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| Crédito: Wikimedia Commons |
“Os homens que olham para a natureza e para seus semelhantes, e gritam que tudo é sombrio e lúgubre, têm suas razões, visto que essas cores tristes que eles veem provêm de seus olhos e de seus corações amargurados. Para ver as cores tão verdadeiras e delicadas como elas são, é necessário possuir uma visão mais clara.”
Tudo
começa em uma casa de correção, instituição pública comum para a época, no auge
da Revolução Industrial, responsável por abrigar e “corrigir” (tome bastante
cuidado com as implicações que esse verbo pode trazer) os marginais que
infestam a sociedade e ameaçam a sua ordem e bem estar. É lá, neste local, que
uma mulher irá dar à luz ao nosso personagem: Oliver Twist. Inclusive, cabe
aqui vos dizer que se trata do primeiro livro, na literatura universal, em que
o protagonista é uma criança. Se o leitor por acaso chegar a pensar que teremos
uma história infantil, preciso dizer que, na verdade, não será desta vez que
isso acontecerá. É novamente sobre o mundo adulto, só que o foco, agora, é a
forma com que ele trata as suas crianças. A primeira demonstração disso é a
morte da mãe logo após o nascimento do filho, que também já nasce sem pai.
Oliver
é deixado aos cuidados das instituições responsáveis por zelar por sua
integridade (poderíamos aqui enumerar uma enorme lista da Declaração Universal dos
Direitos Humanos e até mesmo do Estatuto da Criança e do Adolescente, com as
mais belas e tocantes palavras que a mente humana pode produzir e o papel
registrar a respeito dos cuidados para com o menor, mas isto de nada adiantaria,
pois a meu ver não passa de romantismo). Oliver é expulso por causa de pedir
para repetir uma refeição. Começa a trabalhar para um dono de uma funerária,
mudando de ambiente, porém a situação é a mesma: continua sendo vítima de maus
tratos e humilhações. Entre idas e voltas, resolve rebelar-se e fugir para
Londres em busca de algo melhor. E aí o leitor pensa: “Mas também, com uma vida
tão ruim dessas, não há como piorar”. Ah, caro amigo, como nos enganamos nesta nossa
vida, não é? Oliver é recrutado para uma gangue de pequenos furtos, os tão
famosos batedores de carteiras da época, liderados por um homem sem escrúpulos
de nome Fagin.
Nosso
protagonista vê-se novamente em apuros, acaba sendo preso depois de um roubo em
que seus comparsas ligeiramente escapam. Ele é levado perante a autoridade, mas
a vítima (Mr. Brownlow) não crê que aquele menino tenha verdadeiramente culpa e
pede para que ele seja solto. É a primeira vez que alguém enfim o vê como ele
realmente é: uma criança. O senhor, homem de bom coração, tenta ajudar o
menino, tarefa bem espinhosa em um mundo em que o mal espalha seus tentáculos
por todas as partes para roubar a inocência e a pureza das crianças. Charles
Dickens, um crítico à sua época, denuncia uma sociedade que pouco (ou nada) se
importa com a vulnerabilidade dos menores de idade. Um sistema que quase nada
faz, quando não consegue ainda piorar aquilo que já era muito ruim. Podemos
retornar aos nossos tempos e enumerar uma série de instituições que deveriam
ser chamadas de depósitos de gente. Poderia aqui falar de lugares de correção
que têm a singular capacidade de devolver ao mundo as crianças, que lhes foram
confiadas, muito piores em comparação ao modo como entraram.
Como
denuncia o grande contador de histórias, nosso querido baiano Jorge Amado, em
seu livro Capitães de areia (1937), curiosamente cem anos depois da obra de
Dickens, os meninos de rua estão abandonados à própria sorte. Eles não contam
com o apoio de quase ninguém nessa vida. Poucos os veem como realmente são:
crianças. As instituições são mostradas, nestas duas obras, mais como uma
agência de controle de pragas do que como um lugar capaz de recuperar alguém.
Em um país com casos de extrema pobreza como o nosso, é muito comum enxergarmos
milhares de exemplos como o citado no início da canção de Chico Buarque:
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar / Já
foi nascendo com cara de fome / E eu não tinha nem nome pra lhe dar / Como fui
levando, não sei lhe explicar...” Sei que algumas coisas já mudaram, mas ainda
é muito tímido o apoio que deveria ser dado aos menores de rua. É muito fácil
falar em proteção à infância quando se olha os meninos e as meninas bem
cuidadas, de famílias estruturadas, com pais e mães presentes, que têm os seus
direitos mais básicos garantidos pelos seus. Todavia, ter o mesmo pensamento ao
se deparar com os pedintes em semáforos e esquinas de nossa cidade é de uma
diferença estratosférica. Concordo que é bem mais fácil mudar de calçada, virar
o rosto para o outro lado, subir o vidro do carro ou todas aquelas outras
estratégias que você, caro leitor, assim como eu (não pense que sou diferente)
já usamos diversas vezes.
Cansado
de dizer tanta coisa ruim, gostaria de terminar chamando a atenção para o
trecho do livro que abre esse artigo: nele vemos a pessoa de Mr. Brownlow. Ele
é a chama que arde teimosamente. O único que enxergou (com clareza) Oliver em
sua essência. Também quero frisar que, apesar dos maus tratos aos quais
severamente foi submetido, nosso herói não foi influenciado por eles. Ainda
resta esperança, caro leitor. Mais uma vez, desejo salientar que, como sempre,
corro o risco de ser mal interpretado e ser rotulado como alguém que defende a
impunidade. Nunca preguei isso. Chamo a atenção para uma parcela (muito
significativa) de nossa sociedade que prega a punição a todo custo, mas jamais
o acolhimento e a compreensão. Ainda existe gente que defende o castigo antes
da orientação e vai mais além: trata criança como adulto.
Eles encontram-se espalhados por
aí, num número que parece cada vez maior. Fechar os olhos ou mudar o trajeto
não os fará diminuir ou desaparecer magicamente de uma hora para outra, como
tentamos fazer em vão com tantos outros problemas com que nos deparamos, em
expressões usadas pelos mais antigos como “tapar o sol com a peneira” ou
“varrer a sujeira para debaixo do tapete”. Fica o desejo de que os direitos e os
estatutos deixem de ser uma utopia, que saiam das belas molduras na parede e
das gavetas dos gabinetes e passem a ser realidade. Desejo que não façamos mais
vista grossa e lembremos, como fala a canção de Toquinho: “Sério ou engraçado /
No frio ou no calor / Criança quer cuidado / Criança quer amor / Em qualquer
lugar criança quer o quê? / Criança quer sonhar / Criança quer viver”. Até a
próxima.






