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sábado, 11 de julho de 2026

USAR COM OS OUTROS DA TAL GENTILEZA

Crédito: Ron Lach (PEXELS)


Qualquer um precisa ser bem educado,

Usar com os outros da tal gentileza

E sempre falar com extrema fineza,

Poder responder com frequente bom grado.

Jamais ser grosseiro também desbocado,

Saber como todos se deve tratar.

O seu tom de voz não dever levantar,

Não ser violento com sua expressão.

Tornar bom exemplo essa tal mansidão

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

A DOR DE UMA SAUDADE

Crédito: Mahboba Rezayi (PEXELS)

Quanto dói uma saudade

É difícil de dizer

O quanto que ela penetra

E o coração faz sofrer

É uma dor sem medidas

Ninguém sabe responder.


Alguns momentos felizes

Inda vivos na lembrança

Sinais de tempos melhores

Em que se tinha esperança

Hoje são só cicatrizes

E eu choro como criança.


Choro pela tua falta

Pois não estás mais comigo

Coração tão solitário

Procurando por abrigo

Antes era teu amante

Hoje não sou nem amigo.


Teus olhos encantadores

Um retrato tão distante

As lágrimas que desabam

De uma maneira incessante

Como vou seguir sozinho

Levar a vida adiante?


Pois tu eras o meu céu

Também eras o meu teto

Provei a seiva da vida

Ao me dares teu afeto

Em meio à realidade,

O meu sonho predileto.


Relembro de gota em gota

Tempos de felicidade

Jornadas de mãos unidas

Gestos de cumplicidade

A alegria de encontrar

A minha cara metade.


A vida tem dessas coisas

Não se consegue explicar

Quem hoje passa a sorrir

Amanhã fica a chorar

Sabemos como começa

Não como vai acabar.


A noção de que é eterno

Não passa de uma ilusão

Aquela louca euforia

Pode virar frustração

Criar expectativa

Pra colher decepção.


Como num passe de mágica

Todo aquele grande amor

Pleno de belos sorrisos

Torna-se choros de dor

E aquela doce esperança

Agora é puro amargor.


Por isso aproveite o dia

Valorize de verdade

As flores que agora colhe

Em tons de felicidade

Amanhã podem ser cinzas

Na fogueira da saudade. 


quinta-feira, 9 de julho de 2026

CONVITE

Crédito: Casper Somia (PEXELS)

Acaso me amas

Conduz meus passos

Até tua porta

 

Convida-me então para cear contigo

Velas acesas, violino ao fundo

Lá fora nada mais importa

O mundo somos nós dois

Os outros, uma realidade morta.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

SEMPRE PRESENTE

Crédito: Mustafa Govde

 

Há tempos que o sorriso desapareceu de meu rosto,

Os bons momentos fugiram-me à lembrança,

A esperança, não mais que um surto de febre,

Rouba-me preciosas noites de sono

E em seguida, parte, deixando-me em paz...

 

De uns tempos para cá, recuso-me a fazer previsões,

Perdi o costume de abrir a janela pela manhã

À espera de um dia de sol radiante.

Controlo aquela ansiedade que dominava o peito

E alguns tomam por saudades...

 

Ao deitar-me, penso no dia que tive.

Vislumbrar o amanhã é para os sonhadores

Enquanto os realistas como eu

Agem e reagem ao instante presente.

terça-feira, 7 de julho de 2026

PEREGRINAÇÃO

 

Crédito: Emrah (PEXELS)

Trinta anos tristes já faz que eu enfrento

O peso de uma tão custosa vida

Povoada por choros e lamento

Da caminhada pouco sucedida.


Sempre caminhei só, de encontro ao vento

Por uma vastidão desconhecida

Vezes procurando por um intento,

A mais simples razão para a partida.


No caminho só pedras encontrei,

Muitas barreiras para superar...

Mil sombras no deserto eu enfrentei,


Nunca me permitiram descansar

Na arena onde meu sangue derramei,

Numa eterna procura por ganhar.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY)

"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais."

Sejam muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época. Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal, prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos distintos.

Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais assassinatos.

Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros) sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça pública.

Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos assistido com frequência a movimentos de proibição de livros capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”, assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre inocência!

Voltando mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e, segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por elas!

Sei que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo, nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor! Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.

ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.

sábado, 4 de julho de 2026

PROVÉM DO RESPEITO QUE TÃO ALTO BRILHA

Crédito: Jsme MILA (PEXELS)

 

Quem pede licença, quem diz obrigado,

Quem pede desculpa, que segue gentil,

Respeita os demais e não busca ser vil,

Que faz seu discurso num tom moderado,

Não segue ofensivo nem fala exaltado,

Que nas relações sabe bem se portar

E ao seu semelhante só faz respeitar,

Nos mostra que o rumo no meio da trilha

Provém do respeito que tão alto brilha

Nos dez de galope na beira do mar.


USAR COM OS OUTROS DA TAL GENTILEZA

Crédito: Ron Lach (PEXELS) Qualquer um precisa ser bem educado, Usar com os outros da tal gentileza E sempre falar com extrema fineza, Poder...