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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O TERROR CAPAZ DE SUGAR TODA A ESPERANÇA

Crédito: Public Domain Pictures

 

“Eu penso em coisas estranhas que não me atrevo a confessar à minha própria alma. Que Deus me proteja, se apenas pelo bem daqueles que me são caros.”

Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitora ao universo de faz-de-conta da literatura, esse que nos transporta em direção à realidade nua e crua do mundo. Agora vamos levantar voo do solo inglês, diretamente da granja onde presenciamos uma revolução para partirmos em direção à Romênia, mais precisamente à região chamada de Transilvânia. Tenho certeza de que muitos dos leitores dirão que esse nome soa-lhes familiar, o que não deixa de ser verdade e que outros ainda saberão a quem iremos visitar. Estamos recuando um pouco no tempo e voltando ao ano de 1897. Vamos acessar nossa costumeira “playlist” para ouvir a canção “Doce vampiro”, que ficou famosa na voz de nossa eterna Rita Lee. 

O caro leitor deve estar se perguntando: “O que viemos fazer aqui?” E eu responderei: conhecer um dos personagens mais temidos da literatura clássica de todos os tempos, uma criatura sedenta de sangue e de almas, um ser que habita a escuridão e seus segredos. Tudo começa com a visita do advogado inglês Jonathan Harker a um conde que mora em um castelo nas montanhas dos Cárpatos. Numa primeira impressão, tanto o castelo quanto seu dono parecem bem excêntricos. O motivo da visita é auxiliar o conde em seu desejo de comprar uma casa em Londres. Ele revela-se um anfitrião de gostos bem estranhos. Mais estranho ainda é quando, antes de se retirar, avisa o hóspede de que não deve transitar pelo castelo durante a noite. Claro que o leitor já imagina que essa ordem não será cumprida, portanto, o advogado circula pelos corredores e dá de cara com três mulheres que, na verdade, são vampiras. Isso mesmo. Ele é salvo pelo seu anfitrião em um primeiro momento, porém, depois, é deixado à própria sorte pelo mesmo. Harker acaba escapando do castelo e, ao acordar em um hospital, entende o plano de Drácula: levar o seu mal até a Inglaterra. 

Meu caro leitor, essa narrativa segue um ritmo bem diferente das demais por ser contada por meio de cartas, página de um diário e anotações pessoais, fazendo diversas idas e voltas. Na Inglaterra, após o “desaparecimento” de Harker, sua noiva Mina e amigos veem-se cercados por estranhos fatos, especialmente Lucy que, de repente, torna-se sonâmbula e começa a desenvolver hábitos misteriosos. É a partir daí, que entra na história o personagem Van Helsing, um professor que tem estudado casos como o de Lucy e que, obviamente, sabe muito mais do que aquilo que revela aos amigos. Por meio de alguns testes básicos e um tanto incomuns aos demais, ele descobre o mal que a acomete. Tudo está ligado ao vampiro que já está em solo inglês. 

Deste ponto em diante, munidos de todas as informações possíveis, o romance se torna uma caça ao vampiro por toda a Inglaterra. Suas propriedades são descobertas e os caixões usados para seu repouso mais que necessário começam a ser destruídos e inutilizados. Começa aquela velha luta maniqueísta do bem contra o mal, seguindo nesse clima até o desfecho do romance, que será levado de volta para a terra da criatura maléfica. Ainda no terreno da ficção, embora muitos pensem ser esse o primeiro texto literário a utilizar a figura do vampiro, essa não é a verdade, contudo, esse romance servirá de base para uma infinidade de obras escritas e visuais sobre o tema, criando uma nova tradição na cultura gótica. Quantos escritores e cineastas não surfaram nessa onda? No mundo da literatura, podemos citar a famosa Anne Rice (Entrevista com o vampiro, 1976; O vampiro Lestat, 1985; entre outros) e nosso conterrâneo André Vianco (Os sete, 1999; Bento, 2003; entre outros). No mundo do cinema, o icônico Francis Ford Coppola (Drácula de Bram Stoker, 1992) responsável pela romantização do vampiro na cultura pop, e Nosferatu (1922) pérola do cinema expressionista alemão, sem contar as dezenas de versões de vampiros espalhadas ao longo dos anos. Mas, agora, os leitores e leitoras deste blog devem estar se perguntando: onde está o vínculo com a realidade nisso tudo? Vamos ao trabalho! 

Existem fortes indícios de que a personagem teve como base um homem de carne e osso: Vlad Dracul, que ficou conhecido como Vlad, o empalador (reservo-me ao direito de não explicar aqui o significado de tal adjetivo, deixando tal descoberta a cargo da curiosidade do leitor); um homem que exerceu seu reinado por meio do terror, de punições absurdas e que conteve o avanço de conquistadores estrangeiros sobre a Romênia, considerado por isso, um herói nacional. Muitas de suas ações pitorescas e surreais deram origens às lendas mais bizarras possíveis, como se pode observar nos filmes “Príncipe das Trevas – A verdadeira história de Drácula” do diretor Joe Chappelle (2000); e “Drácula: A história nunca contada” do diretor Craig Shore (2014). Mas não paramos por aí. Não mesmo, caro leitor. Há uma serie de discussões a respeito das referências que a obra de Stoker possa ter feito como, por exemplo, a questão de Drácula representar a visão do inglês a respeito do estrangeiro, mesmo sendo esse também europeu, dando alguns indícios de como os ingleses viam os imigrantes, em especial aqueles do leste europeu, ridicularizando suas origens, crendices e superstições, tratando-os como um povo à parte, como exemplificado em uma frase do livro: “Mas um estranho em uma terra estranha, ele não é ninguém. As pessoas não o conhecem e não conhecer é não se importar.” Aí entra em campo a superioridade britânica representada nos heróis que salvarão o mundo do mal anunciado, originário de terras estrangeiras, aproveitando para ligar o conde Drácula ao povo cigano, é claro. Menções aos judeus também são encontradas no livro reforçando esse preconceito, pois, afinal de contas, qual o poder tão temido de Drácula? Ao sugar o sangue das pessoas, ele pode transformar sua vítima em alguém como ele, da raça dele. 

Cabe também lembrar ao leitor que da palavra vampiro surgiu o termo “vampirismo” que possui diversos aspectos, entre eles, um que está muito em voga e o qual desejo destacar aqui: o que descreve as pessoas que acabam por levar as outras à exaustão emocional por meio de tantas queixas, vitimizações, focando sempre em questões negativas, chegando a levar o outro a um desânimo absurdo que antes não possuía. Ah, meu caro leitor, o que não falta neste mundo são pessoas dispostas a torcer pelo nosso fracasso, aquelas que nem bem você esboça um plano, e elas já apresentam mil e um motivos para que você desista de seu sonho, as quais estão sempre dispostas a dizer que seu esforço não vale a pena e que deve deixar tudo como está. Sim, estes são os verdadeiros vampiros modernos, aqueles temerosos de abandonar sua zona de conforto e que buscam desencorajar também aos demais. Jamais se deixe abater nem se contagiar por essa energia. Siga a luz do sol e percorra o caminho que desejar. Até a próxima.

STOKER, Bram. Drácula. São Paulo: Excelsior, 2020.


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