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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A INTERMINÁVEL BUSCA PELA PERFEIÇÃO

Crédito: Wikimedia Commons
 

“Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”

                 Saudações literárias, nobre leitor! Cá estamos nós, prontos para mais uma viagem. Sim, meu caro, essa é a palavra ideal para descrever a literatura: viagem. Ela pode acontecer das mais diversas formas (e acontece mesmo), rompendo os limites de tempo e espaço, porque, para a criatividade humana, não existem fronteiras. Agraciados por essa magia, vamos, agora, partir do deserto do Saara, após uma busca pela nossa criança interior, em uma jornada (talvez) ainda maior, pois esse negócio de ficar comparando, querido leitor, é uma tarefa, às vezes, bem arriscada. E por que falar de riscos? Porque eles vêm bem a calhar na nossa história de hoje. Para aqueles leitores amigos ou amigos leitores (pois essa permuta de ordem daria uma bela aula de posições entre substantivo e adjetivo no discurso) que me cobraram, na semana passada, por uma trilha sonora – digna de O pequeno príncipe – a qual não fui capaz de encontrar, hoje tento corrigir minha incapacidade, acionando aquela nossa “playlist” com a canção “Be” na voz de ninguém mais ninguém menos que Neil Diamond para o filme de Fernão Capelo Gaivota, inclusive recomendo ao leitor que, mais tarde (pelo amor de Deus, leia o texto primeiro) assista ao clip, recheado de inspiradoras imagens e coroado com uma tradução que mostra o teor dessa música. Agora, deixemos de conversa e partamos.

                O ano é 1970 e a praia é uma praia qualquer, seja dos Estados Unidos, lar do autor, ou de qualquer lugar do mundo. Cá entre nós, temos as mais belas paisagens à beira-mar para usar como pano de fundo. Lá encontraremos uma gaivota. Isso mesmo, meu caro, eis o nosso protagonista do dia: um pássaro. Para que se possa compreender aonde quero chegar, é importante que se saiba que a gaivota é uma ave aquática encontrada em quase todo o mundo, que vive em bando e usa a beira do mar para sua alimentação, portanto, uma ave tida como comum. Entre um bando encontra-se Fernão, tido como estranho pelos demais. Por quê? Porque ele pensa diferente deles. Nosso herói recusa-se a acreditar que a vida seja apenas voar para pegar o alimento e retornar para a praia, dia após dia, por toda a sua existência. Deve haver algo mais que isso. Ele passa a explorar, então, a capacidade de voar, fazendo diversas experiências de voo, com manobras ousadas e tudo mais. Por certas vezes, ele fracassa, pois, não podemos nos esquecer, Fernão está imerso em um aprendizado e, existem erros com os quais se pode aprender.

                Por causa de seu comportamento “esquisito”, o que torna sua postura inadmissível para com a sociedade da qual faz parte, ele é expulso do bando, banido, condenado a viver sozinho. Fernão continua suas tentativas, até que encontra duas outras gaivotas, diferentes daquelas que via em seu bando. Essas, como ele, também têm a paixão por voar e o desejo de superar seus limites. Elas pedem que ele as siga. Após algumas aulas, Fernão transcende a outra dimensão na qual todas as gaivotas partilham o desejo por voar com excelência. Após muitos ensinamentos, ele tem como missão a de voltar para a realidade e tentar guiar outros que, como ele, sonham em evoluir nessa existência. De aluno, ele deverá passar a professor, porém, uma das grandes lições de seu mestre: somente o amor e o perdão podem trazer a liberdade que ele tanto busca.

                Caro leitor, já diz o velho ditado: “não se julga um livro pela capa”. Pois bem, à primeira vista, parece tratar-se de uma simples obra, levando alguns a pensar: “o que pode haver de tão profundo e revelador no enredo em que uma gaivota deseja voar melhor?” Ah, não caia nessa armadilha. Como diria o próprio autor nessa narrativa: “Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento.” É uma história sobre autoconhecimento. Sobre limites e desafios. Nesse momento peço encarecidamente (suplico, se for preciso) que não o confunda com um livro de autoajuda. Não, caro leitor, é muito mais que isso: trata-se, entre tantas coisas, de se perseguir um sonho. Quantos por aí não perderam essa humana capacidade, não é? Como nos versos de Cecília Meireles: “Permite que eu volte o meu rosto / para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho / como as estrelas no seu rumo.”, Fernão não se contenta com a realidade que se apresenta a ele e parte em busca de seus anseios. Claro que isso o tornará diferente dos demais, o que costuma ser motivo de exclusão em nossa sociedade, pois, na verdade, como na música dos mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito louco por eu ser feliz”, muitas vezes o que não se enquadra no padrão da sociedade, fica à sua margem.

                O livro fala sobre a vida como um eterno aprendizado, como quando o protagonista diz aos seus pares: “Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Sim, caro leitor, há tanta coisa para se saber nessa nossa longa estrada e, por tantas vezes, contentamo-nos com tão pouco, sem falar naqueles que acabam achando que já sabem de tudo. Quanta pobreza de espírito! E, falando em espírito, enxergo esse livro como uma verdadeira jornada espiritual, uma aprendizagem que supera em muito as necessidades materiais que, segundo o próprio protagonista, prendem e sequestram o nosso verdadeiro entendimento das coisas. Uma das frases mais célebres desse livro: “Enxerga mais longe a gaivota que voa mais alto”, refere-se justamente a essa busca pelo conhecimento. Se em minha primeira leitura, que se deu aos meus quinze anos de idade, eu procurava entender o que esse tal Fernão buscava, hoje, após mais algumas leituras, só tenho uma resposta: evolução. Porque, como adulto que hoje sou, entendo que a perfeição talvez jamais seja alcançada, contudo, quem a busca incansavelmente, com certeza, adquire uma evolução constante.

                Por último, porém não menos importante, o livro trata de uma relação com o sagrado, como algo ao qual se tem acesso, sem a mínima preocupação de uma definição ritualística ou se nomear uma religião, porque Deus está acessível a todos, é Ele a verdadeira perfeição. Na busca por sua liberdade (que aqui modestamente entendo como o abandono dos velhos conceitos e rótulos), Fernão aprende o papel do amor e do perdão: jamais se entende o outro por meio de julgamentos e reações impulsivas: “Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. Que possamos, caro leitor, libertar-nos  de toda a mediocridade que nos aprisiona, de todo pensamento que nos apequena, que busquemos tirar os pés da areia e alçar grandes voos. Há tanto azul sobre nós, pronto a ser desbravado, que ampliemos o nosso olhar, percorramos grandes distâncias, buscando, sempre, nada mais que conhecer a nós mesmos. Que possamos dar o melhor de nós, terminando com aqueles mágicos versos de Fernando Pessoa pelo heterônimo Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”. Até a próxima!

BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. São Paulo: Record, 2017.


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