Minha lista de blogs

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O ANIMAL QUE EXPLORA A PRÓPRIA ESPÉCIE

Crédito: Carl Glover (FLICKR)


 “Todos os hábitos do homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais. ”

Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem por esse universo sem limites que é a literatura. Hoje vamos seguir viagem, despedindo-nos, mais uma vez, da romântica França, deixando para trás todo aquele gosto acre de vingança que nos resta e vamos decolar novamente em direção ao solo inglês. Porém, desta vez, nosso destino será uma fazenda. Isso mesmo que vocês ouviram, passaremos a respirar novos ares agora. Para tal viagem, vamos acionar a nossa “playlist” com a música “Bicharia” de autoria de Chico Buarque que faz parte do álbum “Saltimbancos” (1977) e vem bem a calhar com nosso enredo. Tudo se passa por volta do ano de 1945 (demos mais um pulo no tempo), em um local chamado Granja do Solar, uma fazenda onde diversas espécies de animais vivem sob a exploração de um fazendeiro que atende pelo nome de Sr. Jones. Cansados dos maus tratos e do trabalho pesado, os animais, inspirados pelo discurso de um dos porcos da fazenda, de nome Major, que diz ter sonhado com uma fazenda em que os animais viviam livres e felizes, sem a tirania do homem (e considerava absurdo eles serem governados por alguém que nada produzia), acabam fazendo uma rebelião logo após terem ficado um dia inteiro sem receber comida por causa de seu dono ter passado a noite bebido e ter ficado embriagado, assim, eles acabam expulsando o fazendeiro e assumindo o controle definitivo da granja, que passa a se chamar Granja dos bichos.

Logo após a divulgação de suas ideias, Major acaba morrendo e dois porcos assumem a liderança do movimento: Bola-de-Neve e Napoleão (que possuem formas bem distintas de exercer a liderança), criadores dos princípios filosóficos que vão reger a vida dos animais dali por diante, o Animalismo, que promete ideais de justiça e igualdade entre todos os presentes, assumindo o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Em uma parede, são escritos os sete mandamentos básicos da nova filosofia a fim de que todos possam ler. O principal deles é “Todos os animais são iguais”. Cria-se uma bandeira para representar a nova granja, a casa do fazendeiro torna-se um museu e várias políticas são implementadas visando a diversas melhorias para toda a comunidade, entre elas o objetivo de alfabetizar todos os bichos, mas logo se percebe que nem todos possuem o interesse e a capacidade de ler. Ao mesmo tempo, percebe-se que os porcos têm muita facilidade para aprender, demonstrando ser mais inteligentes que as demais espécies, portanto, são escolhidos como responsáveis pelas tarefas intelectuais da revolução e os demais pelas tarefas físicas, ou seja, o trabalho pesado. A partir de agora, cada um trabalha em prol de um bem comum. 

Entretanto, por questões de divergência ideológica, os dois líderes do movimento entram em conflito e Napoleão acaba por expulsar Bola-de-Neve da fazenda, fazendo uso da força (com o apoio dos cães que pegou para criar e que viram sua guarda pessoal) e assumindo o controle total da granja. Bola-de-Neve vê-se obrigado a fugir e jamais consegue voltar devido à propaganda arquitetada por seu rival (divulgada pelo porco Garganta, o porta-voz do líder), que o torna o culpado por tudo aquilo que acontece de errado na granja, transformando-o em um inimigo da revolução aos olhos dos outros bichos ao espalhar notícias falsas (sim, caro leitor, as “fake news” são muito mais antigas do que se pensa, embora estejam na moda), impossibilitando seu retorno e mantendo-se no poder absoluto. A partir de agora, Napoleão vai modificando os objetivos da revolução ao seu bel prazer e moldando-a ao sabor de sua vontade. E lá vamos nós outra vez, caro leitor, mostrar que essa espécie de fábula adulta, porque temos animais com ações e atributos explicitamente humanos, que começa de uma forma tão fantasiosa e até mesmo lúdica, vendendo um aspecto de leitura infantil, vai mostrando aos poucos o seu viés crítico e ácido de uma realidade que nunca sai de moda em nosso mundo político. O grande escritor Maquiavel, autor da icônica obra “O príncipe”, que tanto trata das formas de manutenção do poder, se deliciaria ao ler esta obra. Vai saber se, ao aprender a ler, Napoleão não fez uso dela? Uma das frases de Maquiavel sobre a arte de governar: “É melhor ser temido do que amado”.  

Repare você que o que começou como um sonho, uma utopia, por meio do porco Major, foi, na prática, modificando-se ao longo do tempo. Napoleão vai, pouco a pouco, modificando os mandamentos na parede de acordo com suas conveniências, tendo destaque a mudança do princípio mais importante que agora é “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”. Sem perceber, os animais que fazem o serviço braçal acabam trabalhando pesado da mesma forma que quando eram comandados pelo fazendeiro Jones, mas quase nenhum deles percebe isso porque lhes foi incutida a ideia de que agora trabalham por um novo ideal e que são livres, contudo continuam sendo explorados, mas agora por seu semelhante, lembrando a célebre frase do filósofo Thomas Hobbes “O homem é lobo do homem”. Porque, lá no fundo, é disso que esse livro trata: da exploração do semelhante. Quando concebeu o livro, o autor teve a ideia de fazer uma apologia à Revolução Russa (1917), inclusive podem ser encontrados representados nos animais da granja personalidades como Lênin/Marx, Trotsky e Stalin, além de classes pertencentes à sociedade russa, mas seriam necessárias muitas e muitas páginas para poder se explicar essa vasta simbologia, (não deixe de ler o livro), todavia, a obra não se resume apenas a isso. Não, ela consegue ir muito além desse contexto. A narrativa nos fala dos regimes totalitários de governo e, cá entre nós, seria de uma inocência muito grande achar que eles estão presentes somente em uma ideologia (capitalista ou socialista) com base nesse nosso mundo polarizado de agora. 

Aliás, a sede por poder não se restringe somente ao campo político, ela se espalha pelo campo religioso, econômico, esportivo, porque o poder seduz e corrompe, se não fosse assim não teríamos tantos escândalos nessas instituições. Vemos no caso do porco Napoleão, que converteu os interesses da revolução dos bichos em seus interesses pessoais, a referência a outra frase atribuída a Maquiavel: “Dê poder ao homem e conhecerá quem ele é”, também nos fazendo lembrar de Nietzsche ao dizer “para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder”. No enredo vemos que a possibilidade de poder fez um único animal trair toda a sua classe em busca de seus interesses pessoais, usando essa mesma classe para alcançá-los. Cabe aqui lembrar que a maior mancha deixada neste mundo, a da escravização, foi a de um homem que escravizou outro de sua própria espécie. E por aí vamos. Na fazenda, os porcos foram tendo cada vez mais privilégios, transformando a antiga casa do Sr. Jones, que era um museu, em sua habitação e a partir daí, começaram a adquirir os hábitos humanos como se embriagar e jogar cartas, no velho jogo do oprimido que acaba se tornando opressor. 

A cena que mais representa essa ideia é quando os porcos começam a se reunir com humanos de outras fazendas. Um dia, os animais olham pelas janelas da casa do Sr. Jones e o autor solta a seguinte frase: “Não havia dúvida agora quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, mas não podemos nos esquecer daqueles que, como os muitos bichos da granja, ficam apenas assistindo e fingindo que não é com eles, tal qual se diz na canção do Engenheiros do Hawaii “E é tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada / A história se repete mas a força deixa a história mal contada”. Que não possamos nos esquecer do nosso bem maior que é a liberdade. Até a próxima. 

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 


Um comentário:

O ANIMAL QUE EXPLORA A PRÓPRIA ESPÉCIE

Crédito: Carl Glover (FLICKR)  “Todos os hábitos do homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fort...