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| Crédito: Karolina Grabowska (PEXELS) |
Lembranças não trazem
Amor de volta,
Retornam somente dor.
Alegria que um dia habitou
Aquele coração cheio de vida,
Hoje é resquício do temor.
Cada lampejo tímido de memória
Antecede um ataque de torpor.
"Um espaço para se perder e se encontrar no universo em expansão da literatura."
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| Crédito: Krishnendu Biswas (PEXELS) |
Um pedaço de mim morre a cada dia...
Após as quedas nas lutas do cotidiano
Sinto parte do meu ser a esvair-se,
Meus ossos resultando em poeira
Pouco a pouco, volto ao barro primordial...
Desconstruo a própria criação
Inexisto em contagem regressiva
Envolto na expectativa pelo ontem.
A cultura de um saudosismo que espera
A reparação dos erros na vida adulta
O regresso da oportunidade na juventude
A volta da alegria na infância
Sempre a realização do que não foi
E nada mais há para ser...
Só resta o não ato, o desfazer,
A desintegração de todo o ser
No cumprimento da suprema profecia
Enfim o retorno ao pó absoluto.
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| Crédito: Alan Kabes (PEXELS) |
Vindo do alto do topo deste mundo
Chega a galope o vento da mudança
Incomodando adulto até criança
Invadindo ao recanto mais profundo.
Todo homem, na verdade, possui medo
Ao mínimo sinal de novos ares
Ideias, sentimentos e lugares
Assumem certo odor de cru degredo.
Evita qualquer tipo de tendência
Capaz de alterar a ordem mais vigente
No plano da aparência ou da essência.
A tradição mantém-se resistente
Apesar da pressão da insistência
O conservadorismo está presente.
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| Igor Caldeira, 35 - advogado |
1984 é um livro
incontornável
1984 é um livro
incontornável. Aprendi essa palavra agora, estudando em um grupo de estudos de
Hegel, no Youtube, coordenado pelo professor Marcos Fábio Alexandre Nicolau.
"Alguns filósofos são incontornáveis na história da Filosofia". Pois
bem. É justamente a situação de 1984.
1984 trata não
apenas de uma distopia antiga, como se fosse um livro datado, e numa época que
supostamente já não existe mais. Tudo desvanece, mas algo se mantém. Já diria o
filósofo de Iena. De fato, 1984 tem a profundidade de um clássico que toca profundamente
na raiz de diversas discussões atuais, até mesmo no direito, mas não somente. É
incrível perceber a força do livro quando aprendemos, nas aulas de processo
penal, de que uma prova ilícita, se não respeitados os limites legais, não
poderá ser utilizada no processo e deverá ser desentranhada (Art. 5°, Inc. LVI,
Constituição Federal).
Às vezes
pensamos que tudo pode para prender o "bandido". Mas não é bem assim.
Valores importantes devem ser preservados, como a exemplo da intimidade e a
privacidade. Não podemos simplesmente realizar uma interceptação telefônica sem
autorização judicial e desde que seja realizada em uma investigação penal,
apenas (Art. 5°, Inc. XII, da Constituição Federal). Imaginemos se os agentes
do Estado pudessem simplesmente realizar toda espécie de interceptação sob
qualquer situação, sem os limites legais? É o que acontece em 1984. As
teletelas estão sempre em todos os locais, inclusive em nossos banheiros e em
nossos quartos. Elas não apenas transmitem ideias do partido, mas também
escutam tudo o que você fala, a ponto de não existir momento livre para ninguém
externar nenhum pensamento.
Na história
toda crítica contra o partido é considerado um crime inafiançável. E diante das
telas sempre vigilantes, os personagens do livro de George Orwell não podem
sequer possuir o resguardo de sua intimidade e privacidade. Pior ainda: e a
liberdade de expressão, valor tão importante numa democracia? No livro, a
situação chega num limite tão crítico que sequer escrever um diário é autorizado.
Qualquer pensamento externado vai ser veementemente repreendido, até mesmo com
a vaporização da pessoa, não apenas fisicamente, mas até nos anais da história.
Aqui existe
uma situação curiosa. Por não existirem leis (positivadas) não existem limites
legais e toda pena poderá ser implementada, em toda desproporcionalidade
possível. Externar um pensamento se torna pena de morte ou de trabalhos
forçados. E simplesmente ninguém pode trazer nenhum pensamento genuíno ou
inteligente. Tudo será utilizado contra você. É um terror inimaginável: as
pulsões são inibidas, os desabafos se tornam recalcados. E a vida se torna um
inferno. A opressão de pensamento e de privacidade é tamanha que o nosso
protagonista Winston precisa, até mesmo, alugar um quartinho, de um suposto
vendedor de quinquilharias, para poder amar sem existir qualquer espécie de
constrangimento.
Para tornar as
pessoas avessas à revolução e fazê-las ir contra os interesses do Partido, a
cúpula traz um expediente genial. Simplesmente realiza a simplificação da
linguagem através da instituição de um novo idioma, denominado novilíngua. Um
dicionário é incumbido de realizar a tarefa de registrar essa simplificação.
Essa simplificação é basicamente através da restrição conceitual das palavras,
de seus significados e até mesmo de suas ambiguidades.
Sem palavras
para podermos expressar não poderemos conceituar o mundo, não seremos capazes
de exprimir até mesmo o real. A restrição de palavras e de seus conceitos é a
restrição da interpretação e de uma compreensão mais elaborada do mundo e da
vida.
E quantas e
quantas vezes não aparecem leis, inconstitucionais, diga-se de passagem, como a
Escola sem Partido, que nada mais busca, senão, restringir do vocabulário dos
professores o que se reputa como ideia de esquerda, inibindo uma atitude
crítica dos seus alunos diante do mundo que lhes aparece?
A relação
entre o livro e a conduta reacionária da direita é inevitável. Obviamente que o
livro está nitidamente criticando o sistema soviético. Não é desconhecida a
história da perseguição do governo soviético em face de Pachukanis, apenas
porque sua teoria do direito não atendia aos interesses do regime de Stálin.
Mas estou
focando, aqui, em como o livro é atual e como dialoga com a contemporaneidade,
e não se trata de uma discussão velha, apenas porque o muro de Berlim foi
derrubado. O livro realmente é reflexivo de início ao fim.
Como não
trazer à luz as torturas no quarto 101, que chegava ao extremo de confrontar as
pessoas com seus piores medos, para que elas pudessem confessar crimes que até
mesmo não cometeram. A tortura para dizer que 2+2 seria igual a 5, mesmo quando
as leis da matemática asseveram que na verdade 2+2 é igual a 4. A inibição,
portanto, do pensamento do verdadeiro, ainda que na base da tortura física e
mental. Quantas vezes não somos inibidos, diante do poder do Estado, de trazer
o real, de uma forma menos torturosa? 1984 não é um livro qualquer. É um livro
que possui relevância, para além da época da guerra fria. É um livro atual, que
dialoga com qualquer sistema político, mesmo nas democracias, que muitas vezes
parecem esconder dentro de si o desejo irrefreável de solapar as leis e as
nossas intimidades.
1984 é um livro
incontornável. O que significa que nenhuma alma viva pode passar sua existência
sem ter lido ao menos uma vez o livro. Está carimbado pela tradição como um
clássico, atemporal, e passível sempre de ser lido e relido. As suas reflexões
continuam atuais e possuem relevância mesmo nas democracias liberais. Que a minha pequena resenha crítica possa
servir de um estímulo à leitura e possibilite uma interpretação ainda mais
aguçada do Livro.
PS. Também podemos pensar no livro
não apenas em face do Poder do Estado, mas também no poder exercido pelas
empresas privadas, que têm acesso aos nossos dados pessoais, a exemplo das
plataformas de transporte por aplicativo, que sabem, por exemplo, cada canto
que nós nos deslocamos, uma vez que nosso trajeto fica nos seus servidores, sem
que possamos ter um efetivo controle. Obviamente, contamos, atualmente, com a
Lei Geral de Proteção de Dados, prevendo multas e restrição ao compartilhamento
indevido de dados. Mas a nossa privacidade encontra-se sempre no delicado fio
da espada de Dâmocles, podendo ser rompida através de um leve sopro dos Poderes
Privados.
Trago
agradecimento especial ao Grupo do Book Club do Encontro de Idiomas por me
estimularem a realizar a leitura do livro em inglês, em sua versão
simplificada, o que me motivou a realizar a leitura em português do livro
integral. Em especial a Henrique Takeshima e Rafael Sousa, por sempre estarem
presentes no grupo de leitura, me ouvindo e suscitando o debate.
Menção
especial a Carlos de Alcântara, fundador do Encontro de Idiomas, por permitir
sempre trabalhar como Host do Grupo do Book Club com liberdade e sempre dando
suporte às novas ideias.
Agradecimento
ao Clube do livro de Russo hosteado pela Brenda Anjos e ao professor Márcio
Fabiano, por me motivarem a realizar a presente resenha
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| Crédito: Ainaz Musavi (PEXELS) |
Não, não pode ser possível.
Eu, que quando era pequeno,
Via a vida tão incrível,
Hoje me debulho em lágrimas
Neste mundo desprezível.
Naqueles tempos dourados,
Alma pura de criança,
Eu corria pelos campos,
Olhos verdes de esperança,
Mesmo sob a tempestade
Esperava por bonança.
Hoje vejo um outro mundo
Cada vez bem mais distante
Dos meus sonhos de menino,
Um lugar angustiante
Onde dinheiro e poder
É muito mais importante.
Basta olhar pra cada adulto
Pra ver tanto preconceito:
Um pronto a julgar o outro,
Achando-se tão perfeito
E pra algo sair certo
Tem que ser só do seu jeito.
As pessoas se evitando
Por todo e qualquer motivo,
Pensando só em si mesmas
E jamais no coletivo,
Hoje é cada um por si,
Nada de cooperativo.
O mundo agora virou
Gigante competição:
O outro, um adversário,
Não há colaboração.
Em que se ganha ou se perde,
Não há terceira opção.
Pessoas gastam o tempo
Com tanta futilidade
Perseguindo as ilusões,
Se afastando da verdade,
Para depois se queixar
Que falta oportunidade.
Mas os sonhos verdadeiros
Não encontram mais lugar.
Todos estão ocupados
Sem um tempo pra sonhar.
“Isto é coisa de criança”
Costumam justificar.
Crianças virando adultos
Muito bem antes da hora,
Perdendo tantos valores
Que pra sempre vão embora
E que um dia farão falta,
Mas ninguém vê isso agora.
Não sou mesmo deste mundo
E disso tenho certeza.
Jamais pensei encontrar
Males dessa natureza.
Surtos de perversidade
Roubaram minha pureza.
O mundo que conheci
Foi retirado de mim.
E deram um outro em troca,
Mas não gosto dele assim
E sei que não há mais volta,
Será este até o fim.
Por isto quero ir embora
Da cruel realidade.
O tempo de minha infância
Deixará muita saudade.
Nessa época dourada
Eu fui feliz de verdade.
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| Crédito: Element5 Digital (PEXELS) |
Tranquei meus sonhos de criança
No escuro do quarto de despejos
Ainda ali se encontram amontoados
Na disputa pelo espaço com os brinquedos.
Quando adolescente escondi a chave
Afastando minha pureza dos olhos curiosos
Procurei esquecê-los por completo
Mesmo depois de adulto nunca abri o cômodo
Inclusive perdi a chave, propositalmente.
Com os anos evitei aproximar-me da porta
Por medo de que as fantasias encarceradas
Iniciassem uma verdadeira rebelião, fugissem,
Ganhando mais força ao cruzar o batente
E me revelassem de forma nítida
O adulto que nunca tive coragem de ser.
Crédito: Karolina Grabowska (PEXELS) Lembranças não trazem Amor de volta, Retornam somente dor. Alegria que um dia habitou Aquele coração ...