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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O BEM E O MAL QUE HABITAM A MESMA CASA

Crédito: Lawrence OP (Flickr)

 “Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso.”

                 Bendita seja a sua presença, caro leitor! É com o coração tomado de satisfação que mais um dia o recebo aqui nesse espaço literário. Espero que esteja pronto para mais esta viagem. Nada melhor que uma grande jornada para o interior do próprio ser humano. Sem querer ser redundante, mas seguimos o nosso caminho provando, incansavelmente, que a literatura é uma ficção que nos mergulha na realidade. Aproveitando a nossa viagem à Inglaterra, vamos nos deslocar dos morros de Yorkshire para a velha e conhecida Londres, no ano de 1886. Vamos acessar nossa “playlist” com a Sonata no. 2 Op. 1 de Giuseppe Tartini (compositor do século XVII), chamada de “Trilos do diabo” que, segundo depoimentos, fora resultado de sugestão em um sonho, sugestão essa feita pelo próprio diabo ao compositor, o que chega a ser um grande contraste com a beleza da melodia.

                Nossa história de hoje começa com um advogado, Sr. Utterson, que recebe um relato de um parente seu sobre uma estranha pessoa de nome Mr. Hyde. Dias depois, o advogado acaba tendo um encontro inesperado com a misteriosa personagem e tem a sua atenção chamada para o fato de lembrar que o mesmo é o herdeiro de seu cliente e amigo, Dr. Jekyll, por meio de um testamento. Em um jantar, o advogado busca questionar o amigo sobre a natureza da relação entre ambos, mas ele apenas lhe responde que está tudo sobre controle. Um ano após isso, Hyde é acusado de espancar um homem até a morte. Para espanto de Utterson, a arma do crime é uma bengala que ele havia dado de presente a Jekyll.

                A este fato seguem-se outros tanto estranhos, sempre envolvendo a pessoa de Hyde e, cada vez mais, o advogado sente-se envolvido pelo mistério que cerca a relação entre esse maligno ser e seu amigo gentil e benevolente. Por meio de uma carta, escrita pelo próprio cientista, acaba por descobrir que ele estava desenvolvendo uma poção com a qual conseguia separar o seu lado bom de seu lado mau. Ao fazer isso, transformava-se em um sujeito sem qualquer principio moral. Tal poção tinha um efeito reversível, durando, portanto, apenas algumas horas. Sob o efeito da mesma, o cientista gozava de uma liberdade e ausência de consciência que lhe forneciam um prazer inexplicável. Mas, como em boa parte das experiências humanas, o bom doutor perdeu o controle que acreditava piamente ser permanente sobre a tal transformação. O caro leitor já deve imaginar que a partir de então haverá uma série de consequências. Sim. Posso afirmar que as mais drásticas possíveis. Aqui usarei uma daquelas frases bem clichês: a criatura vira-se contra seu criador. E aí você me pergunta: como isso tudo termina? E eu vos respondo: só lendo para saber. Se acaso, ainda não leu essa obra, não ceda à tentação de buscar por um resumo na internet. Vá até a fonte, beba da obra, tão significativa, seja naquele momento ou nos tempos atuais.

                A obra de Robert Louis Stevenson já influenciou muitas gerações (por isso se trata de um clássico) por meio das mais variadas adaptações em livros, peças teatrais, animações, filmes e canções, com destaque para a música “Dr. Heckyll and Mr. Jive” da banda australiana Men at Work, que fez sucesso nos anos 80 e que se refere muito bem a sua obsessão, sua crença cega na ciência e na questão de ser cobaia de seu próprio experimento. Vale a pena ouvir. Mas, o que ela nos traz? Ah, caro leitor, aquela velha discussão a respeito do bem e do mal. E aí, precisamos falar um pouco do maniqueísmo, uma doutrina religiosa propagada por Maniqueu (Pérsia, séc. III) a qual definia o mundo como dividido entre duas forças antagônicas (bem e mal) personificadas como Deus e o Diabo e simbolizadas pela luz e a escuridão. Essa doutrina foi tão intensa que até hoje perdura em diversas novelas, filmes, animações e outros produtos de cultura, que buscam simplificar a vida como um conflito entre os dois opostos. Assim sendo, parte-se do ponto de vista simplista de que os seres são divididos nesses dois grupos, de uma forma puramente absoluta: ou você é bom ou mau. Pronto! É impressionante ver o quanto muitos ainda se apropriam desse discurso nos âmbitos social, religioso, político. Essa ideia ainda rotula pessoas, culturas, ideologias e por aí vai.

                Entretanto, para o nosso benefício (eu tinha escrito “sorte”), eis que sopra o vento da mudança. Gostaria de começar com o fantástico Guimarães Rosa, que nos diz: “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Esse grande escritor brasileiro dispensa o maniqueísmo em seus contos, ao abordar, de maneira categórica, que o bem e o mal vivem dentro do mesmo homem, em personagens como Augusto Matraga. Neste contexto de seriados que nos invadiram, é grande a tendência de questionamento deste simplismo em séries que envolvem heróis e que mostram que a justiça e a vingança, por exemplo, possuem uma fronteira muito tênue, e que essa questão não é assim tão clara como se parece. Assim como a lua que brilha alta no céu (sou apaixonado por ela), todos temos o nosso lado obscuro, as nossas pequenas mazelas humanas, pois assim somos nós, caro leitor. Faz parte de nossa natureza.

                Sei que muitos preferem negar essa realidade. Só que fugir não adianta. Somos seres falíveis, feitos de virtudes e defeitos. Quando o Cristo (exemplo de homem sábio e sensato) disse à turba dos moralistas: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, sabia que, muitos de nós, jogam pedras esquecendo-se de que possuem telhado de vidro. Vivemos em pleno conflito porque nossa alma é um dualismo de forças e vontades. Jekyll quis escapar a esse conflito. Impossível, caro leitor. É ele que nos faz crescer. Não adianta “tentar tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para baixo do tapete” como dizem os antigos. O que fazer? Só há um caminho: enfrentar o problema. Pronto. Tomar consciência e buscar a estratégia adequada. Mas há uma condição maior que todas: querer mudar, todavia nós aqui sabemos que a mudança é um processo doloroso. Claro que essa discussão a respeito da natureza do bem e do mal, por não ser absoluta, daria infindáveis questionamentos filosóficos, fazendo-nos pensar, afinal de contas, o que é o bem e o que é o mal. Com um pouco de senso, poderemos perceber que nossas possíveis respostas estão fadadas a mergulharem no mais completo subjetivismo.

                Talvez, meu caro leitor, seja essa a resposta mais difícil de se dar a si mesmo, entre todas que já passaram por nossas viagens. Penso eu, às vezes, que ela possa até nem existir. Quem me garante? Nem sempre encontramos as respostas que desejamos ou como queremos. Termino essa nossa viagem de hoje, com mais perguntas do que respostas, mas que isso não o desanime. Não há problema algum em não saber, mas sim em achar que se sabe, como diz a bela canção de Almir Sater: “Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei.” Até a próxima.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de Janeiro: Antofágica, 2022.    

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