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“No fundo, era um amor feliz, não exigia nada para si, e nem mesmo a ideia de servi-lo ocorreu a Kolivânova; e como poderia servir sua divindade a pequena Kolivânova, que não tinha na alma nada além de um vago enlevo?”
O livro Meninas, da autora Liudmila Ulítskaia, é uma coletânea de seis contos publicada no Brasil pela Editora 34, com a tradução primorosa de Irineu Franco Perpetuo. Foi o melhor livro que li até o momento em 2026 e, sem dúvida, um dos mais marcantes em que me debrucei nos últimos tempos.
A obra fala sobre o feminino, a dor intrínseca que a mulher carrega consigo desde a mais tenra infância, o conhecimento único repassado de mãe para filha (muitas vezes moldado pelo próprio silêncio ensinado às mulheres) e o medo, até mesmo daquilo que deveria ser fonte de prazer.
Mas antes de adentrar na obra propriamente dita, vale ressaltar a trajetória da autora, cuja biografia e coragem impressionam.
Liudmila Evguênieva Ulítskaia nasceu em 1943 em Davliekánovo, na região dos Montes Urais (atualmente República do Bascortostão). Sua família, composta por cientistas, foi deslocada à força para lá nos anos 1930 em decorrência das campanhas antissemitas stalinistas. Mais tarde, em Moscou, Ulítskaia formou-se em genética e bioquímica. Entre 1979 e 1982, atuou como consultora literária do Teatro Judaico de Música de Câmara (KEMT) e, nos anos seguintes, escreveu ensaios, peças infantis, dramatizações para rádio e realizou revisões e traduções de poesia.
Começou a publicar ficção apenas no final dos anos 1980, época em que também escreveu roteiros de cinema. Em 1992, publicou a novela Sônietchka, com a qual alcançou reconhecimento internacional. Desde então, além de publicar mais de uma dúzia de livros traduzidos para mais de vinte idiomas, tornou-se conhecida por seu firme ativismo político e cultural.
Para quem se apega ao prestígio das premiações, a trajetória de Ulítskaia é incontestável: foi a primeira mulher a receber o Russian Booker Prize; em 1996, recebeu o prêmio francês Prix Médicis Étranger por Sônietchka; foi indicada cinco vezes ao prêmio Russki Buker; em 2011, recebeu o Prix Simone de Beauvoir pour la Liberté des Femmes; e figura recorrentemente entre os nomes cotados para o Nobel de Literatura.
A escrita de Ulítskaia, segundo Irineu Franco Perpetuo, aproxima-se da sutileza e da elegância de Ivan Turguêniev. E, por mais curioso que pareça, ela não é fã de Dostoiévski, e prefere Puchkin e Tolstói.
Apaixonei-me pela escritora ao descobrir que ela perdeu um promissor emprego como geneticista por ajudar na distribuição de publicações clandestinas na era soviética. Não fosse essa coragem política, ela ainda aborda temas densos e historicamente tidos como tabus: a menarca, a homossexualidade, o peso de ser mulher, sem jamais abandonar o denso pano de fundo histórico e social.
Pois bem. A primeira obra de Ulítskaia lançada no Brasil, a coletânea “Meninas”, reúne seis contos que formam um ciclo de histórias ambientados em Moscou no período próximo à morte de Stálin, em 1953.
Os contos são protagonizados por meninas de 9 a 11 anos de idade, que aparecem e reaparecem na peculiar sequência das narrativas:
• “A dádiva prodigiosa”: Um grupo de escoteiras segue no encalço de uma mulher sem braços que bordou um retrato de Stálin com os pés. Uma premissa aparentemente simples, mas que expõe, sem rodeios, a atmosfera sufocante daquele período.
• “Filhas de outro”: O silêncio guardado para proteger "boas novas" faz com que o marido recém-chegado da guerra conclua que a esposa engravidou de outro. De onde surge tal suspeita? Seria o rastro do trauma da guerra? E o que dizer desse silêncio resignado da mulher russa, mantido mesmo quando nada cometeu? Aqui, a escrita forte, simples e visceral da autora se revela em trechos inesquecíveis:
“Os fatos são os seguintes: primeiro nasceu Gayané, sem causar à mãe nenhum sofrimento acima do esperado. Quinze minutos depois, veio ao mundo Viktória, provocando duas grandes lacerações e muitos pequenos estragos nos portões sagrados, pelos quais é tão doce e fácil entrar, mas tão difícil e doloroso sair.” (Como você reescreveria a laceração no parto com tanta praticidade e sutileza? Não consigo imaginar. É um domínio estético impressionante).
• “A enjeitada”: Um conflito entre gêmeas que se desenrola como uma fascinante releitura contemporânea da história bíblica de Esaú e Jacó.
• “No dia 2 de março daquele mesmo ano”: O meu conto favorito. Aborda a menarca e a forma como as transformações hormonais nos fazem agir de maneira estranha até para nós mesmas. Mostra a dor visceral desse rito de passagem que, dentro da menina, parece mortal, mas para o mundo exterior não passa de um detalhe invisível diante de outros “grandes eventos”. A leitura me fez comparar a perspectiva feminina da autora com a visão masculina clássica. Vocês se recordam de como a primeira menstruação de Pombinha em O Cortiço é retratada quase como uma bênção divina e festiva? Qual dessas visões traduz a realidade crua da experiência feminina?
• “Catapora”: As personagens se reúnem para o aniversário de Aliôna, filha de diplomatas. A partir de uma inocente brincadeira de bonecas, Ulítskaia fala de um tabu infantil, que a primeira vista é bem perturbador. O primeiro contato das meninas com “experiências sexuais”. Talvez pela complexidade do assunto, seja o conto que as pessoas menos gostam no livro. Percebi que há vergonha até em ler sobre.
• “A pobre, feliz Kolivânova”: Aqui é sobre os amores platônicos em tenra idade. Bonito, inocente, não pede nada em troca. Quem nunca se apaixonou pelo professor ou professora na infância? É aquela admiração que chega doer os pobres coraçõezinhos. Mas como se trata de um conto da Ulítskaia, coisas interessantes e que explicam determinados pontos polêmicos do conto “Catapora”, são explicados. E mais uma triste realidade de pano de fundo.
Em pouco mais de 160 páginas, Meninas é um achado raro. Seja pela escrita seca, elegante e destemida, seja pelas verdades humanas gravadas nas entrelinhas, é uma obra indispensável.
ULÍTSKAIA, Liudmila. Meninas. São Paulo: Editora 34, 2021.

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