Minha lista de blogs

sexta-feira, 31 de julho de 2026

SEMPRE

Crédito: Fernando Capetillo (PEXELS)

 

Sempre pedi com licença

Em toda situação

Sempre pedi por desculpas

Por qualquer malcriação

Sempre falei obrigado

Demonstrando gratidão.


Sempre tratei com respeito

Cada senhor e senhora

Sempre despertei mais cedo

Pra evitar perder a hora

Sempre despedi de todos

No momento de ir embora.


Sempre busquei ajudar

Enquanto falavam mal

Sempre tratei cada um

De maneira especial

Sempre aceitei meus limites

Da forma mais natural.


Sempre pensei na mentira

Como pura falsidade

Sempre disse aos quatro ventos

Nada mais do que a verdade

Sempre achei que pra ser homem

Tem que ter honestidade.


Sempre busquei conversar

Pra resolver um problema

Sempre pensei sabiamente

Para sair de um dilema

Sempre me informei bastante

Antes de tratar de um tema.


Sempre tive muita fé

Para seguir meu caminho

Sempre combati o ódio

Com palavras de carinho

Sempre encontrei numa flor

O perfume além do espinho.


Sempre soube respeitar

Um outro ponto de vista

Sempre olhei para esta vida

Da forma mais otimista

Sempre soube agradecer

Depois de cada conquista.


Sempre busquei por perdão

Após cometer pecado

Sempre agi com tal cautela

Ao ser muito bajulado

Sempre achei não valer nada

Um homem que foi comprado.


Sempre chamei de covarde

Quem abusa do menor

Sempre procurei no mundo

Um propósito maior

Sempre achei que todo mundo

Tem chance de ser melhor.


Sempre procurei lá fora

Um gostinho de aventura

Sempre fui beber nas fontes

De onde jorrava a cultura

Sempre fiz minhas viagens

Pelo mundo da leitura.


Sempre adormeci mais tarde

Para paquerar a lua

Sempre olhei para os dois lados

Para atravessar a rua

Sempre gostei de saber

A verdade nua e crua.


Sempre honrei a pai e mãe

Como filho obediente

Sempre guardei cada filho

Em meu coração e mente

Sempre segui minha trilha

Valorizando o presente.


Sempre enxerguei minha vida

Como um presente divino

Sempre mantive no rosto

Um sorriso de menino

Sempre enfrentei o perigo

Sem o menor desatino.


Sempre entendi a existência

Como eterna aprendizagem

Sempre fiz de cada sonho

Uma empolgante viagem

Sempre prossegui em frente

Pedindo à vida passagem.


Sempre guardei cada pedra

Para erguer o meu castelo

Sempre olhei na natureza

Aquilo que há de mais belo

Sempre busquei dar valor

Ao que vi de mais singelo.


Sempre em busca do melhor

Do que o mundo ofereceu

Sempre às custas de mim mesmo

Foi assim que aconteceu

Sempre, sempre, mais que sempre

A vida me concedeu. 


S

quinta-feira, 30 de julho de 2026

FINAL

Crédito: Aysegul Aytoren (PEXELS)

 

Preciso entender agora

Não há tempo

Tudo está acabado


O conto de fadas acabou

Sem espaço para final feliz

Nosso castelo de areia desmoronado

Levanto em meio aos escombros

Nenhum sinal do príncipe encantado.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

REPOUSO

Crédito: Guo Fengrui (PEXELS)


Faz-se noite nos centros urbanos...

Dorme a cidade envolta num manto salpicado de estrelas

O vento ensaia uma canção de ninar 

O luar lança uma tênue luz de abajur

O silêncio apodera-se do gigante adormecido...

Um descanso longe dos agitos noturnos

Tudo respira o mais absoluto silêncio.

Sorrateiros felinos são responsáveis pelo único movimento

Corujas agourentas assombram alguns sonhos

Vigias ressonam no entorpecente ar das madrugadas

A urbe repousa em estado vegetativo

O sono assistido por astros vigilantes

Na expectativa pelo momento de despertar.


terça-feira, 28 de julho de 2026

METAMORFOSE

Crédito: Tom Van Dick (PEXELS)


Traz para perto o corpo já distante

Enche de beijos tal boca vazia

Causa, no triste rosto, a alegria

Reduz a espera eterna a um instante.


Faz correr sangue quente em frias mãos 

Inunda de certeza o mar da dúvida

Remete em mente louca uma alma lúcida

Sensibiliza o que só tem razão.


Paciência onde há inquietude

Reverte todo o rancor em perdão 

Encontra, no defeito, uma virtude.


Leva às alturas quem tem pés no chão 

Com as lágrimas lava o peito rude

Faz do drama da vida uma canção.


sábado, 25 de julho de 2026

O TREM DESSA VIDA É VELOZ POR DEMAIS

Crédito: Dongjie Chen

 

O trem dessa vida é veloz por demais.
Prossegue bem firme no rumo constante,
Bem lento ou ligeiro só segue adiante.
Não para ou espera, recua jamais
Nem peca por menos tampouco por mais.
Só pensa em partir ou então regressar,
Sequer adianta ou pretende atrasar.
De sua cabine comanda o destino:
Pra uns, ser humano; pra outros, divino,
Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

NUNCA

Crédito: Raphael Brasileiro (PEXELS)

 

Nunca abri mão do direito

De um dia, enfim, ser feliz.

Nunca passei por um mal

Que não deixou cicatriz.

Nunca cometi um erro

Do qual não fosse aprendiz.


Nunca admiti amostras

Do mínimo preconceito.

Nunca deixei de mostrar

Por alguém o meu respeito.

Nunca gostei de fazer

As coisas só do meu jeito.


Nunca desisti dos sonhos

Nem mesmo por um momento.

Nunca escondi de ninguém

O meu real sentimento.

Nunca sequer duvidei

Da força do pensamento.


Nunca conquistei sucesso

Às custas de um outro alguém.

Nunca desejei o mal

A quem não me fez o bem.

Nunca tomei um partido

Somente porque convém.


Nunca quis ganhar no grito

Em nenhuma discussão.

Nunca permiti que o impulso

Calasse a voz da razão.

Nunca concedi ao ódio

Tomar o meu coração.


Nunca aceitei que o errado

Fosse visto como certo.

Nunca mantive distante

Quem me queria por perto.

Nunca ocultei de ninguém

Se era pra ser descoberto.


Nunca desrespeitei regras

Para a boa convivência.

Nunca parei de colher

O fruto da paciência.

Nunca tapei os ouvidos

Para a voz da consciência.


Nunca achei graça nenhuma

Ao ver a miséria alheia.

Nunca deixei seduzir-me

Pelo canto da sereia.

Nunca me expus à aranha

Pra me enredar em tal teia.


Nunca me achei o melhor,

Buscando sempre aprender.

Nunca desprezei a chance

De adquirir mais saber.

Nunca julguei as pessoas

Pelo que ostentavam ter.


Nunca evitei enxergar

A cruel realidade.

Nunca adotei a estratégia

De esconder-me da verdade.

Nunca achei ser algo ingênuo

Falar com sinceridade.


Nunca chamei de covardes

Aqueles que não revidam.

Nunca vi por corajosos

Os sujeitos que intimidam.

Nunca deixei sem respostas

A todos que me convidam.


Nunca abandonei à sorte

Qualquer um dos meus amigos.

Nunca assumi aventuras

Sem cogitar os perigos.

Nunca neguei a ninguém

Os meus braços como abrigos.


Nunca me cansei de crer

Em um futuro brilhante.

Nunca imaginei meu sonho

Uma coisa tão distante.

Nunca recuei meus passos

Em vez de ir adiante.


Nunca falei por impulso

Pra depois se arrepender.

Nunca julguei de antemão

Bem antes de conhecer.

Nunca disse só de ouvir

Pra só depois poder ver.


Nunca falei juramentos

Que não pudesse cumprir.

Nunca entrei em uma luta

Da qual quisesse fugir.

Nunca vi monte tão alto

Que não pudesse subir.


Nunca sofri uma queda

De que o corpo não se ergueu.

Nunca houve uma lição

Que a mente não aprendeu.

Nunca, nunca, sempre nunca.

Assim que se sucedeu.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

SEM COMPASSO

Crédito: Rakicevic Nenad (PEXELS)

 

Coração bate sozinho

Solitário sem compasso

Lamentando alguém distante


Saudade fez morada para sempre

Solidão não vai mais embora

Agora será sua única amante

Felicidade não mais que recordação

Paixão que outrora foi contagiante.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

MEMÓRIAS

Crédito: Adnan Kale (PEXELS)

 

Verão, novo tempo de saudades...

O coração parece bater com mais entusiasmo...

Visito lugares e velhos conhecidos.

Reencontro os sinais de um grande amor.

A memória repleta de lindos momentos

Como feitos de uma natureza recente...


Ainda persiste em meus lábios

O gosto doce dos teus beijos,

O vento traz o teu perfume,

Os ouvidos ainda reconhecem a tua voz.


Tudo é motivo para recordações 

Nada é capaz de esquecimento.

Os dias passam lentamente

Mas tua lembrança permanece

Para sempre comigo, mesmo que distante.


terça-feira, 21 de julho de 2026

A PERFEITA CRIAÇÃO

Crédito: KoolShooters (PEXELS)


Procura por palavra tão dileta,

Busca o seu exato significado.

Almeja o verso limpo e trabalhado,

Vê nessa estrofe tal forma correta.


Investiga a tal fórmula secreta,

Dos gênios artesãos raro legado.

Idolatra o vocábulo sagrado,

Adoração eterna do poeta.


Entrega-te à mais pura criação, 

Alma e coração num trabalho sério.

Escuta no silêncio a inspiração.


Captura o perseguido e cru mistério,

Verbaliza no plano a emoção, 

De uma palavra breve ao verso etéreo.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

O ANIMAL QUE EXPLORA A PRÓPRIA ESPÉCIE

Crédito: Carl Glover (FLICKR)


 “Todos os hábitos do homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais. ”

Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem por esse universo sem limites que é a literatura. Hoje vamos seguir viagem, despedindo-nos, mais uma vez, da romântica França, deixando para trás todo aquele gosto acre de vingança que nos resta e vamos decolar novamente em direção ao solo inglês. Porém, desta vez, nosso destino será uma fazenda. Isso mesmo que vocês ouviram, passaremos a respirar novos ares agora. Para tal viagem, vamos acionar a nossa “playlist” com a música “Bicharia” de autoria de Chico Buarque que faz parte do álbum “Saltimbancos” (1977) e vem bem a calhar com nosso enredo. Tudo se passa por volta do ano de 1945 (demos mais um pulo no tempo), em um local chamado Granja do Solar, uma fazenda onde diversas espécies de animais vivem sob a exploração de um fazendeiro que atende pelo nome de Sr. Jones. Cansados dos maus tratos e do trabalho pesado, os animais, inspirados pelo discurso de um dos porcos da fazenda, de nome Major, que diz ter sonhado com uma fazenda em que os animais viviam livres e felizes, sem a tirania do homem (e considerava absurdo eles serem governados por alguém que nada produzia), acabam fazendo uma rebelião logo após terem ficado um dia inteiro sem receber comida por causa de seu dono ter passado a noite bebido e ter ficado embriagado, assim, eles acabam expulsando o fazendeiro e assumindo o controle definitivo da granja, que passa a se chamar Granja dos bichos.

Logo após a divulgação de suas ideias, Major acaba morrendo e dois porcos assumem a liderança do movimento: Bola-de-Neve e Napoleão (que possuem formas bem distintas de exercer a liderança), criadores dos princípios filosóficos que vão reger a vida dos animais dali por diante, o Animalismo, que promete ideais de justiça e igualdade entre todos os presentes, assumindo o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Em uma parede, são escritos os sete mandamentos básicos da nova filosofia a fim de que todos possam ler. O principal deles é “Todos os animais são iguais”. Cria-se uma bandeira para representar a nova granja, a casa do fazendeiro torna-se um museu e várias políticas são implementadas visando a diversas melhorias para toda a comunidade, entre elas o objetivo de alfabetizar todos os bichos, mas logo se percebe que nem todos possuem o interesse e a capacidade de ler. Ao mesmo tempo, percebe-se que os porcos têm muita facilidade para aprender, demonstrando ser mais inteligentes que as demais espécies, portanto, são escolhidos como responsáveis pelas tarefas intelectuais da revolução e os demais pelas tarefas físicas, ou seja, o trabalho pesado. A partir de agora, cada um trabalha em prol de um bem comum. 

Entretanto, por questões de divergência ideológica, os dois líderes do movimento entram em conflito e Napoleão acaba por expulsar Bola-de-Neve da fazenda, fazendo uso da força (com o apoio dos cães que pegou para criar e que viram sua guarda pessoal) e assumindo o controle total da granja. Bola-de-Neve vê-se obrigado a fugir e jamais consegue voltar devido à propaganda arquitetada por seu rival (divulgada pelo porco Garganta, o porta-voz do líder), que o torna o culpado por tudo aquilo que acontece de errado na granja, transformando-o em um inimigo da revolução aos olhos dos outros bichos ao espalhar notícias falsas (sim, caro leitor, as “fake news” são muito mais antigas do que se pensa, embora estejam na moda), impossibilitando seu retorno e mantendo-se no poder absoluto. A partir de agora, Napoleão vai modificando os objetivos da revolução ao seu bel prazer e moldando-a ao sabor de sua vontade. E lá vamos nós outra vez, caro leitor, mostrar que essa espécie de fábula adulta, porque temos animais com ações e atributos explicitamente humanos, que começa de uma forma tão fantasiosa e até mesmo lúdica, vendendo um aspecto de leitura infantil, vai mostrando aos poucos o seu viés crítico e ácido de uma realidade que nunca sai de moda em nosso mundo político. O grande escritor Maquiavel, autor da icônica obra “O príncipe”, que tanto trata das formas de manutenção do poder, se deliciaria ao ler esta obra. Vai saber se, ao aprender a ler, Napoleão não fez uso dela? Uma das frases de Maquiavel sobre a arte de governar: “É melhor ser temido do que amado”.  

Repare você que o que começou como um sonho, uma utopia, por meio do porco Major, foi, na prática, modificando-se ao longo do tempo. Napoleão vai, pouco a pouco, modificando os mandamentos na parede de acordo com suas conveniências, tendo destaque a mudança do princípio mais importante que agora é “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”. Sem perceber, os animais que fazem o serviço braçal acabam trabalhando pesado da mesma forma que quando eram comandados pelo fazendeiro Jones, mas quase nenhum deles percebe isso porque lhes foi incutida a ideia de que agora trabalham por um novo ideal e que são livres, contudo continuam sendo explorados, mas agora por seu semelhante, lembrando a célebre frase do filósofo Thomas Hobbes “O homem é lobo do homem”. Porque, lá no fundo, é disso que esse livro trata: da exploração do semelhante. Quando concebeu o livro, o autor teve a ideia de fazer uma apologia à Revolução Russa (1917), inclusive podem ser encontrados representados nos animais da granja personalidades como Lênin/Marx, Trotsky e Stalin, além de classes pertencentes à sociedade russa, mas seriam necessárias muitas e muitas páginas para poder se explicar essa vasta simbologia, (não deixe de ler o livro), todavia, a obra não se resume apenas a isso. Não, ela consegue ir muito além desse contexto. A narrativa nos fala dos regimes totalitários de governo e, cá entre nós, seria de uma inocência muito grande achar que eles estão presentes somente em uma ideologia (capitalista ou socialista) com base nesse nosso mundo polarizado de agora. 

Aliás, a sede por poder não se restringe somente ao campo político, ela se espalha pelo campo religioso, econômico, esportivo, porque o poder seduz e corrompe, se não fosse assim não teríamos tantos escândalos nessas instituições. Vemos no caso do porco Napoleão, que converteu os interesses da revolução dos bichos em seus interesses pessoais, a referência a outra frase atribuída a Maquiavel: “Dê poder ao homem e conhecerá quem ele é”, também nos fazendo lembrar de Nietzsche ao dizer “para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder”. No enredo vemos que a possibilidade de poder fez um único animal trair toda a sua classe em busca de seus interesses pessoais, usando essa mesma classe para alcançá-los. Cabe aqui lembrar que a maior mancha deixada neste mundo, a da escravização, foi a de um homem que escravizou outro de sua própria espécie. E por aí vamos. Na fazenda, os porcos foram tendo cada vez mais privilégios, transformando a antiga casa do Sr. Jones, que era um museu, em sua habitação e a partir daí, começaram a adquirir os hábitos humanos como se embriagar e jogar cartas, no velho jogo do oprimido que acaba se tornando opressor. 

A cena que mais representa essa ideia é quando os porcos começam a se reunir com humanos de outras fazendas. Um dia, os animais olham pelas janelas da casa do Sr. Jones e o autor solta a seguinte frase: “Não havia dúvida agora quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, mas não podemos nos esquecer daqueles que, como os muitos bichos da granja, ficam apenas assistindo e fingindo que não é com eles, tal qual se diz na canção do Engenheiros do Hawaii “E é tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada / A história se repete mas a força deixa a história mal contada”. Que não possamos nos esquecer do nosso bem maior que é a liberdade. Até a próxima. 

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 


sábado, 18 de julho de 2026

QUEM BUSCA NA VIDA ALCANÇAR O SUCESSO

Crédito: Eduardo França (PEXELS)

Quem busca na vida alcançar o sucesso,

Precisa de garra também posição

Bem firme e focado com tal precisão,

Podendo atingir um possível progresso.

A fim de evitar o cruel retrocesso,

Quem quer ir pra frente só deve avançar,

Lutar sem dar trégua, jamais descansar.

Na arena da vida não dar por vencido,

Pois para vencer tem que ser aguerrido

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

AQUELE BEIJO

Crédito: Snapwire (PEXELS)

Naquela troca de olhares 

Se um beijo você roubasse,

Só pra quebrar o silêncio 

Sua boca me chamasse 

E por esses ternos lábios 

A tentação se mostrasse.


Talvez fosse diferente

Esta vida que hoje vivo

Por isso que muitas vezes

Me pego assim pensativo 

Recordando a ocasião 

Que em momentos eu revivo. 


Que teria acontecido 

Naquele exato momento 

Se eu deixasse a timidez 

E acatasse ao sentimento, 

Revelando o coração 

Sem qualquer questionamento?


Talvez eu ouvisse um sim

Da sua boca carnuda. 

Ou quem sabe, de surpresa,

Ela até quedasse muda?

Se por mim balbuciasse

Seria um Deus nos acuda.


Se aquela troca de olhares 

Troca de beijos virasse, 

O que ali se começou 

Talvez nunca que acabasse

E aquele surpreso início 

Ainda continuasse. 


Será que faltou coragem

Ou então sobrou respeito?

Terá sido apenas medo?

Qual foi o real conceito?

Teria sido um engano 

Ou o momento perfeito?


Aquele suposto beijo 

Que jamais aconteceu:

Por que foi que eu não roubei?

Por que você não me deu?

Talvez nem você se lembre, 

Também não recordo eu. 


Permanece no desejo,

Gravado está na memória. 

Teria sido um fracasso 

Ou inesperada glória?

Aquele beijo podia 

Ter mudado a nossa história.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

JUSTIFICATIVAS

Crédito: Mendi Khoshnejad

Valerá qualquer coisa?

Toda ação justifica

Uma grande vitória?


Os fins justificam seus meios?

Não haverá limites no jogo?

Tudo se permite pela glória?

Ninguém fugirá de seus atos

Marcados para sempre na história.


quarta-feira, 15 de julho de 2026

AMAR


Crédito: Fernando Capetillo (PEXELS)

Amar

Um pecado ou uma maldição 

Seguir os caprichos do coração 

Correr atrás de uma esperança 

Que não se alcança


Um prêmio em eterna espera 

Tons dourados de uma quimera 

E de tanto acreditar 

A utopia adquire nuances de verdade 

Pregando a doce possibilidade 

De um abstrato palpável 


Quisera nunca mais nutrir em meu peito 

Esse sonho de mundo perfeito 

Que me lança em quedas vertiginosas

E me vende as alegrias mais dolorosas 

Sequer uma promessa de garantia 

Vivo a doses de melancolia 

Marchando sob passos de sonambulismo 

Em direção ao mais charmoso abismo 


De forma tão voluntária 

Tranco-me na solitária 

Pois sou seu maior refém 

Viver assim sei que não convém 

Entretanto nada posso fazer 

Meu destino é padecer


Por entre sorrisos e flores 

O peito repleto de dores 

Deixando profundas cicatrizes 

Na ilusão de dias mais felizes 

Recolho os pedaços de meu coração  

Sou escravo da paixão 

A negar a própria liberdade. 


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

FALSO CAMINHO

Crédito: Rudoslaw Krupa (PEXELS)

Eu que achava tão fácil esta estrada

Pois teria ao meu lado toda a luz

Não achava pesada a minha cruz

Considerando curta a caminhada.


Considerava-me apto a tal jornada

Indiferente ao mundo que seduz

Imune a qualquer ouro que reluz

Senhor da vida reta e equilibrada.


Sequer transponho as pedras do trajeto

O astro rei desviou de meu caminho

Já não sou mais capaz de andar ereto


Sinto os meus pés cravados por espinho

Cega-me o brilho deste mundo incerto

E paro pela trilha, estou sozinho.


segunda-feira, 13 de julho de 2026

QUANDO O CORAÇÃO SE PERDE NOS LABIRINTOS DA VINGANÇA

Crédito: Wikimedia Commons

“As feridas morais têm a particularidade de que se escondem, mas não se fecham; sempre dolorosas, sempre prontas a sangrar quando são tocadas, ficam vivas e abertas no coração. ”

Sejam bem-vindos e bem-vindas, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem ao mundo da literatura, esse universo repleto de magias e encantos prontos a serem descobertos. Eis, aqui, o nosso propósito inicial. Portanto, apertem os cintos porque vamos deixar, agora, a Itália medieval, nosso último paradeiro, no qual presenciamos uma trama tenebrosa e obscura, e façamos uma viagem curta até a França. Para tal, vamos acessar nossa tradicional “playlist” com a trilha sonora de “O conde de Monte Cristo” feita por Volker Bertelmann para a mais recente adaptação para as telas (2024), constando uma outra de 2002, sem contar tantas outras feitas durante o século XX. Nossa narrativa inicia-se no ano de 1815, em um período conhecido como o governo dos cem dias, quando Napoleão Bonaparte retorna ao poder após sua fuga do exílio na ilha de Elba.

                Mas é chegado o momento de vos apresentar o nosso protagonista Edmond Dantès, um jovem marinheiro que é imediato do navio Faraó e está noivo da bela Mercédès. Tudo está indo de vento em popa na sua vida, mas, como todos já sabem, algo de ruim terá de acontecer com nosso pobre Edmond para que seja criado o conflito de nossa trama. E isso não demora a ocorrer: às vésperas de seu casamento, ele é preso na Costa da Marselha, acusado injustamente de ser um espião bonapartista. E o curioso leitor pode acaso perguntar: “Como isso aconteceu? ” Ah, meu caro. Edmond foi vítima de um plano ardiloso arquitetado por três homens (Mondego, Danglars e Villefort) cada um deles tendo encontrado uma forma de tirar proveito dessa falsa acusação. O rapaz é enviado para a tenebrosa prisão do Castelo de If onde vai amargar por longos 14 anos. Isso mesmo que você ouviu: um longo período da sua vida por algo que ele não fez. Durante todo esse tempo, você deve estar pensando o que se passou com sua noiva.  Um dos traidores, Mondego, convence-a da morte de Edmond e acaba insistindo até que ela acaba tornando-se sua esposa. Não poderia ser pior, não é?

Porém, nem tudo são espinhos no calvário enfrentado pelo jovem marinheiro. Pois, como se fosse uma providência divina, lá ele conhece um outro preso: o Abade Faria, um homem de grande sabedoria e de muitos conhecimentos que (aí vem uma parte interessante) ele procura passar ao jovem como uma forma de alcançar a liberdade. O caro leitor deve recordar que, em nossa última viagem, vimos a relação entre conhecimento e poder. A partir de então tem começo uma relação de mestre e aprendiz, mas também uma grande amizade, algo que fazia muita falta a ambos. Antes de morrer, o velho revela a Edmond a localização de um grande tesouro que pode torná-lo um homem muito rico, desde que ele prometa que irá usar boa parte dele para fazer caridade. Após uma fuga espetacular da prisão, ele tem acesso ao referido tesouro e se torna um homem extremamente rico. Agora começa a nossa discussão sobre o tema deste nosso espaço. Você agora pode pensar: “Até que enfim, a justiça foi feita e agora o já não mais pobre jovem pode recuperar tudo que perdeu em vida e provar da felicidade. ” Ledo engano! Sabe o que fez com que Edmond sobrevivesse e resistisse a todos esses quatorze anos de sofrimentos e privações? Não foi a esperança ou a fé, mas um sentimento de poder avassalador e destrutivo: o desejo de vingança. Alguns leitores afirmarão que já imaginam como isso vai acabar. Estão corretos! Aos que acompanharam conosco os destinos de capitão Ahab (Moby Dick) e de Heathcliff (O morro dos ventos uivantes), sabemos muito bem do poder corrosivo da vingança, que suga tudo ao redor como um buraco negro, quase sempre disfarçada de senso de justiça.

 Nosso protagonista passa por uma drástica transformação: de uma vítima inocente de uma vil traição a um severo juiz que vai julgar, condenar e executar a sentença, tudo isso em nome da velha e boa justiça. Quantos de nosso mundo não se perderam nessa dicotomia justiça/vingança e acabaram destruindo suas almas para sempre, consumidos pela mágoa, pela revolta e pelo ódio. Não é à toa que existe um ditado de autoria desconhecida que diz: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas. “ Inclusive, reza a lenda de que o escritor, Alexandre Dumas, encontrou inspiração para esse romance ao encontrar uma história parecida nos arquivos da polícia de sua época. Agora, tendo o tempo e o anonimato como seus dois grandes aliados, não podemos também nos esquecer da fortuna que vai lhe abrir muitas portas, Edmond, esquecido e dado como morto, retorna a sua terra como o Conde de Monte Cristo para executar seu meticuloso plano de vingança a fim de retribuir a    ardilosa traição sofrida por ele há quatorze anos. Munido do ditado “A vingança é um prato que se come frio”, ele pensa em cada detalhe para que possa assistir de camarote à derrocada de seus algozes, os quais encontra gozando de todos os benefícios possíveis. Não bastasse isso, ele ainda é obrigado a ver o seu grande amor casado com um de seus malfeitores.

Durante o enredo, o conde tem a possibilidade de tomar outro caminho, mas a sua “sede de justiça” fala mais alto, fazendo ele abrir mão de sua felicidade pessoal. Ele possui todas as condições para um novo começo (tantas vezes vislumbrado na personagem Haydée, uma escrava salva por ele, a qual sempre apresenta o lado mais humano que poderia fazer o protagonista esquecer seu desejo nocivo, oferecendo a ele uma lealdade e uma ternura há muito não vistos por ele), entretanto, seu desejo de retribuição do mal que lhe fizeram sempre o domina (o ódio não aceita ser dominado, ele sempre domina) e ele segue cego em seu plano de vingança. Aos poucos, o conde sente o preço a pagar: o isolamento. Com o passar do tempo, ele próprio percebe que está trilhando um caminho sem volta e que a felicidade e a vingança não dividem a mesma estrada. Além disso, quanto mais ele avança, mais vai sentindo o vazio que se ocupa de sua existência. Nosso protagonista luta por uma causa que não lhe trará benefício algum, ou melhor, não trará nada de bom a ninguém. Pode-se dizer que ele escolheu por continuar no passado, não vivendo o presente nem cogitando o futuro. Quando seu plano estiver consumado, o que lhe restará? O que sobrará do jovem Edmond, cheio de sonhos e aspirações? Infelizmente esse jovem não mais existe, perdeu-se para sempre no caminho da vingança.   

Independentemente do desfecho dessa trama (leia o livro), seu enredo nos fala sobre as escolhas que todo homem tem diante de si, falando também que, quem fica preso ao passado, deixa de viver o presente e pode ser considerado uma pessoa sem futuro. Ainda mais se esse passado é portador exclusivo de ódio e dor. Edmond poderia ter um caminho muito diferente, mas escolheu o do ressentimento. Quero terminar essa viagem de hoje pedindo licença para uma citação bem incomum, mas oportuna, uma frase tida como bastante hilária de um dos episódios do impagável seriado do Chaves: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. “ Creio que seja uma definição muito pertinente e que traz consigo uma seriedade absurda. Que não nos percamos nos labirintos do ódio. Até a próxima!

DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. São Paulo: Clube de Autores, 2022. 

sábado, 11 de julho de 2026

USAR COM OS OUTROS DA TAL GENTILEZA

Crédito: Ron Lach (PEXELS)


Qualquer um precisa ser bem educado,

Usar com os outros da tal gentileza

E sempre falar com extrema fineza,

Poder responder com frequente bom grado.

Jamais ser grosseiro também desbocado,

Saber como todos se deve tratar.

O seu tom de voz não dever levantar,

Não ser violento com sua expressão.

Tornar bom exemplo essa tal mansidão

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

A DOR DE UMA SAUDADE

Crédito: Mahboba Rezayi (PEXELS)

Quanto dói uma saudade

É difícil de dizer

O quanto que ela penetra

E o coração faz sofrer

É uma dor sem medidas

Ninguém sabe responder.


Alguns momentos felizes

Inda vivos na lembrança

Sinais de tempos melhores

Em que se tinha esperança

Hoje são só cicatrizes

E eu choro como criança.


Choro pela tua falta

Pois não estás mais comigo

Coração tão solitário

Procurando por abrigo

Antes era teu amante

Hoje não sou nem amigo.


Teus olhos encantadores

Um retrato tão distante

As lágrimas que desabam

De uma maneira incessante

Como vou seguir sozinho

Levar a vida adiante?


Pois tu eras o meu céu

Também eras o meu teto

Provei a seiva da vida

Ao me dares teu afeto

Em meio à realidade,

O meu sonho predileto.


Relembro de gota em gota

Tempos de felicidade

Jornadas de mãos unidas

Gestos de cumplicidade

A alegria de encontrar

A minha cara metade.


A vida tem dessas coisas

Não se consegue explicar

Quem hoje passa a sorrir

Amanhã fica a chorar

Sabemos como começa

Não como vai acabar.


A noção de que é eterno

Não passa de uma ilusão

Aquela louca euforia

Pode virar frustração

Criar expectativa

Pra colher decepção.


Como num passe de mágica

Todo aquele grande amor

Pleno de belos sorrisos

Torna-se choros de dor

E aquela doce esperança

Agora é puro amargor.


Por isso aproveite o dia

Valorize de verdade

As flores que agora colhe

Em tons de felicidade

Amanhã podem ser cinzas

Na fogueira da saudade. 


quinta-feira, 9 de julho de 2026

CONVITE

Crédito: Casper Somia (PEXELS)

Acaso me amas

Conduz meus passos

Até tua porta

 

Convida-me então para cear contigo

Velas acesas, violino ao fundo

Lá fora nada mais importa

O mundo somos nós dois

Os outros, uma realidade morta.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

SEMPRE PRESENTE

Crédito: Mustafa Govde

 

Há tempos que o sorriso desapareceu de meu rosto,

Os bons momentos fugiram-me à lembrança,

A esperança, não mais que um surto de febre,

Rouba-me preciosas noites de sono

E em seguida, parte, deixando-me em paz...

 

De uns tempos para cá, recuso-me a fazer previsões,

Perdi o costume de abrir a janela pela manhã

À espera de um dia de sol radiante.

Controlo aquela ansiedade que dominava o peito

E alguns tomam por saudades...

 

Ao deitar-me, penso no dia que tive.

Vislumbrar o amanhã é para os sonhadores

Enquanto os realistas como eu

Agem e reagem ao instante presente.

terça-feira, 7 de julho de 2026

PEREGRINAÇÃO

 

Crédito: Emrah (PEXELS)

Trinta anos tristes já faz que eu enfrento

O peso de uma tão custosa vida

Povoada por choros e lamento

Da caminhada pouco sucedida.


Sempre caminhei só, de encontro ao vento

Por uma vastidão desconhecida

Vezes procurando por um intento,

A mais simples razão para a partida.


No caminho só pedras encontrei,

Muitas barreiras para superar...

Mil sombras no deserto eu enfrentei,


Nunca me permitiram descansar

Na arena onde meu sangue derramei,

Numa eterna procura por ganhar.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY)

"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais."

Sejam muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época. Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal, prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos distintos.

Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais assassinatos.

Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros) sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça pública.

Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos assistido com frequência a movimentos de proibição de livros capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”, assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre inocência!

Voltando mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e, segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por elas!

Sei que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo, nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor! Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.

ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.

sábado, 4 de julho de 2026

PROVÉM DO RESPEITO QUE TÃO ALTO BRILHA

Crédito: Jsme MILA (PEXELS)

 

Quem pede licença, quem diz obrigado,

Quem pede desculpa, que segue gentil,

Respeita os demais e não busca ser vil,

Que faz seu discurso num tom moderado,

Não segue ofensivo nem fala exaltado,

Que nas relações sabe bem se portar

E ao seu semelhante só faz respeitar,

Nos mostra que o rumo no meio da trilha

Provém do respeito que tão alto brilha

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

SE UM DIA EU PUDESSE VER

Crédito: Thirdman (PEXELS)

  

Se um dia eu pudesse ver

Seria tão diferente

Nos olhos reconhecer

Cada coisa, tanta gente

Conseguir ver um sorriso

Como sendo o paraíso

Num semblante de criança

Mesmo envolto pelo escuro

Enxergar além do muro

Um frágil fio de esperança

 

Se me fosse dada a graça

Da mais nítida visão

Terminada a minha caça

À mágica solução

Buscaria achar enfim

Do arco-íris o tal fim

Em suas cores viajar

Em meio ao azul do céu

Fazer um grande escarcéu

Tanta cor pra admirar

 

Se me fosse permitido

Enxergar todos e tudo

Diante do colorido

Capaz que eu ficasse mudo

Por entre as sortidas cores

Descobriria valores

E nas faces mais felizes

Eu identificaria

A expressão da alegria

A ofuscar cicatrizes

 

Se esses meus olhos se abrissem

Correria para ver

Tudo quanto descobrissem

Sem nenhum tempo a perder

Pra depois guardar no peito

Vendo o mundo do meu jeito

Não pelos olhos de alguém

Aprendia a ver melhor

A vida toda ao redor

E o que de mais belo tem.

 

Se um dia fosse possível

Eu enxergar de verdade

Ah! Seria tão incrível!

Digo com propriedade

Contemplar a natureza

Em show de rara beleza

O véu que forma a cascata

Nuvens de puro algodão

O sol vermelho em paixão

A lua em traje de prata

 

Se eu pudesse admirar

A largura do oceano

Ondas bailando no mar

Estrelas no negro pano

Rubro tom do alvorecer

Laranja ao entardecer

Cobre a mata verdejante

Um jardim multicromático

Capaz de deixar estático

Todo e qualquer habitante.

 

Queria mesmo poder

Da mãe o puro semblante

Ver o seu filho nascer

Mirá-la no exato instante

Em que toda comovida

Assiste à certa partida

Do filho que ganha o mundo

Que perde o primeiro dente

Estando triste ou contente

No seu olhar mais profundo

 

Queria lá da janela

Ver chegar as madrugadas

O ipê de flor amarela

Muitos casais de mãos dadas

Criança empinando pipas

Um canteiro de tulipas

Queria ver estendidas

Bandeiras brancas de paz

Mesmo de forma fugaz

Tremulantes, decididas...

 

Alguém estendendo a mão

Em um gesto decidido

Para erguer o pobre irmão

Que no chão está caído

Presenciar a humanidade

Em ações de caridade

Todos espalhando o bem

Apertos de mão, abraços

A preencher os espaços

Muitos corações também.

 

Se um dia eu pudesse ver

Seria tudo tão novo

Tanta coisa pra aprender

No meio desse meu povo

Uma eterna novidade

Olhar de curiosidade

Com surpresas de montão

Enquanto não chega o dia

Eu fico com a magia

De olhar com o coração.

 

 

 

 

MONTEI NUM CAVALO DO TIPO FOGOSO

Crédito: @coldbeer Montei num cavalo do tipo fogoso Queria mostrar que era grande ginete Eu tinha treinado em um bom cavalete Por isso me ac...