenação enquanto alguns dos amigos que fez durante todo esse tempo tentar salvar sua vida e anular sua condenação. Sua amada, Mathilde, visita-o com frequência na prisão, demonstrando não querer desistir dele; porém, para a surpresa do leitor, ele acaba se cansando disso. Isso porque, em poucos dias, ele recebe a visita de sua vítima, que escapou ao atentado e revela que ainda o ama. Ele, então, descobre, no fim das contas, que ela é seu verdadeiro amor.
Meu caro leitor, o que vai acontecer daqui para frente já não vai nos trazer surpresa alguma, até porque é a consequência previsível do que acontece com alguém não pertencente à alta sociedade (basta-nos recordar a sina de outro cidadão francês: Valjean) tantas vezes no sistema judiciário. Claro que não posso isentar Julien de sua ação homicida, pois não há como justificar o ato de tirar a vida de alguém. Não há mesmo. Lembrando que, em enredos românticos como esse, são comuns os crimes ditos passionais, nos quais a razão abandona de vez o ser humano e a paixão o torna um trem desgovernado como se diz naquela canção eternizada na voz de Orlando Silva: “O coração tem razões / Que a própria razão desconhece”. O romance também tem seu tom realista ao revelar o adultério como uma prática comum da sociedade, ignorando qualquer argumento, justificada pelo desejo de uma vida mais emocionante e a vivência do amor como uma aventura a se experimentar.
Um aspecto que não deixa de ser importante é a ambição do protagonista, que procurava ascender socialmente, acreditando que ali encontraria a felicidade que buscava. Entretanto, apesar de seus atributos como a inteligência e a beleza, sempre teve tudo isso praticamente ignorado em detrimento de sua origem humilde, não trazendo a ele a realização pessoal (mesmo drama acontecido ao personagem Eugênio no mais famoso romance de Érico Veríssimo). Outro aspecto que não podemos deixar de observar, nas duas pretendentes, a falta de amor próprio, que as leva a se humilharem diante de um homem que procurou se aproveitar delas e, inclusive, usá-las como escada social. Isso sem contar que uma delas quase foi morta por ele a tiros. Ambas o visitam na prisão sabendo da presença da outra no coração de seu amado, mesmo assim dispostas a dar-lhe seu perdão devido ao medo de ficarem sem ele para sempre, como se a felicidade delas dependesse exclusivamente dele. Entendo que, no fim das contas, faltou, a ele e a elas, uma boa dose de amor próprio para poder norteá-los em sua procura. Não é à toa que o homem mais sábio que já passou por essa terra disse-nos para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Ah, como ele sabia das coisas. Ele entendia que não pode ser possível amar alguém verdadeiramente se não amarmos a nós primeiramente. Que em nossa busca eterna pela felicidade não percamos, no meio do caminho, o amor por nós mesmos. Até a próxima.
STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016.
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| Crédito: Francesco Ungaro (PEXELS) |
Quase dei uma resposta
Pelas injúrias sofridas,
Quase questionei calúnias
Que a mim foram dirigidas,
Quase me curei da insônia
Das noites tão mal dormidas.
Quase encontrei um espaço
Pra fazer a própria história,
Quase tomei minha parte
Em um momento de glória
Quase registrei meu nome,
Nas páginas da vitória.
Quase superei os medos
Pra vencer a frustração,
Quase consegui a chave
Que abrisse meu coração,
Quase segui pela trilha
Em rumo à superação.
Quase deixei de pensar
De forma individualista,
Quase passei a agir
De uma maneira altruísta,
Quase pude concordar
Com outros pontos de vista.
Quase ofereci ajuda
Àqueles que tinham fome,
Quase parei de julgar
Alguns pelo sobrenome,
Quase chamei cada um
Pelo verdadeiro nome.
Quase protestei perante
Qualquer forma de injustiça,
Quase espantei de verdade
A sensação de preguiça,
Quase olhei pros bens alheios
Sem a mínima cobiça.
Quase estendi minha mão
Para algum irmão caído,
Quase fiz secar as lágrimas
Do próximo tão sofrido,
Quase mostrei a saída
A quem estava perdido.
Quase achei a solução
Para o problema que tinha,
Quase permiti ser nossa
A estrada que quis só minha,
Quase dei um rumo nobre
A esta vida mesquinha.
Quase deixei a ambição
Pra ser feliz de verdade,
Quase insisti em lutar
Por nova realidade,
Quase parei de mentir
Pra viver de honestidade.
Quase optei por justiça
No lugar de ter vingança,
Quase abdiquei do ódio
Para plantar esperança,
Quase abandonei o adulto
Pra voltar a ser criança.
Quase enterrei o passado
Para viver o presente,
Quase converti meu pranto
Em semblante sorridente,
Quase não mais recuei
Para enfim seguir em frente.
Quase tomei dianteira
Pra defender o mais fraco,
Quase provei que não era
Farinha do mesmo saco,
Quase trouxe o puro brilho
A este olhar tão opaco.
Quase conquistei amigos
Pra deixar de ser sozinho,
Quase busquei a grandeza
Em vez do plano mesquinho,
Quase esqueci de ser rude
Pra manifestar carinho.
Quase mudei minha rota
Pra procurar novo norte,
Quase fui por conta própria
Pra não contar com a sorte,
Quase me agarrei à vida
Para não temer a morte.
Quase protestei com força
Ao invés de me calar,
Quase continuei a marcha
Sem medo de fracassar,
Quase fui compreensivo
Sem intenção de julgar.
Quase fui até o fim
De cada projeto meu,
Quase por diversas vezes
Cheguei a ser mesmo eu.
Quase, quase, sempre quase...
Que isso tudo aconteceu.
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| Crédito: Ron Lach (PEXELS) |
A fantasia escorre-nos por entre os dedos
Enquanto a realidade cresce aos olhos.
O possível tem podadas as suas asas
O diamante torna-se pedra bruta
Na atmosfera respira-se a enxofre e carvão...
Os castelos de cristal são vulneráveis à queda,
Pisamos em ovos por entre os estilhaços
Na busca desesperada por sobreviventes.
Os gritos de socorro abafam o som da lira
Vista de perto a vida não é tão azul
Mergulhamos de cabeça no cinza profundo
Na esperança de um dia poder vir à tona.
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| Crédito: Nascimento Jr. (PEXELS) |
Desde o exato momento em que cresci
Senti saudades de quando criança
Esse tal faz-de-contas de esperança
Foi a época que feliz vivi.
Entregue a ilusões de toda a sorte
Envoltas no cristal da fantasia
Jamais pensei no dia em que veria
Meus sonhos a correr risco de morte.
Oculto o tempo passa e o corpo cresce
Pobre criança, frágil, agoniza,
E a rude adolescência já floresce
A outro, em transição, cede lugar
Completo o rito, o adulto se eterniza
A criança partiu, pra não voltar.
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| Crédito: Public Domain Pictures |
“Eu penso em coisas estranhas que não me atrevo a confessar à minha própria alma. Que Deus me proteja, se apenas pelo bem daqueles que me são caros.”
Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitora ao universo de faz-de-conta da literatura, esse que nos transporta em direção à realidade nua e crua do mundo. Agora vamos levantar voo do solo inglês, diretamente da granja onde presenciamos uma revolução para partirmos em direção à Romênia, mais precisamente à região chamada de Transilvânia. Tenho certeza de que muitos dos leitores dirão que esse nome soa-lhes familiar, o que não deixa de ser verdade e que outros ainda saberão a quem iremos visitar. Estamos recuando um pouco no tempo e voltando ao ano de 1897. Vamos acessar nossa costumeira “playlist” para ouvir a canção “Doce vampiro”, que ficou famosa na voz de nossa eterna Rita Lee.
O caro leitor deve estar se perguntando: “O que viemos fazer aqui?” E eu responderei: conhecer um dos personagens mais temidos da literatura clássica de todos os tempos, uma criatura sedenta de sangue e de almas, um ser que habita a escuridão e seus segredos. Tudo começa com a visita do advogado inglês Jonathan Harker a um conde que mora em um castelo nas montanhas dos Cárpatos. Numa primeira impressão, tanto o castelo quanto seu dono parecem bem excêntricos. O motivo da visita é auxiliar o conde em seu desejo de comprar uma casa em Londres. Ele revela-se um anfitrião de gostos bem estranhos. Mais estranho ainda é quando, antes de se retirar, avisa o hóspede de que não deve transitar pelo castelo durante a noite. Claro que o leitor já imagina que essa ordem não será cumprida, portanto, o advogado circula pelos corredores e dá de cara com três mulheres que, na verdade, são vampiras. Isso mesmo. Ele é salvo pelo seu anfitrião em um primeiro momento, porém, depois, é deixado à própria sorte pelo mesmo. Harker acaba escapando do castelo e, ao acordar em um hospital, entende o plano de Drácula: levar o seu mal até a Inglaterra.
Meu caro leitor, essa narrativa segue um ritmo bem diferente das demais por ser contada por meio de cartas, página de um diário e anotações pessoais, fazendo diversas idas e voltas. Na Inglaterra, após o “desaparecimento” de Harker, sua noiva Mina e amigos veem-se cercados por estranhos fatos, especialmente Lucy que, de repente, torna-se sonâmbula e começa a desenvolver hábitos misteriosos. É a partir daí, que entra na história o personagem Van Helsing, um professor que tem estudado casos como o de Lucy e que, obviamente, sabe muito mais do que aquilo que revela aos amigos. Por meio de alguns testes básicos e um tanto incomuns aos demais, ele descobre o mal que a acomete. Tudo está ligado ao vampiro que já está em solo inglês.
Deste ponto em diante, munidos de todas as informações possíveis, o romance se torna uma caça ao vampiro por toda a Inglaterra. Suas propriedades são descobertas e os caixões usados para seu repouso mais que necessário começam a ser destruídos e inutilizados. Começa aquela velha luta maniqueísta do bem contra o mal, seguindo nesse clima até o desfecho do romance, que será levado de volta para a terra da criatura maléfica. Ainda no terreno da ficção, embora muitos pensem ser esse o primeiro texto literário a utilizar a figura do vampiro, essa não é a verdade, contudo, esse romance servirá de base para uma infinidade de obras escritas e visuais sobre o tema, criando uma nova tradição na cultura gótica. Quantos escritores e cineastas não surfaram nessa onda? No mundo da literatura, podemos citar a famosa Anne Rice (Entrevista com o vampiro, 1976; O vampiro Lestat, 1985; entre outros) e nosso conterrâneo André Vianco (Os sete, 1999; Bento, 2003; entre outros). No mundo do cinema, o icônico Francis Ford Coppola (Drácula de Bram Stoker, 1992) responsável pela romantização do vampiro na cultura pop, e Nosferatu (1922) pérola do cinema expressionista alemão, sem contar as dezenas de versões de vampiros espalhadas ao longo dos anos. Mas, agora, os leitores e leitoras deste blog devem estar se perguntando: onde está o vínculo com a realidade nisso tudo? Vamos ao trabalho!
Existem fortes indícios de que a personagem teve como base um homem de carne e osso: Vlad Dracul, que ficou conhecido como Vlad, o empalador (reservo-me ao direito de não explicar aqui o significado de tal adjetivo, deixando tal descoberta a cargo da curiosidade do leitor); um homem que exerceu seu reinado por meio do terror, de punições absurdas e que conteve o avanço de conquistadores estrangeiros sobre a Romênia, considerado por isso, um herói nacional. Muitas de suas ações pitorescas e surreais deram origens às lendas mais bizarras possíveis, como se pode observar nos filmes “Príncipe das Trevas – A verdadeira história de Drácula” do diretor Joe Chappelle (2000); e “Drácula: A história nunca contada” do diretor Craig Shore (2014). Mas não paramos por aí. Não mesmo, caro leitor. Há uma serie de discussões a respeito das referências que a obra de Stoker possa ter feito como, por exemplo, a questão de Drácula representar a visão do inglês a respeito do estrangeiro, mesmo sendo esse também europeu, dando alguns indícios de como os ingleses viam os imigrantes, em especial aqueles do leste europeu, ridicularizando suas origens, crendices e superstições, tratando-os como um povo à parte, como exemplificado em uma frase do livro: “Mas um estranho em uma terra estranha, ele não é ninguém. As pessoas não o conhecem e não conhecer é não se importar.” Aí entra em campo a superioridade britânica representada nos heróis que salvarão o mundo do mal anunciado, originário de terras estrangeiras, aproveitando para ligar o conde Drácula ao povo cigano, é claro. Menções aos judeus também são encontradas no livro reforçando esse preconceito, pois, afinal de contas, qual o poder tão temido de Drácula? Ao sugar o sangue das pessoas, ele pode transformar sua vítima em alguém como ele, da raça dele.
Cabe também lembrar ao leitor que da palavra vampiro surgiu o termo “vampirismo” que possui diversos aspectos, entre eles, um que está muito em voga e o qual desejo destacar aqui: o que descreve as pessoas que acabam por levar as outras à exaustão emocional por meio de tantas queixas, vitimizações, focando sempre em questões negativas, chegando a levar o outro a um desânimo absurdo que antes não possuía. Ah, meu caro leitor, o que não falta neste mundo são pessoas dispostas a torcer pelo nosso fracasso, aquelas que nem bem você esboça um plano, e elas já apresentam mil e um motivos para que você desista de seu sonho, as quais estão sempre dispostas a dizer que seu esforço não vale a pena e que deve deixar tudo como está. Sim, estes são os verdadeiros vampiros modernos, aqueles temerosos de abandonar sua zona de conforto e que buscam desencorajar também aos demais. Jamais se deixe abater nem se contagiar por essa energia. Siga a luz do sol e percorra o caminho que desejar. Até a próxima.
STOKER, Bram. Drácula. São Paulo: Excelsior, 2020.
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| Foto cedida pelo autor |
Hoje, o nosso blog tem o prazer e a satisfação de receber o escritor Ronnaldo de Andrade. Vamos conhecê-lo um pouco:
Ronnaldo de Andrade nasceu na cidade Santa Maria do Cambucá, PE. No ano de 1997 chegou a São Paulo, onde reside ainda hoje. Tem uma filha, Brenda Lyn, é licenciado em Letras, contramestre de capoeira, revisor certificado pela Universidade do Livro; professor em escolas estaduais na capital paulista, tem livros de poesias e cordéis publicados, participação de diversas antologias poéticas. Sua obra mais recente é Laudelina de Campos Melo (mulher negra e empregada doméstica que criou o 1º Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Brasil), Editora Anita Garibaldi, 2024. É o criador da forma poética brasileira SPINA; organizou seis antologias nacionais do gênero, editou alguns livros de SPINAS de autores independentes, entre eles se encontra Reflexos da Alma (Editorial SPINA, 2025), que concorreu ao Prêmio Jabuti 2026. Para quem quiser saber mais e acompanhar seu trabalho: Ronnaldo de Andrade (Facebook), @ronnaldodeandradespina (Instagram)
Seja bem-vindo, Ronnaldo de Andrade, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário.
Agradeço, com muita satisfação, o convite e a acolhida, prezado Márcio Fabiano. É uma honra participar do quadro de entrevistas do Cosmo Literário e ter a oportunidade de compartilhar um pouco do meu trabalho literário. Espero que esta conversa seja proveitosa e desperte o interesse dos leitores.
Ronnaldo, você é graduado em letras, o que já demonstra uma ligação maior e mais intensa com a leitura e a escrita. Todas as atividades que você exerce hoje estão relacionadas a essa sua formação? Fale-nos um pouco sobre elas.
Todas as atividades que desenvolvo estão diretamente ligadas à minha formação em Letras. Curiosamente, meu primeiro interesse não foi a poesia. Eu queria ser compositor. Um amigo chegou a gravar três letras de minha autoria. Naquela época, eu não gostava de poesia. Para mim, era algo muito delicado, quase uma coisa de mulher (risos). Essa visão começou a mudar quando uma professora de Língua Portuguesa, Edete, pediu que os alunos levassem textos para que ela os corrigisse, sem compromisso. Resolvi mostrar algumas das minhas letras. Depois de lê-las, ela disse que aquilo era poesia. A partir desse dia, passou a me chamar de poeta, e confesso que isso me incomodava. Com o tempo, porém, fui compreendendo melhor o que significava ser poeta, ou, pelo menos, construindo o meu próprio entendimento sobre quem escreve poesia. A partir daí, deixei de rejeitar essa definição. Outro professor de Língua Portuguesa, Cláudio, também teve um papel importante na minha formação. Foi ele quem ampliou meu contato com grandes autores e despertou em mim um interesse mais profundo pela poesia, pelas formas poéticas e pelo fazer literário. Embora eu gostasse muito de matemática e tivesse nela minhas melhores notas, a influência desses dois professores foi decisiva para que eu escolhesse cursar Letras. Enfim, a leitura, a escrita e a pesquisa são a base de tudo o que faço. É na poesia que concentro meus maiores esforços, seja escrevendo, estudando algumas formas de composição ou organizando projetos editoriais. Acredito que a literatura transforma as pessoas e, por isso, procuro contribuir para que ela alcance cada vez mais leitores. Hoje atuo como poeta, pesquisador das formas poéticas e da criação literária, além de organizar antologias dedicadas à SPINA, forma poética que criei em 10 de dezembro de 2019.
Embora ligadas às letras, são atividades bem distintas entre si e que exigem muita dedicação. Visto que há muitas pessoas que alegam ter tantas boas ideias para colocar no papel, mas que lhes falta tempo para executar, como você faz para conciliar tantas obrigações e ainda encontrar um tempo para escrever?
Não acredito que seja apenas uma questão de tempo, mas de prioridade. Escrever faz parte de minha rotina, não uma atividade eventual nem uma obrigação. É um prazer que sinto. Escrever por obrigação, assim como ler, tira a satisfação de fazê-lo. Confesso que sou bem desorganizado com os meus textos e com o meu tempo, os momentos para leitura e escrita. Não produzo na quantidade que gostaria, mas mantenho a constância porque é satisfatório.
Pode-se observar, pela produção de suas obras, que você transita por mais de um gênero literário. O que o levou a escrever diferentes tipos? O que mais te chamou a atenção em cada um deles?
O que me levou a transitar por diferentes formas poéticas foi, acima de tudo, a curiosidade de compreender como cada uma delas é construída. Sempre me interessou conhecer sua estrutura, suas possibilidades expressivas e os desafios que propõe ao escritor. Meu primeiro contato com a poesia foi pelo cordel. Guardo a lembrança de minha mãe lendo para mim e para meu padrasto O Castelo Mal-Assombrado. Foi ali que nasceu meu interesse pela poesia. Ao longo da minha formação, alguns autores marcaram profundamente meu percurso. Eno Teodoro Wanke despertou meu interesse pela trova; Guilherme de Almeida, pelo haicai; Olavo Bilac, pelo soneto. Manuel Bandeira me revelou outra maneira de fazer poesia, mais livre e profundamente melancólica. Também sou um grande admirador de J. G. de Araújo Jorge, de quem possuo mais de trinta obras. Na universidade, conheci autores como Alfredo Bosi e, principalmente, Segismundo Spina. Foram os livros de Spina, especialmente Na Madrugada das Formas Poéticas e Manual de Versificação Românica Medieval, que despertaram em mim um interesse ainda maior pelo estudo do fazer poético e das formas de composição.
Como não bastasse escrever mais de um gênero literário, você ainda acabou criando um novo gênero poético: a Spina. Conte-nos como surgiu essa ideia de criar uma nova forma de poesia. Você se inspirou em alguma forma específica? Como se deu esse processo de elaboração das regras, já que se trata de uma forma fixa? E como foi a sua aceitação por outros poetas?
O poema SPINA nasceu do meu interesse pelo estudo das formas poéticas. Durante muitos anos procurei compreender como elas eram construídas, quais eram suas regras e de que maneira conciliavam técnica e expressão. A leitura de Manual de Versificação Românica Medieval, de Segismundo Spina, aumentou ainda mais essa inquietação. Percebi que praticamente todas as formas clássicas cultivadas no Brasil vieram de outros países e passei a me perguntar se seria possível criar um poema com uma estrutura genuinamente brasileira. Sua elaboração foi lenta. Cada regra foi pensada a partir da própria língua portuguesa, não apenas como recurso estético, mas também como instrumento de valorização e ensino da língua, incorporando aspectos da gramática contextualizada. A quantidade de palavras substituiu a obrigatoriedade da métrica regular, sem abrir mão do rigor formal. Eu também queria uma estrutura estrófica que se diferenciasse das já existentes. Por isso, a organização em duas estrofes — a primeira com três versos de três palavras e a segunda com cinco versos de cinco palavras — foi construída com base na numerologia da minha data de nascimento. Minha intenção era que as regras do poema SPINA levassem o autor a refletir sobre a própria escrita e sobre o uso da palavra. Queria que a composição exigisse escolhas conscientes, tirasse o poeta de sua zona de conforto e o levasse a pensar não apenas no conteúdo, mas também na forma, na arte e na estética do poema. A recepção tem sido muito positiva. Em quase sete anos de existência, já foram publicados mais de duas dezenas de livros de autores solo escritos nessa forma, alguns viabilizados pela Lei de Incentivo à Cultura e outros premiados em concursos literários. O mais recente, Reflexos da Alma, da psicóloga e poetisa Rejane Nascimento, natural da cidade do saudoso Ziraldo, foi publicado pelo Selo Editorial SPINA, do qual sou editor. A obra é resultado de um trabalho conjunto que desenvolvemos ao longo de quase um ano e, atualmente, concorre ao Prêmio Oceanos de Literatura e ao Prêmio Jabuti 2026. Independentemente do resultado, o fato de um livro escrito no gênero SPINA estar concorrendo a duas das mais importantes premiações literárias do país já representa um reconhecimento da qualidade da obra e do amadurecimento desse gênero poético.
Nessa era digital, em que alguns escritores buscam curtidas, engajamentos, visualizações e tantas outras ações; outros buscam vencer prêmios literários, qual seria a grande realização de um escritor para você, o que o levaria ao seu máximo grau de satisfação em relação a isso?
No momento, penso que essa resposta depende muito da fase em que o escritor se encontra. Para quem ainda não tem fama nem uma carreira consolidada, como é o caso da maioria dos autores brasileiros, a maior realização é encontrar uma editora que realmente acredite em seu trabalho e tenha condições de publicar, divulgar e distribuir seus livros. Escrever é apenas parte do processo; fazer a obra chegar aos leitores costuma ser o maior desafio. A experiência mostra que popularidade nas redes sociais nem sempre se converte em leitores. Conheço autores com milhares de seguidores e publicações que recebem centenas de curtidas, mas que, mesmo assim, não conseguiram vender cem exemplares de um livro ao longo de um ano, ou até mais. A visibilidade é importante e pode despertar interesse, mas não substitui um trabalho editorial sério, capaz de fazer o livro chegar ao público e permanecer em circulação. Os prêmios literários também têm seu valor, mas acredito que eles sejam consequência de um trabalho consistente. Para mim, a maior satisfação continua sendo saber que o livro encontrou seus leitores e segue vivo por meio deles.
Entre sua produção literária estão os folhetos de cordel. Sua apreciação por esse gênero tem alguma relação específica? Visto que, diferente de outros gêneros poéticos, o cordel é de natureza narrativa, você possui algum projeto em mente para a criação de novos folhetos?
Meu interesse pelo cordel tem uma relação muito afetiva. Foi por meio dele que tive meu primeiro contato com a poesia. Ouvir minha lendo cordel despertou minha curiosidade e marcou o início da minha relação com a literatura de certa forma. Mesmo sem saber o seu poder e sua importância. Além dessa lembrança, vejo o cordel como uma das mais importantes manifestações da literatura brasileira. É um gênero que preserva a oralidade, registra acontecimentos, divulga a história, aproxima o povo da leitura e democratiza o acesso à literatura. Sua força está justamente em conseguir unir narrativa, poesia, musicalidade e memória cultural em uma linguagem acessível, sem abrir mão da qualidade literária. Talvez por isso o cordel continue vivo e conquistando leitores de diferentes gerações. Embora eu publique pouco nesse gênero, tenho uma quantidade significativa de cordéis já escritos. No momento, desenvolvo dois projetos de maior fôlego, ambos voltados para a biografia e o contexto histórico-religioso. Além deles, possuo trabalhos dedicados a outras temáticas, entre elas o cordel voltado ao público infantil e outros projetos que ainda aguardam o momento oportuno para serem publicados. São obras que exigem pesquisa, planejamento e revisão cuidadosa, por isso prefiro publicá-las no tempo certo, sem abrir mão da qualidade.
Como estudante de Letras e depois, ao longo de sua vida, você deve ter feito diversas leituras, conhecendo muitos autores e obras. Houve, entre todas essas leituras, alguma que tenha influenciado seu estilo de escrita?
São muitos, porque acredito que nenhum escritor se forma a partir de uma única leitura. Nossa escrita vai sendo construída aos poucos, pelo contato com autores de diferentes épocas, estilos e concepções de literatura. Na poesia clássica, cito mais uma vez Olavo Bilac, pela estética, pelo domínio da língua e pelo refinamento da linguagem poética. No cordel, admiro muito a escrita de Manoel d'Almeida Filho, pela técnica, pela formalidade e pelo cuidado com a construção dos versos. Na prosa, uma influência importante foi o escritor, jornalista e biógrafo Fernando Jorge, que prefaciou meu primeiro livro, Na Casa do Sertanejo (2014). Sua escrita me chamou a atenção desde a leitura de suas biografias sobre Santos Dumont, Olavo Bilac e Getúlio Vargas. Também gosto muito de seu único romance, O Grande Líder, uma obra que continua bastante atual pela crítica bem-humorada que faz ao universo da política. Esses são apenas alguns nomes. Poderia citar muitos outros, porque acredito que toda leitura deixa sua marca e, de alguma forma, aliada à visão de mundo de quem escreve, contribui para sua formação literária e humana.
Entre suas publicações, o mais recente lançamento é o título “Laudelina Campos de Melo”. Conte-nos um pouco sobre o gênero e a temática dessa obra e de onde veio a inspiração para escrevê-la.
Laudelina Campos de Melo (2024) é um cordel biográfico que nasceu de uma motivação muito pessoal. Sou filho de uma mulher negra que trabalhou como empregada doméstica durante muitos anos. Por isso, a história de Laudelina sempre me sensibilizou e despertou em mim um profundo respeito por sua luta em defesa da categoria. Em um primeiro momento, sugeri a um poeta cordelista que escrevesse uma obra sobre ela. O tempo passou e, cerca de um ano depois, enquanto procurava um arquivo em meu e-mail, encontrei a mensagem que havia enviado. Como nunca obtive resposta, decidi que eu mesmo escreveria o cordel. A partir daí, iniciei uma pesquisa cuidadosa sobre sua vida, sua atuação e sua importância para a história do Brasil. Mais tarde, por intermédio do poeta João Gomes de Sá, fui apresentado a Cláudio, editor da Anita Garibaldi. Em uma de nossas conversas, falei sobre o cordel e ele prontamente aceitou publicá-lo. Posteriormente, realizamos outro trabalho de que muito me orgulho: a antologia de poemas SPINA Sementes na Ribalta (2025). Considero que ambas as obras refletem um cuidado especial, tanto na qualidade literária quanto no projeto editorial. Aproveito para registrar meu sincero agradecimento ao Cláudio e ao seu sócio, Laércio, responsável pela Livraria Anita Garibaldi, pela confiança depositada em meu trabalho. Essas duas obras encontraram uma casa editorial e nela permanecem disponíveis aos leitores.
Olhando para sua carreira, desde o início até o momento em que se encontra, falta algum projeto específico para ser realizado?
Sinceramente, fiz muito pouco desde que comecei a escrever. No início, a literatura era mais um passatempo, uma curiosidade, algo que fazia pelo prazer de aprender. Foi somente nos últimos sete anos que passei a me dedicar de maneira mais intensa e profissional à escrita, embora ainda esteja longe de me considerar um poeta profissional. Não pertenço a grupos, coletivos ou agremiações literárias, com exceção do movimento em torno do poema SPINA. Transito por muitos desses espaços, participo de eventos e acompanho o trabalho de diversos escritores. Entretanto, raramente sou convidado para integrar mesas, recitais ou outras atividades. Talvez minha escrita, especialmente a de cordel, não desperte o interesse de alguns organizadores. Faz parte. Nunca escrevi para agradar grupos ou seguir tendências, e isso não altera o caminho que escolhi. Percebo que, muitas vezes, uma obra é avaliada apenas pelo gosto pessoal de quem a lê. Se ela não agrada, acaba sendo deixada de lado, como se não tivesse valor. Penso diferente. O fato de um livro não me agradar não significa que ele seja ruim; significa apenas que não corresponde ao meu gosto. Sempre que posso, procuro abrir espaço para outros escritores, divulgar seus trabalhos e criar oportunidades para que sejam conhecidos. Infelizmente, essa postura ainda não é tão comum no meio literário. Também não vivo da literatura, nem dependo financeiramente dela, embora confesse que gostaria (risos). Escrevo porque acredito no valor daquilo que faço e porque ainda tenho muitos projetos a realizar. Quero publicar obras que já estão prontas, desenvolver novas pesquisas sobre as formas poéticas, ampliar o trabalho com o poema SPINA e com o cordel. Atualmente, estou reescrevendo meu primeiro romance. Trata-se da adaptação de um cordel inédito que comecei a escrever em maio de 2019. O projeto ficou interrompido por algum tempo, em razão de outros compromissos e da falta de fôlego para desenvolvê-lo. Agora o retomei e falta apenas concluir sua versão definitiva. É um projeto que realizo, acima de tudo, por satisfação pessoal, mas também porque o romance nos oferece possibilidades que o cordel, por sua própria natureza, não permite. Ele nos dá mais espaço para aprofundar personagens, desenvolver conflitos, explorar aspectos psicológicos e construir a narrativa com maior liberdade. Acredito que a literatura é uma construção permanente. Sempre haverá um novo livro para ser escrito, uma pesquisa para aprofundada e um desafio a enfrentar. Enquanto tiver disposição para aprender e criar, sentirei que ainda há muito a fazer.
Ronnaldo, foi uma grande satisfação ter você aqui conosco e conhecer um pouco mais do seu trabalho. Agradecemos a sua atenção e a sua gentileza para esse bate-papo. Desejamos a você um longo caminho de realizações e conquistas.
Eu é que agradeço pelo convite e pela oportunidade de falar um pouco sobre minha trajetória e meu trabalho. Foi uma satisfação participar desta entrevista. Parabenizo o Cosmo Literário pelo espaço que dedica à literatura e aos escritores. Iniciativas como essa contribuem para ampliar o diálogo entre autores e leitores, fortalecendo a produção literária e incentivando a circulação de novas ideias. Desejo vida longa ao Cosmo Literário e ao excelente trabalho que você vem realizando em prol da literatura. Que seus projetos continuem abrindo espaço para escritores, formando novos leitores e contribuindo, por muitos anos, para o fortalecimento da literatura brasileira.
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| Crédito: Stephen Leonardi (PEXELS) |
Procura evitar qualquer tipo de vício,
Que em toda pessoa à ruína ele visa:
Ferindo, humilhando, depois escraviza,
Exige do homem cruel sacrifício.
Obriga a passar o mais torpe suplício
Sem ter liberdade, só vai entregar
A alma, talvez, pra não mais retomar.
Sair é bem fácil? Pois não pense assim.
A esta prisão é preciso dar fim
Nos dez de galope na beira do mar.
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| Crédito: Fernando Capetillo (PEXELS) |
Sempre pedi com licença
Em toda situação
Sempre pedi por desculpas
Por qualquer malcriação
Sempre falei obrigado
Demonstrando gratidão.
Sempre tratei com respeito
Cada senhor e senhora
Sempre despertei mais cedo
Pra evitar perder a hora
Sempre despedi de todos
No momento de ir embora.
Sempre busquei ajudar
Enquanto falavam mal
Sempre tratei cada um
De maneira especial
Sempre aceitei meus limites
Da forma mais natural.
Sempre pensei na mentira
Como pura falsidade
Sempre disse aos quatro ventos
Nada mais do que a verdade
Sempre achei que pra ser homem
Tem que ter honestidade.
Sempre busquei conversar
Pra resolver um problema
Sempre pensei sabiamente
Para sair de um dilema
Sempre me informei bastante
Antes de tratar de um tema.
Sempre tive muita fé
Para seguir meu caminho
Sempre combati o ódio
Com palavras de carinho
Sempre encontrei numa flor
O perfume além do espinho.
Sempre soube respeitar
Um outro ponto de vista
Sempre olhei para esta vida
Da forma mais otimista
Sempre soube agradecer
Depois de cada conquista.
Sempre busquei por perdão
Após cometer pecado
Sempre agi com tal cautela
Ao ser muito bajulado
Sempre achei não valer nada
Um homem que foi comprado.
Sempre chamei de covarde
Quem abusa do menor
Sempre procurei no mundo
Um propósito maior
Sempre achei que todo mundo
Tem chance de ser melhor.
Sempre procurei lá fora
Um gostinho de aventura
Sempre fui beber nas fontes
De onde jorrava a cultura
Sempre fiz minhas viagens
Pelo mundo da leitura.
Sempre adormeci mais tarde
Para paquerar a lua
Sempre olhei para os dois lados
Para atravessar a rua
Sempre gostei de saber
A verdade nua e crua.
Sempre honrei a pai e mãe
Como filho obediente
Sempre guardei cada filho
Em meu coração e mente
Sempre segui minha trilha
Valorizando o presente.
Sempre enxerguei minha vida
Como um presente divino
Sempre mantive no rosto
Um sorriso de menino
Sempre enfrentei o perigo
Sem o menor desatino.
Sempre entendi a existência
Como eterna aprendizagem
Sempre fiz de cada sonho
Uma empolgante viagem
Sempre prossegui em frente
Pedindo à vida passagem.
Sempre guardei cada pedra
Para erguer o meu castelo
Sempre olhei na natureza
Aquilo que há de mais belo
Sempre busquei dar valor
Ao que vi de mais singelo.
Sempre em busca do melhor
Do que o mundo ofereceu
Sempre às custas de mim mesmo
Foi assim que aconteceu
Sempre, sempre, mais que sempre
A vida me concedeu.
S
Crédito: Anurag Jamwal (PEXELS) Clemência peço, senhora, Por não amar Tanto quanto merece. A flor da paixão brotou Após semear em meu ser....