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| Crédito: Lawrence OP (Flickr) |
“Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso.”
Nossa
história de hoje começa com um advogado, Sr. Utterson, que recebe um relato de
um parente seu sobre uma estranha pessoa de nome Mr. Hyde. Dias depois, o
advogado acaba tendo um encontro inesperado com a misteriosa personagem e tem a
sua atenção chamada para o fato de lembrar que o mesmo é o herdeiro de seu
cliente e amigo, Dr. Jekyll, por meio de um testamento. Em um jantar, o
advogado busca questionar o amigo sobre a natureza da relação entre ambos, mas
ele apenas lhe responde que está tudo sobre controle. Um ano após isso, Hyde é
acusado de espancar um homem até a morte. Para espanto de Utterson, a arma do
crime é uma bengala que ele havia dado de presente a Jekyll.
A
este fato seguem-se outros tanto estranhos, sempre envolvendo a pessoa de Hyde
e, cada vez mais, o advogado sente-se envolvido pelo mistério que cerca a
relação entre esse maligno ser e seu amigo gentil e benevolente. Por meio de uma
carta, escrita pelo próprio cientista, acaba por descobrir que ele estava
desenvolvendo uma poção com a qual conseguia separar o seu lado bom de seu lado
mau. Ao fazer isso, transformava-se em um sujeito sem qualquer principio moral.
Tal poção tinha um efeito reversível, durando, portanto, apenas algumas horas.
Sob o efeito da mesma, o cientista gozava de uma liberdade e ausência de
consciência que lhe forneciam um prazer inexplicável. Mas, como em boa parte
das experiências humanas, o bom doutor perdeu o controle que acreditava piamente
ser permanente sobre a tal transformação. O caro leitor já deve imaginar que a
partir de então haverá uma série de consequências. Sim. Posso afirmar que as
mais drásticas possíveis. Aqui usarei uma daquelas frases bem clichês: a
criatura vira-se contra seu criador. E aí você me pergunta: como isso tudo
termina? E eu vos respondo: só lendo para saber. Se acaso, ainda não leu essa
obra, não ceda à tentação de buscar por um resumo na internet. Vá até a fonte,
beba da obra, tão significativa, seja naquele momento ou nos tempos atuais.
A
obra de Robert Louis Stevenson já influenciou muitas gerações (por isso se
trata de um clássico) por meio das mais variadas adaptações em livros, peças
teatrais, animações, filmes e canções, com destaque para a música “Dr. Heckyll
and Mr. Jive” da banda australiana Men at Work, que fez sucesso nos anos 80 e
que se refere muito bem a sua obsessão, sua crença cega na ciência e na questão
de ser cobaia de seu próprio experimento. Vale a pena ouvir. Mas, o que ela nos
traz? Ah, caro leitor, aquela velha discussão a respeito do bem e do mal. E aí,
precisamos falar um pouco do maniqueísmo, uma doutrina religiosa propagada por
Maniqueu (Pérsia, séc. III) a qual definia o mundo como dividido entre duas
forças antagônicas (bem e mal) personificadas como Deus e o Diabo e
simbolizadas pela luz e a escuridão. Essa doutrina foi tão intensa que até hoje
perdura em diversas novelas, filmes, animações e outros produtos de cultura,
que buscam simplificar a vida como um conflito entre os dois opostos. Assim
sendo, parte-se do ponto de vista simplista de que os seres são divididos nesses
dois grupos, de uma forma puramente absoluta: ou você é bom ou mau. Pronto! É
impressionante ver o quanto muitos ainda se apropriam desse discurso nos
âmbitos social, religioso, político. Essa ideia ainda rotula pessoas, culturas,
ideologias e por aí vai.
Entretanto,
para o nosso benefício (eu tinha escrito “sorte”), eis que sopra o vento da
mudança. Gostaria de começar com o fantástico Guimarães Rosa, que nos diz: “Querer
o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o
mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o
concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Esse
grande escritor brasileiro dispensa o maniqueísmo em seus contos, ao abordar,
de maneira categórica, que o bem e o mal vivem dentro do mesmo homem, em
personagens como Augusto Matraga. Neste contexto de seriados que nos invadiram,
é grande a tendência de questionamento deste simplismo em séries que envolvem
heróis e que mostram que a justiça e a vingança, por exemplo, possuem uma
fronteira muito tênue, e que essa questão não é assim tão clara como se parece.
Assim como a lua que brilha alta no céu (sou apaixonado por ela), todos temos o
nosso lado obscuro, as nossas pequenas mazelas humanas, pois assim somos nós,
caro leitor. Faz parte de nossa natureza.
Sei
que muitos preferem negar essa realidade. Só que fugir não adianta. Somos seres
falíveis, feitos de virtudes e defeitos. Quando o Cristo (exemplo de homem
sábio e sensato) disse à turba dos moralistas: “Quem não tiver pecado, atire a
primeira pedra”, sabia que, muitos de nós, jogam pedras esquecendo-se de que
possuem telhado de vidro. Vivemos em pleno conflito porque nossa alma é um
dualismo de forças e vontades. Jekyll quis escapar a esse conflito. Impossível,
caro leitor. É ele que nos faz crescer. Não adianta “tentar tapar o sol com a
peneira” ou “varrer a sujeira para baixo do tapete” como dizem os antigos. O
que fazer? Só há um caminho: enfrentar o problema. Pronto. Tomar consciência e
buscar a estratégia adequada. Mas há uma condição maior que todas: querer mudar,
todavia nós aqui sabemos que a mudança é um processo doloroso. Claro que essa
discussão a respeito da natureza do bem e do mal, por não ser absoluta, daria
infindáveis questionamentos filosóficos, fazendo-nos pensar, afinal de contas,
o que é o bem e o que é o mal. Com um pouco de senso, poderemos perceber que
nossas possíveis respostas estão fadadas a mergulharem no mais completo
subjetivismo.
Talvez,
meu caro leitor, seja essa a resposta mais difícil de se dar a si mesmo, entre
todas que já passaram por nossas viagens. Penso eu, às vezes, que ela possa até
nem existir. Quem me garante? Nem sempre encontramos as respostas que desejamos
ou como queremos. Termino essa nossa viagem de hoje, com mais perguntas do que
respostas, mas que isso não o desanime. Não há problema algum em não saber, mas
sim em achar que se sabe, como diz a bela canção de Almir Sater: “Hoje me sinto
mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei
/ Ou nada sei.” Até a próxima.
STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de
Janeiro: Antofágica, 2022.

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