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terça-feira, 30 de junho de 2026

ESCOLHAS

Crédito: ATC Comm Photo (PEXELS)


Quem dera descobrisse tal segredo

Que se esconde detrás do coração...

Qual força converte a pura emoção

De forma repentina em brusco medo?

 

Como um tórrido amor se acaba cedo

Sob o gosto de fel da traição?

Como se esquece tão terna afeição

Ao partir, triste amante, em seu degredo?

 

Talvez, mero capricho desse amor

Ou oculta o real querer no peito

Ou se abandona em seu louco furor

 

Desejo quase nunca satisfeito

O que resta? Entregar-se ao seu calor

Ou chorar o pedido nunca feito.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O ADOLESCENTE À DERIVA NO OCEANO DA VIDA

Crédito: Orhan Pergel (PEXELS)

“Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles potes enormes de mostruários de vidro e deixá-las em paz”.

                 Seja muito bem-vindo, meu caro leitor, companheiro de tantas viagens por este cosmo infinito que se chama Literatura. Espero que esteja pronto para mais uma jornada. Vamos deixar um pouco a nostálgica Inglaterra, onde permanecemos por algumas semanas (que culpa tenho eu desse solo ter tantos escritores fantásticos) e vamos para a Nova Inglaterra, mais especificamente para New York, que ainda não chega a ser aquela da canção “New York New York”, gravada por Lisa Minelli para o filme de mesmo nome, com direção de nada mais, nada menos que Martin Scorsese, com atuação do grande Robert de Niro, mas que ganhou a fama internacional após aparecer na voz do eterno Frank Sinatra no ano seguinte, sendo portanto a nossa faixa da playlist de hoje. Fica também a dica do filme como um belo entretenimento.

                Aterrissemos, então, na cidade em dezembro de 1949, mas que só surge no ano de 1951 (data de publicação do romance), onde encontraremos o adolescente Holden Caulfield, um jovem de dezessete anos, protagonista da trama (que cabe lembrar: dura uma semana), que acaba por ser expulso do colégio interno onde estudava, na Pensilvânia, e que adia sua volta para casa pelo motivo de ter de enfrentar a sua família. Nosso personagem, como todo e qualquer adolescente, acredito eu, tenta traçar, para si mesmo, um norte para a sua vida. Para isso, busca refletir sobre o que tem passado e, como toda pessoa num momento de introspecção, busca encontrar um sentido para sua existência. Ao chegar a sua cidade natal, vai hospedar-se em um hotel e, a partir daí, encontra outras pessoas (desconhecidas e conhecidas) que lhe servem de referência para o encontro de sua identidade. Nosso herói encontra-se perdido. Já ouvi, só não me lembro antes (consequências do avanço da idade) que nós acabamos por nos reconhecer no outro.

                Alguns encontros tornam-se de extrema importância para ele, como a antiga namorada Sally, que não concorda em fugir com ele, o que lhe causa muita frustração; a irmã pela qual nutre uma imensa admiração, que é recíproca, que se dispõe a fugir com o irmão, mas este recusa; e o professor antigo muito admirado por ele: o senhor Antolini. Referindo-se ao título: Holden tem um sonho, com frequência, no qual se encontra em um campo de centeio repleto de crianças, evitando-as que caiam em um precipício que se situa ao fim da plantação. Ele conta esse sonho ao seu mestre que lhe faz uma importante observação: o homem maduro é aquele que, com toda a humildade, procura viver por uma causa, e não morrer de uma forma heroica e nobre pela mesma. Ele deixa a casa de seu professor e perambula pela cidade em estado de reflexão sobre tudo que ouviu. Nosso personagem sente que precisa dar um rumo a sua vida, mas qual? Eis, caro amigo leitor, a questão que se mostra desde o início da narrativa.

                Há muitas histórias acerca desse livro, escrito por J. D. Salinger (acredito ser o único dele) que alcançou uma notoriedade talvez jamais imaginada pelo autor, o qual se retirou para uma vida mais reclusa, sem nunca dar qualquer entrevista sobre a referida obra, que se tornou um marco na vida de muitos leitores adolescentes, entre eles muitas celebridades. O nobre leitor pode estar pensando: “Mas não tem nada de mais nesse enredo, é absolutamente comum”. Concordo com você. Levando-se em conta as outras narrativas que já passaram por essa coluna, hei de concordar sem esforço algum. Mas, quem disse, que para um enredo chamar a atenção, ele precisa ser algo fora do comum, tendo o insólito e a fantasia como suas referências? Venho, mais uma vez, lembrar ao amado leitor, que o objetivo dessa coluna é justamente mostrar o quanto a literatura, como toda arte, conecta-se à realidade de forma indiscutível, apesar de ser considerada apenas uma ficção.

                Holden carrega consigo o estigma do adolescente que, apesar de inteligente, traz um emaranhado de dúvidas de natureza emocional com relação ao mundo que o cerca. Na mesma idade que o referido protagonista, nossos adolescentes aqui no Brasil, preparam-se para tomar decisões importantes, como a futura profissão que seguirão, muitas vezes, representada por uma frase que considero muito infeliz: “Você já está na idade de saber o que quer da vida”, tudo isso sem qualquer tipo de experiência prática em sua vivência (boa parte deles, para não dizer maioria, nunca trabalharam ou tiveram qualquer contato com qualquer espécie de ofício). Contudo, eles precisam escolher um curso para prestar o vestibular. Se, na época de nosso protagonista, já era uma decisão difícil, com poucas opções, imagine o que se dizer dos dias de hoje, com novos cursos, que brotam aos montes, muitos dos quais eu nem fazia a mínima ideia de que existiam. Há a pressão da sociedade e a pressão do vestibular e, como se não bastasse, para piorar para o jovem em questão, muitos costumam fazer comparações com filhos de amigos e parentes, como se houvesse um padrão, ou ainda temos as frases paternais do tipo “Na sua idade eu já sabia muito bem o que queria da vida. Portanto, não é de se estranhar que vários deles abandonem seus cursos e ainda sejam vistos como fracassados.

                O protagonista de Salinger representa o adolescente que se vê perdido em uma fase que, aliás, entendo como muito confusa, pois não se é mais visto como criança, ao passo que se é lembrado, a toda hora, que ainda não é adulto para cuidar da própria vida. Difícil compreender onde se encaixar na faixa etária da vida, não acha, amigo leitor? Pode ser que a alguns eu pareça estar sendo um tanto quanto permissivo e este ou aquele leitor acabe pensando que estou poupando nossos adolescentes. De forma alguma. Desejo aqui apenas lembrar o quanto se torna difícil e complicado tomar uma decisão desse calibre na idade em que se encontra na vida, com pouca distância percorrida. Gosto ainda de recordar que muitos pais, talvez de forma inconsciente, determinam o futuro de seus filhos em vez de dar-lhes subsídios necessários para tomarem suas próprias decisões, achando, dessa forma, que estão fazendo um verdadeiro bem a eles ou ainda colocando que eles não têm um minuto a perder.

                Como professor de adolescentes há décadas (sim, já faz um bocado de tempo), penso em quanto o mundo que nos cerca tem mudado (de forma vertiginosa nos últimos anos) e como as mídias têm deixado nossas crianças e jovens cada vez mais “adultizados” com o único propósito de os tornarem consumidores em potencial. É esse mundo, hipócrita e interesseiro, que desperta a revolta de Holden, fazendo cair sobre ele o rótulo de rebelde. Entretanto, caro leitor, quero aqui lembrar que eles ainda não são adultos, no verdadeiro sentido da palavra a qual lhes atribui a total responsabilidade por tudo, por isso, precisam muito de orientação, além do mais em uma realidade tão complexa em que se transformou esse nosso universo. Nossos adolescentes nos provocam o tempo todo, na verdade, suplicando por limites e orientações. Assim como descobriu nosso protagonista, nenhum de nós jamais será o herói que salvará todas as crianças de caírem no penhasco (símbolo da perda da inocência) que está à beira do campo de centeio. Somos guias, conselheiros, amigos que, convém ressaltar, sem a perda e a isenção da autoridade, temos a responsabilidade de conduzi-los da melhor maneira para que possam ser felizes em suas escolhas. Após termos feito o nosso papel nesse mundo, resta-nos, somente, esperar e torcer por cada um deles para que possam ser felizes, lembrando os versos de uma canção de Renato Russo: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais / O tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo”. Até a próxima.

 SALINGER, J. D. O apanhador no campo de centeio. São Paulo: Todavia, 2019.

 

sábado, 27 de junho de 2026

O BEM QUE LIBERTA DE TODA PRISÃO

Crédito: Genaro Servin (PEXELS)

 

Precisa buscar por alguma instrução
A fim de poder melhorar nesta vida,
Saber que nos traz importante guarida,
O bem que liberta de toda prisão
Quebrando os grilhões dessa torpe exclusão.
Com livros e ideias que vão libertar,
Procura na vida bastante estudar,
Então se livrar dessa vil ignorância,
Dar pra sua marcha uma nova constância
Nos dez de galope na beira do mar.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

RUMO AO PARAÍSO

Crédito: Mr. Pixel (PEXELS)

 

De tempo em tempo é preciso

Livrar-se da correria

Abrir a porta da jaula

Da prisão do dia a dia

Sorver um tanto de ar puro

Cavalgar na ventania.

 

Livrar-se da velha roupa

Em nosso corpo colada

Colocar aquela nova

Há muito tempo guardada

Que até ficou esquecida

Por achar-se muito ousada.

 

Abrir sua antiga mala

Já tomada de poeira

Colocar roupas e sonhos

Também muita brincadeira

E pela porta da frente

Sair de forma faceira.

 

Fazer questão de deixar

Pra trás o que prende ao mundo

Largar aquele relógio

Pra não contar o segundo

No lago da eternidade

Mergulhar até o fundo.

 

Desligar o celular

Pra ficar conectado

E já colocar no status

Livre, porém ocupado

Com o mundo natural

Virtual já desligado.

 

Tomar o assento do carro

Sem a pressa de chegar

Os vidros todos abertos

Pra poder admirar

A beleza da paisagem

A qual vai te acompanhar.

 

O destino na memória

Que há muito se planejou

Dizendo para si mesmo

Que aquele dia chegou

E festejar o passeio

Que somente começou.

 

E com olhos bem abertos

Não perder um só momento

Registrar cada imagem

Sentir cada movimento

Pra guardar no coração

Não cair no esquecimento.

 

E bem lá à sua frente

Ao atingir tal destino

Tomar-se de empolgação

Como faz qualquer menino

E ver no espelho das águas

Teu sorriso cristalino.

 

Vislumbrar toda ruína

Como quem vê um castelo

Sentir tanto privilégio

Em face do mais singelo

Ver que da simplicidade

Brota o que há de mais belo.

 

Contemplar toda a beleza

Mas não por trás de uma lente

E reaprender a olhar

De uma forma diferente

Não é pra compartilhar

É para guardar na mente.

 

Beber a felicidade

Que nada pode comprar

Sorvê-la em enormes goles

Pra logo se embebedar

Descobrir que o paraíso

Pode ser o seu lugar.

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

PRIVAÇÃO

Crédito: Amir Selfish (PEXELS)

 

Queria pedir desculpas

Pelo mal cometido

Contra teu coração

 

Talvez tenha sido apenas medo

Perder teu amor para outro

Condenado a amargar eterna solidão

Suplico ajoelhado pela tua volta

Não suportarei jamais tamanha provação.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

EFEITO COLATERAL

Crédito: Smooth Click (PEXELS)

 

A dor de quem parte para longe

É a mesma de quem assiste à partida...

O sofrimento pela perda de um amor

É idêntico ao de quem nada tem para perder...

Uns choram porque amam a pessoa errada

Outros por não serem amados pela pessoa certa...

Padecem por amar demais

Penam por serem amados de menos...

 

A medida é o segredo do sucesso

Qualquer forma de excesso ameaça o equilíbrio

O amor perfeito é o ponto zero da escala

Alguns graus para cima ou para baixo

Costumam causar as mais variadas dores

Os efeitos colaterais são inevitáveis

E quem brinca com fogo raramente sai ileso.

terça-feira, 23 de junho de 2026

TRÉGUA

Crédito: Wikimedia Commons

 

Quis ter o mundo sobre a minha mão

Um menino mimado e seu brinquedo

As rédeas coloquei no coração

E fiz da minha vida alto segredo.

 

Eu procurei calar minha emoção

Tomei por aliado o feroz medo

Nomeando por guia a tal razão

Para não receber o amor tão cedo.

 

Julguei, pobre diabo, tão capaz

De ser invulnerável ao amor

O fracasso admiti, voltei atrás.

 

O posto assumi: sou um perdedor

Recomecei a busca pela paz

Pois sei do coração o seu valor.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O BEM E O MAL QUE HABITAM A MESMA CASA

Crédito: Lawrence OP (Flickr)

 “Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso.”

                 Bendita seja a sua presença, caro leitor! É com o coração tomado de satisfação que mais um dia o recebo aqui nesse espaço literário. Espero que esteja pronto para mais esta viagem. Nada melhor que uma grande jornada para o interior do próprio ser humano. Sem querer ser redundante, mas seguimos o nosso caminho provando, incansavelmente, que a literatura é uma ficção que nos mergulha na realidade. Aproveitando a nossa viagem à Inglaterra, vamos nos deslocar dos morros de Yorkshire para a velha e conhecida Londres, no ano de 1886. Vamos acessar nossa “playlist” com a Sonata no. 2 Op. 1 de Giuseppe Tartini (compositor do século XVII), chamada de “Trilos do diabo” que, segundo depoimentos, fora resultado de sugestão em um sonho, sugestão essa feita pelo próprio diabo ao compositor, o que chega a ser um grande contraste com a beleza da melodia.

                Nossa história de hoje começa com um advogado, Sr. Utterson, que recebe um relato de um parente seu sobre uma estranha pessoa de nome Mr. Hyde. Dias depois, o advogado acaba tendo um encontro inesperado com a misteriosa personagem e tem a sua atenção chamada para o fato de lembrar que o mesmo é o herdeiro de seu cliente e amigo, Dr. Jekyll, por meio de um testamento. Em um jantar, o advogado busca questionar o amigo sobre a natureza da relação entre ambos, mas ele apenas lhe responde que está tudo sobre controle. Um ano após isso, Hyde é acusado de espancar um homem até a morte. Para espanto de Utterson, a arma do crime é uma bengala que ele havia dado de presente a Jekyll.

                A este fato seguem-se outros tanto estranhos, sempre envolvendo a pessoa de Hyde e, cada vez mais, o advogado sente-se envolvido pelo mistério que cerca a relação entre esse maligno ser e seu amigo gentil e benevolente. Por meio de uma carta, escrita pelo próprio cientista, acaba por descobrir que ele estava desenvolvendo uma poção com a qual conseguia separar o seu lado bom de seu lado mau. Ao fazer isso, transformava-se em um sujeito sem qualquer principio moral. Tal poção tinha um efeito reversível, durando, portanto, apenas algumas horas. Sob o efeito da mesma, o cientista gozava de uma liberdade e ausência de consciência que lhe forneciam um prazer inexplicável. Mas, como em boa parte das experiências humanas, o bom doutor perdeu o controle que acreditava piamente ser permanente sobre a tal transformação. O caro leitor já deve imaginar que a partir de então haverá uma série de consequências. Sim. Posso afirmar que as mais drásticas possíveis. Aqui usarei uma daquelas frases bem clichês: a criatura vira-se contra seu criador. E aí você me pergunta: como isso tudo termina? E eu vos respondo: só lendo para saber. Se acaso, ainda não leu essa obra, não ceda à tentação de buscar por um resumo na internet. Vá até a fonte, beba da obra, tão significativa, seja naquele momento ou nos tempos atuais.

                A obra de Robert Louis Stevenson já influenciou muitas gerações (por isso se trata de um clássico) por meio das mais variadas adaptações em livros, peças teatrais, animações, filmes e canções, com destaque para a música “Dr. Heckyll and Mr. Jive” da banda australiana Men at Work, que fez sucesso nos anos 80 e que se refere muito bem a sua obsessão, sua crença cega na ciência e na questão de ser cobaia de seu próprio experimento. Vale a pena ouvir. Mas, o que ela nos traz? Ah, caro leitor, aquela velha discussão a respeito do bem e do mal. E aí, precisamos falar um pouco do maniqueísmo, uma doutrina religiosa propagada por Maniqueu (Pérsia, séc. III) a qual definia o mundo como dividido entre duas forças antagônicas (bem e mal) personificadas como Deus e o Diabo e simbolizadas pela luz e a escuridão. Essa doutrina foi tão intensa que até hoje perdura em diversas novelas, filmes, animações e outros produtos de cultura, que buscam simplificar a vida como um conflito entre os dois opostos. Assim sendo, parte-se do ponto de vista simplista de que os seres são divididos nesses dois grupos, de uma forma puramente absoluta: ou você é bom ou mau. Pronto! É impressionante ver o quanto muitos ainda se apropriam desse discurso nos âmbitos social, religioso, político. Essa ideia ainda rotula pessoas, culturas, ideologias e por aí vai.

                Entretanto, para o nosso benefício (eu tinha escrito “sorte”), eis que sopra o vento da mudança. Gostaria de começar com o fantástico Guimarães Rosa, que nos diz: “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Esse grande escritor brasileiro dispensa o maniqueísmo em seus contos, ao abordar, de maneira categórica, que o bem e o mal vivem dentro do mesmo homem, em personagens como Augusto Matraga. Neste contexto de seriados que nos invadiram, é grande a tendência de questionamento deste simplismo em séries que envolvem heróis e que mostram que a justiça e a vingança, por exemplo, possuem uma fronteira muito tênue, e que essa questão não é assim tão clara como se parece. Assim como a lua que brilha alta no céu (sou apaixonado por ela), todos temos o nosso lado obscuro, as nossas pequenas mazelas humanas, pois assim somos nós, caro leitor. Faz parte de nossa natureza.

                Sei que muitos preferem negar essa realidade. Só que fugir não adianta. Somos seres falíveis, feitos de virtudes e defeitos. Quando o Cristo (exemplo de homem sábio e sensato) disse à turba dos moralistas: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, sabia que, muitos de nós, jogam pedras esquecendo-se de que possuem telhado de vidro. Vivemos em pleno conflito porque nossa alma é um dualismo de forças e vontades. Jekyll quis escapar a esse conflito. Impossível, caro leitor. É ele que nos faz crescer. Não adianta “tentar tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para baixo do tapete” como dizem os antigos. O que fazer? Só há um caminho: enfrentar o problema. Pronto. Tomar consciência e buscar a estratégia adequada. Mas há uma condição maior que todas: querer mudar, todavia nós aqui sabemos que a mudança é um processo doloroso. Claro que essa discussão a respeito da natureza do bem e do mal, por não ser absoluta, daria infindáveis questionamentos filosóficos, fazendo-nos pensar, afinal de contas, o que é o bem e o que é o mal. Com um pouco de senso, poderemos perceber que nossas possíveis respostas estão fadadas a mergulharem no mais completo subjetivismo.

                Talvez, meu caro leitor, seja essa a resposta mais difícil de se dar a si mesmo, entre todas que já passaram por nossas viagens. Penso eu, às vezes, que ela possa até nem existir. Quem me garante? Nem sempre encontramos as respostas que desejamos ou como queremos. Termino essa nossa viagem de hoje, com mais perguntas do que respostas, mas que isso não o desanime. Não há problema algum em não saber, mas sim em achar que se sabe, como diz a bela canção de Almir Sater: “Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei.” Até a próxima.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de Janeiro: Antofágica, 2022.    

sábado, 20 de junho de 2026

AGORA VOU DAR MAIS VALOR PARA MIM

Crédito: Çaglar Çarkaci (PEXELS)


Eu sempre te amei mas você nem ligava
Às juras sinceras não quis dar valor
Eu tão miserável pedi seu amor
Mas não importava o quanto suplicava
Pois cada vez mais você me desprezava
Cansei desta vida em me ver rebaixar
Migalhas de amor eu só fiz mendigar
Mas tal tirania chegou ao seu fim
Agora vou dar mais valor para mim
Nos dez de galope na beira do mar. 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

MINHA MANEIRA DE SER

Crédito: Kagan Karatay (PEXELS)


Minha maneira de ser

Eu vou tentar resumir

Uma parte de mim sonha

O que eu quero conseguir

Nas asas da inspiração

Ouço a voz do coração

No rumo que vou seguir.


E para assim resumir

Eu sonho até acordado

Viajo até o futuro

Com desejo programado

Sonhos de todos tamanhos

Podem parecer estranhos

Mas me mantêm motivado.


Agora vou descrever

A minha outra metade

Os pés firmados no chão

Da dura realidade

Enxerga a vida tão crua

A desfilar toda nua

Pelos palcos da verdade


Ao vê-la toda despida

De seus trajes de utopia

Eu caminho em rumo reto

Imune a qualquer magia

Não cedo a nenhum encanto

Sigo firme no meu canto

Sem dar mostras de euforia.


Uma parte de mim chora

Os fracassos sucedidos

Pranteia todos os sonhos

Pelo caminho perdidos

Pensando como seria

Que diferença faria

Outros rumos escolhidos.


A outra parte sorri

A cada oportunidade

Sente no ar a fragrância

Dessa tal felicidade

Vê um amanhã melhor

Com um céu sempre maior

Mil estrelas de verdade.


Uma parte de mim olha

Insistente para trás

Memorando águas passadas

Que a nostalgia me traz

Pelo leite derramado

Trago meu peito magoado

Sem poder voltar atrás


Outra parte de mim olha

Com o foco no presente

Entende que é o momento

Que torna o gesto potente

Sorvendo cada minuto

Vou seguindo resoluto

Disposto a seguir em frente.


Aqui dentro do meu peito

Parte de mim esbraveja

Medonha fera enjaulada

Sedenta pela peleja

Sem afago nem abrigo

Procura pelo inimigo

Pois o combate deseja.


Aqui neste mesmo peito

Sorri de maneira franca

Uma outra parte de mim

Levanta bandeira branca

Não entra em qualquer confronto

Com seu discurso já pronto

Faz da paz sua alavanca.


Assim vou seguindo a vida

Em busca do próprio rumo

Com meu reino dividido

Em conflitos me consumo

Vivendo a dualidade

Tão humana qualidade

Que para o mundo eu assumo.


E neste grande dilema

Procuro sempre aprender

Entre os erros e os acertos

Tentando me compreender

Ora lúcido ora louco

Eu revelo pouco a pouco

Minha maneira de ser.


 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O PECADO DO SILÊNCIO

Crédito: Engin Akyurt (PEXELS)

 

A falta da voz que se manifesta

Gera o grande pecado da omissão

A culpa cabe a quem já não protesta

Pior que quem excede pela ação.

 

Ao calado assumir apenas resta

Autoria por tanta negação

Fechar os olhos é falta funesta

Pois devia fazer intervenção.

 

Considera-se amante da mentira

O que sabe a verdade e não proclama

Temendo despertar alguma ira.

 

O remorso em seu próprio peito inflama

Pois a verdade ao ser sensato inspira

Em defesa à justiça que se ama.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

ISOLAMENTO

Crédito: Lies (PEXELS)

 

Do alto da torre de meus pecados

Sinto o frio da solidão a percorrer

Cada um dos ossos do meu corpo...

Tudo à volta permanece na penumbra

Uma luz bruxuleante resiste heroicamente

À legião de trevas que avança sem cessar...

O vento não traz o mínimo cheiro de esperança

As estrelas encontram-se envoltas pelas nuvens

E o sol não vai raiar tão cedo...

Diante da sucessão de funestos acontecimentos

Não há previsão de dias mais azuis

Por isso espero sentado, dia após dia,

A surpreendente mudança das marés.

terça-feira, 16 de junho de 2026

APENAS LEMBRANÇAS

Crédito: Prasanth Inturi (PEXELS)

 

Restará ainda vida

Meu coração pergunta

Após nossa separação

 

Daqui para frente tudo muda

Nada mais será como antes

Belos momentos serão apenas recordação

Lembranças jamais recuperam amor perdido

Não passam de mera ilusão.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

QUANDO O AMOR SE ENCONTRA ENTRE O INTERESSE E A OBSESSÃO

Crédito: Thais Melo (Deviant Art)

 “Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia.”

             Seja bem-vindo, caro leitor! É com muito prazer que o recebo, mais uma vez, para embarcarmos em uma viagem ao mundo da ficção (e que insistentemente nos traz de volta à realidade), percorrendo as páginas dos mais interessantes clássicos da literatura que a mente humana já possa ter produzido. Após termos vivido um período de duas leituras em pleno voo, hoje voltaremos a pôr os nossos pés no chão. Isso mesmo, meu caro: basta de voar por um tempo. Vamos agora nos dirigir à Inglaterra, mais precisamente aos morros nas regiões de Yorkshire, no ano de 1847. Vamos, sem delongas, acessar a nossa “playlist” de viagem para a música tema do livro “Wuthering Heights” seja, para a minha geração, na icônica voz de Kate Bush (1978), ou, para as gerações mais recentes, na voz de André Matos, na época em que era vocalista do conjunto Angra (1993).

            De todas as nossas viagens, não será essa a primeira vez que iremos adentrar a uma história de amor como núcleo de um romance, porém, desta vez, garanto-lhes que o Romantismo poderá ser visto em sua forma mais densa e tensa, superando até mesmo a história do pobre jovem Werther. Se algum leitor desavisado estiver pensando que estará diante de “uma historinha água com açúcar”, que servem para trazer estereótipo ao mundo romântico, garanto que irá se arrepender (pode trocar pelo verbo surpreender se achar o termo um pouco agressivo). Mas, comecemos então com o fato gerador do conflito que é quando o senhor Earnshaw retorna de uma das suas viagens trazendo consigo um menino, um órfão que será criado junto aos seus filhos: Catherine e Hindley. Enquanto o menino, vê, no recém-chegado, um rival que irá disputar e até mesmo roubar a atenção de seus familiares; a irmã afeiçoa-se a ele de imediato. Essas duas relações, pautadas no amor e no ódio, intensificam-se com o tempo. Os dois apaixonam-se perdidamente (eis aí nosso par romântico), mas, com a morte do casal Earnshaw, Hindley passa a ser o verdadeiro dono de tudo e, passa a despejar todo o seu desprezo pelo irmão adotivo, sujeitando-o aos mais humilhantes serviços, além de privá-lo de ver a irmã (aqui entra o clássico obstáculo ao amor). Heathcliff passa da condição de filho a servo, mas ainda suporta muitas coisas por Catherine.

            Esta, por questões estritamente financeiras, acaba por arranjar matrimônio com um homem de posição social bem melhor que o irmão, o que acaba por piorar o seu jeito, agora muito amargurado e rude, como consequência pelo tratamento que recebe. Após a notícia do casamento de Catherine, ele não tem mais motivos para permanecer onde está, decidindo partir pelo mundo afora. Mais tarde, contudo, ele retorna, como um homem rico e bem sucedido, em outras condições sociais e motivado por um único desejo: vingar-se daqueles que o privaram de seu final feliz com Catherine. Heathcliff não encontrará limites para satisfazer esse seu capricho, colocando o irmão adotivo (Hindley) e o marido dela, seu rival (Edgar) como alvos permanentes em sua sede de vingança. Se o caro leitor, ficar ávido por mais detalhes ou informações, há apenas uma coisa a se fazer então: ler o romance. Quanto a mim, paro por aqui, segundo aquele meu velho princípio já exposto aqui: não revelar o final da trama. Asseguro a você que muitas reviravoltas estão por vir nessa trama e que suas consequências terão efeitos devastadores.

            Caro leitor, esse romance traz consigo uma infinidade de abordagens a respeito do amor. Temos uma vasta quantidade de outros romances que o exploram. Lembrando que foi assim que o gênero romance, tal como o conhecemos hoje, começou: tratando de histórias de amor. Daí é comum encontrar a confusão que alguns leitores fazem de que romance é, necessariamente uma história de amor. Mas isto é assunto para as aulas de teoria literária, o que não é nosso caso no momento. Vemos, na relação entre Heathcliff e Catherine, o encontro de dois mundos que, apesar de grandes diferenças (ele, um menino sozinho no mundo; ela, uma menina cercada de mimos), cultivam uma paixão a qual podemos classificar como correspondida. Contudo, meu caro, o verdadeiro amor, aquele ao qual chamamos como absoluto, como naquela canção da banda Legião Urbana, “Monte Castelo” que é uma união de um soneto camoniano (belíssimo e famoso) com a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13, quando diz: “é só o amor que conhece o que é verdade”, vai enfrentar, no mundo, os mais diversos adversários que, de antemão, já entendemos que são totalmente opostos a ele.

            De um lado, temos Catherine e a questão do interesse, por tratar-se exclusivamente do aspecto econômico, transformando esse sentimento em um balcão de negócios como se pode ver no romance “Senhora” de José de Alencar. Entretanto, cabe aqui lembrar que existem muitos outros interesses em jogo que sempre acabam por jogar o amor para escanteio, como dizem os antigos, ou ainda, retirá-lo da lista de prioridades. Além do dinheiro, podemos citar o poder, a fama, o sucesso, o narcisismo e tantos mais. Não é à toa que os primeiros autores usavam os obstáculos ao amor genuíno como causadores de conflitos. É uma fonte inesgotável de recursos. Pode observar por aí. Como diria Artur da Távola: “Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros.” Ah, caríssimo, amar pressupõe renúncia. Aí está a grande dificuldade do homem, que só deseja angariar, conquistar. Ceder é algo bem mais custoso. Quantos “amores” cada um de nós carrega em seu peito? Quantos deles não são apenas desejos disfarçados do mais puro e nobre sentimento? Faltam-nos respostas. E por quê? Pelo simples medo, muitas vezes, de se fazer a pergunta correta. Pois certas respostas exigem, de nós, antes de tudo, compromisso.

            Por outro lado, temos Heathcliff, um homem cujo amor lhe fora negado. Esta perda traz a ele uma enorme amargura acerca da vida. Apesar de vencer socialmente e financeiramente, contra todas as expectativas que se tinha dele, o fato de um amor malogrado e não mais correspondido, gerou em seu coração um sentimento de ódio que só poderia ter como amargo fruto o desejo de vingança. Nós, caro leitor, já vimos em uma dessas nossas viagens, em companhia do capitão Ahab, que a vingança tem um poder destrutivo ilimitável e que acaba por consumir todos a sua volta, porque ela facilmente foge ao controle de qualquer um, tal qual um animal cuja natureza selvagem não pode ser domada. É claro que ele tem a ver com a obsessão, que se traduz em um apego exagerado por algo. Isso nos faz questionar quais eram os reais sentimentos de Heathcliff por Catherine. Quantas relações não encontramos por aí, chamadas de amor, mas que não passam de desejos doentios, de posse, de domínio, de exclusividade? Relações que fogem totalmente ao controle, chegando a gerar tragédias como as dos livros?

            Camões, no soneto citado usado para compor a canção, tenta descrever, de forma racional, o sentimento amoroso, como no trecho: “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor.” Não há palavra, talvez melhor, para caracterizar o amor como a palavra “contraditório”. Ele nos mostra diversas fases e faces o tempo todo. Diante disso, bastaria então a cada um de nós evitá-lo para nos pouparmos de grandes danos, e tudo estaria resolvido, não é? Ah, fosse assim tão fácil, diria ainda outro poeta português, Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios.” Temos de reconhecer que não parece ser tão simples assim. Alguns dizem: “mas deveria ser” e eu vos digo: “mas não é”. Sigamos nós, caro leitor, todos nós (sem exceção) navegando neste mar de sentimentos, ora à deriva (à espera de um resgate), ora com as duas mãos firmes no leme. No entanto, entre todas essas faces, fico ainda com mais um trecho da mesma música em que se diz: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria”. Que o bom e velho amor nos conduza. Até a próxima.

BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. São Paulo: Atlantis, 2026.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

QUEM NÃO CAMINHOU COMIGO

Crédito: Marek Piwnicki (PEXELS)

 

Nas estradas desta vida

Tantos tombos eu levei

A cada queda que eu tinha

Eu logo me levantei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Perante muitos problemas

Com dúvidas eu fiquei

Por vezes caí no erro

Por outras eu acertei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Ao longo do meu percurso

Com muitos me deparei

Alguns estendendo a mão

Com outros eu me frustrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Em alguns destes caminhos

Perigos eu enfrentei

De alguns eu saí ileso

Em outros eu me afundei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Vivi momentos de riso

Porém em muitos chorei

Enfrentei muitos fantasmas

Por pouco não me livrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


No oceano da existência 

Confesso que naufraguei

E à tábua de salvação

Fortemente me agarrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Enfrentei duras batalhas

Mas outras abandonei

Amarguei cruéis derrotas

E vitórias conquistei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


No meio de tanta gente

Sozinho eu acabei

E por vezes solitário

Companhia eu encontrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Na corda bamba do medo

Forçado me equilibrei

Com o risco de cair

Eu então me acostumei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Recebi bastantes críticas

Algumas eu aceitei

Aquelas que não serviam

Simplesmente descartei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Mas mesmo assim há quem diga

Que vencer nunca tentei

Só eu sei da minha vida

Pois nunca desanimei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei. 


Assim deixo o meu recado

Meus limites só eu sei

Os erros que cometi

Um a um eu pagarei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


JUSTIFICATIVAS

Crédito: Mendi Khoshnejad Valerá qualquer coisa? Toda ação justifica Uma grande vitória? Os fins justificam seus meios? Não haverá limites n...