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quinta-feira, 9 de julho de 2026

CONVITE

Crédito: Casper Somia (PEXELS)

Acaso me amas

Conduz meus passos

Até tua porta

 

Convida-me então para cear contigo

Velas acesas, violino ao fundo

Lá fora nada mais importa

O mundo somos nós dois

Os outros, uma realidade morta.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

SEMPRE PRESENTE

Crédito: Mustafa Govde

 

Há tempos que o sorriso desapareceu de meu rosto,

Os bons momentos fugiram-me à lembrança,

A esperança, não mais que um surto de febre,

Rouba-me preciosas noites de sono

E em seguida, parte, deixando-me em paz...

 

De uns tempos para cá, recuso-me a fazer previsões,

Perdi o costume de abrir a janela pela manhã

À espera de um dia de sol radiante.

Controlo aquela ansiedade que dominava o peito

E alguns tomam por saudades...

 

Ao deitar-me, penso no dia que tive.

Vislumbrar o amanhã é para os sonhadores

Enquanto os realistas como eu

Agem e reagem ao instante presente.

terça-feira, 7 de julho de 2026

PEREGRINAÇÃO

 

Crédito: Emrah (PEXELS)

Trinta anos tristes já faz que eu enfrento

O peso de uma tão custosa vida

Povoada por choros e lamento

Da caminhada pouco sucedida.


Sempre caminhei só, de encontro ao vento

Por uma vastidão desconhecida

Vezes procurando por um intento,

A mais simples razão para a partida.


No caminho só pedras encontrei,

Muitas barreiras para superar...

Mil sombras no deserto eu enfrentei,


Nunca me permitiram descansar

Na arena onde meu sangue derramei,

Numa eterna procura por ganhar.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY)

"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais."

Sejam muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época. Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal, prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos distintos.

Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais assassinatos.

Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros) sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça pública.

Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos assistido com frequência a movimentos de proibição de livros capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”, assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre inocência!

Voltando mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e, segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por elas!

Sei que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo, nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor! Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.

ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.

sábado, 4 de julho de 2026

PROVÉM DO RESPEITO QUE TÃO ALTO BRILHA

Crédito: Jsme MILA (PEXELS)

 

Quem pede licença, quem diz obrigado,

Quem pede desculpa, que segue gentil,

Respeita os demais e não busca ser vil,

Que faz seu discurso num tom moderado,

Não segue ofensivo nem fala exaltado,

Que nas relações sabe bem se portar

E ao seu semelhante só faz respeitar,

Nos mostra que o rumo no meio da trilha

Provém do respeito que tão alto brilha

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

SE UM DIA EU PUDESSE VER

Crédito: Thirdman (PEXELS)

  

Se um dia eu pudesse ver

Seria tão diferente

Nos olhos reconhecer

Cada coisa, tanta gente

Conseguir ver um sorriso

Como sendo o paraíso

Num semblante de criança

Mesmo envolto pelo escuro

Enxergar além do muro

Um frágil fio de esperança

 

Se me fosse dada a graça

Da mais nítida visão

Terminada a minha caça

À mágica solução

Buscaria achar enfim

Do arco-íris o tal fim

Em suas cores viajar

Em meio ao azul do céu

Fazer um grande escarcéu

Tanta cor pra admirar

 

Se me fosse permitido

Enxergar todos e tudo

Diante do colorido

Capaz que eu ficasse mudo

Por entre as sortidas cores

Descobriria valores

E nas faces mais felizes

Eu identificaria

A expressão da alegria

A ofuscar cicatrizes

 

Se esses meus olhos se abrissem

Correria para ver

Tudo quanto descobrissem

Sem nenhum tempo a perder

Pra depois guardar no peito

Vendo o mundo do meu jeito

Não pelos olhos de alguém

Aprendia a ver melhor

A vida toda ao redor

E o que de mais belo tem.

 

Se um dia fosse possível

Eu enxergar de verdade

Ah! Seria tão incrível!

Digo com propriedade

Contemplar a natureza

Em show de rara beleza

O véu que forma a cascata

Nuvens de puro algodão

O sol vermelho em paixão

A lua em traje de prata

 

Se eu pudesse admirar

A largura do oceano

Ondas bailando no mar

Estrelas no negro pano

Rubro tom do alvorecer

Laranja ao entardecer

Cobre a mata verdejante

Um jardim multicromático

Capaz de deixar estático

Todo e qualquer habitante.

 

Queria mesmo poder

Da mãe o puro semblante

Ver o seu filho nascer

Mirá-la no exato instante

Em que toda comovida

Assiste à certa partida

Do filho que ganha o mundo

Que perde o primeiro dente

Estando triste ou contente

No seu olhar mais profundo

 

Queria lá da janela

Ver chegar as madrugadas

O ipê de flor amarela

Muitos casais de mãos dadas

Criança empinando pipas

Um canteiro de tulipas

Queria ver estendidas

Bandeiras brancas de paz

Mesmo de forma fugaz

Tremulantes, decididas...

 

Alguém estendendo a mão

Em um gesto decidido

Para erguer o pobre irmão

Que no chão está caído

Presenciar a humanidade

Em ações de caridade

Todos espalhando o bem

Apertos de mão, abraços

A preencher os espaços

Muitos corações também.

 

Se um dia eu pudesse ver

Seria tudo tão novo

Tanta coisa pra aprender

No meio desse meu povo

Uma eterna novidade

Olhar de curiosidade

Com surpresas de montão

Enquanto não chega o dia

Eu fico com a magia

De olhar com o coração.

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

FALSA LIRA

Crédito: Olivia (PEXELS)

 

Verdade procuro ainda

Entre teus lábios

Sepultada sob mentiras

 

Nosso amor foi apenas ilusão

Sendo eu o único crédulo

Nada que disseste que sentiras

Tinha certo tom de veracidade

Falsas promessas soantes como liras.

CONVITE

Crédito: Casper Somia (PEXELS) Acaso me amas Conduz meus passos Até tua porta   Convida-me então para cear contigo Velas acesas, v...