Minha lista de blogs

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

TRISTES MEMÓRIAS

Crédito: Karolina Grabowska (PEXELS)

 

Lembranças não trazem

Amor de volta,

Retornam somente dor.


Alegria que um dia habitou

Aquele coração cheio de vida,

Hoje é resquício do temor.

Cada lampejo tímido de memória

Antecede um ataque de torpor.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

REGRESSÃO

Crédito: Krishnendu Biswas (PEXELS)


Um pedaço de mim morre a cada dia...

Após as quedas nas lutas do cotidiano

Sinto parte do meu ser a esvair-se,

Meus ossos resultando em poeira

Pouco a pouco, volto ao barro primordial...


Desconstruo a própria criação 

Inexisto em contagem regressiva

Envolto na expectativa pelo ontem.


A cultura de um saudosismo que espera

A reparação dos erros na vida adulta

O regresso da oportunidade na juventude

A volta da alegria na infância 

Sempre a realização do que não foi

E nada mais há para ser...


Só resta o não ato, o desfazer,

A desintegração de todo o ser

No cumprimento da suprema profecia

Enfim o retorno ao pó absoluto.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

NOVOS ARES

Crédito: Alan Kabes (PEXELS)


Vindo do alto do topo deste mundo

Chega a galope o vento da mudança

Incomodando adulto até criança

Invadindo ao recanto mais profundo.


Todo homem, na verdade, possui medo

Ao mínimo sinal de novos ares

Ideias, sentimentos e lugares

Assumem certo odor de cru degredo.


Evita qualquer tipo de tendência

Capaz de alterar a ordem mais vigente

No plano da aparência ou da essência.


A tradição mantém-se resistente

Apesar da pressão da insistência

O conservadorismo está presente.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

1984 - GEORGE ORWELL


Igor Caldeira, 35 - advogado


1984 é um livro incontornável

1984 é um livro incontornável. Aprendi essa palavra agora, estudando em um grupo de estudos de Hegel, no Youtube, coordenado pelo professor Marcos Fábio Alexandre Nicolau. "Alguns filósofos são incontornáveis na história da Filosofia". Pois bem. É justamente a situação de 1984.

1984 trata não apenas de uma distopia antiga, como se fosse um livro datado, e numa época que supostamente já não existe mais. Tudo desvanece, mas algo se mantém. Já diria o filósofo de Iena. De fato, 1984 tem a profundidade de um clássico que toca profundamente na raiz de diversas discussões atuais, até mesmo no direito, mas não somente. É incrível perceber a força do livro quando aprendemos, nas aulas de processo penal, de que uma prova ilícita, se não respeitados os limites legais, não poderá ser utilizada no processo e deverá ser desentranhada (Art. 5°, Inc. LVI, Constituição Federal).

Às vezes pensamos que tudo pode para prender o "bandido". Mas não é bem assim. Valores importantes devem ser preservados, como a exemplo da intimidade e a privacidade. Não podemos simplesmente realizar uma interceptação telefônica sem autorização judicial e desde que seja realizada em uma investigação penal, apenas (Art. 5°, Inc. XII, da Constituição Federal). Imaginemos se os agentes do Estado pudessem simplesmente realizar toda espécie de interceptação sob qualquer situação, sem os limites legais? É o que acontece em 1984. As teletelas estão sempre em todos os locais, inclusive em nossos banheiros e em nossos quartos. Elas não apenas transmitem ideias do partido, mas também escutam tudo o que você fala, a ponto de não existir momento livre para ninguém externar nenhum pensamento.

Na história toda crítica contra o partido é considerado um crime inafiançável. E diante das telas sempre vigilantes, os personagens do livro de George Orwell não podem sequer possuir o resguardo de sua intimidade e privacidade. Pior ainda: e a liberdade de expressão, valor tão importante numa democracia? No livro, a situação chega num limite tão crítico que sequer escrever um diário é autorizado. Qualquer pensamento externado vai ser veementemente repreendido, até mesmo com a vaporização da pessoa, não apenas fisicamente, mas até nos anais da história.

Aqui existe uma situação curiosa. Por não existirem leis (positivadas) não existem limites legais e toda pena poderá ser implementada, em toda desproporcionalidade possível. Externar um pensamento se torna pena de morte ou de trabalhos forçados. E simplesmente ninguém pode trazer nenhum pensamento genuíno ou inteligente. Tudo será utilizado contra você. É um terror inimaginável: as pulsões são inibidas, os desabafos se tornam recalcados. E a vida se torna um inferno. A opressão de pensamento e de privacidade é tamanha que o nosso protagonista Winston precisa, até mesmo, alugar um quartinho, de um suposto vendedor de quinquilharias, para poder amar sem existir qualquer espécie de constrangimento.

Para tornar as pessoas avessas à revolução e fazê-las ir contra os interesses do Partido, a cúpula traz um expediente genial. Simplesmente realiza a simplificação da linguagem através da instituição de um novo idioma, denominado novilíngua. Um dicionário é incumbido de realizar a tarefa de registrar essa simplificação. Essa simplificação é basicamente através da restrição conceitual das palavras, de seus significados e até mesmo de suas ambiguidades.

 Não é possível não pensar em Wittgenstein quando ele diz que o mundo de uma pessoa é do tamanho do mundo de sua linguagem. Restringir a linguagem é restringir a atitude crítica, a criatividade e o pensamento livre.

Sem palavras para podermos expressar não poderemos conceituar o mundo, não seremos capazes de exprimir até mesmo o real. A restrição de palavras e de seus conceitos é a restrição da interpretação e de uma compreensão mais elaborada do mundo e da vida.

E quantas e quantas vezes não aparecem leis, inconstitucionais, diga-se de passagem, como a Escola sem Partido, que nada mais busca, senão, restringir do vocabulário dos professores o que se reputa como ideia de esquerda, inibindo uma atitude crítica dos seus alunos diante do mundo que lhes aparece?

A relação entre o livro e a conduta reacionária da direita é inevitável. Obviamente que o livro está nitidamente criticando o sistema soviético. Não é desconhecida a história da perseguição do governo soviético em face de Pachukanis, apenas porque sua teoria do direito não atendia aos interesses do regime de Stálin.             

Mas estou focando, aqui, em como o livro é atual e como dialoga com a contemporaneidade, e não se trata de uma discussão velha, apenas porque o muro de Berlim foi derrubado. O livro realmente é reflexivo de início ao fim.

Como não trazer à luz as torturas no quarto 101, que chegava ao extremo de confrontar as pessoas com seus piores medos, para que elas pudessem confessar crimes que até mesmo não cometeram. A tortura para dizer que 2+2 seria igual a 5, mesmo quando as leis da matemática asseveram que na verdade 2+2 é igual a 4. A inibição, portanto, do pensamento do verdadeiro, ainda que na base da tortura física e mental. Quantas vezes não somos inibidos, diante do poder do Estado, de trazer o real, de uma forma menos torturosa? 1984 não é um livro qualquer. É um livro que possui relevância, para além da época da guerra fria. É um livro atual, que dialoga com qualquer sistema político, mesmo nas democracias, que muitas vezes parecem esconder dentro de si o desejo irrefreável de solapar as leis e as nossas intimidades.

1984 é um livro incontornável. O que significa que nenhuma alma viva pode passar sua existência sem ter lido ao menos uma vez o livro. Está carimbado pela tradição como um clássico, atemporal, e passível sempre de ser lido e relido. As suas reflexões continuam atuais e possuem relevância mesmo nas democracias liberais.  Que a minha pequena resenha crítica possa servir de um estímulo à leitura e possibilite uma interpretação ainda mais aguçada do Livro.

PS. Também podemos pensar no livro não apenas em face do Poder do Estado, mas também no poder exercido pelas empresas privadas, que têm acesso aos nossos dados pessoais, a exemplo das plataformas de transporte por aplicativo, que sabem, por exemplo, cada canto que nós nos deslocamos, uma vez que nosso trajeto fica nos seus servidores, sem que possamos ter um efetivo controle. Obviamente, contamos, atualmente, com a Lei Geral de Proteção de Dados, prevendo multas e restrição ao compartilhamento indevido de dados. Mas a nossa privacidade encontra-se sempre no delicado fio da espada de Dâmocles, podendo ser rompida através de um leve sopro dos Poderes Privados.

Trago agradecimento especial ao Grupo do Book Club do Encontro de Idiomas por me estimularem a realizar a leitura do livro em inglês, em sua versão simplificada, o que me motivou a realizar a leitura em português do livro integral. Em especial a Henrique Takeshima e Rafael Sousa, por sempre estarem presentes no grupo de leitura, me ouvindo e suscitando o debate.

Menção especial a Carlos de Alcântara, fundador do Encontro de Idiomas, por permitir sempre trabalhar como Host do Grupo do Book Club com liberdade e sempre dando suporte às novas ideias.

Agradecimento ao Clube do livro de Russo hosteado pela Brenda Anjos e ao professor Márcio Fabiano, por me motivarem a realizar a presente resenha














 


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

NÃO SOU DESTE MUNDO

Crédito: Ainaz Musavi (PEXELS)

Não, eu não sou deste mundo.

Não, não pode ser possível.

Eu, que quando era pequeno,

Via a vida tão incrível,

Hoje me debulho em lágrimas

Neste mundo desprezível.


Naqueles tempos dourados,

Alma pura de criança,

Eu corria pelos campos,

Olhos verdes de esperança,

Mesmo sob a tempestade

Esperava por bonança.


Hoje vejo um outro mundo

Cada vez bem mais distante

Dos meus sonhos de menino,

Um lugar angustiante

Onde dinheiro e poder

É muito mais importante.


Basta olhar pra cada adulto

Pra ver tanto preconceito:

Um pronto a julgar o outro,

Achando-se tão perfeito

E pra algo sair certo

Tem que ser só do seu jeito.


As pessoas se evitando

Por todo e qualquer motivo,

Pensando só em si mesmas

E jamais no coletivo,

Hoje é cada um por si,

Nada de cooperativo.


O mundo agora virou

Gigante competição:

O outro, um adversário,

Não há colaboração.

Em que se ganha ou se perde,

Não há terceira opção.


Pessoas gastam o tempo

Com tanta futilidade

Perseguindo as ilusões,

Se afastando da verdade,

Para depois se queixar

Que falta oportunidade.


Mas os sonhos verdadeiros

Não encontram mais lugar.

Todos estão ocupados

Sem um tempo pra sonhar.

“Isto é coisa de criança”

Costumam justificar.


Crianças virando adultos

Muito bem antes da hora,

Perdendo tantos valores

Que pra sempre vão embora

E que um dia farão falta,

Mas ninguém vê isso agora.


Não sou mesmo deste mundo

E disso tenho certeza.

Jamais pensei encontrar

Males dessa natureza.

Surtos de perversidade

Roubaram minha pureza.


O mundo que conheci

Foi retirado de mim.

E deram um outro em troca,

Mas não gosto dele assim

E sei que não há mais volta,

Será este até o fim.


Por isto quero ir embora

Da cruel realidade.

O tempo de minha infância

Deixará muita saudade.

Nessa época dourada

Eu fui feliz de verdade. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

SAUDADE

Crédito: Eddie Stofe (PEXELS)

Nenhuma alegria afasta

A saudade deixada

Por tua partida


Dias de sol me deixaram

A casa escura e vazia

O tom cinza de despedida

Toca meu coração como hino

E provo cada lágrima caída


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ARQUIVO MORTO

Crédito: Element5 Digital (PEXELS)


Tranquei meus sonhos de criança 

No escuro do quarto de despejos

Ainda ali se encontram amontoados

Na disputa pelo espaço com os brinquedos.


Quando adolescente escondi a chave 

Afastando minha pureza dos olhos curiosos

Procurei esquecê-los por completo

Mesmo depois de adulto nunca abri o cômodo 

Inclusive perdi a chave, propositalmente.


Com os anos evitei aproximar-me da porta

Por medo de que as fantasias encarceradas

Iniciassem uma verdadeira rebelião, fugissem,

Ganhando mais força ao cruzar o batente

E me revelassem de forma nítida

O adulto que nunca tive coragem de ser.


TRISTES MEMÓRIAS

Crédito: Karolina Grabowska (PEXELS)   Lembranças não trazem Amor de volta, Retornam somente dor. Alegria que um dia habitou Aquele coração ...