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| Foto cedida pelo autor |
Hoje, o nosso blog tem o prazer e a satisfação de receber o escritor Ronnaldo de Andrade. Vamos conhecê-lo um pouco:
Ronnaldo de Andrade nasceu na cidade Santa Maria do Cambucá, PE. No ano de 1997 chegou a São Paulo, onde reside ainda hoje. Tem uma filha, Brenda Lyn, é licenciado em Letras, contramestre de capoeira, revisor certificado pela Universidade do Livro; professor em escolas estaduais na capital paulista, tem livros de poesias e cordéis publicados, participação de diversas antologias poéticas. Sua obra mais recente é Laudelina de Campos Melo (mulher negra e empregada doméstica que criou o 1º Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Brasil), Editora Anita Garibaldi, 2024. É o criador da forma poética brasileira SPINA; organizou seis antologias nacionais do gênero, editou alguns livros de SPINAS de autores independentes, entre eles se encontra Reflexos da Alma (Editorial SPINA, 2025), que concorreu ao Prêmio Jabuti 2026. Para quem quiser saber mais e acompanhar seu trabalho: Ronnaldo de Andrade (Facebook), @ronnaldodeandradespina (Instagram)
Seja bem-vindo, Ronnaldo de Andrade, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário.
Agradeço, com muita satisfação, o convite e a acolhida, prezado Márcio Fabiano. É uma honra participar do quadro de entrevistas do Cosmo Literário e ter a oportunidade de compartilhar um pouco do meu trabalho literário. Espero que esta conversa seja proveitosa e desperte o interesse dos leitores.
Ronnaldo, você é graduado em letras, o que já demonstra uma ligação maior e mais intensa com a leitura e a escrita. Todas as atividades que você exerce hoje estão relacionadas a essa sua formação? Fale-nos um pouco sobre elas.
Todas as atividades que desenvolvo estão diretamente ligadas à minha formação em Letras. Curiosamente, meu primeiro interesse não foi a poesia. Eu queria ser compositor. Um amigo chegou a gravar três letras de minha autoria. Naquela época, eu não gostava de poesia. Para mim, era algo muito delicado, quase uma coisa de mulher (risos). Essa visão começou a mudar quando uma professora de Língua Portuguesa, Edete, pediu que os alunos levassem textos para que ela os corrigisse, sem compromisso. Resolvi mostrar algumas das minhas letras. Depois de lê-las, ela disse que aquilo era poesia. A partir desse dia, passou a me chamar de poeta, e confesso que isso me incomodava. Com o tempo, porém, fui compreendendo melhor o que significava ser poeta, ou, pelo menos, construindo o meu próprio entendimento sobre quem escreve poesia. A partir daí, deixei de rejeitar essa definição. Outro professor de Língua Portuguesa, Cláudio, também teve um papel importante na minha formação. Foi ele quem ampliou meu contato com grandes autores e despertou em mim um interesse mais profundo pela poesia, pelas formas poéticas e pelo fazer literário. Embora eu gostasse muito de matemática e tivesse nela minhas melhores notas, a influência desses dois professores foi decisiva para que eu escolhesse cursar Letras. Enfim, a leitura, a escrita e a pesquisa são a base de tudo o que faço. É na poesia que concentro meus maiores esforços, seja escrevendo, estudando algumas formas de composição ou organizando projetos editoriais. Acredito que a literatura transforma as pessoas e, por isso, procuro contribuir para que ela alcance cada vez mais leitores. Hoje atuo como poeta, pesquisador das formas poéticas e da criação literária, além de organizar antologias dedicadas à SPINA, forma poética que criei em 10 de dezembro de 2019.
Embora ligadas às letras, são atividades bem distintas entre si e que exigem muita dedicação. Visto que há muitas pessoas que alegam ter tantas boas ideias para colocar no papel, mas que lhes falta tempo para executar, como você faz para conciliar tantas obrigações e ainda encontrar um tempo para escrever?
Não acredito que seja apenas uma questão de tempo, mas de prioridade. Escrever faz parte de minha rotina, não uma atividade eventual nem uma obrigação. É um prazer que sinto. Escrever por obrigação, assim como ler, tira a satisfação de fazê-lo. Confesso que sou bem desorganizado com os meus textos e com o meu tempo, os momentos para leitura e escrita. Não produzo na quantidade que gostaria, mas mantenho a constância porque é satisfatório.
Pode-se observar, pela produção de suas obras, que você transita por mais de um gênero literário. O que o levou a escrever diferentes tipos? O que mais te chamou a atenção em cada um deles?
O que me levou a transitar por diferentes formas poéticas foi, acima de tudo, a curiosidade de compreender como cada uma delas é construída. Sempre me interessou conhecer sua estrutura, suas possibilidades expressivas e os desafios que propõe ao escritor. Meu primeiro contato com a poesia foi pelo cordel. Guardo a lembrança de minha mãe lendo para mim e para meu padrasto O Castelo Mal-Assombrado. Foi ali que nasceu meu interesse pela poesia. Ao longo da minha formação, alguns autores marcaram profundamente meu percurso. Eno Teodoro Wanke despertou meu interesse pela trova; Guilherme de Almeida, pelo haicai; Olavo Bilac, pelo soneto. Manuel Bandeira me revelou outra maneira de fazer poesia, mais livre e profundamente melancólica. Também sou um grande admirador de J. G. de Araújo Jorge, de quem possuo mais de trinta obras. Na universidade, conheci autores como Alfredo Bosi e, principalmente, Segismundo Spina. Foram os livros de Spina, especialmente Na Madrugada das Formas Poéticas e Manual de Versificação Românica Medieval, que despertaram em mim um interesse ainda maior pelo estudo do fazer poético e das formas de composição.
Como não bastasse escrever mais de um gênero literário, você ainda acabou criando um novo gênero poético: a Spina. Conte-nos como surgiu essa ideia de criar uma nova forma de poesia. Você se inspirou em alguma forma específica? Como se deu esse processo de elaboração das regras, já que se trata de uma forma fixa? E como foi a sua aceitação por outros poetas?
O poema SPINA nasceu do meu interesse pelo estudo das formas poéticas. Durante muitos anos procurei compreender como elas eram construídas, quais eram suas regras e de que maneira conciliavam técnica e expressão. A leitura de Manual de Versificação Românica Medieval, de Segismundo Spina, aumentou ainda mais essa inquietação. Percebi que praticamente todas as formas clássicas cultivadas no Brasil vieram de outros países e passei a me perguntar se seria possível criar um poema com uma estrutura genuinamente brasileira. Sua elaboração foi lenta. Cada regra foi pensada a partir da própria língua portuguesa, não apenas como recurso estético, mas também como instrumento de valorização e ensino da língua, incorporando aspectos da gramática contextualizada. A quantidade de palavras substituiu a obrigatoriedade da métrica regular, sem abrir mão do rigor formal. Eu também queria uma estrutura estrófica que se diferenciasse das já existentes. Por isso, a organização em duas estrofes — a primeira com três versos de três palavras e a segunda com cinco versos de cinco palavras — foi construída com base na numerologia da minha data de nascimento. Minha intenção era que as regras do poema SPINA levassem o autor a refletir sobre a própria escrita e sobre o uso da palavra. Queria que a composição exigisse escolhas conscientes, tirasse o poeta de sua zona de conforto e o levasse a pensar não apenas no conteúdo, mas também na forma, na arte e na estética do poema. A recepção tem sido muito positiva. Em quase sete anos de existência, já foram publicados mais de duas dezenas de livros de autores solo escritos nessa forma, alguns viabilizados pela Lei de Incentivo à Cultura e outros premiados em concursos literários. O mais recente, Reflexos da Alma, da psicóloga e poetisa Rejane Nascimento, natural da cidade do saudoso Ziraldo, foi publicado pelo Selo Editorial SPINA, do qual sou editor. A obra é resultado de um trabalho conjunto que desenvolvemos ao longo de quase um ano e, atualmente, concorre ao Prêmio Oceanos de Literatura e ao Prêmio Jabuti 2026. Independentemente do resultado, o fato de um livro escrito no gênero SPINA estar concorrendo a duas das mais importantes premiações literárias do país já representa um reconhecimento da qualidade da obra e do amadurecimento desse gênero poético.
Nessa era digital, em que alguns escritores buscam curtidas, engajamentos, visualizações e tantas outras ações; outros buscam vencer prêmios literários, qual seria a grande realização de um escritor para você, o que o levaria ao seu máximo grau de satisfação em relação a isso?
No momento, penso que essa resposta depende muito da fase em que o escritor se encontra. Para quem ainda não tem fama nem uma carreira consolidada, como é o caso da maioria dos autores brasileiros, a maior realização é encontrar uma editora que realmente acredite em seu trabalho e tenha condições de publicar, divulgar e distribuir seus livros. Escrever é apenas parte do processo; fazer a obra chegar aos leitores costuma ser o maior desafio. A experiência mostra que popularidade nas redes sociais nem sempre se converte em leitores. Conheço autores com milhares de seguidores e publicações que recebem centenas de curtidas, mas que, mesmo assim, não conseguiram vender cem exemplares de um livro ao longo de um ano, ou até mais. A visibilidade é importante e pode despertar interesse, mas não substitui um trabalho editorial sério, capaz de fazer o livro chegar ao público e permanecer em circulação. Os prêmios literários também têm seu valor, mas acredito que eles sejam consequência de um trabalho consistente. Para mim, a maior satisfação continua sendo saber que o livro encontrou seus leitores e segue vivo por meio deles.
Entre sua produção literária estão os folhetos de cordel. Sua apreciação por esse gênero tem alguma relação específica? Visto que, diferente de outros gêneros poéticos, o cordel é de natureza narrativa, você possui algum projeto em mente para a criação de novos folhetos?
Meu interesse pelo cordel tem uma relação muito afetiva. Foi por meio dele que tive meu primeiro contato com a poesia. Ouvir minha lendo cordel despertou minha curiosidade e marcou o início da minha relação com a literatura de certa forma. Mesmo sem saber o seu poder e sua importância. Além dessa lembrança, vejo o cordel como uma das mais importantes manifestações da literatura brasileira. É um gênero que preserva a oralidade, registra acontecimentos, divulga a história, aproxima o povo da leitura e democratiza o acesso à literatura. Sua força está justamente em conseguir unir narrativa, poesia, musicalidade e memória cultural em uma linguagem acessível, sem abrir mão da qualidade literária. Talvez por isso o cordel continue vivo e conquistando leitores de diferentes gerações. Embora eu publique pouco nesse gênero, tenho uma quantidade significativa de cordéis já escritos. No momento, desenvolvo dois projetos de maior fôlego, ambos voltados para a biografia e o contexto histórico-religioso. Além deles, possuo trabalhos dedicados a outras temáticas, entre elas o cordel voltado ao público infantil e outros projetos que ainda aguardam o momento oportuno para serem publicados. São obras que exigem pesquisa, planejamento e revisão cuidadosa, por isso prefiro publicá-las no tempo certo, sem abrir mão da qualidade.
Como estudante de Letras e depois, ao longo de sua vida, você deve ter feito diversas leituras, conhecendo muitos autores e obras. Houve, entre todas essas leituras, alguma que tenha influenciado seu estilo de escrita?
São muitos, porque acredito que nenhum escritor se forma a partir de uma única leitura. Nossa escrita vai sendo construída aos poucos, pelo contato com autores de diferentes épocas, estilos e concepções de literatura. Na poesia clássica, cito mais uma vez Olavo Bilac, pela estética, pelo domínio da língua e pelo refinamento da linguagem poética. No cordel, admiro muito a escrita de Manoel d'Almeida Filho, pela técnica, pela formalidade e pelo cuidado com a construção dos versos. Na prosa, uma influência importante foi o escritor, jornalista e biógrafo Fernando Jorge, que prefaciou meu primeiro livro, Na Casa do Sertanejo (2014). Sua escrita me chamou a atenção desde a leitura de suas biografias sobre Santos Dumont, Olavo Bilac e Getúlio Vargas. Também gosto muito de seu único romance, O Grande Líder, uma obra que continua bastante atual pela crítica bem-humorada que faz ao universo da política. Esses são apenas alguns nomes. Poderia citar muitos outros, porque acredito que toda leitura deixa sua marca e, de alguma forma, aliada à visão de mundo de quem escreve, contribui para sua formação literária e humana.
Entre suas publicações, o mais recente lançamento é o título “Laudelina Campos de Melo”. Conte-nos um pouco sobre o gênero e a temática dessa obra e de onde veio a inspiração para escrevê-la.
Laudelina Campos de Melo (2024) é um cordel biográfico que nasceu de uma motivação muito pessoal. Sou filho de uma mulher negra que trabalhou como empregada doméstica durante muitos anos. Por isso, a história de Laudelina sempre me sensibilizou e despertou em mim um profundo respeito por sua luta em defesa da categoria. Em um primeiro momento, sugeri a um poeta cordelista que escrevesse uma obra sobre ela. O tempo passou e, cerca de um ano depois, enquanto procurava um arquivo em meu e-mail, encontrei a mensagem que havia enviado. Como nunca obtive resposta, decidi que eu mesmo escreveria o cordel. A partir daí, iniciei uma pesquisa cuidadosa sobre sua vida, sua atuação e sua importância para a história do Brasil. Mais tarde, por intermédio do poeta João Gomes de Sá, fui apresentado a Cláudio, editor da Anita Garibaldi. Em uma de nossas conversas, falei sobre o cordel e ele prontamente aceitou publicá-lo. Posteriormente, realizamos outro trabalho de que muito me orgulho: a antologia de poemas SPINA Sementes na Ribalta (2025). Considero que ambas as obras refletem um cuidado especial, tanto na qualidade literária quanto no projeto editorial. Aproveito para registrar meu sincero agradecimento ao Cláudio e ao seu sócio, Laércio, responsável pela Livraria Anita Garibaldi, pela confiança depositada em meu trabalho. Essas duas obras encontraram uma casa editorial e nela permanecem disponíveis aos leitores.
Olhando para sua carreira, desde o início até o momento em que se encontra, falta algum projeto específico para ser realizado?
Sinceramente, fiz muito pouco desde que comecei a escrever. No início, a literatura era mais um passatempo, uma curiosidade, algo que fazia pelo prazer de aprender. Foi somente nos últimos sete anos que passei a me dedicar de maneira mais intensa e profissional à escrita, embora ainda esteja longe de me considerar um poeta profissional. Não pertenço a grupos, coletivos ou agremiações literárias, com exceção do movimento em torno do poema SPINA. Transito por muitos desses espaços, participo de eventos e acompanho o trabalho de diversos escritores. Entretanto, raramente sou convidado para integrar mesas, recitais ou outras atividades. Talvez minha escrita, especialmente a de cordel, não desperte o interesse de alguns organizadores. Faz parte. Nunca escrevi para agradar grupos ou seguir tendências, e isso não altera o caminho que escolhi. Percebo que, muitas vezes, uma obra é avaliada apenas pelo gosto pessoal de quem a lê. Se ela não agrada, acaba sendo deixada de lado, como se não tivesse valor. Penso diferente. O fato de um livro não me agradar não significa que ele seja ruim; significa apenas que não corresponde ao meu gosto. Sempre que posso, procuro abrir espaço para outros escritores, divulgar seus trabalhos e criar oportunidades para que sejam conhecidos. Infelizmente, essa postura ainda não é tão comum no meio literário. Também não vivo da literatura, nem dependo financeiramente dela, embora confesse que gostaria (risos). Escrevo porque acredito no valor daquilo que faço e porque ainda tenho muitos projetos a realizar. Quero publicar obras que já estão prontas, desenvolver novas pesquisas sobre as formas poéticas, ampliar o trabalho com o poema SPINA e com o cordel. Atualmente, estou reescrevendo meu primeiro romance. Trata-se da adaptação de um cordel inédito que comecei a escrever em maio de 2019. O projeto ficou interrompido por algum tempo, em razão de outros compromissos e da falta de fôlego para desenvolvê-lo. Agora o retomei e falta apenas concluir sua versão definitiva. É um projeto que realizo, acima de tudo, por satisfação pessoal, mas também porque o romance nos oferece possibilidades que o cordel, por sua própria natureza, não permite. Ele nos dá mais espaço para aprofundar personagens, desenvolver conflitos, explorar aspectos psicológicos e construir a narrativa com maior liberdade. Acredito que a literatura é uma construção permanente. Sempre haverá um novo livro para ser escrito, uma pesquisa para aprofundada e um desafio a enfrentar. Enquanto tiver disposição para aprender e criar, sentirei que ainda há muito a fazer.
Ronnaldo, foi uma grande satisfação ter você aqui conosco e conhecer um pouco mais do seu trabalho. Agradecemos a sua atenção e a sua gentileza para esse bate-papo. Desejamos a você um longo caminho de realizações e conquistas.
Eu é que agradeço pelo convite e pela oportunidade de falar um pouco sobre minha trajetória e meu trabalho. Foi uma satisfação participar desta entrevista. Parabenizo o Cosmo Literário pelo espaço que dedica à literatura e aos escritores. Iniciativas como essa contribuem para ampliar o diálogo entre autores e leitores, fortalecendo a produção literária e incentivando a circulação de novas ideias. Desejo vida longa ao Cosmo Literário e ao excelente trabalho que você vem realizando em prol da literatura. Que seus projetos continuem abrindo espaço para escritores, formando novos leitores e contribuindo, por muitos anos, para o fortalecimento da literatura brasileira.

Parabéns pela belíssima entrevista, Ronnaldo! 👏👏👏
ResponderExcluirMuito bom, ótima entrevista. Parabéns, Márcio e Ronnaldo!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMestre Ronnaldo de Andrade, sempre se destacando. Sou sua fã! Parabéns!!
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