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domingo, 16 de agosto de 2026

PAIXÃO QUE SE MANIFESTA ENTRE DUAS ARTES

Foto cedida pela autora

Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o grande prazer de receber a escritora e artista plástica Roseli Farias Roque. Vamos saber um pouquinho sobre ela:
 
Roseli Farias Roque nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Atualmente morando em Coimbra, entre Portugal e Brasil. Ministrou aulas particulares nas escolas profissionalizantes em São José, SC. É escritora e artista plástica. Editou o livro Aurora, em 2021. Ministra aulas de pintura em Portugal, participa em exposições e faz parte de academias nacionais e internacionais.
 
Seja bem-vinda, Roseli, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário. Saiba que é um grande prazer ter você aqui.
 
O prazer é meu estar presente no seu blog Cosmo Literário.
 
Sabe-se que ser artista e se expressar por meio de uma arte trata-se de um fato nada comum. Fico imaginando, no seu caso, que trabalha com duas artes totalmente distintas: uma verbal e uma não-verbal. Explique para nós como é conciliar o trabalho com essas duas linguagens.
 
Trabalhar com essas duas linguagens é simplesmente maravilhoso, pois nesses dois mundos, encontro formas diferentes de me expressar. Posso pintar, poetizar e transformar sentimentos em arte. Na pintura, traduzo aquilo, que muitas vezes, as palavras não conseguem dizer. Na poesia, encontro palavras para dar voz às imagens que crio. É magnífico olhar para uma tela e enxergar nela um poema. Assim como é emocionante transformar um poema em cores e formas. São duas artes que dialogam, se completam e caminham juntas. Pintura e poesia me permitem criar, sentir e transmitir emoções. Para mim, unir essas duas linguagens é transformar a inspiração em arte.
 
Ainda falando sobre seu trabalho com as artes plásticas e com a literatura, que acontece de forma simultânea. Qual deles veio primeiro? O que motivou o início da carreira em cada um deles?
 
O que me motivou foram as minhas escolhas e o desejo de seguir caminhos ligados à minha sensibilidade. Na pintura, tudo começou pelo meu encantamento com as flores e suas cores. Sempre gostei de observá-las e de traduzir sua beleza por meio da pintura. Com o passar do tempo, fui pintando cada vez mais e de lá para cá nunca parei. A literatura chegou por outro caminho, através de contato com outros poetas nos saraus. Foi convivendo com eles que a escrita começou a despertar em mim. Quando li meu primeiro poema em público, enfrentei, também, a minha timidez. Aquele momento foi uma grande superação e me deu coragem para continuar. A partir dali a vida foi me mostrando pouco a pouco um caminho que um dia sonhei trilhar. Hoje, pintura e literatura caminham simultaneamente comigo, como duas formas de expressar minha sensibilidade.
 
Agora, tratando as artes plásticas de forma específica. Além de pintar diversos quadros, você também dá aulas de pintura. Tendo em conta o domínio das técnicas e a questão do processo de criação, há como distinguir a artista da professora?
 
Ao longo da vida, pintei muito e, também, tive alegria de presentear muitas das minhas obras. Minha trajetória começou em um clube de mães, onde dei os primeiros passos na pintura. A partir dali, busquei aperfeiçoamento e fui ampliando os meus conhecimentos. Participei de vários concursos nas escolas profissionalizantes de S. José, SC, para dar aula de pintura em tela. Durante nove anos, tive a oportunidade de ensinar pintura e compartilhar o que havia aprendido. Como professora, consigo transmitir aos alunos técnicas e conhecimentos adquiridos ao longo do tempo. Mas acredito que o artista e a professora caminham juntas e se complementam, também aprendi muito com os meus próprios alunos, pois cada um traz um olhar e uma maneira diferente de criar. Hoje, continuo pintando, expondo os meus trabalhos e apreciando cada vez mais o resultado da minha trajetória. Por isso, não consigo separar completamente, a artista da professora: Ambas fazem parte de quem sou.
 
Nas artes plásticas, quais estilos ou tendências você adota para fazer suas obras? Houve alguma mudança com o passar do tempo? Quais artistas servem de referência para você?
 
Não me prendo a um único estilo, pois gosto de experimentar e transitar por diferentes formas de expressão. Pinto diversos estilos, mas tenho uma identificação especial com a arte contemporânea e o modernismo. Acredito que a arte está sempre em movimento, assim como o próprio artista. A cada dia aprendo algo novo descobrindo possibilidades de ampliar o meu olhar, por isso sinto que ainda tenho muito a aprender, experimentar, expor e mostrar através da minha arte. Também gosto de explorar diferentes fases e possibilidades das cores em minhas obras. As cores têm, para mim, uma força especial e ajudam a traduzir sentimentos e emoções. Entre os artistas que admiro estão Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. As obras desses grandes nomes despertam a minha admiração e inspiração. Minha pintura continua em transformação, acompanhando minhas experiências, descobertas e tudo aquilo que ainda desejo criar.
 
Agora, partindo para a área da literatura, dentre os inúmeros gêneros e estilos, quais você costuma escrever com frequência? O que a fez ter preferência justamente por eles?
 
Na literatura iniciei com poemas do dia a dia, paisagens, filhos, amigos. Escrevo com frequência poesia romântica, cordéis, contos, crônicas, sextilhas, décimas, sonetos e trovas. Justamente pela técnica e construção das poesias e de relatar momentos de vida.
 
A sua vivência em outro país acaba despertando a curiosidade. Há quanto tempo está vivendo em Portugal? Acaso foi a arte que a motivou cruzar o oceano? Como é ser artista e professora em outra terra? 
 
Hoje vivo na Figueira da Foz, no distrito de Coimbra, Portugal. Não foi a arte que me fez cruzar o oceano, foi o amor. Depois de vinte anos criando meus filhos e trabalhando muito, eu já estava sozinha. Foi, então, que um português me encantou, me cativou e veio me buscar. Entre idas e vindas já são seis anos vivendo essa experiência em Portugal. Ao chegar, a arte continuou fazendo parte da minha vida e tudo nessa área despertou minha atenção. A cidade antiga, galerias, museus e espaços culturais passaram a fazer parte das minhas descobertas. Hoje sou associada de algumas instituições internacionais e ministro aulas de pintura e sigo vivendo novos desafios. Tenho segurança e experiência suficientes para enfrentar essa nova etapa. Como artista, estou me saindo muito bem e tenho encontrado em Portugal novas oportunidades para mostrar e desenvolver minha arte.
 
Aproveitando o gancho dessa rica experiência de ser artista em dois países que, apesar da relação histórica, possuem algumas questões culturais bem distintas, você nota alguma diferença na relação com o artista e com a arte em Portugal e no Brasil?
 
Percebo que em Portugal a arte é muito valorizada e ocupa um espaço importante na vida cultural. Tenho vivido essa experiência de maneira muito positiva como artista. Já tive oportunidade de vender muitas obras, que estão hoje espalhadas por diferentes países da Europa. Isso me deixa muito feliz e mostra que existe interesse e reconhecimento pelo meu trabalho artístico. Também percebo diferenças em relação ao Brasil, especialmente, na valorização da arte e da escrita. No Brasil, muitas vezes o artista e o escritor precisam exercer outra profissão para garantir o seu sustento. Nem sempre é possível viver exclusivamente da própria produção artística e literária. Aqui, sinto que existe uma abertura maior para conhecer, adquirir e valorizar o trabalho do artista. É uma experiência importante na minha trajetória e para meu crescimento profissional. Acredito que, em qualquer lugar, a arte merece ser reconhecida com trabalho, expressão, cultura e profissão.
 
Você mostra-se bastante envolvida com academias nacionais e internacionais, além de outros movimentos e grupos. Gostaria que nos falasse um pouco sobre suas obras publicadas como resultado desse engajamento literário.
 
Adoro esse movimento literário das tertúlias poéticas onde podemos ouvir, declamar, cantar e compartilhar a poesia. É muito bom estar em contato com as pessoas que possuem os mesmos interesses e com as quais me identifico. Esses encontros são momentos de troca, aprendizado e inspiração. Ao longo dessa caminhada, já tive a alegria de participar em muitas publicações. Tenho trabalhos publicados em cordéis, coletâneas, poemas e, também, em livro infantil. Cada publicação representa uma etapa importante da minha trajetória literária. Também é muito gratificante fazer parte de academias nacionais e internacionais. Vejo essa participação como uma forma de fortalecer meu engajamento com a literatura. Estar nesses espaços me permite conhecer novos escritores, aprender e compartilhar minha produção. Para mim, literatura é encontro, troca de pertencimento, e cada experiência amplia ainda mais esse meu caminho.
 
Nota-se, por suas publicações, feitas de forma contínua nas redes sociais, que sua vida cultural é bem ativa, com inúmeras participações em saraus, exposições e outros eventos. Como é participar e como é coordenar essas atividades?
 
Minha vida cultural é realmente muito ativa e está ligada aos dois mundos, à arte e à literatura. Participo de saraus, exposições, e de diversos eventos culturais. Também gosto muito de fazer pintura ao vivo nas praças ao som dos fados. São momentos que me permitem estar próxima das pessoas e compartilhar aquilo que faço. Também gosto de coordenar e organizar atividades dentro desse universo cultural. Para mim, é algo que acontece de forma muito natural, porque faz parte da minha vida, pois estou sempre buscando novas oportunidades para criar, participar e incentivar outras pessoas. Estar onde o povo está é, para mim, uma grande fonte de inspiração. É nesse contato com as pessoas, e com a arte e com a cultura que encontro motivação para continuar criando.
 
Você tem um livro intitulado “Aurora”, editado e publicado em 2021. Poderia contar-nos como foi esse processo desde sua idealização até o produto final?

Em 2021 nasceu “Aurora Poética”, um livro que representa muito para mim e a minha trajetória. Foi um prazer imenso transformar experiências de vida em palavras e dividi-las com o leitor. Em suas páginas, transcrevo poemas que carregam sentimentos, lembranças e emoções. São versos escritos para tocar o coração e despertar a sensibilidade de quem os lê. Talvez o leitor encontre em “Aurora Poética”, alguma experiência que, também, já tenha vivido. Cada poema traz um pouco da minha história, dos meus sentimentos e do meu olhar sobre a vida. Assim como a pintura, também, deixo na escrita minhas pinceladas e meu traço. São sensações vivas, paixão, sentimentos e uma poesia que nasce de forma livre. “Aurora Poética”, é, portanto, mais do que um livro: é um pedaço de mim compartilhado com você e com o mundo. E fico muito feliz quando as palavras encontram outros corações que despertam novas emoções.

Deixo aqui: 
“Pouco adianta ser grande e tentar ser o maior…
Só se cresce e se expande sendo cada dia melhor”.

Roseli, foi um prazer imenso poder conhecer um pouco de sua intensa vida artística e aprender com você um pouquinho mais sobre as artes. Desejamos a você muitas realizações e agradecemos a sua disponibilidade. Sucesso!
 
Agradeço imensamente. Foi um prazer ter sido entrevistada no seu blog, o que muito me honra. Deixo aqui os meus contatos:
@atelieroselifarias-espaço cultural roseli farias (Instagram)
Roseli Farias - Ateliê de Pintura (Facebook)
E-mail: roseli.farias@gmail.com
 

 

 

 


sábado, 15 de agosto de 2026

MONTEI NUM CAVALO DO TIPO FOGOSO

Crédito: @coldbeer

Montei num cavalo do tipo fogoso

Queria mostrar que era grande ginete

Eu tinha treinado em um bom cavalete

Por isso me achava um peão tão garboso

Fiz pose de bravo, subindo orgulhoso

Mas mal me sentei, começou a pular

Direto pro chão conseguiu me jogar

Foi dura a tal queda e aprendi a lição

De forma que agora só faço canção

Nos dez de galope na beira do mar. 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

TALVEZ

Crédito: Johannes Plenio (PEXELS)


Talvez eu esqueça as juras

De amor que tu não cumpriste,

Talvez se acabem as lágrimas

De dor que tu jamais viste,

Talvez apague pra sempre

O dia em que tu partiste.


Talvez chegue enfim o dia

Que provarei liberdade,

Talvez o meu peito possa

Não mais doer de saudade,

Talvez eu veja de novo

A tal da felicidade.


Talvez certo dia possa

Tomar-te o arrependimento,

Talvez tomes consciência

De todo o meu sofrimento,

Talvez finalmente entendas

Este meu padecimento.


Talvez eu até consiga

Livrar-me desse embaraço,

Talvez ver que em sua vida

Jamais tive algum espaço,

Talvez parta para outra

Dando fim a tal cansaço.


Talvez possas enxergar

Todo o mal que me tem feito,

Talvez retorne à lembrança

Promessas de amor perfeito,

Talvez saibas de uma vez

Que sempre foi do teu jeito.


Talvez veja que a mentira

Sempre foi o teu caminho,

Talvez eu enfim aceite

Que só caminhas sozinho,

Talvez eu até desista

De implorar o teu carinho.


Talvez o cruel remorso

Para sempre te persiga,

Talvez me faça entender

Que não passei de uma amiga,

Talvez também me convença:

Foi inútil cada briga.


Talvez a vida me ensine

A caminhar solitária,

Talvez a trilha se mostre

Bem mais extraordinária,

Talvez ache na amizade

Relação mais solidária.


Talvez tu por fim descubras

O verdadeiro sentido,

Talvez tu sintas na pele

A dor de ser esquecido,

Talvez possas entender

O quanto tenho sofrido.


Talvez após a jornada

Estejas bem mais maduro,

Talvez sejas para alguém

Aquele porto seguro,

Talvez sejas uma porta

Em direção ao futuro.


Talvez seja eu a última

A quem cobriste de enganos,

Talvez não apliques mais

Os teus gestos mais insanos,

Talvez tenhas mais juízo

Após o passar dos anos.


Talvez eu encontre alguém

Que não desfaça o que fiz,

Talvez eu ainda encontre

Motivo pra ser feliz,

Talvez o elixir do tempo

Apague esta cicatriz. 


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PROTESTO

Crédito: Darya Sannikova (PEXELS) 

Deverei permanecer calado

Perante tanta injustiça?

Pergunta minha consciência.


A realidade amarga meus lábios

Regurgito o fel da hipocrisia

Bombardeado pelas vozes da maledicência.

Retirarei a mordaça da censura

Pronto para assumir qualquer consequência...


 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CONVITE NEGADO

Crédito: Mihman Duganli (PEXELS)


Um menino faceiro acena do outro lado da janela...

Cá dentro, contento-me em apenas assistir.

Exige minha atenção por meio de insistentes braços

Não ouso sair, ele não me inspira confiança.

Além do mais, anda por caminhos incertos

E não sou afeito a aventuras.


Tranquei-as todas no baú de minha mocidade

Agora só inicio minhas jornadas na companhia do previsível...

Embora o menino persista de um jeito todo convidativo

Meu coração já não está para surpresas

A idade não permite navegar ao sabor das ondas


Ele pode oferecer-me um mundo de novidades

Prefiro continuar com os pés cravados no chão

E a linha de chegada ao alcance dos olhos.

Tudo o mais, deixo à mocidade com seus ares de ousadia...


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O PREÇO DA FAMA

Crédito: Ekaterina Belinskaya (PEXELS)

Atirar uma pedra na vidraça

O caminho mais curto para a fama

Os aplausos de um público que inflama

A sensação de estar em plena graça.


Mas a plateia um dia fica escassa

E a voz inflada do ego já reclama

Migalhas de sucesso ele então clama

Não basta desejar, logo fracassa.


Pois o sucesso é uma curta estrada

Da qual nunca se sabe qual o fim

Nem quando ela será interditada.


Pois um dia o fracasso chega, enfim,

E a mente que não for tão preparada

Vai passar sua vida inteira assim.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A AMBIÇÃO E A FALTA DE AMOR PRÓPRIO NA BUSCA PELA FELICIDADE

Crédito: Pavel Danilyuk (PEXELS)

 "Qual é a grande ação que não parece extremada no momento em que a empreendem? Só quando foi cumprida é que parece possível às pessoas comuns."

Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitor, todos que me acompanham nessa viagem alucinante pelo vasto universo da literatura. Seguimos desbravando os clássicos e seus criadores. Vamos deixar a tenebrosa Transilvânia e a experiência de terror que vivemos na Romênia e vamos, mais uma vez, voltar à charmosa França, para isso vamos acessar a nossa “playlist” com a canção “O vermelho e o negro” na voz de Angélica Rizzi. Enquanto isso vamos nos dirigir ao ano de 1830, chamado de Tempo da Restauração. Após nossa devida localização, vamos apresentar nosso protagonista, o jovem Julien Sorel, rapaz inteligente e bonito, que passa o tempo lendo ou envolvido no mundo dos sonhos, em vez de trabalhar com seus irmãos no ofício de carpinteiro.  Mais tarde, ele vira um acólito e acaba recebendo a função de tutor dos filhos do prefeito. Ah! Julien também se mostra um rapaz ambicioso. Um dos seus artifícios para impressionar as pessoas é citar partes da bíblia que ele memorizou (hoje, na era da internet, para pousar de intelectual, as pessoas copiam e colam, não é? Ou pedem para a IA). 

Julien, trabalhando como tutor na casa do prefeito, acaba se apaixonando pela esposa dele por causa da forma muito gentil com que ela o trata. Ela, uma mulher ingênua, quando se dá conta, também está apaixonada pelo jovem. Como não é difícil de imaginar, o leitor já pressupõe que vamos presenciar um caso de adultério, ação comum nesses romances, (vamos lembrar nossa Madame Bovary) e está totalmente correto. Acontece que a camareira da senhora Renal também estava apaixonada por Julien, mas foi recusada por ele. Ah, caro leitor, nunca subestime um coração desprezado, pois ele é capaz de tantas coisas (como nos casos do sombrio Heathcliff e do pobre Werther). Ao descobrir o caso dos dois, ela não teve a menor dúvida: espalhou para toda a cidade. Como se isso não bastasse, o prefeito ainda recebe uma carta anônima. Diante do escândalo, o superior de Julien retira o rapaz e o manda a um seminário em outra cidade. Logo depois de livrá-lo de perseguições, ele o recomenda ao cargo de secretário do Marquês de La Mole.

Julien, então, parte para Paris e passa a conviver com a família do marquês. Agora ele tem acesso à alta sociedade, aos ambientes cheios de pompas e pessoas de grande influência, o que, de início o vislumbra, devido à sua ambição, mas isso de nada adianta porque as pessoas ainda o veem como um mero plebeu por causa de suas origens. O jovem aprende, da forma mais dura, os mecanismos de hipocrisia da elite, os quais jamais possibilitarão que alguém capaz como ele possa ascender socialmente. Mas também se pode observar uma contradição no rapaz: ele odeia a classe alta, mas quer pertencer a ela. Certo dia, Julien é levado a uma reunião secreta e é enviado em uma perigosa missão secreta, na qual leva uma carta política a um destinatário desconhecido, mas mal sabe ele que se trata de uma conspiração, pondo em risco sua vida. 

Além disso, Julien desenvolve uma paixão pela filha do marquês, a qual também começa a nutrir certo interesse por ele, mas tem suas ressalvas por ele pertencer a uma classe social inferior. Entre altos e baixos, encontros e desencontros, seduções e rejeições, Julien segue os conselhos de um conhecido russo a fim de tentar conquistar de vez o coração de Mathilde. Quando o plano enfim parece estar dando certo, ela fica grávida dele e ele acaba caindo nas graças do marquês, pronto a receber propriedade, título de nobreza e um posto no exército, o pai da moça recebe uma carta da senhora Rênal, antiga amante de Julien, denunciando como um oportunista, um rapaz que seduz mulheres ingênuas. Inconformado com isso, Julien vai À procura da ex-amante e atira nela dentro da igreja, durante a missa. A partir daí, segue-se sua prisão e condenação enquanto alguns dos amigos que fez durante todo esse tempo tentar salvar sua vida e anular sua condenação. Sua amada, Mathilde, visita-o com frequência na prisão, demonstrando não querer desistir dele; porém, para a surpresa do leitor, ele acaba se cansando disso. Isso porque, em poucos dias, ele recebe a visita de sua vítima, que escapou ao atentado e revela que ainda o ama. Ele, então, descobre, no fim das contas, que ela é seu verdadeiro amor. 

Meu caro leitor, o que vai acontecer daqui para frente já não vai nos trazer surpresa alguma, até porque é a consequência previsível do que acontece com alguém não pertencente à alta sociedade (basta-nos recordar a sina de outro cidadão francês: Valjean) tantas vezes no sistema judiciário. Claro que não posso isentar Julien de sua ação homicida, pois não há como justificar o ato de tirar a vida de alguém. Não há mesmo. Lembrando que, em enredos românticos como esse, são comuns os crimes ditos passionais, nos quais a razão abandona de vez o ser humano e a paixão o torna um trem desgovernado como se diz naquela canção eternizada na voz de Orlando Silva: “O coração tem razões / Que a própria razão desconhece”. O romance também tem seu tom realista ao revelar o adultério como uma prática comum da sociedade, ignorando qualquer argumento, justificada pelo desejo de uma vida mais emocionante e a vivência do amor como uma aventura a se experimentar. 

Um aspecto que não deixa de ser importante é a ambição do protagonista, que procurava ascender socialmente, acreditando que ali encontraria a felicidade que buscava. Entretanto, apesar de seus atributos como a inteligência e a beleza, sempre teve tudo isso praticamente ignorado em detrimento de sua origem humilde, não trazendo a ele a realização pessoal (mesmo drama acontecido ao personagem Eugênio no mais famoso romance de Érico Veríssimo). Outro aspecto que não podemos deixar de observar, nas duas pretendentes, a falta de amor próprio, que as leva a se humilharem diante de um homem que procurou se aproveitar delas e, inclusive, usá-las como escada social. Isso sem contar que uma delas quase foi morta por ele a tiros. Ambas o visitam na prisão sabendo da presença da outra no coração de seu amado, mesmo assim dispostas a dar-lhe seu perdão devido ao medo de ficarem sem ele para sempre, como se a felicidade delas dependesse exclusivamente dele. Entendo que, no fim das contas, faltou, a ele e a elas, uma boa dose de amor próprio para poder norteá-los em sua procura. Não é à toa que o homem mais sábio que já passou por essa terra disse-nos para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Ah, como ele sabia das coisas. Ele entendia que não pode ser possível amar alguém verdadeiramente se não amarmos a nós primeiramente. Que em nossa busca eterna pela felicidade não percamos, no meio do caminho, o amor por nós mesmos. Até a próxima.

STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016.


PAIXÃO QUE SE MANIFESTA ENTRE DUAS ARTES

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