Minha lista de blogs

terça-feira, 23 de junho de 2026

TRÉGUA

Crédito: Wikimedia Commons

 

Quis ter o mundo sobre a minha mão

Um menino mimado e seu brinquedo

As rédeas coloquei no coração

E fiz da minha vida alto segredo.

 

Eu procurei calar minha emoção

Tomei por aliado o feroz medo

Nomeando por guia a tal razão

Para não receber o amor tão cedo.

 

Julguei, pobre diabo, tão capaz

De ser invulnerável ao amor

O fracasso admiti, voltei atrás.

 

O posto assumi: sou um perdedor

Recomecei a busca pela paz

Pois sei do coração o seu valor.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O BEM E O MAL QUE HABITAM A MESMA CASA

Crédito: Lawrence OP (Flickr)

 “Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa. E esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso.”

                 Bendita seja a sua presença, caro leitor! É com o coração tomado de satisfação que mais um dia o recebo aqui nesse espaço literário. Espero que esteja pronto para mais esta viagem. Nada melhor que uma grande jornada para o interior do próprio ser humano. Sem querer ser redundante, mas seguimos o nosso caminho provando, incansavelmente, que a literatura é uma ficção que nos mergulha na realidade. Aproveitando a nossa viagem à Inglaterra, vamos nos deslocar dos morros de Yorkshire para a velha e conhecida Londres, no ano de 1886. Vamos acessar nossa “playlist” com a Sonata no. 2 Op. 1 de Giuseppe Tartini (compositor do século XVII), chamada de “Trilos do diabo” que, segundo depoimentos, fora resultado de sugestão em um sonho, sugestão essa feita pelo próprio diabo ao compositor, o que chega a ser um grande contraste com a beleza da melodia.

                Nossa história de hoje começa com um advogado, Sr. Utterson, que recebe um relato de um parente seu sobre uma estranha pessoa de nome Mr. Hyde. Dias depois, o advogado acaba tendo um encontro inesperado com a misteriosa personagem e tem a sua atenção chamada para o fato de lembrar que o mesmo é o herdeiro de seu cliente e amigo, Dr. Jekyll, por meio de um testamento. Em um jantar, o advogado busca questionar o amigo sobre a natureza da relação entre ambos, mas ele apenas lhe responde que está tudo sobre controle. Um ano após isso, Hyde é acusado de espancar um homem até a morte. Para espanto de Utterson, a arma do crime é uma bengala que ele havia dado de presente a Jekyll.

                A este fato seguem-se outros tanto estranhos, sempre envolvendo a pessoa de Hyde e, cada vez mais, o advogado sente-se envolvido pelo mistério que cerca a relação entre esse maligno ser e seu amigo gentil e benevolente. Por meio de uma carta, escrita pelo próprio cientista, acaba por descobrir que ele estava desenvolvendo uma poção com a qual conseguia separar o seu lado bom de seu lado mau. Ao fazer isso, transformava-se em um sujeito sem qualquer principio moral. Tal poção tinha um efeito reversível, durando, portanto, apenas algumas horas. Sob o efeito da mesma, o cientista gozava de uma liberdade e ausência de consciência que lhe forneciam um prazer inexplicável. Mas, como em boa parte das experiências humanas, o bom doutor perdeu o controle que acreditava piamente ser permanente sobre a tal transformação. O caro leitor já deve imaginar que a partir de então haverá uma série de consequências. Sim. Posso afirmar que as mais drásticas possíveis. Aqui usarei uma daquelas frases bem clichês: a criatura vira-se contra seu criador. E aí você me pergunta: como isso tudo termina? E eu vos respondo: só lendo para saber. Se acaso, ainda não leu essa obra, não ceda à tentação de buscar por um resumo na internet. Vá até a fonte, beba da obra, tão significativa, seja naquele momento ou nos tempos atuais.

                A obra de Robert Louis Stevenson já influenciou muitas gerações (por isso se trata de um clássico) por meio das mais variadas adaptações em livros, peças teatrais, animações, filmes e canções, com destaque para a música “Dr. Heckyll and Mr. Jive” da banda australiana Men at Work, que fez sucesso nos anos 80 e que se refere muito bem a sua obsessão, sua crença cega na ciência e na questão de ser cobaia de seu próprio experimento. Vale a pena ouvir. Mas, o que ela nos traz? Ah, caro leitor, aquela velha discussão a respeito do bem e do mal. E aí, precisamos falar um pouco do maniqueísmo, uma doutrina religiosa propagada por Maniqueu (Pérsia, séc. III) a qual definia o mundo como dividido entre duas forças antagônicas (bem e mal) personificadas como Deus e o Diabo e simbolizadas pela luz e a escuridão. Essa doutrina foi tão intensa que até hoje perdura em diversas novelas, filmes, animações e outros produtos de cultura, que buscam simplificar a vida como um conflito entre os dois opostos. Assim sendo, parte-se do ponto de vista simplista de que os seres são divididos nesses dois grupos, de uma forma puramente absoluta: ou você é bom ou mau. Pronto! É impressionante ver o quanto muitos ainda se apropriam desse discurso nos âmbitos social, religioso, político. Essa ideia ainda rotula pessoas, culturas, ideologias e por aí vai.

                Entretanto, para o nosso benefício (eu tinha escrito “sorte”), eis que sopra o vento da mudança. Gostaria de começar com o fantástico Guimarães Rosa, que nos diz: “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Esse grande escritor brasileiro dispensa o maniqueísmo em seus contos, ao abordar, de maneira categórica, que o bem e o mal vivem dentro do mesmo homem, em personagens como Augusto Matraga. Neste contexto de seriados que nos invadiram, é grande a tendência de questionamento deste simplismo em séries que envolvem heróis e que mostram que a justiça e a vingança, por exemplo, possuem uma fronteira muito tênue, e que essa questão não é assim tão clara como se parece. Assim como a lua que brilha alta no céu (sou apaixonado por ela), todos temos o nosso lado obscuro, as nossas pequenas mazelas humanas, pois assim somos nós, caro leitor. Faz parte de nossa natureza.

                Sei que muitos preferem negar essa realidade. Só que fugir não adianta. Somos seres falíveis, feitos de virtudes e defeitos. Quando o Cristo (exemplo de homem sábio e sensato) disse à turba dos moralistas: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, sabia que, muitos de nós, jogam pedras esquecendo-se de que possuem telhado de vidro. Vivemos em pleno conflito porque nossa alma é um dualismo de forças e vontades. Jekyll quis escapar a esse conflito. Impossível, caro leitor. É ele que nos faz crescer. Não adianta “tentar tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para baixo do tapete” como dizem os antigos. O que fazer? Só há um caminho: enfrentar o problema. Pronto. Tomar consciência e buscar a estratégia adequada. Mas há uma condição maior que todas: querer mudar, todavia nós aqui sabemos que a mudança é um processo doloroso. Claro que essa discussão a respeito da natureza do bem e do mal, por não ser absoluta, daria infindáveis questionamentos filosóficos, fazendo-nos pensar, afinal de contas, o que é o bem e o que é o mal. Com um pouco de senso, poderemos perceber que nossas possíveis respostas estão fadadas a mergulharem no mais completo subjetivismo.

                Talvez, meu caro leitor, seja essa a resposta mais difícil de se dar a si mesmo, entre todas que já passaram por nossas viagens. Penso eu, às vezes, que ela possa até nem existir. Quem me garante? Nem sempre encontramos as respostas que desejamos ou como queremos. Termino essa nossa viagem de hoje, com mais perguntas do que respostas, mas que isso não o desanime. Não há problema algum em não saber, mas sim em achar que se sabe, como diz a bela canção de Almir Sater: “Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei.” Até a próxima.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Rio de Janeiro: Antofágica, 2022.    

sábado, 20 de junho de 2026

AGORA VOU DAR MAIS VALOR PARA MIM

Crédito: Çaglar Çarkaci (PEXELS)


Eu sempre te amei mas você nem ligava
Às juras sinceras não quis dar valor
Eu tão miserável pedi seu amor
Mas não importava o quanto suplicava
Pois cada vez mais você me desprezava
Cansei desta vida em me ver rebaixar
Migalhas de amor eu só fiz mendigar
Mas tal tirania chegou ao seu fim
Agora vou dar mais valor para mim
Nos dez de galope na beira do mar. 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

MINHA MANEIRA DE SER

Crédito: Kagan Karatay (PEXELS)


Minha maneira de ser

Eu vou tentar resumir

Uma parte de mim sonha

O que eu quero conseguir

Nas asas da inspiração

Ouço a voz do coração

No rumo que vou seguir.


E para assim resumir

Eu sonho até acordado

Viajo até o futuro

Com desejo programado

Sonhos de todos tamanhos

Podem parecer estranhos

Mas me mantêm motivado.


Agora vou descrever

A minha outra metade

Os pés firmados no chão

Da dura realidade

Enxerga a vida tão crua

A desfilar toda nua

Pelos palcos da verdade


Ao vê-la toda despida

De seus trajes de utopia

Eu caminho em rumo reto

Imune a qualquer magia

Não cedo a nenhum encanto

Sigo firme no meu canto

Sem dar mostras de euforia.


Uma parte de mim chora

Os fracassos sucedidos

Pranteia todos os sonhos

Pelo caminho perdidos

Pensando como seria

Que diferença faria

Outros rumos escolhidos.


A outra parte sorri

A cada oportunidade

Sente no ar a fragrância

Dessa tal felicidade

Vê um amanhã melhor

Com um céu sempre maior

Mil estrelas de verdade.


Uma parte de mim olha

Insistente para trás

Memorando águas passadas

Que a nostalgia me traz

Pelo leite derramado

Trago meu peito magoado

Sem poder voltar atrás


Outra parte de mim olha

Com o foco no presente

Entende que é o momento

Que torna o gesto potente

Sorvendo cada minuto

Vou seguindo resoluto

Disposto a seguir em frente.


Aqui dentro do meu peito

Parte de mim esbraveja

Medonha fera enjaulada

Sedenta pela peleja

Sem afago nem abrigo

Procura pelo inimigo

Pois o combate deseja.


Aqui neste mesmo peito

Sorri de maneira franca

Uma outra parte de mim

Levanta bandeira branca

Não entra em qualquer confronto

Com seu discurso já pronto

Faz da paz sua alavanca.


Assim vou seguindo a vida

Em busca do próprio rumo

Com meu reino dividido

Em conflitos me consumo

Vivendo a dualidade

Tão humana qualidade

Que para o mundo eu assumo.


E neste grande dilema

Procuro sempre aprender

Entre os erros e os acertos

Tentando me compreender

Ora lúcido ora louco

Eu revelo pouco a pouco

Minha maneira de ser.


 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O PECADO DO SILÊNCIO

Crédito: Engin Akyurt (PEXELS)

 

A falta da voz que se manifesta

Gera o grande pecado da omissão

A culpa cabe a quem já não protesta

Pior que quem excede pela ação.

 

Ao calado assumir apenas resta

Autoria por tanta negação

Fechar os olhos é falta funesta

Pois devia fazer intervenção.

 

Considera-se amante da mentira

O que sabe a verdade e não proclama

Temendo despertar alguma ira.

 

O remorso em seu próprio peito inflama

Pois a verdade ao ser sensato inspira

Em defesa à justiça que se ama.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

ISOLAMENTO

Crédito: Lies (PEXELS)

 

Do alto da torre de meus pecados

Sinto o frio da solidão a percorrer

Cada um dos ossos do meu corpo...

Tudo à volta permanece na penumbra

Uma luz bruxuleante resiste heroicamente

À legião de trevas que avança sem cessar...

O vento não traz o mínimo cheiro de esperança

As estrelas encontram-se envoltas pelas nuvens

E o sol não vai raiar tão cedo...

Diante da sucessão de funestos acontecimentos

Não há previsão de dias mais azuis

Por isso espero sentado, dia após dia,

A surpreendente mudança das marés.

terça-feira, 16 de junho de 2026

APENAS LEMBRANÇAS

Crédito: Prasanth Inturi (PEXELS)

 

Restará ainda vida

Meu coração pergunta

Após nossa separação

 

Daqui para frente tudo muda

Nada mais será como antes

Belos momentos serão apenas recordação

Lembranças jamais recuperam amor perdido

Não passam de mera ilusão.


TRÉGUA

Crédito: Wikimedia Commons   Quis ter o mundo sobre a minha mão Um menino mimado e seu brinquedo As rédeas coloquei no coração E fiz d...