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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O TERROR CAPAZ DE SUGAR TODA A ESPERANÇA

Crédito: Public Domain Pictures

 

“Eu penso em coisas estranhas que não me atrevo a confessar à minha própria alma. Que Deus me proteja, se apenas pelo bem daqueles que me são caros.”

Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitora ao universo de faz-de-conta da literatura, esse que nos transporta em direção à realidade nua e crua do mundo. Agora vamos levantar voo do solo inglês, diretamente da granja onde presenciamos uma revolução para partirmos em direção à Romênia, mais precisamente à região chamada de Transilvânia. Tenho certeza de que muitos dos leitores dirão que esse nome soa-lhes familiar, o que não deixa de ser verdade e que outros ainda saberão a quem iremos visitar. Estamos recuando um pouco no tempo e voltando ao ano de 1897. Vamos acessar nossa costumeira “playlist” para ouvir a canção “Doce vampiro”, que ficou famosa na voz de nossa eterna Rita Lee. 

O caro leitor deve estar se perguntando: “O que viemos fazer aqui?” E eu responderei: conhecer um dos personagens mais temidos da literatura clássica de todos os tempos, uma criatura sedenta de sangue e de almas, um ser que habita a escuridão e seus segredos. Tudo começa com a visita do advogado inglês Jonathan Harker a um conde que mora em um castelo nas montanhas dos Cárpatos. Numa primeira impressão, tanto o castelo quanto seu dono parecem bem excêntricos. O motivo da visita é auxiliar o conde em seu desejo de comprar uma casa em Londres. Ele revela-se um anfitrião de gostos bem estranhos. Mais estranho ainda é quando, antes de se retirar, avisa o hóspede de que não deve transitar pelo castelo durante a noite. Claro que o leitor já imagina que essa ordem não será cumprida, portanto, o advogado circula pelos corredores e dá de cara com três mulheres que, na verdade, são vampiras. Isso mesmo. Ele é salvo pelo seu anfitrião em um primeiro momento, porém, depois, é deixado à própria sorte pelo mesmo. Harker acaba escapando do castelo e, ao acordar em um hospital, entende o plano de Drácula: levar o seu mal até a Inglaterra. 

Meu caro leitor, essa narrativa segue um ritmo bem diferente das demais por ser contada por meio de cartas, página de um diário e anotações pessoais, fazendo diversas idas e voltas. Na Inglaterra, após o “desaparecimento” de Harker, sua noiva Mina e amigos veem-se cercados por estranhos fatos, especialmente Lucy que, de repente, torna-se sonâmbula e começa a desenvolver hábitos misteriosos. É a partir daí, que entra na história o personagem Van Helsing, um professor que tem estudado casos como o de Lucy e que, obviamente, sabe muito mais do que aquilo que revela aos amigos. Por meio de alguns testes básicos e um tanto incomuns aos demais, ele descobre o mal que a acomete. Tudo está ligado ao vampiro que já está em solo inglês. 

Deste ponto em diante, munidos de todas as informações possíveis, o romance se torna uma caça ao vampiro por toda a Inglaterra. Suas propriedades são descobertas e os caixões usados para seu repouso mais que necessário começam a ser destruídos e inutilizados. Começa aquela velha luta maniqueísta do bem contra o mal, seguindo nesse clima até o desfecho do romance, que será levado de volta para a terra da criatura maléfica. Ainda no terreno da ficção, embora muitos pensem ser esse o primeiro texto literário a utilizar a figura do vampiro, essa não é a verdade, contudo, esse romance servirá de base para uma infinidade de obras escritas e visuais sobre o tema, criando uma nova tradição na cultura gótica. Quantos escritores e cineastas não surfaram nessa onda? No mundo da literatura, podemos citar a famosa Anne Rice (Entrevista com o vampiro, 1976; O vampiro Lestat, 1985; entre outros) e nosso conterrâneo André Vianco (Os sete, 1999; Bento, 2003; entre outros). No mundo do cinema, o icônico Francis Ford Coppola (Drácula de Bram Stoker, 1992) responsável pela romantização do vampiro na cultura pop, e Nosferatu (1922) pérola do cinema expressionista alemão, sem contar as dezenas de versões de vampiros espalhadas ao longo dos anos. Mas, agora, os leitores e leitoras deste blog devem estar se perguntando: onde está o vínculo com a realidade nisso tudo? Vamos ao trabalho! 

Existem fortes indícios de que a personagem teve como base um homem de carne e osso: Vlad Dracul, que ficou conhecido como Vlad, o empalador (reservo-me ao direito de não explicar aqui o significado de tal adjetivo, deixando tal descoberta a cargo da curiosidade do leitor); um homem que exerceu seu reinado por meio do terror, de punições absurdas e que conteve o avanço de conquistadores estrangeiros sobre a Romênia, considerado por isso, um herói nacional. Muitas de suas ações pitorescas e surreais deram origens às lendas mais bizarras possíveis, como se pode observar nos filmes “Príncipe das Trevas – A verdadeira história de Drácula” do diretor Joe Chappelle (2000); e “Drácula: A história nunca contada” do diretor Craig Shore (2014). Mas não paramos por aí. Não mesmo, caro leitor. Há uma serie de discussões a respeito das referências que a obra de Stoker possa ter feito como, por exemplo, a questão de Drácula representar a visão do inglês a respeito do estrangeiro, mesmo sendo esse também europeu, dando alguns indícios de como os ingleses viam os imigrantes, em especial aqueles do leste europeu, ridicularizando suas origens, crendices e superstições, tratando-os como um povo à parte, como exemplificado em uma frase do livro: “Mas um estranho em uma terra estranha, ele não é ninguém. As pessoas não o conhecem e não conhecer é não se importar.” Aí entra em campo a superioridade britânica representada nos heróis que salvarão o mundo do mal anunciado, originário de terras estrangeiras, aproveitando para ligar o conde Drácula ao povo cigano, é claro. Menções aos judeus também são encontradas no livro reforçando esse preconceito, pois, afinal de contas, qual o poder tão temido de Drácula? Ao sugar o sangue das pessoas, ele pode transformar sua vítima em alguém como ele, da raça dele. 

Cabe também lembrar ao leitor que da palavra vampiro surgiu o termo “vampirismo” que possui diversos aspectos, entre eles, um que está muito em voga e o qual desejo destacar aqui: o que descreve as pessoas que acabam por levar as outras à exaustão emocional por meio de tantas queixas, vitimizações, focando sempre em questões negativas, chegando a levar o outro a um desânimo absurdo que antes não possuía. Ah, meu caro leitor, o que não falta neste mundo são pessoas dispostas a torcer pelo nosso fracasso, aquelas que nem bem você esboça um plano, e elas já apresentam mil e um motivos para que você desista de seu sonho, as quais estão sempre dispostas a dizer que seu esforço não vale a pena e que deve deixar tudo como está. Sim, estes são os verdadeiros vampiros modernos, aqueles temerosos de abandonar sua zona de conforto e que buscam desencorajar também aos demais. Jamais se deixe abater nem se contagiar por essa energia. Siga a luz do sol e percorra o caminho que desejar. Até a próxima.

STOKER, Bram. Drácula. São Paulo: Excelsior, 2020.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

O ANIMAL QUE EXPLORA A PRÓPRIA ESPÉCIE

Crédito: Carl Glover (FLICKR)


 “Todos os hábitos do homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais. ”

Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem por esse universo sem limites que é a literatura. Hoje vamos seguir viagem, despedindo-nos, mais uma vez, da romântica França, deixando para trás todo aquele gosto acre de vingança que nos resta e vamos decolar novamente em direção ao solo inglês. Porém, desta vez, nosso destino será uma fazenda. Isso mesmo que vocês ouviram, passaremos a respirar novos ares agora. Para tal viagem, vamos acionar a nossa “playlist” com a música “Bicharia” de autoria de Chico Buarque que faz parte do álbum “Saltimbancos” (1977) e vem bem a calhar com nosso enredo. Tudo se passa por volta do ano de 1945 (demos mais um pulo no tempo), em um local chamado Granja do Solar, uma fazenda onde diversas espécies de animais vivem sob a exploração de um fazendeiro que atende pelo nome de Sr. Jones. Cansados dos maus tratos e do trabalho pesado, os animais, inspirados pelo discurso de um dos porcos da fazenda, de nome Major, que diz ter sonhado com uma fazenda em que os animais viviam livres e felizes, sem a tirania do homem (e considerava absurdo eles serem governados por alguém que nada produzia), acabam fazendo uma rebelião logo após terem ficado um dia inteiro sem receber comida por causa de seu dono ter passado a noite bebido e ter ficado embriagado, assim, eles acabam expulsando o fazendeiro e assumindo o controle definitivo da granja, que passa a se chamar Granja dos bichos.

Logo após a divulgação de suas ideias, Major acaba morrendo e dois porcos assumem a liderança do movimento: Bola-de-Neve e Napoleão (que possuem formas bem distintas de exercer a liderança), criadores dos princípios filosóficos que vão reger a vida dos animais dali por diante, o Animalismo, que promete ideais de justiça e igualdade entre todos os presentes, assumindo o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Em uma parede, são escritos os sete mandamentos básicos da nova filosofia a fim de que todos possam ler. O principal deles é “Todos os animais são iguais”. Cria-se uma bandeira para representar a nova granja, a casa do fazendeiro torna-se um museu e várias políticas são implementadas visando a diversas melhorias para toda a comunidade, entre elas o objetivo de alfabetizar todos os bichos, mas logo se percebe que nem todos possuem o interesse e a capacidade de ler. Ao mesmo tempo, percebe-se que os porcos têm muita facilidade para aprender, demonstrando ser mais inteligentes que as demais espécies, portanto, são escolhidos como responsáveis pelas tarefas intelectuais da revolução e os demais pelas tarefas físicas, ou seja, o trabalho pesado. A partir de agora, cada um trabalha em prol de um bem comum. 

Entretanto, por questões de divergência ideológica, os dois líderes do movimento entram em conflito e Napoleão acaba por expulsar Bola-de-Neve da fazenda, fazendo uso da força (com o apoio dos cães que pegou para criar e que viram sua guarda pessoal) e assumindo o controle total da granja. Bola-de-Neve vê-se obrigado a fugir e jamais consegue voltar devido à propaganda arquitetada por seu rival (divulgada pelo porco Garganta, o porta-voz do líder), que o torna o culpado por tudo aquilo que acontece de errado na granja, transformando-o em um inimigo da revolução aos olhos dos outros bichos ao espalhar notícias falsas (sim, caro leitor, as “fake news” são muito mais antigas do que se pensa, embora estejam na moda), impossibilitando seu retorno e mantendo-se no poder absoluto. A partir de agora, Napoleão vai modificando os objetivos da revolução ao seu bel prazer e moldando-a ao sabor de sua vontade. E lá vamos nós outra vez, caro leitor, mostrar que essa espécie de fábula adulta, porque temos animais com ações e atributos explicitamente humanos, que começa de uma forma tão fantasiosa e até mesmo lúdica, vendendo um aspecto de leitura infantil, vai mostrando aos poucos o seu viés crítico e ácido de uma realidade que nunca sai de moda em nosso mundo político. O grande escritor Maquiavel, autor da icônica obra “O príncipe”, que tanto trata das formas de manutenção do poder, se deliciaria ao ler esta obra. Vai saber se, ao aprender a ler, Napoleão não fez uso dela? Uma das frases de Maquiavel sobre a arte de governar: “É melhor ser temido do que amado”.  

Repare você que o que começou como um sonho, uma utopia, por meio do porco Major, foi, na prática, modificando-se ao longo do tempo. Napoleão vai, pouco a pouco, modificando os mandamentos na parede de acordo com suas conveniências, tendo destaque a mudança do princípio mais importante que agora é “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”. Sem perceber, os animais que fazem o serviço braçal acabam trabalhando pesado da mesma forma que quando eram comandados pelo fazendeiro Jones, mas quase nenhum deles percebe isso porque lhes foi incutida a ideia de que agora trabalham por um novo ideal e que são livres, contudo continuam sendo explorados, mas agora por seu semelhante, lembrando a célebre frase do filósofo Thomas Hobbes “O homem é lobo do homem”. Porque, lá no fundo, é disso que esse livro trata: da exploração do semelhante. Quando concebeu o livro, o autor teve a ideia de fazer uma apologia à Revolução Russa (1917), inclusive podem ser encontrados representados nos animais da granja personalidades como Lênin/Marx, Trotsky e Stalin, além de classes pertencentes à sociedade russa, mas seriam necessárias muitas e muitas páginas para poder se explicar essa vasta simbologia, (não deixe de ler o livro), todavia, a obra não se resume apenas a isso. Não, ela consegue ir muito além desse contexto. A narrativa nos fala dos regimes totalitários de governo e, cá entre nós, seria de uma inocência muito grande achar que eles estão presentes somente em uma ideologia (capitalista ou socialista) com base nesse nosso mundo polarizado de agora. 

Aliás, a sede por poder não se restringe somente ao campo político, ela se espalha pelo campo religioso, econômico, esportivo, porque o poder seduz e corrompe, se não fosse assim não teríamos tantos escândalos nessas instituições. Vemos no caso do porco Napoleão, que converteu os interesses da revolução dos bichos em seus interesses pessoais, a referência a outra frase atribuída a Maquiavel: “Dê poder ao homem e conhecerá quem ele é”, também nos fazendo lembrar de Nietzsche ao dizer “para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder”. No enredo vemos que a possibilidade de poder fez um único animal trair toda a sua classe em busca de seus interesses pessoais, usando essa mesma classe para alcançá-los. Cabe aqui lembrar que a maior mancha deixada neste mundo, a da escravização, foi a de um homem que escravizou outro de sua própria espécie. E por aí vamos. Na fazenda, os porcos foram tendo cada vez mais privilégios, transformando a antiga casa do Sr. Jones, que era um museu, em sua habitação e a partir daí, começaram a adquirir os hábitos humanos como se embriagar e jogar cartas, no velho jogo do oprimido que acaba se tornando opressor. 

A cena que mais representa essa ideia é quando os porcos começam a se reunir com humanos de outras fazendas. Um dia, os animais olham pelas janelas da casa do Sr. Jones e o autor solta a seguinte frase: “Não havia dúvida agora quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, mas não podemos nos esquecer daqueles que, como os muitos bichos da granja, ficam apenas assistindo e fingindo que não é com eles, tal qual se diz na canção do Engenheiros do Hawaii “E é tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada / A história se repete mas a força deixa a história mal contada”. Que não possamos nos esquecer do nosso bem maior que é a liberdade. Até a próxima. 

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 


segunda-feira, 13 de julho de 2026

QUANDO O CORAÇÃO SE PERDE NOS LABIRINTOS DA VINGANÇA

Crédito: Wikimedia Commons

“As feridas morais têm a particularidade de que se escondem, mas não se fecham; sempre dolorosas, sempre prontas a sangrar quando são tocadas, ficam vivas e abertas no coração. ”

Sejam bem-vindos e bem-vindas, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem ao mundo da literatura, esse universo repleto de magias e encantos prontos a serem descobertos. Eis, aqui, o nosso propósito inicial. Portanto, apertem os cintos porque vamos deixar, agora, a Itália medieval, nosso último paradeiro, no qual presenciamos uma trama tenebrosa e obscura, e façamos uma viagem curta até a França. Para tal, vamos acessar nossa tradicional “playlist” com a trilha sonora de “O conde de Monte Cristo” feita por Volker Bertelmann para a mais recente adaptação para as telas (2024), constando uma outra de 2002, sem contar tantas outras feitas durante o século XX. Nossa narrativa inicia-se no ano de 1815, em um período conhecido como o governo dos cem dias, quando Napoleão Bonaparte retorna ao poder após sua fuga do exílio na ilha de Elba.

                Mas é chegado o momento de vos apresentar o nosso protagonista Edmond Dantès, um jovem marinheiro que é imediato do navio Faraó e está noivo da bela Mercédès. Tudo está indo de vento em popa na sua vida, mas, como todos já sabem, algo de ruim terá de acontecer com nosso pobre Edmond para que seja criado o conflito de nossa trama. E isso não demora a ocorrer: às vésperas de seu casamento, ele é preso na Costa da Marselha, acusado injustamente de ser um espião bonapartista. E o curioso leitor pode acaso perguntar: “Como isso aconteceu? ” Ah, meu caro. Edmond foi vítima de um plano ardiloso arquitetado por três homens (Mondego, Danglars e Villefort) cada um deles tendo encontrado uma forma de tirar proveito dessa falsa acusação. O rapaz é enviado para a tenebrosa prisão do Castelo de If onde vai amargar por longos 14 anos. Isso mesmo que você ouviu: um longo período da sua vida por algo que ele não fez. Durante todo esse tempo, você deve estar pensando o que se passou com sua noiva.  Um dos traidores, Mondego, convence-a da morte de Edmond e acaba insistindo até que ela acaba tornando-se sua esposa. Não poderia ser pior, não é?

Porém, nem tudo são espinhos no calvário enfrentado pelo jovem marinheiro. Pois, como se fosse uma providência divina, lá ele conhece um outro preso: o Abade Faria, um homem de grande sabedoria e de muitos conhecimentos que (aí vem uma parte interessante) ele procura passar ao jovem como uma forma de alcançar a liberdade. O caro leitor deve recordar que, em nossa última viagem, vimos a relação entre conhecimento e poder. A partir de então tem começo uma relação de mestre e aprendiz, mas também uma grande amizade, algo que fazia muita falta a ambos. Antes de morrer, o velho revela a Edmond a localização de um grande tesouro que pode torná-lo um homem muito rico, desde que ele prometa que irá usar boa parte dele para fazer caridade. Após uma fuga espetacular da prisão, ele tem acesso ao referido tesouro e se torna um homem extremamente rico. Agora começa a nossa discussão sobre o tema deste nosso espaço. Você agora pode pensar: “Até que enfim, a justiça foi feita e agora o já não mais pobre jovem pode recuperar tudo que perdeu em vida e provar da felicidade. ” Ledo engano! Sabe o que fez com que Edmond sobrevivesse e resistisse a todos esses quatorze anos de sofrimentos e privações? Não foi a esperança ou a fé, mas um sentimento de poder avassalador e destrutivo: o desejo de vingança. Alguns leitores afirmarão que já imaginam como isso vai acabar. Estão corretos! Aos que acompanharam conosco os destinos de capitão Ahab (Moby Dick) e de Heathcliff (O morro dos ventos uivantes), sabemos muito bem do poder corrosivo da vingança, que suga tudo ao redor como um buraco negro, quase sempre disfarçada de senso de justiça.

 Nosso protagonista passa por uma drástica transformação: de uma vítima inocente de uma vil traição a um severo juiz que vai julgar, condenar e executar a sentença, tudo isso em nome da velha e boa justiça. Quantos de nosso mundo não se perderam nessa dicotomia justiça/vingança e acabaram destruindo suas almas para sempre, consumidos pela mágoa, pela revolta e pelo ódio. Não é à toa que existe um ditado de autoria desconhecida que diz: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas. “ Inclusive, reza a lenda de que o escritor, Alexandre Dumas, encontrou inspiração para esse romance ao encontrar uma história parecida nos arquivos da polícia de sua época. Agora, tendo o tempo e o anonimato como seus dois grandes aliados, não podemos também nos esquecer da fortuna que vai lhe abrir muitas portas, Edmond, esquecido e dado como morto, retorna a sua terra como o Conde de Monte Cristo para executar seu meticuloso plano de vingança a fim de retribuir a    ardilosa traição sofrida por ele há quatorze anos. Munido do ditado “A vingança é um prato que se come frio”, ele pensa em cada detalhe para que possa assistir de camarote à derrocada de seus algozes, os quais encontra gozando de todos os benefícios possíveis. Não bastasse isso, ele ainda é obrigado a ver o seu grande amor casado com um de seus malfeitores.

Durante o enredo, o conde tem a possibilidade de tomar outro caminho, mas a sua “sede de justiça” fala mais alto, fazendo ele abrir mão de sua felicidade pessoal. Ele possui todas as condições para um novo começo (tantas vezes vislumbrado na personagem Haydée, uma escrava salva por ele, a qual sempre apresenta o lado mais humano que poderia fazer o protagonista esquecer seu desejo nocivo, oferecendo a ele uma lealdade e uma ternura há muito não vistos por ele), entretanto, seu desejo de retribuição do mal que lhe fizeram sempre o domina (o ódio não aceita ser dominado, ele sempre domina) e ele segue cego em seu plano de vingança. Aos poucos, o conde sente o preço a pagar: o isolamento. Com o passar do tempo, ele próprio percebe que está trilhando um caminho sem volta e que a felicidade e a vingança não dividem a mesma estrada. Além disso, quanto mais ele avança, mais vai sentindo o vazio que se ocupa de sua existência. Nosso protagonista luta por uma causa que não lhe trará benefício algum, ou melhor, não trará nada de bom a ninguém. Pode-se dizer que ele escolheu por continuar no passado, não vivendo o presente nem cogitando o futuro. Quando seu plano estiver consumado, o que lhe restará? O que sobrará do jovem Edmond, cheio de sonhos e aspirações? Infelizmente esse jovem não mais existe, perdeu-se para sempre no caminho da vingança.   

Independentemente do desfecho dessa trama (leia o livro), seu enredo nos fala sobre as escolhas que todo homem tem diante de si, falando também que, quem fica preso ao passado, deixa de viver o presente e pode ser considerado uma pessoa sem futuro. Ainda mais se esse passado é portador exclusivo de ódio e dor. Edmond poderia ter um caminho muito diferente, mas escolheu o do ressentimento. Quero terminar essa viagem de hoje pedindo licença para uma citação bem incomum, mas oportuna, uma frase tida como bastante hilária de um dos episódios do impagável seriado do Chaves: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. “ Creio que seja uma definição muito pertinente e que traz consigo uma seriedade absurda. Que não nos percamos nos labirintos do ódio. Até a próxima!

DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. São Paulo: Clube de Autores, 2022. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY)

"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais."

Sejam muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época. Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal, prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos distintos.

Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais assassinatos.

Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros) sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça pública.

Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos assistido com frequência a movimentos de proibição de livros capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”, assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre inocência!

Voltando mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e, segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por elas!

Sei que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo, nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor! Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.

ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O ADOLESCENTE À DERIVA NO OCEANO DA VIDA

Crédito: Orhan Pergel (PEXELS)

“Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles potes enormes de mostruários de vidro e deixá-las em paz”.

                 Seja muito bem-vindo, meu caro leitor, companheiro de tantas viagens por este cosmo infinito que se chama Literatura. Espero que esteja pronto para mais uma jornada. Vamos deixar um pouco a nostálgica Inglaterra, onde permanecemos por algumas semanas (que culpa tenho eu desse solo ter tantos escritores fantásticos) e vamos para a Nova Inglaterra, mais especificamente para New York, que ainda não chega a ser aquela da canção “New York New York”, gravada por Lisa Minelli para o filme de mesmo nome, com direção de nada mais, nada menos que Martin Scorsese, com atuação do grande Robert de Niro, mas que ganhou a fama internacional após aparecer na voz do eterno Frank Sinatra no ano seguinte, sendo portanto a nossa faixa da playlist de hoje. Fica também a dica do filme como um belo entretenimento.

                Aterrissemos, então, na cidade em dezembro de 1949, mas que só surge no ano de 1951 (data de publicação do romance), onde encontraremos o adolescente Holden Caulfield, um jovem de dezessete anos, protagonista da trama (que cabe lembrar: dura uma semana), que acaba por ser expulso do colégio interno onde estudava, na Pensilvânia, e que adia sua volta para casa pelo motivo de ter de enfrentar a sua família. Nosso personagem, como todo e qualquer adolescente, acredito eu, tenta traçar, para si mesmo, um norte para a sua vida. Para isso, busca refletir sobre o que tem passado e, como toda pessoa num momento de introspecção, busca encontrar um sentido para sua existência. Ao chegar a sua cidade natal, vai hospedar-se em um hotel e, a partir daí, encontra outras pessoas (desconhecidas e conhecidas) que lhe servem de referência para o encontro de sua identidade. Nosso herói encontra-se perdido. Já ouvi, só não me lembro antes (consequências do avanço da idade) que nós acabamos por nos reconhecer no outro.

                Alguns encontros tornam-se de extrema importância para ele, como a antiga namorada Sally, que não concorda em fugir com ele, o que lhe causa muita frustração; a irmã pela qual nutre uma imensa admiração, que é recíproca, que se dispõe a fugir com o irmão, mas este recusa; e o professor antigo muito admirado por ele: o senhor Antolini. Referindo-se ao título: Holden tem um sonho, com frequência, no qual se encontra em um campo de centeio repleto de crianças, evitando-as que caiam em um precipício que se situa ao fim da plantação. Ele conta esse sonho ao seu mestre que lhe faz uma importante observação: o homem maduro é aquele que, com toda a humildade, procura viver por uma causa, e não morrer de uma forma heroica e nobre pela mesma. Ele deixa a casa de seu professor e perambula pela cidade em estado de reflexão sobre tudo que ouviu. Nosso personagem sente que precisa dar um rumo a sua vida, mas qual? Eis, caro amigo leitor, a questão que se mostra desde o início da narrativa.

                Há muitas histórias acerca desse livro, escrito por J. D. Salinger (acredito ser o único dele) que alcançou uma notoriedade talvez jamais imaginada pelo autor, o qual se retirou para uma vida mais reclusa, sem nunca dar qualquer entrevista sobre a referida obra, que se tornou um marco na vida de muitos leitores adolescentes, entre eles muitas celebridades. O nobre leitor pode estar pensando: “Mas não tem nada de mais nesse enredo, é absolutamente comum”. Concordo com você. Levando-se em conta as outras narrativas que já passaram por essa coluna, hei de concordar sem esforço algum. Mas, quem disse, que para um enredo chamar a atenção, ele precisa ser algo fora do comum, tendo o insólito e a fantasia como suas referências? Venho, mais uma vez, lembrar ao amado leitor, que o objetivo dessa coluna é justamente mostrar o quanto a literatura, como toda arte, conecta-se à realidade de forma indiscutível, apesar de ser considerada apenas uma ficção.

                Holden carrega consigo o estigma do adolescente que, apesar de inteligente, traz um emaranhado de dúvidas de natureza emocional com relação ao mundo que o cerca. Na mesma idade que o referido protagonista, nossos adolescentes aqui no Brasil, preparam-se para tomar decisões importantes, como a futura profissão que seguirão, muitas vezes, representada por uma frase que considero muito infeliz: “Você já está na idade de saber o que quer da vida”, tudo isso sem qualquer tipo de experiência prática em sua vivência (boa parte deles, para não dizer maioria, nunca trabalharam ou tiveram qualquer contato com qualquer espécie de ofício). Contudo, eles precisam escolher um curso para prestar o vestibular. Se, na época de nosso protagonista, já era uma decisão difícil, com poucas opções, imagine o que se dizer dos dias de hoje, com novos cursos, que brotam aos montes, muitos dos quais eu nem fazia a mínima ideia de que existiam. Há a pressão da sociedade e a pressão do vestibular e, como se não bastasse, para piorar para o jovem em questão, muitos costumam fazer comparações com filhos de amigos e parentes, como se houvesse um padrão, ou ainda temos as frases paternais do tipo “Na sua idade eu já sabia muito bem o que queria da vida. Portanto, não é de se estranhar que vários deles abandonem seus cursos e ainda sejam vistos como fracassados.

                O protagonista de Salinger representa o adolescente que se vê perdido em uma fase que, aliás, entendo como muito confusa, pois não se é mais visto como criança, ao passo que se é lembrado, a toda hora, que ainda não é adulto para cuidar da própria vida. Difícil compreender onde se encaixar na faixa etária da vida, não acha, amigo leitor? Pode ser que a alguns eu pareça estar sendo um tanto quanto permissivo e este ou aquele leitor acabe pensando que estou poupando nossos adolescentes. De forma alguma. Desejo aqui apenas lembrar o quanto se torna difícil e complicado tomar uma decisão desse calibre na idade em que se encontra na vida, com pouca distância percorrida. Gosto ainda de recordar que muitos pais, talvez de forma inconsciente, determinam o futuro de seus filhos em vez de dar-lhes subsídios necessários para tomarem suas próprias decisões, achando, dessa forma, que estão fazendo um verdadeiro bem a eles ou ainda colocando que eles não têm um minuto a perder.

                Como professor de adolescentes há décadas (sim, já faz um bocado de tempo), penso em quanto o mundo que nos cerca tem mudado (de forma vertiginosa nos últimos anos) e como as mídias têm deixado nossas crianças e jovens cada vez mais “adultizados” com o único propósito de os tornarem consumidores em potencial. É esse mundo, hipócrita e interesseiro, que desperta a revolta de Holden, fazendo cair sobre ele o rótulo de rebelde. Entretanto, caro leitor, quero aqui lembrar que eles ainda não são adultos, no verdadeiro sentido da palavra a qual lhes atribui a total responsabilidade por tudo, por isso, precisam muito de orientação, além do mais em uma realidade tão complexa em que se transformou esse nosso universo. Nossos adolescentes nos provocam o tempo todo, na verdade, suplicando por limites e orientações. Assim como descobriu nosso protagonista, nenhum de nós jamais será o herói que salvará todas as crianças de caírem no penhasco (símbolo da perda da inocência) que está à beira do campo de centeio. Somos guias, conselheiros, amigos que, convém ressaltar, sem a perda e a isenção da autoridade, temos a responsabilidade de conduzi-los da melhor maneira para que possam ser felizes em suas escolhas. Após termos feito o nosso papel nesse mundo, resta-nos, somente, esperar e torcer por cada um deles para que possam ser felizes, lembrando os versos de uma canção de Renato Russo: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais / O tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo”. Até a próxima.

 SALINGER, J. D. O apanhador no campo de centeio. São Paulo: Todavia, 2019.

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O BEM E O MAL QUE HABITAM A MESMA CASA

Crédito: Lawrence OP (Flickr)

 “Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso.”

                 Bendita seja a sua presença, caro leitor! É com o coração tomado de satisfação que mais um dia o recebo aqui nesse espaço literário. Espero que esteja pronto para mais esta viagem. Nada melhor que uma grande jornada para o interior do próprio ser humano. Sem querer ser redundante, mas seguimos o nosso caminho provando, incansavelmente, que a literatura é uma ficção que nos mergulha na realidade. Aproveitando a nossa viagem à Inglaterra, vamos nos deslocar dos morros de Yorkshire para a velha e conhecida Londres, no ano de 1886. Vamos acessar nossa “playlist” com a Sonata no. 2 Op. 1 de Giuseppe Tartini (compositor do século XVII), chamada de “Trilos do diabo” que, segundo depoimentos, fora resultado de sugestão em um sonho, sugestão essa feita pelo próprio diabo ao compositor, o que chega a ser um grande contraste com a beleza da melodia.

                Nossa história de hoje começa com um advogado, Sr. Utterson, que recebe um relato de um parente seu sobre uma estranha pessoa de nome Mr. Hyde. Dias depois, o advogado acaba tendo um encontro inesperado com a misteriosa personagem e tem a sua atenção chamada para o fato de lembrar que o mesmo é o herdeiro de seu cliente e amigo, Dr. Jekyll, por meio de um testamento. Em um jantar, o advogado busca questionar o amigo sobre a natureza da relação entre ambos, mas ele apenas lhe responde que está tudo sobre controle. Um ano após isso, Hyde é acusado de espancar um homem até a morte. Para espanto de Utterson, a arma do crime é uma bengala que ele havia dado de presente a Jekyll.

                A este fato seguem-se outros tanto estranhos, sempre envolvendo a pessoa de Hyde e, cada vez mais, o advogado sente-se envolvido pelo mistério que cerca a relação entre esse maligno ser e seu amigo gentil e benevolente. Por meio de uma carta, escrita pelo próprio cientista, acaba por descobrir que ele estava desenvolvendo uma poção com a qual conseguia separar o seu lado bom de seu lado mau. Ao fazer isso, transformava-se em um sujeito sem qualquer principio moral. Tal poção tinha um efeito reversível, durando, portanto, apenas algumas horas. Sob o efeito da mesma, o cientista gozava de uma liberdade e ausência de consciência que lhe forneciam um prazer inexplicável. Mas, como em boa parte das experiências humanas, o bom doutor perdeu o controle que acreditava piamente ser permanente sobre a tal transformação. O caro leitor já deve imaginar que a partir de então haverá uma série de consequências. Sim. Posso afirmar que as mais drásticas possíveis. Aqui usarei uma daquelas frases bem clichês: a criatura vira-se contra seu criador. E aí você me pergunta: como isso tudo termina? E eu vos respondo: só lendo para saber. Se acaso, ainda não leu essa obra, não ceda à tentação de buscar por um resumo na internet. Vá até a fonte, beba da obra, tão significativa, seja naquele momento ou nos tempos atuais.

                A obra de Robert Louis Stevenson já influenciou muitas gerações (por isso se trata de um clássico) por meio das mais variadas adaptações em livros, peças teatrais, animações, filmes e canções, com destaque para a música “Dr. Heckyll and Mr. Jive” da banda australiana Men at Work, que fez sucesso nos anos 80 e que se refere muito bem a sua obsessão, sua crença cega na ciência e na questão de ser cobaia de seu próprio experimento. Vale a pena ouvir. Mas, o que ela nos traz? Ah, caro leitor, aquela velha discussão a respeito do bem e do mal. E aí, precisamos falar um pouco do maniqueísmo, uma doutrina religiosa propagada por Maniqueu (Pérsia, séc. III) a qual definia o mundo como dividido entre duas forças antagônicas (bem e mal) personificadas como Deus e o Diabo e simbolizadas pela luz e a escuridão. Essa doutrina foi tão intensa que até hoje perdura em diversas novelas, filmes, animações e outros produtos de cultura, que buscam simplificar a vida como um conflito entre os dois opostos. Assim sendo, parte-se do ponto de vista simplista de que os seres são divididos nesses dois grupos, de uma forma puramente absoluta: ou você é bom ou mau. Pronto! É impressionante ver o quanto muitos ainda se apropriam desse discurso nos âmbitos social, religioso, político. Essa ideia ainda rotula pessoas, culturas, ideologias e por aí vai.

                Entretanto, para o nosso benefício (eu tinha escrito “sorte”), eis que sopra o vento da mudança. Gostaria de começar com o fantástico Guimarães Rosa, que nos diz: “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Esse grande escritor brasileiro dispensa o maniqueísmo em seus contos, ao abordar, de maneira categórica, que o bem e o mal vivem dentro do mesmo homem, em personagens como Augusto Matraga. Neste contexto de seriados que nos invadiram, é grande a tendência de questionamento deste simplismo em séries que envolvem heróis e que mostram que a justiça e a vingança, por exemplo, possuem uma fronteira muito tênue, e que essa questão não é assim tão clara como se parece. Assim como a lua que brilha alta no céu (sou apaixonado por ela), todos temos o nosso lado obscuro, as nossas pequenas mazelas humanas, pois assim somos nós, caro leitor. Faz parte de nossa natureza.

                Sei que muitos preferem negar essa realidade. Só que fugir não adianta. Somos seres falíveis, feitos de virtudes e defeitos. Quando o Cristo (exemplo de homem sábio e sensato) disse à turba dos moralistas: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, sabia que, muitos de nós, jogam pedras esquecendo-se de que possuem telhado de vidro. Vivemos em pleno conflito porque nossa alma é um dualismo de forças e vontades. Jekyll quis escapar a esse conflito. Impossível, caro leitor. É ele que nos faz crescer. Não adianta “tentar tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para baixo do tapete” como dizem os antigos. O que fazer? Só há um caminho: enfrentar o problema. Pronto. Tomar consciência e buscar a estratégia adequada. Mas há uma condição maior que todas: querer mudar, todavia nós aqui sabemos que a mudança é um processo doloroso. Claro que essa discussão a respeito da natureza do bem e do mal, por não ser absoluta, daria infindáveis questionamentos filosóficos, fazendo-nos pensar, afinal de contas, o que é o bem e o que é o mal. Com um pouco de senso, poderemos perceber que nossas possíveis respostas estão fadadas a mergulharem no mais completo subjetivismo.

                Talvez, meu caro leitor, seja essa a resposta mais difícil de se dar a si mesmo, entre todas que já passaram por nossas viagens. Penso eu, às vezes, que ela possa até nem existir. Quem me garante? Nem sempre encontramos as respostas que desejamos ou como queremos. Termino essa nossa viagem de hoje, com mais perguntas do que respostas, mas que isso não o desanime. Não há problema algum em não saber, mas sim em achar que se sabe, como diz a bela canção de Almir Sater: “Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei.” Até a próxima.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de Janeiro: Antofágica, 2022.    

segunda-feira, 15 de junho de 2026

QUANDO O AMOR SE ENCONTRA ENTRE O INTERESSE E A OBSESSÃO

Crédito: Thais Melo (Deviant Art)

 “Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia.”

             Seja bem-vindo, caro leitor! É com muito prazer que o recebo, mais uma vez, para embarcarmos em uma viagem ao mundo da ficção (e que insistentemente nos traz de volta à realidade), percorrendo as páginas dos mais interessantes clássicos da literatura que a mente humana já possa ter produzido. Após termos vivido um período de duas leituras em pleno voo, hoje voltaremos a pôr os nossos pés no chão. Isso mesmo, meu caro: basta de voar por um tempo. Vamos agora nos dirigir à Inglaterra, mais precisamente aos morros nas regiões de Yorkshire, no ano de 1847. Vamos, sem delongas, acessar a nossa “playlist” de viagem para a música tema do livro “Wuthering Heights” seja, para a minha geração, na icônica voz de Kate Bush (1978), ou, para as gerações mais recentes, na voz de André Matos, na época em que era vocalista do conjunto Angra (1993).

            De todas as nossas viagens, não será essa a primeira vez que iremos adentrar a uma história de amor como núcleo de um romance, porém, desta vez, garanto-lhes que o Romantismo poderá ser visto em sua forma mais densa e tensa, superando até mesmo a história do pobre jovem Werther. Se algum leitor desavisado estiver pensando que estará diante de “uma historinha água com açúcar”, que servem para trazer estereótipo ao mundo romântico, garanto que irá se arrepender (pode trocar pelo verbo surpreender se achar o termo um pouco agressivo). Mas, comecemos então com o fato gerador do conflito que é quando o senhor Earnshaw retorna de uma das suas viagens trazendo consigo um menino, um órfão que será criado junto aos seus filhos: Catherine e Hindley. Enquanto o menino, vê, no recém-chegado, um rival que irá disputar e até mesmo roubar a atenção de seus familiares; a irmã afeiçoa-se a ele de imediato. Essas duas relações, pautadas no amor e no ódio, intensificam-se com o tempo. Os dois apaixonam-se perdidamente (eis aí nosso par romântico), mas, com a morte do casal Earnshaw, Hindley passa a ser o verdadeiro dono de tudo e, passa a despejar todo o seu desprezo pelo irmão adotivo, sujeitando-o aos mais humilhantes serviços, além de privá-lo de ver a irmã (aqui entra o clássico obstáculo ao amor). Heathcliff passa da condição de filho a servo, mas ainda suporta muitas coisas por Catherine.

            Esta, por questões estritamente financeiras, acaba por arranjar matrimônio com um homem de posição social bem melhor que o irmão, o que acaba por piorar o seu jeito, agora muito amargurado e rude, como consequência pelo tratamento que recebe. Após a notícia do casamento de Catherine, ele não tem mais motivos para permanecer onde está, decidindo partir pelo mundo afora. Mais tarde, contudo, ele retorna, como um homem rico e bem sucedido, em outras condições sociais e motivado por um único desejo: vingar-se daqueles que o privaram de seu final feliz com Catherine. Heathcliff não encontrará limites para satisfazer esse seu capricho, colocando o irmão adotivo (Hindley) e o marido dela, seu rival (Edgar) como alvos permanentes em sua sede de vingança. Se o caro leitor, ficar ávido por mais detalhes ou informações, há apenas uma coisa a se fazer então: ler o romance. Quanto a mim, paro por aqui, segundo aquele meu velho princípio já exposto aqui: não revelar o final da trama. Asseguro a você que muitas reviravoltas estão por vir nessa trama e que suas consequências terão efeitos devastadores.

            Caro leitor, esse romance traz consigo uma infinidade de abordagens a respeito do amor. Temos uma vasta quantidade de outros romances que o exploram. Lembrando que foi assim que o gênero romance, tal como o conhecemos hoje, começou: tratando de histórias de amor. Daí é comum encontrar a confusão que alguns leitores fazem de que romance é, necessariamente uma história de amor. Mas isto é assunto para as aulas de teoria literária, o que não é nosso caso no momento. Vemos, na relação entre Heathcliff e Catherine, o encontro de dois mundos que, apesar de grandes diferenças (ele, um menino sozinho no mundo; ela, uma menina cercada de mimos), cultivam uma paixão a qual podemos classificar como correspondida. Contudo, meu caro, o verdadeiro amor, aquele ao qual chamamos como absoluto, como naquela canção da banda Legião Urbana, “Monte Castelo” que é uma união de um soneto camoniano (belíssimo e famoso) com a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13, quando diz: “é só o amor que conhece o que é verdade”, vai enfrentar, no mundo, os mais diversos adversários que, de antemão, já entendemos que são totalmente opostos a ele.

            De um lado, temos Catherine e a questão do interesse, por tratar-se exclusivamente do aspecto econômico, transformando esse sentimento em um balcão de negócios como se pode ver no romance “Senhora” de José de Alencar. Entretanto, cabe aqui lembrar que existem muitos outros interesses em jogo que sempre acabam por jogar o amor para escanteio, como dizem os antigos, ou ainda, retirá-lo da lista de prioridades. Além do dinheiro, podemos citar o poder, a fama, o sucesso, o narcisismo e tantos mais. Não é à toa que os primeiros autores usavam os obstáculos ao amor genuíno como causadores de conflitos. É uma fonte inesgotável de recursos. Pode observar por aí. Como diria Artur da Távola: “Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros.” Ah, caríssimo, amar pressupõe renúncia. Aí está a grande dificuldade do homem, que só deseja angariar, conquistar. Ceder é algo bem mais custoso. Quantos “amores” cada um de nós carrega em seu peito? Quantos deles não são apenas desejos disfarçados do mais puro e nobre sentimento? Faltam-nos respostas. E por quê? Pelo simples medo, muitas vezes, de se fazer a pergunta correta. Pois certas respostas exigem, de nós, antes de tudo, compromisso.

            Por outro lado, temos Heathcliff, um homem cujo amor lhe fora negado. Esta perda traz a ele uma enorme amargura acerca da vida. Apesar de vencer socialmente e financeiramente, contra todas as expectativas que se tinha dele, o fato de um amor malogrado e não mais correspondido, gerou em seu coração um sentimento de ódio que só poderia ter como amargo fruto o desejo de vingança. Nós, caro leitor, já vimos em uma dessas nossas viagens, em companhia do capitão Ahab, que a vingança tem um poder destrutivo ilimitável e que acaba por consumir todos a sua volta, porque ela facilmente foge ao controle de qualquer um, tal qual um animal cuja natureza selvagem não pode ser domada. É claro que ele tem a ver com a obsessão, que se traduz em um apego exagerado por algo. Isso nos faz questionar quais eram os reais sentimentos de Heathcliff por Catherine. Quantas relações não encontramos por aí, chamadas de amor, mas que não passam de desejos doentios, de posse, de domínio, de exclusividade? Relações que fogem totalmente ao controle, chegando a gerar tragédias como as dos livros?

            Camões, no soneto citado usado para compor a canção, tenta descrever, de forma racional, o sentimento amoroso, como no trecho: “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor.” Não há palavra, talvez melhor, para caracterizar o amor como a palavra “contraditório”. Ele nos mostra diversas fases e faces o tempo todo. Diante disso, bastaria então a cada um de nós evitá-lo para nos pouparmos de grandes danos, e tudo estaria resolvido, não é? Ah, fosse assim tão fácil, diria ainda outro poeta português, Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios.” Temos de reconhecer que não parece ser tão simples assim. Alguns dizem: “mas deveria ser” e eu vos digo: “mas não é”. Sigamos nós, caro leitor, todos nós (sem exceção) navegando neste mar de sentimentos, ora à deriva (à espera de um resgate), ora com as duas mãos firmes no leme. No entanto, entre todas essas faces, fico ainda com mais um trecho da mesma música em que se diz: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria”. Que o bom e velho amor nos conduza. Até a próxima.

BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. São Paulo: Atlantis, 2026.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A INTERMINÁVEL BUSCA PELA PERFEIÇÃO

Crédito: Wikimedia Commons
 

“Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”

                 Saudações literárias, nobre leitor! Cá estamos nós, prontos para mais uma viagem. Sim, meu caro, essa é a palavra ideal para descrever a literatura: viagem. Ela pode acontecer das mais diversas formas (e acontece mesmo), rompendo os limites de tempo e espaço, porque, para a criatividade humana, não existem fronteiras. Agraciados por essa magia, vamos, agora, partir do deserto do Saara, após uma busca pela nossa criança interior, em uma jornada (talvez) ainda maior, pois esse negócio de ficar comparando, querido leitor, é uma tarefa, às vezes, bem arriscada. E por que falar de riscos? Porque eles vêm bem a calhar na nossa história de hoje. Para aqueles leitores amigos ou amigos leitores (pois essa permuta de ordem daria uma bela aula de posições entre substantivo e adjetivo no discurso) que me cobraram, na semana passada, por uma trilha sonora – digna de O pequeno príncipe – a qual não fui capaz de encontrar, hoje tento corrigir minha incapacidade, acionando aquela nossa “playlist” com a canção “Be” na voz de ninguém mais ninguém menos que Neil Diamond para o filme de Fernão Capelo Gaivota, inclusive recomendo ao leitor que, mais tarde (pelo amor de Deus, leia o texto primeiro) assista ao clip, recheado de inspiradoras imagens e coroado com uma tradução que mostra o teor dessa música. Agora, deixemos de conversa e partamos.

                O ano é 1970 e a praia é uma praia qualquer, seja dos Estados Unidos, lar do autor, ou de qualquer lugar do mundo. Cá entre nós, temos as mais belas paisagens à beira-mar para usar como pano de fundo. Lá encontraremos uma gaivota. Isso mesmo, meu caro, eis o nosso protagonista do dia: um pássaro. Para que se possa compreender aonde quero chegar, é importante que se saiba que a gaivota é uma ave aquática encontrada em quase todo o mundo, que vive em bando e usa a beira do mar para sua alimentação, portanto, uma ave tida como comum. Entre um bando encontra-se Fernão, tido como estranho pelos demais. Por quê? Porque ele pensa diferente deles. Nosso herói recusa-se a acreditar que a vida seja apenas voar para pegar o alimento e retornar para a praia, dia após dia, por toda a sua existência. Deve haver algo mais que isso. Ele passa a explorar, então, a capacidade de voar, fazendo diversas experiências de voo, com manobras ousadas e tudo mais. Por certas vezes, ele fracassa, pois, não podemos nos esquecer, Fernão está imerso em um aprendizado e, existem erros com os quais se pode aprender.

                Por causa de seu comportamento “esquisito”, o que torna sua postura inadmissível para com a sociedade da qual faz parte, ele é expulso do bando, banido, condenado a viver sozinho. Fernão continua suas tentativas, até que encontra duas outras gaivotas, diferentes daquelas que via em seu bando. Essas, como ele, também têm a paixão por voar e o desejo de superar seus limites. Elas pedem que ele as siga. Após algumas aulas, Fernão transcende a outra dimensão na qual todas as gaivotas partilham o desejo por voar com excelência. Após muitos ensinamentos, ele tem como missão a de voltar para a realidade e tentar guiar outros que, como ele, sonham em evoluir nessa existência. De aluno, ele deverá passar a professor, porém, uma das grandes lições de seu mestre: somente o amor e o perdão podem trazer a liberdade que ele tanto busca.

                Caro leitor, já diz o velho ditado: “não se julga um livro pela capa”. Pois bem, à primeira vista, parece tratar-se de uma simples obra, levando alguns a pensar: “o que pode haver de tão profundo e revelador no enredo em que uma gaivota deseja voar melhor?” Ah, não caia nessa armadilha. Como diria o próprio autor nessa narrativa: “Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento.” É uma história sobre autoconhecimento. Sobre limites e desafios. Nesse momento peço encarecidamente (suplico, se for preciso) que não o confunda com um livro de autoajuda. Não, caro leitor, é muito mais que isso: trata-se, entre tantas coisas, de se perseguir um sonho. Quantos por aí não perderam essa humana capacidade, não é? Como nos versos de Cecília Meireles: “Permite que eu volte o meu rosto / para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho / como as estrelas no seu rumo.”, Fernão não se contenta com a realidade que se apresenta a ele e parte em busca de seus anseios. Claro que isso o tornará diferente dos demais, o que costuma ser motivo de exclusão em nossa sociedade, pois, na verdade, como na música dos mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito louco por eu ser feliz”, muitas vezes o que não se enquadra no padrão da sociedade, fica à sua margem.

                O livro fala sobre a vida como um eterno aprendizado, como quando o protagonista diz aos seus pares: “Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Sim, caro leitor, há tanta coisa para se saber nessa nossa longa estrada e, por tantas vezes, contentamo-nos com tão pouco, sem falar naqueles que acabam achando que já sabem de tudo. Quanta pobreza de espírito! E, falando em espírito, enxergo esse livro como uma verdadeira jornada espiritual, uma aprendizagem que supera em muito as necessidades materiais que, segundo o próprio protagonista, prendem e sequestram o nosso verdadeiro entendimento das coisas. Uma das frases mais célebres desse livro: “Enxerga mais longe a gaivota que voa mais alto”, refere-se justamente a essa busca pelo conhecimento. Se em minha primeira leitura, que se deu aos meus quinze anos de idade, eu procurava entender o que esse tal Fernão buscava, hoje, após mais algumas leituras, só tenho uma resposta: evolução. Porque, como adulto que hoje sou, entendo que a perfeição talvez jamais seja alcançada, contudo, quem a busca incansavelmente, com certeza, adquire uma evolução constante.

                Por último, porém não menos importante, o livro trata de uma relação com o sagrado, como algo ao qual se tem acesso, sem a mínima preocupação de uma definição ritualística ou se nomear uma religião, porque Deus está acessível a todos, é Ele a verdadeira perfeição. Na busca por sua liberdade (que aqui modestamente entendo como o abandono dos velhos conceitos e rótulos), Fernão aprende o papel do amor e do perdão: jamais se entende o outro por meio de julgamentos e reações impulsivas: “Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. Que possamos, caro leitor, libertar-nos  de toda a mediocridade que nos aprisiona, de todo pensamento que nos apequena, que busquemos tirar os pés da areia e alçar grandes voos. Há tanto azul sobre nós, pronto a ser desbravado, que ampliemos o nosso olhar, percorramos grandes distâncias, buscando, sempre, nada mais que conhecer a nós mesmos. Que possamos dar o melhor de nós, terminando com aqueles mágicos versos de Fernando Pessoa pelo heterônimo Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”. Até a próxima!

BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. São Paulo: Record, 2017.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A ETERNA CRIANÇA PERDIDA DENTRO DO HOMEM

Crédito: Felipe Campos (FLICKR)

 “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”

                 Seja bem-vindo, mais uma vez, caro leitor, ao mundo da imaginação. Sim, a literatura é o universo onde o céu é o limite. Falamos em céu, porque, quem dentre nós, para sermos bem sinceros, quando criança, nunca teve, ao menos uma vez (eu confesso que por muitas) o desejo de voar, fosse com aquela toalha que pegou escondido da mãe para fazer capa de super-herói (inclusive por que será que a habilidade de voar era a mais admirada em nossa geração?) ou montando uma nave na sala de casa, com cadeiras e outras parafernálias, para explorar o universo? Acontece que, após uma sequência de viagens permeadas por conflitos sociais, escolhi para nós, hoje, um roteiro mais suave. Possamos nós, agora, deixar a França e sua revolução, para nos dirigirmos até o ano de 1943. Para onde? Para o deserto do Saara. Olha só que viagem exótica, hein! E você pode perguntar: o que há para se ver lá além desse imenso oceano de areia? Ah, caro leitor, a literatura é capaz de realizar os fenômenos mais surpreendentes aos olhos humanos. Prepare-se para um encontro com a magia que, aliás, no mundo da literatura não funciona como o oposto da realidade, mas sim, como um complemento mais que necessário. E como não poderia faltar, aqui vai a nossa “playlist” de hoje: a trilha sonora da animação “O pequeno príncipe” feita para o filme de 2015, composta por Hans Zimmer e Richard Harvey.

                   Após uma pane em seu avião, um piloto faz um pouso forçado no referido deserto e, ao acordar do acidente sofrido, encontra um menino de cabelos de ouro e cachecol amarelo, que lhe pede um desenho. Cabe lembrar que nosso aviador, quando criança, desejava ser pintor, mas fora desencorajado pela falta de sensibilidade dos adultos. A partir daí, vai surgindo uma inesperada amizade, com base nos relatos de ambos para se conhecerem melhor. O piloto descobre que o rapaz à sua frente é um principezinho de um asteroide chamado B-612, que possui três vulcões (um extinto), uma rosa e alguns baobás. Essa rosa (A rosa vermelha) tomará boa parte da narrativa do menino, explicando o relacionamento que existe entre eles e a série de exigências que a mesma lhe fazia o tempo todo. Aí surge uma das frases maravilhosas embutidas nessa narrativa, quando o piloto diz a ele: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Muito interessado pela história do menino, o aviador ouve atentamente como foi sua viagem, curioso por saber como ele chegou aqui à Terra.

                O príncipe narra sua passagem por diversos asteroides, todos eles, assim como o seu, com apenas um morador, os quais não possuem um nome, contudo são reconhecidos ou nomeados pelo ofício que exercem em cada um deles. Tratam-se todos de adultos, completamente imersos em seus próprios “mundos”. Dentre eles, podemos citar o rei, para o qual “todos os demais são súditos”. Ele oferece um cargo ao príncipe, que não vê nenhum sentido e parte. Em outro planeta, encontra o vaidoso, tenta até uma conversa. “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios”. Um pouco mais adiante, encontra o beberrão, o qual admite que bebe para esquecer a vergonha que tem de beber. Depois encontra o acendedor de lampiões, que os acende e apaga constantemente, embora não saiba do sentido que tenha, mas o faz somente porque assim diz o regulamento.

                Ao passar por cada local, o jovenzinho leva consigo uma lição em forma de reflexão e questionamento, acerca da forma adulta de se ver a vida e de vivê-la. Em um dos asteroides, o geógrafo fala a ele sobre um planeta chamado Terra, um lugar repleto de gente, o que muito interessa ao principezinho, que parte para lá. É na Terra que ele conhecerá a mais cativante das personagens (opinião puramente minha, caro leitor): a raposa. Eles vão discutir sobre o valor da amizade, do amor e, sobretudo da responsabilidade que temos uns para com os outros, como em uma das mais célebres frases do livro: “Tu te tornas inteiramente responsável por aquilo que cativas”.

                O livro “O pequeno príncipe” é visto como um livro infanto-juvenil por alguns, infantil para outros, mas, para mim, caro leitor, essa classificação, quando se trata de um clássico, não faz a menor diferença ou até mesmo importância. E por quê? Porque este livro, em minha humilde opinião de mero leitor (mas apaixonado pela leitura) fala alto ao adulto e nos chama a atenção para uma viagem ao nosso íntimo. Para mim, é como se ele perguntasse a cada adulto: “O que você fez com aquela criança que foi um dia?” Aí vem a questão: muitas vezes, em nossa cultura, ouvimos frases como “deixa de ser criança”, “você não é mais criança”, como se elas representassem tão somente a imaturidade e a inocência. Durante sua viagem, o príncipe encontra adultos que viraram reféns de uma vida rasa, superficial, repleta de suas mais absurdas ambições. Em quase todos os asteroides, elas são sozinhas, como ele próprio diz: “As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. Fechamo-nos, caro leitor, em nossos mundinhos particulares que, como os asteroides visitados, não têm espaço para mais ninguém.

                A criança representa o encantamento pela vida, em suas manifestações mais simples, mantendo sua sensibilidade aberta ao espetáculo da existência. Como também podemos encontrar na fala da raposa: “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Muitos perderam esse olhar e seguem não mais vivendo, apenas existindo. E por que não dizer que alguns “vegetam” por aí, como pepinos ambulantes? Muitos, com medo de sair da sua zona de conforto, trancaram (infelizmente) a porta do seu coração porque “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas esquece sempre os benefícios de um amor sincero e pleno. Sabemos que certas experiências acabam nos deixando marcas profundas, verdadeiras cicatrizes emocionais, porém o sábio principezinho nos lembra de que “é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou”. As crianças também sofrem, mas se abrem a novas vivências. E o que as move? Acredito que a esperança ou até mesmo a confiança de que tudo pode ser diferente. Talvez, quando nos tornamos adultos, parece que perdemos essa insistência (que às vezes até nos irrita) que a criança tem para conseguir o que quer. Acho que passamos a desistir de nossos sonhos muito mais facilmente. “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”. Falta-nos a paciência (do adulto) e a expectativa (da criança). Passamos, então, a buscar o caminho mais fácil para tudo, esquecendo-nos de que a recompensa é proporcional ao tamanho do desafio.

                Poderia aqui citar ainda uma imensidade de trechos dessa fantástica obra que fala ao coração do homem e que busca encontrar, lá dentro, uma centelha daquela criança que ele já foi. Não, caro leitor, jamais retornaremos àquela doce inocência. Isso é um preço pago por atingir a maturidade. Entretanto, o encanto pela vida e o verdadeiro valor das coisas que realmente importam para se poder viver de verdade, esse ainda pode ser resgatado. Que possamos olhar o mundo com a responsabilidade do adulto, todavia sem perder, jamais, o encantamento da criança. Que possamos aprender mais com elas, com seu jeito simples de enxergar a vida e de dar sentido a ela, terminando com um trecho de um poema de William Wordsworth: “Meu coração salta quando vejo / Um arco-íris no céu: / Assim era quando minha vida começou; / Assim é agora que sou um homem; / Assim seja quando eu envelhecer, / Ou me deixe morrer! / A Criança é pai do Homem”. Até a próxima.

 SAINT-EXUPÉRY. Antoine. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.    


terça-feira, 7 de abril de 2026

A EPIDEMIA DA DESIGUALDADE SOCIAL

Crédito: Petit Gervais (PYCRIL) 

 “Ensine aos ignorantes tanto quanto puder; a sociedade é culpada por não prover educação universal gratuita, e deve responder pela escuridão que produz. Se uma alma é deixada na escuridão, pecados serão cometidos. E a responsabilidade não é de quem comete o pecado, mas daqueles que causam a escuridão.”

                 Saudações, caro leitor. Espero que esteja preparado para mais uma jornada cheia de empolgação e agradáveis surpresas (porque as desagradáveis a vida já cuida de nos oferecer cotidianamente). Falando em viagem, deixemos a Inglaterra, novamente, mas não iremos muito longe desta vez, pois vamos nos dirigir às imediações, mais precisamente à nação francesa, no ano de 1862, porém, como já é de praxe, daí pegaremos o túnel do tempo para nos encontrarmos em 1815, período após a Revolução Francesa. É, caro amigo, como você já deve ter imaginado: hoje faremos um passeio histórico. Para tanto, vou dar o seguinte conselho: dar às costas à História é como ignorar as advertências da própria mãe e, depois, ter que ouvir da mesma, a velha frase: “eu bem que te avisei”. Vamos, então, acessar a nossa playlist para viagens, desta vez ouvindo o Hino Nacional da França, também conhecido como “A Marselhesa”, composto inclusive como uma canção revolucionária, em 1792.

                Em meio aos turbulentos acontecimentos diretamente derivados da citada revolução, encontraremos nosso protagonista, Jean Valjean, um homem de bom coração que ficou órfão ainda bem pequeno e que acaba sendo criado pela irmã mais velha. O tempo passa e quando a irmã, agora com sete filhos, fica viúva, Valjean se põe a ajudar a família como pode. Mas, para piorar a situação, ele perde seu emprego, única fonte de sustento para todos eles. A situação de sua família não se trata de uma exceção, porém quase uma regra da normalidade. O país vive um quadro de desigualdade medonho. No extremo da necessidade, sem qualquer tostão no bolso, Valjean acaba por furtar um pão, contudo é pego e condenado por seu crime a realizar trabalhos forçados (fico me perguntando quanto tempo seria necessário para pagar um simples e mísero pão). Ao tentar fugir de tal condição, recebe como punição uma pena de dezenove anos, os quais são rigorosamente cumpridos, e ele enfim é solto. Só que tem que carregar com ele uma folha amarela, que deve apresentar como sua identidade a todo lugar, como se fosse marcado com um selo de ex-detento.

                Mesmo após pagar (e muito caro, diga-se de passagem) por seu delito, esse homem vive uma vida de medo, pois o passado o persegue, como se ele não tivesse quitado a sua dívida com a sociedade. Não importa o que ele faça daqui em diante, o seu passado para sempre o condenará e todos continuarão vendo-o tal qual um marginal qualquer. Isso o faz mudar de nome, como se bastasse para remover dele a marca que lhe fizeram. Nosso herói tenta, de toda forma, tornar-se uma pessoa melhor, deparando-se sempre com a miséria e a injustiça em seu caminho, fora o fantasma do passado, que insiste em bater à sua porta constantemente. Vai trabalhar em uma fábrica, acaba solidarizando-se com a situação precária de outras pessoas e tenta buscar um espaço nesse mundo, que tem muita dificuldade em aceitá-lo, uma sociedade que prefere punir a orientar, aproveitando-se de uma frase do filósofo Foucault em seu livro Vigiar e punir: “As prisões não diminuem a taxa de criminalidade: pode-se aumentá-las, multiplicá-las ou transformá-las, a quantidade de crimes e de criminosos permanece estável, ou, ainda pior, aumenta (...) a prisão, consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos”. O que a prisão contribuiu para a transformação de Valjean, caro leitor? Definitivamente nada.

                Nesta nossa viagem de hoje, ficam-me duas conclusões que perpassam o caráter atemporal dessa obra-prima de Victor Hugo (quantos que não têm esse nome mal o sabem que é em homenagem a esse vulto da literatura universal). “Os miseráveis” nos mostra, primeiro, uma sociedade desigual por culpa de um Estado que não cumpre o seu papel básico: governar para o povo. E quando digo: povo, caro leitor, não é de forma específica não (quero avisar que não sou populista), é genérica mesmo: isso quer dizer todas as pessoas, sem qualquer tipo de exclusão. É garantir a todo mundo: educação, saúde, saneamento, prerrogativas que, em nosso país, ainda são vistas como certo privilégio, não como direitos irrevogáveis do ser humano. Para que ninguém fique confuso, quero esclarecer que não falo de assistencialismo, como quem joga uma moeda a um pedinte. Não, caro leitor, falo de direitos que estão previstos como retorno dos onerosos tributos que pagamos todos os anos. Nosso Estado adora falar de deveres em suas leis, mas nossos direitos estão sendo cada vez menos garantidos. Também não pense que estou falando deste ou daquele governo, mas de todos eles.

                Em segundo, toca-me fundo a questão da justiça. Agora, como diziam os antigos para que “não se confunda alhos com bugalhos” desejo deixar claro que não sou a favor da impunidade. De forma alguma. Veja o que essa besta feroz tem provocado em nossa sociedade com o passar dos tempos. Apenas acho que nossos sistemas judiciário e prisional não funcionam há muito tempo (na verdade não sei se já tiveram êxito real). Prendem-se, numa mesma cela, um ladrão de galinhas e um homicida. Qual a perspectiva de melhora? Mas aí alguém me diz que eles devem ser isolados do convívio da sociedade. E eu vos pergunto: quantos presídios mais precisaremos construir? Eles mal são inaugurados e já sofrem de superlotação. Você não acha que tem algo de errado com o sistema? Não se fala em recuperação, só em punição. Acontece que tal método não tem diminuído o número de infrações.

                Há tempos se encontra em voga, em nossa sociedade, a palavra meritocracia. Confesso que acho um tanto quanto complicado levar a isso a sério em uma sociedade como a nossa, na qual se constroem mais cadeias que escolas, em que o custo de um único preso daria para manter três alunos. Em que o dinheiro pode pagar por profissionais mais gabaritados e experientes, como podemos concluir facilmente pelos grandes julgamentos e processo envolvendo grandes montantes. Como diria o escritor latino Ovídio, para aquele momento erudito de nossa coluna, em que posso tirar um pouco da ferrugem do meu latim: “Cura pauperibus clausa est” (O tribunal está fechado para os pobres). Novamente, quero fazer-me entender que não estou dizendo que a justiça é comprada (se bem que há certos casos), contudo que ambas as partes não possuem os mesmos recursos. Se isto não for desigualdade, o que seria? E, se existe desigualdade, portanto, ocorre injustiça.

                Chegando ao fim de nossa viagem, amante que sou da cultura popular (cabe lembrar que tal nomenclatura não a classifica como inferior à clássica) quero traduzir a frase do célebre Ovídio para a sabedoria popular por meio dos versos de uma música sertaneja: “Eta, espinheira danada / Que o pobre atravessa pra sobreviver / Vive com a carga nas costas / E as dores que sente não pode dizer / Sonha com as belas promessas / Da gente importante que tem ao redor / Quando entrar o fulano / Sair o ciclano será bem melhor / Mas entra ano e sai ano / E o tal de fulano ainda é pior / Esse é meu cotidiano / Mas eu não me dano pois Deus é maior”. Caro leitor, termino a viagem de hoje desejando que a fé e a razão nos guiem a uma sociedade mais justa e mais coerente. Até a próxima.

HUGO, Victor Marie. Os miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2014.

RETORNO

Crédito: Rodrigo Menezes (PEXELS) Retorna novamente, querida, Espero desde sempre Ansioso pela ausência. Nosso lar aguarda tua chegada Fui s...