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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A INTERMINÁVEL BUSCA PELA PERFEIÇÃO

Crédito: Wikimedia Commons
 

“Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”

                 Saudações literárias, nobre leitor! Cá estamos nós, prontos para mais uma viagem. Sim, meu caro, essa é a palavra ideal para descrever a literatura: viagem. Ela pode acontecer das mais diversas formas (e acontece mesmo), rompendo os limites de tempo e espaço, porque, para a criatividade humana, não existem fronteiras. Agraciados por essa magia, vamos, agora, partir do deserto do Saara, após uma busca pela nossa criança interior, em uma jornada (talvez) ainda maior, pois esse negócio de ficar comparando, querido leitor, é uma tarefa, às vezes, bem arriscada. E por que falar de riscos? Porque eles vêm bem a calhar na nossa história de hoje. Para aqueles leitores amigos ou amigos leitores (pois essa permuta de ordem daria uma bela aula de posições entre substantivo e adjetivo no discurso) que me cobraram, na semana passada, por uma trilha sonora – digna de O pequeno príncipe – a qual não fui capaz de encontrar, hoje tento corrigir minha incapacidade, acionando aquela nossa “playlist” com a canção “Be” na voz de ninguém mais ninguém menos que Neil Diamond para o filme de Fernão Capelo Gaivota, inclusive recomendo ao leitor que, mais tarde (pelo amor de Deus, leia o texto primeiro) assista ao clip, recheado de inspiradoras imagens e coroado com uma tradução que mostra o teor dessa música. Agora, deixemos de conversa e partamos.

                O ano é 1970 e a praia é uma praia qualquer, seja dos Estados Unidos, lar do autor, ou de qualquer lugar do mundo. Cá entre nós, temos as mais belas paisagens à beira-mar para usar como pano de fundo. Lá encontraremos uma gaivota. Isso mesmo, meu caro, eis o nosso protagonista do dia: um pássaro. Para que se possa compreender aonde quero chegar, é importante que se saiba que a gaivota é uma ave aquática encontrada em quase todo o mundo, que vive em bando e usa a beira do mar para sua alimentação, portanto, uma ave tida como comum. Entre um bando encontra-se Fernão, tido como estranho pelos demais. Por quê? Porque ele pensa diferente deles. Nosso herói recusa-se a acreditar que a vida seja apenas voar para pegar o alimento e retornar para a praia, dia após dia, por toda a sua existência. Deve haver algo mais que isso. Ele passa a explorar, então, a capacidade de voar, fazendo diversas experiências de voo, com manobras ousadas e tudo mais. Por certas vezes, ele fracassa, pois, não podemos nos esquecer, Fernão está imerso em um aprendizado e, existem erros com os quais se pode aprender.

                Por causa de seu comportamento “esquisito”, o que torna sua postura inadmissível para com a sociedade da qual faz parte, ele é expulso do bando, banido, condenado a viver sozinho. Fernão continua suas tentativas, até que encontra duas outras gaivotas, diferentes daquelas que via em seu bando. Essas, como ele, também têm a paixão por voar e o desejo de superar seus limites. Elas pedem que ele as siga. Após algumas aulas, Fernão transcende a outra dimensão na qual todas as gaivotas partilham o desejo por voar com excelência. Após muitos ensinamentos, ele tem como missão a de voltar para a realidade e tentar guiar outros que, como ele, sonham em evoluir nessa existência. De aluno, ele deverá passar a professor, porém, uma das grandes lições de seu mestre: somente o amor e o perdão podem trazer a liberdade que ele tanto busca.

                Caro leitor, já diz o velho ditado: “não se julga um livro pela capa”. Pois bem, à primeira vista, parece tratar-se de uma simples obra, levando alguns a pensar: “o que pode haver de tão profundo e revelador no enredo em que uma gaivota deseja voar melhor?” Ah, não caia nessa armadilha. Como diria o próprio autor nessa narrativa: “Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento.” É uma história sobre autoconhecimento. Sobre limites e desafios. Nesse momento peço encarecidamente (suplico, se for preciso) que não o confunda com um livro de autoajuda. Não, caro leitor, é muito mais que isso: trata-se, entre tantas coisas, de se perseguir um sonho. Quantos por aí não perderam essa humana capacidade, não é? Como nos versos de Cecília Meireles: “Permite que eu volte o meu rosto / para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho / como as estrelas no seu rumo.”, Fernão não se contenta com a realidade que se apresenta a ele e parte em busca de seus anseios. Claro que isso o tornará diferente dos demais, o que costuma ser motivo de exclusão em nossa sociedade, pois, na verdade, como na música dos mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito louco por eu ser feliz”, muitas vezes o que não se enquadra no padrão da sociedade, fica à sua margem.

                O livro fala sobre a vida como um eterno aprendizado, como quando o protagonista diz aos seus pares: “Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Sim, caro leitor, há tanta coisa para se saber nessa nossa longa estrada e, por tantas vezes, contentamo-nos com tão pouco, sem falar naqueles que acabam achando que já sabem de tudo. Quanta pobreza de espírito! E, falando em espírito, enxergo esse livro como uma verdadeira jornada espiritual, uma aprendizagem que supera em muito as necessidades materiais que, segundo o próprio protagonista, prendem e sequestram o nosso verdadeiro entendimento das coisas. Uma das frases mais célebres desse livro: “Enxerga mais longe a gaivota que voa mais alto”, refere-se justamente a essa busca pelo conhecimento. Se em minha primeira leitura, que se deu aos meus quinze anos de idade, eu procurava entender o que esse tal Fernão buscava, hoje, após mais algumas leituras, só tenho uma resposta: evolução. Porque, como adulto que hoje sou, entendo que a perfeição talvez jamais seja alcançada, contudo, quem a busca incansavelmente, com certeza, adquire uma evolução constante.

                Por último, porém não menos importante, o livro trata de uma relação com o sagrado, como algo ao qual se tem acesso, sem a mínima preocupação de uma definição ritualística ou se nomear uma religião, porque Deus está acessível a todos, é Ele a verdadeira perfeição. Na busca por sua liberdade (que aqui modestamente entendo como o abandono dos velhos conceitos e rótulos), Fernão aprende o papel do amor e do perdão: jamais se entende o outro por meio de julgamentos e reações impulsivas: “Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. Que possamos, caro leitor, libertar-nos  de toda a mediocridade que nos aprisiona, de todo pensamento que nos apequena, que busquemos tirar os pés da areia e alçar grandes voos. Há tanto azul sobre nós, pronto a ser desbravado, que ampliemos o nosso olhar, percorramos grandes distâncias, buscando, sempre, nada mais que conhecer a nós mesmos. Que possamos dar o melhor de nós, terminando com aqueles mágicos versos de Fernando Pessoa pelo heterônimo Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”. Até a próxima!

BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. São Paulo: Record, 2017.


sábado, 30 de maio de 2026

EM PROL DA TRANSFORMAÇÃO

Crédito: PEXELS

Um tal de Gandhi dizia

Em uma antiga nação

“Por mim é que se inicia

A global transformação

Toda obra principia

Do meu próprio coração”.

 

Se eu aspiro por mudança

Um exemplo devo ser

Pois não basta confiança

É necessário fazer

Com muita perseverança

Para a graça acontecer.

 

Relegar ao abandono

Aquela noção quadrada

Da qual não se é o dono

Ter a mente renovada

Abdicando do trono

Da certeza eternizada.

 

Procurar pela resposta

Com o coração aberto

A verdade está exposta

Pois é bom ficar esperto

Porque há sempre uma proposta

Para fazer o que é certo.

 

Já me sinto responsável

Abraço então a missão

Mantenho o corpo saudável

Pela autorregulação

A luta é inadiável

Não à procrastinação.

 

No controle eu permaneço

Ante cada sentimento

Os meus limites conheço

Mas eu sigo em movimento

É preciso, eu reconheço,

Gerar desenvolvimento.

 

Sinto a energia pura

A correr em cada veia

A mente clara e segura

Nova esperança semeia

A consciência madura

A cada impulso refreia.

 

O meu lado racional

Acolhe a cada emoção

Não me prendendo ao banal

Mantenho a concentração

Preciso ser funcional

Sem perder a atenção.

 

Não basta só a virtude

Uma alma plena de viço

É mister ter atitude

Eis o real compromisso

Pra atingir a plenitude

Todo bem requer serviço.

 

Não posso tudo sozinho

Por isso estou conectado

Cada um por seu caminho

Já está ultrapassado

Um pensamento mesquinho

À derrota já fadado.

 

Um vislumbre do passado

Urge o tempo da mudança

Traz um presente marcado

No advento da esperança

De um futuro renovado

Pelos ares da bonança.

 

Com motivação intensa

Na qual a fibra se esculpa

O bem por si só compensa

O mal só nos traz a culpa

É melhor pedir licença

Do que então pedir desculpa. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O ANJO RENEGADO: SODOMA (ABRIL 2026)

Imagem gerada por IA (Copilot)

 

TEMA

Desde quando frequentava o catecismo, toda vez que me deparava com a passagem da destruição das cidades de Sodoma e de Gomorra na bíblia, ficava imaginando como deveria ter sido, pois sempre achei falta de explicações e descrições, na verdade, de detalhes que demonstrassem como foi aquela tal “chuva de fogo”. Agora, quando adulto, tomado pela curiosidade, fui investigar melhor esse episódio, pois sempre me interessei por eventos catastróficos, buscando referências míticas e históricas. Quando meu parceiro teve a ideia de escrever um cordel sobre anjos, pois buscamos temas novos para nossos enredos, veio a ideia de relacioná-los a algumas cidades citadas no velho testamento e descrever com mais afinco o drama humano. Acompanhada dessa temática surgiu a sugestão de rechear a trama com um dilema vivido por um dos anjos durante a destruição da primeira cidade. Assim teve início a criação dessa saga que será desenvolvida em quatro cordéis.

SINOPSE

Dois forasteiros caminham pela estrada empoeirada em direção à cidade de Sodoma. Ambos estão incumbidos de uma terrível missão a cumprir: destruir a cidade cujos pecados atingiram o mais alto dos céus. Porém surge um contratempo: por intercessão de Abraão, eles deverão retirar os justos de lá antes do prazo final para começar a destruição total. Theliel tem esperança na humanidade, acreditando no seu poder de mudança, já Uriel pensa que seu companheiro superestima a bondade do homem, o qual usou seu livre-arbítrio para ofender cada vez mais a Deus. Eles adentram a grande cidade, disfarçados e atentos ao comportamento de seus habitantes. Acompanhe, neste primeiro volume, a saga de um anjo que ainda acredita na bondade do homem e se encontra disposto a lutar por ele com todas as suas forças.

 

Oito horas da manhã,

Dona Noemi saiu.

Ao mercado principal

Depressa se dirigiu.

O movimento era intenso

E aquele calor imenso

Da forma que sempre viu.

 

Nas ruas empoeiradas,

Caminhava com cuidado.

Chegando próximo à feira,

Movimento tresloucado:

Grande vaivém de pessoas,

Certas caras nada boas,

Andavam pra todo lado.

 

Vendedores mais diversos

Numa grande gritaria,

Oferecendo produtos

Que usavam no dia a dia,

Como era de costume:

Peixe, verdura e legume,

Muita fruta e especiaria.

 

Cada um na sua banca

Como o melhor vendedor:

Peixes frescos e salgados

Que exalavam certo odor.

As moscas sobrevoavam

E sobre os peixes pousavam,

Formando um quadro de horror.

 

Noemi foi a uma banca

Adquirindo cordeiro,

Depois comprou mais produtos

Junto com o verdureiro,

Mas, ao sair do lugar,

Parou quando viu passar

Um estranho forasteiro.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

MAL DO SÉCULO

Crédito: Berur Chebil (PEXELS)

 

Depressão

Doença do homem moderno

Pressão da modernidade sobre o homem

Vítima de pressão externa

Talvez impressão

Sente-se sofredor

Sofre dor existencial

A própria existência

É a dor maior

De uma consciência

Com ciência

De que não vive

Apenas existe

E não insiste

Em vencer

E não vem ser

Feliz.


terça-feira, 26 de maio de 2026

O VOO 535 (MARÇO 2026)

Gerada por IA

 

TEMA

 O homem sempre foi fascinado pela ficção científica. Neste gênero, escritores puderam dar asas à sua imaginação, vislumbrados pelas conquistas no âmbito científico. Um dos temas mais fascinantes e visitados foi a viagem no tempo, explorada em seus diversos nuances. Quando esse tema liga-se a um avião lotado de passageiros, o enredo torna-se mais interessante como no livro “Fenda no tempo” do escritor Stephen King e, mais próximo de nossos dias, a minissérie que explorou o desaparecimento de um avião comercial. Tendo como base esses elementos e adicionando uma pitada de mundo pós-apocalíptico, somado a uma nada convencional epidemia zumbi surgiu a ideia deste cordel, totalmente ambientado em território brasileiro.

 

SINOPSE

Em uma bela manhã de inverno, no aeroporto de Curitiba, os passageiros do voo 535 embarcam sob os cuidados do comandante Herondino e de sua tripulação. A viagem corre às mil maravilhas até que o avião, repentinamente, acaba sendo envolvido por uma estranha tempestade, passando por uma grande turbulência. Apesar do susto, nenhum incidente de natureza grave é registrado a bordo. Ao fazer sua primeira escala, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, passageiros e tripulantes encontram o local, sempre tão movimentado, agora completamente deserto. Não há qualquer movimento ou ainda qualquer forma de vida. O que terá acontecido? Onde foram parar todos? Essas e tantas outras perguntas esperam por você nesse nosso primeiro cordel de ficção científica. Embarque conosco nessa viagem.


Sete horas da manhã,

Aeroporto Afonso Pena,

Cidade de Curitiba.

A senhora Madalena,

Ao lado de seu esposo,

Só observava a cena.

 

Muitas pessoas nas filas

Pra despachar a bagagem;

Outras tomavam café,

Mostrando camaradagem.

Os jovens faziam selfies

Com a bonita paisagem.

 

O inverno havia chegado,

Baixado a temperatura.

Enfrentar o frio lá fora

Só podia ser loucura.

O cruel vento açoitava

Com requintes de tortura.

 

Chocolate com canela,

Um belo dum cappuccino.

De lá da cafeteria

Vinha um aroma divino,

Agradando paladares

No período matutino.

 

Cada pessoa vestida

Com o seu casaco quente.

O frio forte dominava

Aquele enorme ambiente,

Que cada vez mais se enchia

Com todo tipo de gente:


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A ETERNA CRIANÇA PERDIDA DENTRO DO HOMEM

Crédito: Felipe Campos (FLICKR)

 “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”

                 Seja bem-vindo, mais uma vez, caro leitor, ao mundo da imaginação. Sim, a literatura é o universo onde o céu é o limite. Falamos em céu, porque, quem dentre nós, para sermos bem sinceros, quando criança, nunca teve, ao menos uma vez (eu confesso que por muitas) o desejo de voar, fosse com aquela toalha que pegou escondido da mãe para fazer capa de super-herói (inclusive por que será que a habilidade de voar era a mais admirada em nossa geração?) ou montando uma nave na sala de casa, com cadeiras e outras parafernálias, para explorar o universo? Acontece que, após uma sequência de viagens permeadas por conflitos sociais, escolhi para nós, hoje, um roteiro mais suave. Possamos nós, agora, deixar a França e sua revolução, para nos dirigirmos até o ano de 1943. Para onde? Para o deserto do Saara. Olha só que viagem exótica, hein! E você pode perguntar: o que há para se ver lá além desse imenso oceano de areia? Ah, caro leitor, a literatura é capaz de realizar os fenômenos mais surpreendentes aos olhos humanos. Prepare-se para um encontro com a magia que, aliás, no mundo da literatura não funciona como o oposto da realidade, mas sim, como um complemento mais que necessário. E como não poderia faltar, aqui vai a nossa “playlist” de hoje: a trilha sonora da animação “O pequeno príncipe” feita para o filme de 2015, composta por Hans Zimmer e Richard Harvey.

                   Após uma pane em seu avião, um piloto faz um pouso forçado no referido deserto e, ao acordar do acidente sofrido, encontra um menino de cabelos de ouro e cachecol amarelo, que lhe pede um desenho. Cabe lembrar que nosso aviador, quando criança, desejava ser pintor, mas fora desencorajado pela falta de sensibilidade dos adultos. A partir daí, vai surgindo uma inesperada amizade, com base nos relatos de ambos para se conhecerem melhor. O piloto descobre que o rapaz à sua frente é um principezinho de um asteroide chamado B-612, que possui três vulcões (um extinto), uma rosa e alguns baobás. Essa rosa (A rosa vermelha) tomará boa parte da narrativa do menino, explicando o relacionamento que existe entre eles e a série de exigências que a mesma lhe fazia o tempo todo. Aí surge uma das frases maravilhosas embutidas nessa narrativa, quando o piloto diz a ele: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Muito interessado pela história do menino, o aviador ouve atentamente como foi sua viagem, curioso por saber como ele chegou aqui à Terra.

                O príncipe narra sua passagem por diversos asteroides, todos eles, assim como o seu, com apenas um morador, os quais não possuem um nome, contudo são reconhecidos ou nomeados pelo ofício que exercem em cada um deles. Tratam-se todos de adultos, completamente imersos em seus próprios “mundos”. Dentre eles, podemos citar o rei, para o qual “todos os demais são súditos”. Ele oferece um cargo ao príncipe, que não vê nenhum sentido e parte. Em outro planeta, encontra o vaidoso, tenta até uma conversa. “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios”. Um pouco mais adiante, encontra o beberrão, o qual admite que bebe para esquecer a vergonha que tem de beber. Depois encontra o acendedor de lampiões, que os acende e apaga constantemente, embora não saiba do sentido que tenha, mas o faz somente porque assim diz o regulamento.

                Ao passar por cada local, o jovenzinho leva consigo uma lição em forma de reflexão e questionamento, acerca da forma adulta de se ver a vida e de vivê-la. Em um dos asteroides, o geógrafo fala a ele sobre um planeta chamado Terra, um lugar repleto de gente, o que muito interessa ao principezinho, que parte para lá. É na Terra que ele conhecerá a mais cativante das personagens (opinião puramente minha, caro leitor): a raposa. Eles vão discutir sobre o valor da amizade, do amor e, sobretudo da responsabilidade que temos uns para com os outros, como em uma das mais célebres frases do livro: “Tu te tornas inteiramente responsável por aquilo que cativas”.

                O livro “O pequeno príncipe” é visto como um livro infanto-juvenil por alguns, infantil para outros, mas, para mim, caro leitor, essa classificação, quando se trata de um clássico, não faz a menor diferença ou até mesmo importância. E por quê? Porque este livro, em minha humilde opinião de mero leitor (mas apaixonado pela leitura) fala alto ao adulto e nos chama a atenção para uma viagem ao nosso íntimo. Para mim, é como se ele perguntasse a cada adulto: “O que você fez com aquela criança que foi um dia?” Aí vem a questão: muitas vezes, em nossa cultura, ouvimos frases como “deixa de ser criança”, “você não é mais criança”, como se elas representassem tão somente a imaturidade e a inocência. Durante sua viagem, o príncipe encontra adultos que viraram reféns de uma vida rasa, superficial, repleta de suas mais absurdas ambições. Em quase todos os asteroides, elas são sozinhas, como ele próprio diz: “As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. Fechamo-nos, caro leitor, em nossos mundinhos particulares que, como os asteroides visitados, não têm espaço para mais ninguém.

                A criança representa o encantamento pela vida, em suas manifestações mais simples, mantendo sua sensibilidade aberta ao espetáculo da existência. Como também podemos encontrar na fala da raposa: “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Muitos perderam esse olhar e seguem não mais vivendo, apenas existindo. E por que não dizer que alguns “vegetam” por aí, como pepinos ambulantes? Muitos, com medo de sair da sua zona de conforto, trancaram (infelizmente) a porta do seu coração porque “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas esquece sempre os benefícios de um amor sincero e pleno. Sabemos que certas experiências acabam nos deixando marcas profundas, verdadeiras cicatrizes emocionais, porém o sábio principezinho nos lembra de que “é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou”. As crianças também sofrem, mas se abrem a novas vivências. E o que as move? Acredito que a esperança ou até mesmo a confiança de que tudo pode ser diferente. Talvez, quando nos tornamos adultos, parece que perdemos essa insistência (que às vezes até nos irrita) que a criança tem para conseguir o que quer. Acho que passamos a desistir de nossos sonhos muito mais facilmente. “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”. Falta-nos a paciência (do adulto) e a expectativa (da criança). Passamos, então, a buscar o caminho mais fácil para tudo, esquecendo-nos de que a recompensa é proporcional ao tamanho do desafio.

                Poderia aqui citar ainda uma imensidade de trechos dessa fantástica obra que fala ao coração do homem e que busca encontrar, lá dentro, uma centelha daquela criança que ele já foi. Não, caro leitor, jamais retornaremos àquela doce inocência. Isso é um preço pago por atingir a maturidade. Entretanto, o encanto pela vida e o verdadeiro valor das coisas que realmente importam para se poder viver de verdade, esse ainda pode ser resgatado. Que possamos olhar o mundo com a responsabilidade do adulto, todavia sem perder, jamais, o encantamento da criança. Que possamos aprender mais com elas, com seu jeito simples de enxergar a vida e de dar sentido a ela, terminando com um trecho de um poema de William Wordsworth: “Meu coração salta quando vejo / Um arco-íris no céu: / Assim era quando minha vida começou; / Assim é agora que sou um homem; / Assim seja quando eu envelhecer, / Ou me deixe morrer! / A Criança é pai do Homem”. Até a próxima.

 SAINT-EXUPÉRY. Antoine. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.    


sexta-feira, 22 de maio de 2026

CORDEL DA RESISTÊNCIA

Crédito: Stein Egil Liland (PEXELS)

 

Eu vim aqui pra dizer

Que é preciso resistir.

Sei que a luta não é fácil,

Mas não pode desistir.

Não jogue ainda a toalha,

Não é o fim da batalha,

Pois é hora de insistir.

 

Levanta a sua cabeça,

Você não está sozinho.

Sempre alguém te estende a mão

Bem ao longo do caminho.

Não se deixe esmorecer,

Siga em frente pra vencer.

Falta só mais um pouquinho.

 

Não importa que essa noite

Pareça a ti mais escura,

Por mais longa que ela seja,

Por tanto tempo não dura.

A esperança não é vã,

Pois o sol, pela manhã,

Faz valer sua luz pura.

 

Não deixe de acreditar

No outro, em ti ou em Deus.

Nem abandone jamais

Um sonho sequer dos seus.

Segure-os por entre os dedos,

Encare todos os medos

E à pequenez diga adeus.

 

Eu sei que você consegue

Pois só de você depende

Verdadeiro vencedor

É quem nunca enfim se rende.

Não se importa com tropeços,

Porque há sempre recomeços,

E com os erros se aprende.

 

Não se esqueça que essa estrada

É cercada de beleza.

De repente, em qualquer curva,

Nos reserva uma surpresa.

Traga os olhos bem abertos

E seus instintos despertos

Pra não perder tal grandeza.

 

Por último, o que eu te digo,

Mas não menos importante:

Na vida jamais recue

Nem um mísero instante.

Siga de cabeça erguida,

Na estrada longa da vida

Caminhe sempre adiante.


A INTERMINÁVEL BUSCA PELA PERFEIÇÃO

Crédito: Wikimedia Commons   “Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeiç...