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sexta-feira, 24 de julho de 2026

NUNCA

Crédito: Raphael Brasileiro (PEXELS)

 

Nunca abri mão do direito

De um dia, enfim, ser feliz.

Nunca passei por um mal

Que não deixou cicatriz.

Nunca cometi um erro

Do qual não fosse aprendiz.


Nunca admiti amostras

Do mínimo preconceito.

Nunca deixei de mostrar

Por alguém o meu respeito.

Nunca gostei de fazer

As coisas só do meu jeito.


Nunca desisti dos sonhos

Nem mesmo por um momento.

Nunca escondi de ninguém

O meu real sentimento.

Nunca sequer duvidei

Da força do pensamento.


Nunca conquistei sucesso

Às custas de um outro alguém.

Nunca desejei o mal

A quem não me fez o bem.

Nunca tomei um partido

Somente porque convém.


Nunca quis ganhar no grito

Em nenhuma discussão.

Nunca permiti que o impulso

Calasse a voz da razão.

Nunca concedi ao ódio

Tomar o meu coração.


Nunca aceitei que o errado

Fosse visto como certo.

Nunca mantive distante

Quem me queria por perto.

Nunca ocultei de ninguém

Se era pra ser descoberto.


Nunca desrespeitei regras

Para a boa convivência.

Nunca parei de colher

O fruto da paciência.

Nunca tapei os ouvidos

Para a voz da consciência.


Nunca achei graça nenhuma

Ao ver a miséria alheia.

Nunca deixei seduzir-me

Pelo canto da sereia.

Nunca me expus à aranha

Pra me enredar em tal teia.


Nunca me achei o melhor,

Buscando sempre aprender.

Nunca desprezei a chance

De adquirir mais saber.

Nunca julguei as pessoas

Pelo que ostentavam ter.


Nunca evitei enxergar

A cruel realidade.

Nunca adotei a estratégia

De esconder-me da verdade.

Nunca achei ser algo ingênuo

Falar com sinceridade.


Nunca chamei de covardes

Aqueles que não revidam.

Nunca vi por corajosos

Os sujeitos que intimidam.

Nunca deixei sem respostas

A todos que me convidam.


Nunca abandonei à sorte

Qualquer um dos meus amigos.

Nunca assumi aventuras

Sem cogitar os perigos.

Nunca neguei a ninguém

Os meus braços como abrigos.


Nunca me cansei de crer

Em um futuro brilhante.

Nunca imaginei meu sonho

Uma coisa tão distante.

Nunca recuei meus passos

Em vez de ir adiante.


Nunca falei por impulso

Pra depois se arrepender.

Nunca julguei de antemão

Bem antes de conhecer.

Nunca disse só de ouvir

Pra só depois poder ver.


Nunca falei juramentos

Que não pudesse cumprir.

Nunca entrei em uma luta

Da qual quisesse fugir.

Nunca vi monte tão alto

Que não pudesse subir.


Nunca sofri uma queda

De que o corpo não se ergueu.

Nunca houve uma lição

Que a mente não aprendeu.

Nunca, nunca, sempre nunca.

Assim que se sucedeu.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

SEM COMPASSO

Crédito: Rakicevic Nenad (PEXELS)

 

Coração bate sozinho

Solitário sem compasso

Lamentando alguém distante


Saudade fez morada para sempre

Solidão não vai mais embora

Agora será sua única amante

Felicidade não mais que recordação

Paixão que outrora foi contagiante.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

MEMÓRIAS

Crédito: Adnan Kale (PEXELS)

 

Verão, novo tempo de saudades...

O coração parece bater com mais entusiasmo...

Visito lugares e velhos conhecidos.

Reencontro os sinais de um grande amor.

A memória repleta de lindos momentos

Como feitos de uma natureza recente...


Ainda persiste em meus lábios

O gosto doce dos teus beijos,

O vento traz o teu perfume,

Os ouvidos ainda reconhecem a tua voz.


Tudo é motivo para recordações 

Nada é capaz de esquecimento.

Os dias passam lentamente

Mas tua lembrança permanece

Para sempre comigo, mesmo que distante.


terça-feira, 21 de julho de 2026

A PERFEITA CRIAÇÃO

Crédito: KoolShooters (PEXELS)


Procura por palavra tão dileta,

Busca o seu exato significado.

Almeja o verso limpo e trabalhado,

Vê nessa estrofe tal forma correta.


Investiga a tal fórmula secreta,

Dos gênios artesãos raro legado.

Idolatra o vocábulo sagrado,

Adoração eterna do poeta.


Entrega-te à mais pura criação, 

Alma e coração num trabalho sério.

Escuta no silêncio a inspiração.


Captura o perseguido e cru mistério,

Verbaliza no plano a emoção, 

De uma palavra breve ao verso etéreo.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

O ANIMAL QUE EXPLORA A PRÓPRIA ESPÉCIE

Crédito: Carl Glover (FLICKR)


 “Todos os hábitos do homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais. ”

Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem por esse universo sem limites que é a literatura. Hoje vamos seguir viagem, despedindo-nos, mais uma vez, da romântica França, deixando para trás todo aquele gosto acre de vingança que nos resta e vamos decolar novamente em direção ao solo inglês. Porém, desta vez, nosso destino será uma fazenda. Isso mesmo que vocês ouviram, passaremos a respirar novos ares agora. Para tal viagem, vamos acionar a nossa “playlist” com a música “Bicharia” de autoria de Chico Buarque que faz parte do álbum “Saltimbancos” (1977) e vem bem a calhar com nosso enredo. Tudo se passa por volta do ano de 1945 (demos mais um pulo no tempo), em um local chamado Granja do Solar, uma fazenda onde diversas espécies de animais vivem sob a exploração de um fazendeiro que atende pelo nome de Sr. Jones. Cansados dos maus tratos e do trabalho pesado, os animais, inspirados pelo discurso de um dos porcos da fazenda, de nome Major, que diz ter sonhado com uma fazenda em que os animais viviam livres e felizes, sem a tirania do homem (e considerava absurdo eles serem governados por alguém que nada produzia), acabam fazendo uma rebelião logo após terem ficado um dia inteiro sem receber comida por causa de seu dono ter passado a noite bebido e ter ficado embriagado, assim, eles acabam expulsando o fazendeiro e assumindo o controle definitivo da granja, que passa a se chamar Granja dos bichos.

Logo após a divulgação de suas ideias, Major acaba morrendo e dois porcos assumem a liderança do movimento: Bola-de-Neve e Napoleão (que possuem formas bem distintas de exercer a liderança), criadores dos princípios filosóficos que vão reger a vida dos animais dali por diante, o Animalismo, que promete ideais de justiça e igualdade entre todos os presentes, assumindo o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Em uma parede, são escritos os sete mandamentos básicos da nova filosofia a fim de que todos possam ler. O principal deles é “Todos os animais são iguais”. Cria-se uma bandeira para representar a nova granja, a casa do fazendeiro torna-se um museu e várias políticas são implementadas visando a diversas melhorias para toda a comunidade, entre elas o objetivo de alfabetizar todos os bichos, mas logo se percebe que nem todos possuem o interesse e a capacidade de ler. Ao mesmo tempo, percebe-se que os porcos têm muita facilidade para aprender, demonstrando ser mais inteligentes que as demais espécies, portanto, são escolhidos como responsáveis pelas tarefas intelectuais da revolução e os demais pelas tarefas físicas, ou seja, o trabalho pesado. A partir de agora, cada um trabalha em prol de um bem comum. 

Entretanto, por questões de divergência ideológica, os dois líderes do movimento entram em conflito e Napoleão acaba por expulsar Bola-de-Neve da fazenda, fazendo uso da força (com o apoio dos cães que pegou para criar e que viram sua guarda pessoal) e assumindo o controle total da granja. Bola-de-Neve vê-se obrigado a fugir e jamais consegue voltar devido à propaganda arquitetada por seu rival (divulgada pelo porco Garganta, o porta-voz do líder), que o torna o culpado por tudo aquilo que acontece de errado na granja, transformando-o em um inimigo da revolução aos olhos dos outros bichos ao espalhar notícias falsas (sim, caro leitor, as “fake news” são muito mais antigas do que se pensa, embora estejam na moda), impossibilitando seu retorno e mantendo-se no poder absoluto. A partir de agora, Napoleão vai modificando os objetivos da revolução ao seu bel prazer e moldando-a ao sabor de sua vontade. E lá vamos nós outra vez, caro leitor, mostrar que essa espécie de fábula adulta, porque temos animais com ações e atributos explicitamente humanos, que começa de uma forma tão fantasiosa e até mesmo lúdica, vendendo um aspecto de leitura infantil, vai mostrando aos poucos o seu viés crítico e ácido de uma realidade que nunca sai de moda em nosso mundo político. O grande escritor Maquiavel, autor da icônica obra “O príncipe”, que tanto trata das formas de manutenção do poder, se deliciaria ao ler esta obra. Vai saber se, ao aprender a ler, Napoleão não fez uso dela? Uma das frases de Maquiavel sobre a arte de governar: “É melhor ser temido do que amado”.  

Repare você que o que começou como um sonho, uma utopia, por meio do porco Major, foi, na prática, modificando-se ao longo do tempo. Napoleão vai, pouco a pouco, modificando os mandamentos na parede de acordo com suas conveniências, tendo destaque a mudança do princípio mais importante que agora é “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”. Sem perceber, os animais que fazem o serviço braçal acabam trabalhando pesado da mesma forma que quando eram comandados pelo fazendeiro Jones, mas quase nenhum deles percebe isso porque lhes foi incutida a ideia de que agora trabalham por um novo ideal e que são livres, contudo continuam sendo explorados, mas agora por seu semelhante, lembrando a célebre frase do filósofo Thomas Hobbes “O homem é lobo do homem”. Porque, lá no fundo, é disso que esse livro trata: da exploração do semelhante. Quando concebeu o livro, o autor teve a ideia de fazer uma apologia à Revolução Russa (1917), inclusive podem ser encontrados representados nos animais da granja personalidades como Lênin/Marx, Trotsky e Stalin, além de classes pertencentes à sociedade russa, mas seriam necessárias muitas e muitas páginas para poder se explicar essa vasta simbologia, (não deixe de ler o livro), todavia, a obra não se resume apenas a isso. Não, ela consegue ir muito além desse contexto. A narrativa nos fala dos regimes totalitários de governo e, cá entre nós, seria de uma inocência muito grande achar que eles estão presentes somente em uma ideologia (capitalista ou socialista) com base nesse nosso mundo polarizado de agora. 

Aliás, a sede por poder não se restringe somente ao campo político, ela se espalha pelo campo religioso, econômico, esportivo, porque o poder seduz e corrompe, se não fosse assim não teríamos tantos escândalos nessas instituições. Vemos no caso do porco Napoleão, que converteu os interesses da revolução dos bichos em seus interesses pessoais, a referência a outra frase atribuída a Maquiavel: “Dê poder ao homem e conhecerá quem ele é”, também nos fazendo lembrar de Nietzsche ao dizer “para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder”. No enredo vemos que a possibilidade de poder fez um único animal trair toda a sua classe em busca de seus interesses pessoais, usando essa mesma classe para alcançá-los. Cabe aqui lembrar que a maior mancha deixada neste mundo, a da escravização, foi a de um homem que escravizou outro de sua própria espécie. E por aí vamos. Na fazenda, os porcos foram tendo cada vez mais privilégios, transformando a antiga casa do Sr. Jones, que era um museu, em sua habitação e a partir daí, começaram a adquirir os hábitos humanos como se embriagar e jogar cartas, no velho jogo do oprimido que acaba se tornando opressor. 

A cena que mais representa essa ideia é quando os porcos começam a se reunir com humanos de outras fazendas. Um dia, os animais olham pelas janelas da casa do Sr. Jones e o autor solta a seguinte frase: “Não havia dúvida agora quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, mas não podemos nos esquecer daqueles que, como os muitos bichos da granja, ficam apenas assistindo e fingindo que não é com eles, tal qual se diz na canção do Engenheiros do Hawaii “E é tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada / A história se repete mas a força deixa a história mal contada”. Que não possamos nos esquecer do nosso bem maior que é a liberdade. Até a próxima. 

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 


sábado, 18 de julho de 2026

QUEM BUSCA NA VIDA ALCANÇAR O SUCESSO

Crédito: Eduardo França (PEXELS)

Quem busca na vida alcançar o sucesso,

Precisa de garra também posição

Bem firme e focado com tal precisão,

Podendo atingir um possível progresso.

A fim de evitar o cruel retrocesso,

Quem quer ir pra frente só deve avançar,

Lutar sem dar trégua, jamais descansar.

Na arena da vida não dar por vencido,

Pois para vencer tem que ser aguerrido

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

AQUELE BEIJO

Crédito: Snapwire (PEXELS)

Naquela troca de olhares 

Se um beijo você roubasse,

Só pra quebrar o silêncio 

Sua boca me chamasse 

E por esses ternos lábios 

A tentação se mostrasse.


Talvez fosse diferente

Esta vida que hoje vivo

Por isso que muitas vezes

Me pego assim pensativo 

Recordando a ocasião 

Que em momentos eu revivo. 


Que teria acontecido 

Naquele exato momento 

Se eu deixasse a timidez 

E acatasse ao sentimento, 

Revelando o coração 

Sem qualquer questionamento?


Talvez eu ouvisse um sim

Da sua boca carnuda. 

Ou quem sabe, de surpresa,

Ela até quedasse muda?

Se por mim balbuciasse

Seria um Deus nos acuda.


Se aquela troca de olhares 

Troca de beijos virasse, 

O que ali se começou 

Talvez nunca que acabasse

E aquele surpreso início 

Ainda continuasse. 


Será que faltou coragem

Ou então sobrou respeito?

Terá sido apenas medo?

Qual foi o real conceito?

Teria sido um engano 

Ou o momento perfeito?


Aquele suposto beijo 

Que jamais aconteceu:

Por que foi que eu não roubei?

Por que você não me deu?

Talvez nem você se lembre, 

Também não recordo eu. 


Permanece no desejo,

Gravado está na memória. 

Teria sido um fracasso 

Ou inesperada glória?

Aquele beijo podia 

Ter mudado a nossa história.


NUNCA

Crédito: Raphael Brasileiro (PEXELS)   Nunca abri mão do direito De um dia, enfim, ser feliz. Nunca passei por um mal Que não deixou cicatri...