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segunda-feira, 15 de junho de 2026

QUANDO O AMOR SE ENCONTRA ENTRE O INTERESSE E A OBSESSÃO

Crédito: Thais Melo (Deviant Art)

 “Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia.”

             Seja bem-vindo, caro leitor! É com muito prazer que o recebo, mais uma vez, para embarcarmos em uma viagem ao mundo da ficção (e que insistentemente nos traz de volta à realidade), percorrendo as páginas dos mais interessantes clássicos da literatura que a mente humana já possa ter produzido. Após termos vivido um período de duas leituras em pleno voo, hoje voltaremos a pôr os nossos pés no chão. Isso mesmo, meu caro: basta de voar por um tempo. Vamos agora nos dirigir à Inglaterra, mais precisamente aos morros nas regiões de Yorkshire, no ano de 1847. Vamos, sem delongas, acessar a nossa “playlist” de viagem para a música tema do livro “Wuthering Heights” seja, para a minha geração, na icônica voz de Kate Bush (1978), ou, para as gerações mais recentes, na voz de André Matos, na época em que era vocalista do conjunto Angra (1993).

            De todas as nossas viagens, não será essa a primeira vez que iremos adentrar a uma história de amor como núcleo de um romance, porém, desta vez, garanto-lhes que o Romantismo poderá ser visto em sua forma mais densa e tensa, superando até mesmo a história do pobre jovem Werther. Se algum leitor desavisado estiver pensando que estará diante de “uma historinha água com açúcar”, que servem para trazer estereótipo ao mundo romântico, garanto que irá se arrepender (pode trocar pelo verbo surpreender se achar o termo um pouco agressivo). Mas, comecemos então com o fato gerador do conflito que é quando o senhor Earnshaw retorna de uma das suas viagens trazendo consigo um menino, um órfão que será criado junto aos seus filhos: Catherine e Hindley. Enquanto o menino, vê, no recém-chegado, um rival que irá disputar e até mesmo roubar a atenção de seus familiares; a irmã afeiçoa-se a ele de imediato. Essas duas relações, pautadas no amor e no ódio, intensificam-se com o tempo. Os dois apaixonam-se perdidamente (eis aí nosso par romântico), mas, com a morte do casal Earnshaw, Hindley passa a ser o verdadeiro dono de tudo e, passa a despejar todo o seu desprezo pelo irmão adotivo, sujeitando-o aos mais humilhantes serviços, além de privá-lo de ver a irmã (aqui entra o clássico obstáculo ao amor). Heathcliff passa da condição de filho a servo, mas ainda suporta muitas coisas por Catherine.

            Esta, por questões estritamente financeiras, acaba por arranjar matrimônio com um homem de posição social bem melhor que o irmão, o que acaba por piorar o seu jeito, agora muito amargurado e rude, como consequência pelo tratamento que recebe. Após a notícia do casamento de Catherine, ele não tem mais motivos para permanecer onde está, decidindo partir pelo mundo afora. Mais tarde, contudo, ele retorna, como um homem rico e bem sucedido, em outras condições sociais e motivado por um único desejo: vingar-se daqueles que o privaram de seu final feliz com Catherine. Heathcliff não encontrará limites para satisfazer esse seu capricho, colocando o irmão adotivo (Hindley) e o marido dela, seu rival (Edgar) como alvos permanentes em sua sede de vingança. Se o caro leitor, ficar ávido por mais detalhes ou informações, há apenas uma coisa a se fazer então: ler o romance. Quanto a mim, paro por aqui, segundo aquele meu velho princípio já exposto aqui: não revelar o final da trama. Asseguro a você que muitas reviravoltas estão por vir nessa trama e que suas consequências terão efeitos devastadores.

            Caro leitor, esse romance traz consigo uma infinidade de abordagens a respeito do amor. Temos uma vasta quantidade de outros romances que o exploram. Lembrando que foi assim que o gênero romance, tal como o conhecemos hoje, começou: tratando de histórias de amor. Daí é comum encontrar a confusão que alguns leitores fazem de que romance é, necessariamente uma história de amor. Mas isto é assunto para as aulas de teoria literária, o que não é nosso caso no momento. Vemos, na relação entre Heathcliff e Catherine, o encontro de dois mundos que, apesar de grandes diferenças (ele, um menino sozinho no mundo; ela, uma menina cercada de mimos), cultivam uma paixão a qual podemos classificar como correspondida. Contudo, meu caro, o verdadeiro amor, aquele ao qual chamamos como absoluto, como naquela canção da banda Legião Urbana, “Monte Castelo” que é uma união de um soneto camoniano (belíssimo e famoso) com a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13, quando diz: “é só o amor que conhece o que é verdade”, vai enfrentar, no mundo, os mais diversos adversários que, de antemão, já entendemos que são totalmente opostos a ele.

            De um lado, temos Catherine e a questão do interesse, por tratar-se exclusivamente do aspecto econômico, transformando esse sentimento em um balcão de negócios como se pode ver no romance “Senhora” de José de Alencar. Entretanto, cabe aqui lembrar que existem muitos outros interesses em jogo que sempre acabam por jogar o amor para escanteio, como dizem os antigos, ou ainda, retirá-lo da lista de prioridades. Além do dinheiro, podemos citar o poder, a fama, o sucesso, o narcisismo e tantos mais. Não é à toa que os primeiros autores usavam os obstáculos ao amor genuíno como causadores de conflitos. É uma fonte inesgotável de recursos. Pode observar por aí. Como diria Artur da Távola: “Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros.” Ah, caríssimo, amar pressupõe renúncia. Aí está a grande dificuldade do homem, que só deseja angariar, conquistar. Ceder é algo bem mais custoso. Quantos “amores” cada um de nós carrega em seu peito? Quantos deles não são apenas desejos disfarçados do mais puro e nobre sentimento? Faltam-nos respostas. E por quê? Pelo simples medo, muitas vezes, de se fazer a pergunta correta. Pois certas respostas exigem, de nós, antes de tudo, compromisso.

            Por outro lado, temos Heathcliff, um homem cujo amor lhe fora negado. Esta perda traz a ele uma enorme amargura acerca da vida. Apesar de vencer socialmente e financeiramente, contra todas as expectativas que se tinha dele, o fato de um amor malogrado e não mais correspondido, gerou em seu coração um sentimento de ódio que só poderia ter como amargo fruto o desejo de vingança. Nós, caro leitor, já vimos em uma dessas nossas viagens, em companhia do capitão Ahab, que a vingança tem um poder destrutivo ilimitável e que acaba por consumir todos a sua volta, porque ela facilmente foge ao controle de qualquer um, tal qual um animal cuja natureza selvagem não pode ser domada. É claro que ele tem a ver com a obsessão, que se traduz em um apego exagerado por algo. Isso nos faz questionar quais eram os reais sentimentos de Heathcliff por Catherine. Quantas relações não encontramos por aí, chamadas de amor, mas que não passam de desejos doentios, de posse, de domínio, de exclusividade? Relações que fogem totalmente ao controle, chegando a gerar tragédias como as dos livros?

            Camões, no soneto citado usado para compor a canção, tenta descrever, de forma racional, o sentimento amoroso, como no trecho: “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor.” Não há palavra, talvez melhor, para caracterizar o amor como a palavra “contraditório”. Ele nos mostra diversas fases e faces o tempo todo. Diante disso, bastaria então a cada um de nós evitá-lo para nos pouparmos de grandes danos, e tudo estaria resolvido, não é? Ah, fosse assim tão fácil, diria ainda outro poeta português, Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios.” Temos de reconhecer que não parece ser tão simples assim. Alguns dizem: “mas deveria ser” e eu vos digo: “mas não é”. Sigamos nós, caro leitor, todos nós (sem exceção) navegando neste mar de sentimentos, ora à deriva (à espera de um resgate), ora com as duas mãos firmes no leme. No entanto, entre todas essas faces, fico ainda com mais um trecho da mesma música em que se diz: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria”. Que o bom e velho amor nos conduza. Até a próxima.

BRONTE, Emily. O morro dos ventos uivantes. São Paulo: Atlantis, 2026.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

QUEM NÃO CAMINHOU COMIGO

Crédito: Marek Piwnicki (PEXELS)

 

Nas estradas desta vida

Tantos tombos eu levei

A cada queda que eu tinha

Eu logo me levantei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Perante muitos problemas

Com dúvidas eu fiquei

Por vezes caí no erro

Por outras eu acertei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Ao longo do meu percurso

Com muitos me deparei

Alguns estendendo a mão

Com outros eu me frustrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Em alguns destes caminhos

Perigos eu enfrentei

De alguns eu saí ileso

Em outros eu me afundei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Vivi momentos de riso

Porém em muitos chorei

Enfrentei muitos fantasmas

Por pouco não me livrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


No oceano da existência 

Confesso que naufraguei

E à tábua de salvação

Fortemente me agarrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Enfrentei duras batalhas

Mas outras abandonei

Amarguei cruéis derrotas

E vitórias conquistei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


No meio de tanta gente

Sozinho eu acabei

E por vezes solitário

Companhia eu encontrei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Na corda bamba do medo

Forçado me equilibrei

Com o risco de cair

Eu então me acostumei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Recebi bastantes críticas

Algumas eu aceitei

Aquelas que não serviam

Simplesmente descartei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


Mas mesmo assim há quem diga

Que vencer nunca tentei

Só eu sei da minha vida

Pois nunca desanimei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei. 


Assim deixo o meu recado

Meus limites só eu sei

Os erros que cometi

Um a um eu pagarei

Quem não caminhou comigo

Não entende o que eu passei.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

OLHAR INDIFERENTE

 

Crédito: Laython Photos (PEXELS)

Eu olho o firmamento, busco estrelas

Encontram-se num baile fascinante

Mas minha preferida está distante

Por isso não consigo concebê-las.

 

Mesmo sabendo: coube a Deus fazê-las

Para mostrar seu brilho radiante

Eu considero tudo entediante

Nem o menor prazer eu sinto em vê-las.

 

Nem o resplandecer da luz mais forte

Diante do esplendor da lua cheia

Jamais traz qualquer paz à minha sorte

 

Não despertando em mim inspiração

Pois não possui teus dotes de sereia

A fonte sideral da sedução.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

TEU ORGULHO

Crédito: Tomris (PEXELS)

 

Se os teus olhos não se fechassem,

veriam o quanto sofro por ti.

Se a tua mente não negasse a verdade,

saberia que sempre serei teu.

Se os teus ouvidos não me ignorassem,

escutariam as mais sinceras juras de amor.

Se as tuas mãos não fossem tão frias,

absorveriam o calor que emana das minhas.

Se o teu coração não fosse tão duro,

abriria a porta diante das minhas declarações.

Se a tua alma não fosse assim tão orgulhosa,

faria de ti a mulher mais feliz deste mundo.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

LEMBRANÇAS

Crédito: Arthur Brognoli (PEXELS)

 

O sol que me desperta todas as manhãs

Não reflete o brilho dos teus olhos...

 

A brisa que sopra ao toque da alvorada

Não carrega o tom suave da tua voz...

 

As mais nobres flores colhidas nos campos

Não exalam o perfume do teu corpo...

 

A plácida margem azul do lago

Não espelha a formosura do teu rosto...

 

A relva verde estendida sobre as planícies

Não possui a maciez das tuas mãos...

 

O céu estrelado em noites claras de lua

Não transmite a alegria do teu sorriso...

 

De que adianta esse paraíso todo ao meu alcance

Se nada aqui me faz te esquecer?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A INTERMINÁVEL BUSCA PELA PERFEIÇÃO

Crédito: Wikimedia Commons
 

“Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”

                 Saudações literárias, nobre leitor! Cá estamos nós, prontos para mais uma viagem. Sim, meu caro, essa é a palavra ideal para descrever a literatura: viagem. Ela pode acontecer das mais diversas formas (e acontece mesmo), rompendo os limites de tempo e espaço, porque, para a criatividade humana, não existem fronteiras. Agraciados por essa magia, vamos, agora, partir do deserto do Saara, após uma busca pela nossa criança interior, em uma jornada (talvez) ainda maior, pois esse negócio de ficar comparando, querido leitor, é uma tarefa, às vezes, bem arriscada. E por que falar de riscos? Porque eles vêm bem a calhar na nossa história de hoje. Para aqueles leitores amigos ou amigos leitores (pois essa permuta de ordem daria uma bela aula de posições entre substantivo e adjetivo no discurso) que me cobraram, na semana passada, por uma trilha sonora – digna de O pequeno príncipe – a qual não fui capaz de encontrar, hoje tento corrigir minha incapacidade, acionando aquela nossa “playlist” com a canção “Be” na voz de ninguém mais ninguém menos que Neil Diamond para o filme de Fernão Capelo Gaivota, inclusive recomendo ao leitor que, mais tarde (pelo amor de Deus, leia o texto primeiro) assista ao clip, recheado de inspiradoras imagens e coroado com uma tradução que mostra o teor dessa música. Agora, deixemos de conversa e partamos.

                O ano é 1970 e a praia é uma praia qualquer, seja dos Estados Unidos, lar do autor, ou de qualquer lugar do mundo. Cá entre nós, temos as mais belas paisagens à beira-mar para usar como pano de fundo. Lá encontraremos uma gaivota. Isso mesmo, meu caro, eis o nosso protagonista do dia: um pássaro. Para que se possa compreender aonde quero chegar, é importante que se saiba que a gaivota é uma ave aquática encontrada em quase todo o mundo, que vive em bando e usa a beira do mar para sua alimentação, portanto, uma ave tida como comum. Entre um bando encontra-se Fernão, tido como estranho pelos demais. Por quê? Porque ele pensa diferente deles. Nosso herói recusa-se a acreditar que a vida seja apenas voar para pegar o alimento e retornar para a praia, dia após dia, por toda a sua existência. Deve haver algo mais que isso. Ele passa a explorar, então, a capacidade de voar, fazendo diversas experiências de voo, com manobras ousadas e tudo mais. Por certas vezes, ele fracassa, pois, não podemos nos esquecer, Fernão está imerso em um aprendizado e, existem erros com os quais se pode aprender.

                Por causa de seu comportamento “esquisito”, o que torna sua postura inadmissível para com a sociedade da qual faz parte, ele é expulso do bando, banido, condenado a viver sozinho. Fernão continua suas tentativas, até que encontra duas outras gaivotas, diferentes daquelas que via em seu bando. Essas, como ele, também têm a paixão por voar e o desejo de superar seus limites. Elas pedem que ele as siga. Após algumas aulas, Fernão transcende a outra dimensão na qual todas as gaivotas partilham o desejo por voar com excelência. Após muitos ensinamentos, ele tem como missão a de voltar para a realidade e tentar guiar outros que, como ele, sonham em evoluir nessa existência. De aluno, ele deverá passar a professor, porém, uma das grandes lições de seu mestre: somente o amor e o perdão podem trazer a liberdade que ele tanto busca.

                Caro leitor, já diz o velho ditado: “não se julga um livro pela capa”. Pois bem, à primeira vista, parece tratar-se de uma simples obra, levando alguns a pensar: “o que pode haver de tão profundo e revelador no enredo em que uma gaivota deseja voar melhor?” Ah, não caia nessa armadilha. Como diria o próprio autor nessa narrativa: “Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento.” É uma história sobre autoconhecimento. Sobre limites e desafios. Nesse momento peço encarecidamente (suplico, se for preciso) que não o confunda com um livro de autoajuda. Não, caro leitor, é muito mais que isso: trata-se, entre tantas coisas, de se perseguir um sonho. Quantos por aí não perderam essa humana capacidade, não é? Como nos versos de Cecília Meireles: “Permite que eu volte o meu rosto / para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho / como as estrelas no seu rumo.”, Fernão não se contenta com a realidade que se apresenta a ele e parte em busca de seus anseios. Claro que isso o tornará diferente dos demais, o que costuma ser motivo de exclusão em nossa sociedade, pois, na verdade, como na música dos mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito louco por eu ser feliz”, muitas vezes o que não se enquadra no padrão da sociedade, fica à sua margem.

                O livro fala sobre a vida como um eterno aprendizado, como quando o protagonista diz aos seus pares: “Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Sim, caro leitor, há tanta coisa para se saber nessa nossa longa estrada e, por tantas vezes, contentamo-nos com tão pouco, sem falar naqueles que acabam achando que já sabem de tudo. Quanta pobreza de espírito! E, falando em espírito, enxergo esse livro como uma verdadeira jornada espiritual, uma aprendizagem que supera em muito as necessidades materiais que, segundo o próprio protagonista, prendem e sequestram o nosso verdadeiro entendimento das coisas. Uma das frases mais célebres desse livro: “Enxerga mais longe a gaivota que voa mais alto”, refere-se justamente a essa busca pelo conhecimento. Se em minha primeira leitura, que se deu aos meus quinze anos de idade, eu procurava entender o que esse tal Fernão buscava, hoje, após mais algumas leituras, só tenho uma resposta: evolução. Porque, como adulto que hoje sou, entendo que a perfeição talvez jamais seja alcançada, contudo, quem a busca incansavelmente, com certeza, adquire uma evolução constante.

                Por último, porém não menos importante, o livro trata de uma relação com o sagrado, como algo ao qual se tem acesso, sem a mínima preocupação de uma definição ritualística ou se nomear uma religião, porque Deus está acessível a todos, é Ele a verdadeira perfeição. Na busca por sua liberdade (que aqui modestamente entendo como o abandono dos velhos conceitos e rótulos), Fernão aprende o papel do amor e do perdão: jamais se entende o outro por meio de julgamentos e reações impulsivas: “Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. Que possamos, caro leitor, libertar-nos  de toda a mediocridade que nos aprisiona, de todo pensamento que nos apequena, que busquemos tirar os pés da areia e alçar grandes voos. Há tanto azul sobre nós, pronto a ser desbravado, que ampliemos o nosso olhar, percorramos grandes distâncias, buscando, sempre, nada mais que conhecer a nós mesmos. Que possamos dar o melhor de nós, terminando com aqueles mágicos versos de Fernando Pessoa pelo heterônimo Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive”. Até a próxima!

BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. São Paulo: Record, 2017.


sábado, 30 de maio de 2026

EM PROL DA TRANSFORMAÇÃO

Crédito: PEXELS

Um tal de Gandhi dizia

Em uma antiga nação

“Por mim é que se inicia

A global transformação

Toda obra principia

Do meu próprio coração”.

 

Se eu aspiro por mudança

Um exemplo devo ser

Pois não basta confiança

É necessário fazer

Com muita perseverança

Para a graça acontecer.

 

Relegar ao abandono

Aquela noção quadrada

Da qual não se é o dono

Ter a mente renovada

Abdicando do trono

Da certeza eternizada.

 

Procurar pela resposta

Com o coração aberto

A verdade está exposta

Pois é bom ficar esperto

Porque há sempre uma proposta

Para fazer o que é certo.

 

Já me sinto responsável

Abraço então a missão

Mantenho o corpo saudável

Pela autorregulação

A luta é inadiável

Não à procrastinação.

 

No controle eu permaneço

Ante cada sentimento

Os meus limites conheço

Mas eu sigo em movimento

É preciso, eu reconheço,

Gerar desenvolvimento.

 

Sinto a energia pura

A correr em cada veia

A mente clara e segura

Nova esperança semeia

A consciência madura

A cada impulso refreia.

 

O meu lado racional

Acolhe a cada emoção

Não me prendendo ao banal

Mantenho a concentração

Preciso ser funcional

Sem perder a atenção.

 

Não basta só a virtude

Uma alma plena de viço

É mister ter atitude

Eis o real compromisso

Pra atingir a plenitude

Todo bem requer serviço.

 

Não posso tudo sozinho

Por isso estou conectado

Cada um por seu caminho

Já está ultrapassado

Um pensamento mesquinho

À derrota já fadado.

 

Um vislumbre do passado

Urge o tempo da mudança

Traz um presente marcado

No advento da esperança

De um futuro renovado

Pelos ares da bonança.

 

Com motivação intensa

Na qual a fibra se esculpa

O bem por si só compensa

O mal só nos traz a culpa

É melhor pedir licença

Do que então pedir desculpa. 

QUANDO O AMOR SE ENCONTRA ENTRE O INTERESSE E A OBSESSÃO

Crédito: Thais Melo (Deviant Art)   “Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como ...