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| Crédito: Thais Melo (Deviant Art) |
“Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia.”
De todas as
nossas viagens, não será essa a primeira vez que iremos adentrar a uma história
de amor como núcleo de um romance, porém, desta vez, garanto-lhes que o
Romantismo poderá ser visto em sua forma mais densa e tensa, superando até
mesmo a história do pobre jovem Werther. Se algum leitor desavisado estiver
pensando que estará diante de “uma historinha água com açúcar”, que servem para
trazer estereótipo ao mundo romântico, garanto que irá se arrepender (pode
trocar pelo verbo surpreender se achar o termo um pouco agressivo). Mas,
comecemos então com o fato gerador do conflito que é quando o senhor Earnshaw
retorna de uma das suas viagens trazendo consigo um menino, um órfão que será
criado junto aos seus filhos: Catherine e Hindley. Enquanto o menino, vê, no
recém-chegado, um rival que irá disputar e até mesmo roubar a atenção de seus
familiares; a irmã afeiçoa-se a ele de imediato. Essas duas relações, pautadas
no amor e no ódio, intensificam-se com o tempo. Os dois apaixonam-se
perdidamente (eis aí nosso par romântico), mas, com a morte do casal Earnshaw,
Hindley passa a ser o verdadeiro dono de tudo e, passa a despejar todo o seu
desprezo pelo irmão adotivo, sujeitando-o aos mais humilhantes serviços, além
de privá-lo de ver a irmã (aqui entra o clássico obstáculo ao amor). Heathcliff
passa da condição de filho a servo, mas ainda suporta muitas coisas por
Catherine.
Esta, por
questões estritamente financeiras, acaba por arranjar matrimônio com um homem
de posição social bem melhor que o irmão, o que acaba por piorar o seu jeito,
agora muito amargurado e rude, como consequência pelo tratamento que recebe.
Após a notícia do casamento de Catherine, ele não tem mais motivos para
permanecer onde está, decidindo partir pelo mundo afora. Mais tarde, contudo,
ele retorna, como um homem rico e bem sucedido, em outras condições sociais e
motivado por um único desejo: vingar-se daqueles que o privaram de seu final
feliz com Catherine. Heathcliff não encontrará limites para satisfazer esse seu
capricho, colocando o irmão adotivo (Hindley) e o marido dela, seu rival
(Edgar) como alvos permanentes em sua sede de vingança. Se o caro leitor, ficar
ávido por mais detalhes ou informações, há apenas uma coisa a se fazer então:
ler o romance. Quanto a mim, paro por aqui, segundo aquele meu velho princípio
já exposto aqui: não revelar o final da trama. Asseguro a você que muitas
reviravoltas estão por vir nessa trama e que suas consequências terão efeitos
devastadores.
Caro leitor,
esse romance traz consigo uma infinidade de abordagens a respeito do amor.
Temos uma vasta quantidade de outros romances que o exploram. Lembrando que foi
assim que o gênero romance, tal como o conhecemos hoje, começou: tratando de
histórias de amor. Daí é comum encontrar a confusão que alguns leitores fazem
de que romance é, necessariamente uma história de amor. Mas isto é assunto para
as aulas de teoria literária, o que não é nosso caso no momento. Vemos, na
relação entre Heathcliff e Catherine, o encontro de dois mundos que, apesar de
grandes diferenças (ele, um menino sozinho no mundo; ela, uma menina cercada de
mimos), cultivam uma paixão a qual podemos classificar como correspondida.
Contudo, meu caro, o verdadeiro amor, aquele ao qual chamamos como absoluto,
como naquela canção da banda Legião Urbana, “Monte Castelo” que é uma união de
um soneto camoniano (belíssimo e famoso) com a primeira carta de São Paulo aos
Coríntios, capítulo 13, quando diz: “é só o amor que conhece o que é verdade”,
vai enfrentar, no mundo, os mais diversos adversários que, de antemão, já
entendemos que são totalmente opostos a ele.
De um lado,
temos Catherine e a questão do interesse, por tratar-se exclusivamente do
aspecto econômico, transformando esse sentimento em um balcão de negócios como
se pode ver no romance “Senhora” de José de Alencar. Entretanto, cabe aqui
lembrar que existem muitos outros interesses em jogo que sempre acabam por
jogar o amor para escanteio, como dizem os antigos, ou ainda, retirá-lo da
lista de prioridades. Além do dinheiro, podemos citar o poder, a fama, o
sucesso, o narcisismo e tantos mais. Não é à toa que os primeiros autores
usavam os obstáculos ao amor genuíno como causadores de conflitos. É uma fonte
inesgotável de recursos. Pode observar por aí. Como diria Artur da Távola:
“Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros.”
Ah, caríssimo, amar pressupõe renúncia. Aí está a grande dificuldade do homem,
que só deseja angariar, conquistar. Ceder é algo bem mais custoso. Quantos
“amores” cada um de nós carrega em seu peito? Quantos deles não são apenas
desejos disfarçados do mais puro e nobre sentimento? Faltam-nos respostas. E
por quê? Pelo simples medo, muitas vezes, de se fazer a pergunta correta. Pois
certas respostas exigem, de nós, antes de tudo, compromisso.
Por outro
lado, temos Heathcliff, um homem cujo amor lhe fora negado. Esta perda traz a
ele uma enorme amargura acerca da vida. Apesar de vencer socialmente e
financeiramente, contra todas as expectativas que se tinha dele, o fato de um
amor malogrado e não mais correspondido, gerou em seu coração um sentimento de
ódio que só poderia ter como amargo fruto o desejo de vingança. Nós, caro
leitor, já vimos em uma dessas nossas viagens, em companhia do capitão Ahab,
que a vingança tem um poder destrutivo ilimitável e que acaba por consumir
todos a sua volta, porque ela facilmente foge ao controle de qualquer um, tal
qual um animal cuja natureza selvagem não pode ser domada. É claro que ele tem
a ver com a obsessão, que se traduz em um apego exagerado por algo. Isso nos
faz questionar quais eram os reais sentimentos de Heathcliff por Catherine.
Quantas relações não encontramos por aí, chamadas de amor, mas que não passam
de desejos doentios, de posse, de domínio, de exclusividade? Relações que fogem
totalmente ao controle, chegando a gerar tragédias como as dos livros?
Camões, no
soneto citado usado para compor a canção, tenta descrever, de forma racional, o
sentimento amoroso, como no trecho: “Mas como causar pode seu favor / nos
corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor.” Não há
palavra, talvez melhor, para caracterizar o amor como a palavra
“contraditório”. Ele nos mostra diversas fases e faces o tempo todo. Diante
disso, bastaria então a cada um de nós evitá-lo para nos pouparmos de grandes
danos, e tudo estaria resolvido, não é? Ah, fosse assim tão fácil, diria ainda
outro poeta português, Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma
covardia portanto, e uma traição a nós próprios.” Temos de reconhecer que não
parece ser tão simples assim. Alguns dizem: “mas deveria ser” e eu vos digo:
“mas não é”. Sigamos nós, caro leitor, todos nós (sem exceção) navegando neste
mar de sentimentos, ora à deriva (à espera de um resgate), ora com as duas mãos
firmes no leme. No entanto, entre todas essas faces, fico ainda com mais um
trecho da mesma música em que se diz: “Ainda que eu falasse a língua dos homens
/ E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria”. Que o bom e velho amor
nos conduza. Até a próxima.
BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. São Paulo: Atlantis, 2026.

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