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| Crédito: Wikimedia Commons |
“Mil vidas,
Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma
coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o
nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”
O
ano é 1970 e a praia é uma praia qualquer, seja dos Estados Unidos, lar do
autor, ou de qualquer lugar do mundo. Cá entre nós, temos as mais belas paisagens
à beira-mar para usar como pano de fundo. Lá encontraremos uma gaivota. Isso
mesmo, meu caro, eis o nosso protagonista do dia: um pássaro. Para que se possa
compreender aonde quero chegar, é importante que se saiba que a gaivota é uma
ave aquática encontrada em quase todo o mundo, que vive em bando e usa a beira
do mar para sua alimentação, portanto, uma ave tida como comum. Entre um bando
encontra-se Fernão, tido como estranho pelos demais. Por quê? Porque ele pensa
diferente deles. Nosso herói recusa-se a acreditar que a vida seja apenas voar
para pegar o alimento e retornar para a praia, dia após dia, por toda a sua
existência. Deve haver algo mais que isso. Ele passa a explorar, então, a
capacidade de voar, fazendo diversas experiências de voo, com manobras ousadas
e tudo mais. Por certas vezes, ele fracassa, pois, não podemos nos esquecer,
Fernão está imerso em um aprendizado e, existem erros com os quais se pode
aprender.
Por
causa de seu comportamento “esquisito”, o que torna sua postura inadmissível
para com a sociedade da qual faz parte, ele é expulso do bando, banido,
condenado a viver sozinho. Fernão continua suas tentativas, até que encontra
duas outras gaivotas, diferentes daquelas que via em seu bando. Essas, como
ele, também têm a paixão por voar e o desejo de superar seus limites. Elas
pedem que ele as siga. Após algumas aulas, Fernão transcende a outra dimensão
na qual todas as gaivotas partilham o desejo por voar com excelência. Após
muitos ensinamentos, ele tem como missão a de voltar para a realidade e tentar
guiar outros que, como ele, sonham em evoluir nessa existência. De aluno, ele
deverá passar a professor, porém, uma das grandes lições de seu mestre: somente
o amor e o perdão podem trazer a liberdade que ele tanto busca.
Caro
leitor, já diz o velho ditado: “não se julga um livro pela capa”. Pois bem, à
primeira vista, parece tratar-se de uma simples obra, levando alguns a pensar:
“o que pode haver de tão profundo e revelador no enredo em que uma gaivota
deseja voar melhor?” Ah, não caia nessa armadilha. Como diria o próprio autor
nessa narrativa: “Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que
mostram é limitação. Olhe com o entendimento.” É uma história sobre
autoconhecimento. Sobre limites e desafios. Nesse momento peço encarecidamente
(suplico, se for preciso) que não o confunda com um livro de autoajuda. Não,
caro leitor, é muito mais que isso: trata-se, entre tantas coisas, de se
perseguir um sonho. Quantos por aí não perderam essa humana capacidade, não é?
Como nos versos de Cecília Meireles: “Permite que eu volte o meu rosto / para
um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho / como as estrelas
no seu rumo.”, Fernão não se contenta com a realidade que se apresenta a ele e
parte em busca de seus anseios. Claro que isso o tornará diferente dos demais,
o que costuma ser motivo de exclusão em nossa sociedade, pois, na verdade, como
na música dos mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito
louco por eu ser feliz”, muitas vezes o que não se enquadra no padrão da
sociedade, fica à sua margem.
O
livro fala sobre a vida como um eterno aprendizado, como quando o protagonista
diz aos seus pares: “Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que
passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do
que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Sim,
caro leitor, há tanta coisa para se saber nessa nossa longa estrada e, por
tantas vezes, contentamo-nos com tão pouco, sem falar naqueles que acabam
achando que já sabem de tudo. Quanta pobreza de espírito! E, falando em
espírito, enxergo esse livro como uma verdadeira jornada espiritual, uma
aprendizagem que supera em muito as necessidades materiais que, segundo o
próprio protagonista, prendem e sequestram o nosso verdadeiro entendimento das
coisas. Uma das frases mais célebres desse livro: “Enxerga mais longe a
gaivota que voa mais alto”, refere-se justamente a essa busca pelo
conhecimento. Se em minha primeira leitura, que se deu aos meus quinze anos de
idade, eu procurava entender o que esse tal Fernão buscava, hoje, após mais
algumas leituras, só tenho uma resposta: evolução. Porque, como adulto que hoje
sou, entendo que a perfeição talvez jamais seja alcançada, contudo, quem a
busca incansavelmente, com certeza, adquire uma evolução constante.
Por
último, porém não menos importante, o livro trata de uma relação com o sagrado,
como algo ao qual se tem acesso, sem a mínima preocupação de uma definição
ritualística ou se nomear uma religião, porque Deus está acessível a todos, é
Ele a verdadeira perfeição. Na busca por sua liberdade (que aqui modestamente
entendo como o abandono dos velhos conceitos e rótulos), Fernão aprende o papel
do amor e do perdão: jamais se entende o outro por meio de julgamentos e
reações impulsivas: “Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as
razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o
pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. Que possamos, caro
leitor, libertar-nos de toda a
mediocridade que nos aprisiona, de todo pensamento que nos apequena, que
busquemos tirar os pés da areia e alçar grandes voos. Há tanto azul sobre nós,
pronto a ser desbravado, que ampliemos o nosso olhar, percorramos grandes
distâncias, buscando, sempre, nada mais que conhecer a nós mesmos. Que possamos
dar o melhor de nós, terminando com aqueles mágicos versos de Fernando Pessoa
pelo heterônimo Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera
ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. /
Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”. Até a próxima!
BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. São Paulo: Record, 2017.

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