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segunda-feira, 6 de julho de 2026

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY)

"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais."

Sejam muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época. Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal, prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos distintos.

Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais assassinatos.

Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros) sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça pública.

Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos assistido com frequência a movimentos de proibição de livros capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”, assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre inocência!

Voltando mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e, segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por elas!

Sei que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo, nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor! Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.

ECO, Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.

sábado, 4 de julho de 2026

PROVÉM DO RESPEITO QUE TÃO ALTO BRILHA

Crédito: Jsme MILA (PEXELS)

 

Quem pede licença, quem diz obrigado,

Quem pede desculpa, que segue gentil,

Respeita os demais e não busca ser vil,

Que faz seu discurso num tom moderado,

Não segue ofensivo nem fala exaltado,

Que nas relações sabe bem se portar

E ao seu semelhante só faz respeitar,

Nos mostra que o rumo no meio da trilha

Provém do respeito que tão alto brilha

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

SE UM DIA EU PUDESSE VER

Crédito: Thirdman (PEXELS)

  

Se um dia eu pudesse ver

Seria tão diferente

Nos olhos reconhecer

Cada coisa, tanta gente

Conseguir ver um sorriso

Como sendo o paraíso

Num semblante de criança

Mesmo envolto pelo escuro

Enxergar além do muro

Um frágil fio de esperança

 

Se me fosse dada a graça

Da mais nítida visão

Terminada a minha caça

À mágica solução

Buscaria achar enfim

Do arco-íris o tal fim

Em suas cores viajar

Em meio ao azul do céu

Fazer um grande escarcéu

Tanta cor pra admirar

 

Se me fosse permitido

Enxergar todos e tudo

Diante do colorido

Capaz que eu ficasse mudo

Por entre as sortidas cores

Descobriria valores

E nas faces mais felizes

Eu identificaria

A expressão da alegria

A ofuscar cicatrizes

 

Se esses meus olhos se abrissem

Correria para ver

Tudo quanto descobrissem

Sem nenhum tempo a perder

Pra depois guardar no peito

Vendo o mundo do meu jeito

Não pelos olhos de alguém

Aprendia a ver melhor

A vida toda ao redor

E o que de mais belo tem.

 

Se um dia fosse possível

Eu enxergar de verdade

Ah! Seria tão incrível!

Digo com propriedade

Contemplar a natureza

Em show de rara beleza

O véu que forma a cascata

Nuvens de puro algodão

O sol vermelho em paixão

A lua em traje de prata

 

Se eu pudesse admirar

A largura do oceano

Ondas bailando no mar

Estrelas no negro pano

Rubro tom do alvorecer

Laranja ao entardecer

Cobre a mata verdejante

Um jardim multicromático

Capaz de deixar estático

Todo e qualquer habitante.

 

Queria mesmo poder

Da mãe o puro semblante

Ver o seu filho nascer

Mirá-la no exato instante

Em que toda comovida

Assiste à certa partida

Do filho que ganha o mundo

Que perde o primeiro dente

Estando triste ou contente

No seu olhar mais profundo

 

Queria lá da janela

Ver chegar as madrugadas

O ipê de flor amarela

Muitos casais de mãos dadas

Criança empinando pipas

Um canteiro de tulipas

Queria ver estendidas

Bandeiras brancas de paz

Mesmo de forma fugaz

Tremulantes, decididas...

 

Alguém estendendo a mão

Em um gesto decidido

Para erguer o pobre irmão

Que no chão está caído

Presenciar a humanidade

Em ações de caridade

Todos espalhando o bem

Apertos de mão, abraços

A preencher os espaços

Muitos corações também.

 

Se um dia eu pudesse ver

Seria tudo tão novo

Tanta coisa pra aprender

No meio desse meu povo

Uma eterna novidade

Olhar de curiosidade

Com surpresas de montão

Enquanto não chega o dia

Eu fico com a magia

De olhar com o coração.

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

FALSA LIRA

Crédito: Olivia (PEXELS)

 

Verdade procuro ainda

Entre teus lábios

Sepultada sob mentiras

 

Nosso amor foi apenas ilusão

Sendo eu o único crédulo

Nada que disseste que sentiras

Tinha certo tom de veracidade

Falsas promessas soantes como liras.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESCALADA

Crédito: Baraa Obied (PEXELS)

Escalo dia a dia a montanha dos meus pecados

Minha subida adquire a cor da eternidade...

Na mente a possibilidade de não chegar ao topo.

 

O coração recorda, saudoso, os dias de sol

Cujo brilho ofuscava os olhos

E o calor aquecia todo o corpo.

 

À frente e acima, nada além de um céu nebuloso

Chega o dia em que se tem de seguir só

Não adianta gritar, pois não há ouvidos

Nenhum auxílio com o qual se possa contar.

 

Algumas pedras rolam em minha direção

Não passam de mais um obstáculo.

Pois na subida não há passagem livre. 

terça-feira, 30 de junho de 2026

ESCOLHAS

Crédito: ATC Comm Photo (PEXELS)


Quem dera descobrisse tal segredo

Que se esconde detrás do coração...

Qual força converte a pura emoção

De forma repentina em brusco medo?

 

Como um tórrido amor se acaba cedo

Sob o gosto de fel da traição?

Como se esquece tão terna afeição

Ao partir, triste amante, em seu degredo?

 

Talvez, mero capricho desse amor

Ou oculta o real querer no peito

Ou se abandona em seu louco furor

 

Desejo quase nunca satisfeito

O que resta? Entregar-se ao seu calor

Ou chorar o pedido nunca feito.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O ADOLESCENTE À DERIVA NO OCEANO DA VIDA

Crédito: Orhan Pergel (PEXELS)

“Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles potes enormes de mostruários de vidro e deixá-las em paz”.

                 Seja muito bem-vindo, meu caro leitor, companheiro de tantas viagens por este cosmo infinito que se chama Literatura. Espero que esteja pronto para mais uma jornada. Vamos deixar um pouco a nostálgica Inglaterra, onde permanecemos por algumas semanas (que culpa tenho eu desse solo ter tantos escritores fantásticos) e vamos para a Nova Inglaterra, mais especificamente para New York, que ainda não chega a ser aquela da canção “New York New York”, gravada por Lisa Minelli para o filme de mesmo nome, com direção de nada mais, nada menos que Martin Scorsese, com atuação do grande Robert de Niro, mas que ganhou a fama internacional após aparecer na voz do eterno Frank Sinatra no ano seguinte, sendo portanto a nossa faixa da playlist de hoje. Fica também a dica do filme como um belo entretenimento.

                Aterrissemos, então, na cidade em dezembro de 1949, mas que só surge no ano de 1951 (data de publicação do romance), onde encontraremos o adolescente Holden Caulfield, um jovem de dezessete anos, protagonista da trama (que cabe lembrar: dura uma semana), que acaba por ser expulso do colégio interno onde estudava, na Pensilvânia, e que adia sua volta para casa pelo motivo de ter de enfrentar a sua família. Nosso personagem, como todo e qualquer adolescente, acredito eu, tenta traçar, para si mesmo, um norte para a sua vida. Para isso, busca refletir sobre o que tem passado e, como toda pessoa num momento de introspecção, busca encontrar um sentido para sua existência. Ao chegar a sua cidade natal, vai hospedar-se em um hotel e, a partir daí, encontra outras pessoas (desconhecidas e conhecidas) que lhe servem de referência para o encontro de sua identidade. Nosso herói encontra-se perdido. Já ouvi, só não me lembro antes (consequências do avanço da idade) que nós acabamos por nos reconhecer no outro.

                Alguns encontros tornam-se de extrema importância para ele, como a antiga namorada Sally, que não concorda em fugir com ele, o que lhe causa muita frustração; a irmã pela qual nutre uma imensa admiração, que é recíproca, que se dispõe a fugir com o irmão, mas este recusa; e o professor antigo muito admirado por ele: o senhor Antolini. Referindo-se ao título: Holden tem um sonho, com frequência, no qual se encontra em um campo de centeio repleto de crianças, evitando-as que caiam em um precipício que se situa ao fim da plantação. Ele conta esse sonho ao seu mestre que lhe faz uma importante observação: o homem maduro é aquele que, com toda a humildade, procura viver por uma causa, e não morrer de uma forma heroica e nobre pela mesma. Ele deixa a casa de seu professor e perambula pela cidade em estado de reflexão sobre tudo que ouviu. Nosso personagem sente que precisa dar um rumo a sua vida, mas qual? Eis, caro amigo leitor, a questão que se mostra desde o início da narrativa.

                Há muitas histórias acerca desse livro, escrito por J. D. Salinger (acredito ser o único dele) que alcançou uma notoriedade talvez jamais imaginada pelo autor, o qual se retirou para uma vida mais reclusa, sem nunca dar qualquer entrevista sobre a referida obra, que se tornou um marco na vida de muitos leitores adolescentes, entre eles muitas celebridades. O nobre leitor pode estar pensando: “Mas não tem nada de mais nesse enredo, é absolutamente comum”. Concordo com você. Levando-se em conta as outras narrativas que já passaram por essa coluna, hei de concordar sem esforço algum. Mas, quem disse, que para um enredo chamar a atenção, ele precisa ser algo fora do comum, tendo o insólito e a fantasia como suas referências? Venho, mais uma vez, lembrar ao amado leitor, que o objetivo dessa coluna é justamente mostrar o quanto a literatura, como toda arte, conecta-se à realidade de forma indiscutível, apesar de ser considerada apenas uma ficção.

                Holden carrega consigo o estigma do adolescente que, apesar de inteligente, traz um emaranhado de dúvidas de natureza emocional com relação ao mundo que o cerca. Na mesma idade que o referido protagonista, nossos adolescentes aqui no Brasil, preparam-se para tomar decisões importantes, como a futura profissão que seguirão, muitas vezes, representada por uma frase que considero muito infeliz: “Você já está na idade de saber o que quer da vida”, tudo isso sem qualquer tipo de experiência prática em sua vivência (boa parte deles, para não dizer maioria, nunca trabalharam ou tiveram qualquer contato com qualquer espécie de ofício). Contudo, eles precisam escolher um curso para prestar o vestibular. Se, na época de nosso protagonista, já era uma decisão difícil, com poucas opções, imagine o que se dizer dos dias de hoje, com novos cursos, que brotam aos montes, muitos dos quais eu nem fazia a mínima ideia de que existiam. Há a pressão da sociedade e a pressão do vestibular e, como se não bastasse, para piorar para o jovem em questão, muitos costumam fazer comparações com filhos de amigos e parentes, como se houvesse um padrão, ou ainda temos as frases paternais do tipo “Na sua idade eu já sabia muito bem o que queria da vida. Portanto, não é de se estranhar que vários deles abandonem seus cursos e ainda sejam vistos como fracassados.

                O protagonista de Salinger representa o adolescente que se vê perdido em uma fase que, aliás, entendo como muito confusa, pois não se é mais visto como criança, ao passo que se é lembrado, a toda hora, que ainda não é adulto para cuidar da própria vida. Difícil compreender onde se encaixar na faixa etária da vida, não acha, amigo leitor? Pode ser que a alguns eu pareça estar sendo um tanto quanto permissivo e este ou aquele leitor acabe pensando que estou poupando nossos adolescentes. De forma alguma. Desejo aqui apenas lembrar o quanto se torna difícil e complicado tomar uma decisão desse calibre na idade em que se encontra na vida, com pouca distância percorrida. Gosto ainda de recordar que muitos pais, talvez de forma inconsciente, determinam o futuro de seus filhos em vez de dar-lhes subsídios necessários para tomarem suas próprias decisões, achando, dessa forma, que estão fazendo um verdadeiro bem a eles ou ainda colocando que eles não têm um minuto a perder.

                Como professor de adolescentes há décadas (sim, já faz um bocado de tempo), penso em quanto o mundo que nos cerca tem mudado (de forma vertiginosa nos últimos anos) e como as mídias têm deixado nossas crianças e jovens cada vez mais “adultizados” com o único propósito de os tornarem consumidores em potencial. É esse mundo, hipócrita e interesseiro, que desperta a revolta de Holden, fazendo cair sobre ele o rótulo de rebelde. Entretanto, caro leitor, quero aqui lembrar que eles ainda não são adultos, no verdadeiro sentido da palavra a qual lhes atribui a total responsabilidade por tudo, por isso, precisam muito de orientação, além do mais em uma realidade tão complexa em que se transformou esse nosso universo. Nossos adolescentes nos provocam o tempo todo, na verdade, suplicando por limites e orientações. Assim como descobriu nosso protagonista, nenhum de nós jamais será o herói que salvará todas as crianças de caírem no penhasco (símbolo da perda da inocência) que está à beira do campo de centeio. Somos guias, conselheiros, amigos que, convém ressaltar, sem a perda e a isenção da autoridade, temos a responsabilidade de conduzi-los da melhor maneira para que possam ser felizes em suas escolhas. Após termos feito o nosso papel nesse mundo, resta-nos, somente, esperar e torcer por cada um deles para que possam ser felizes, lembrando os versos de uma canção de Renato Russo: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais / O tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo”. Até a próxima.

 SALINGER, J. D. O apanhador no campo de centeio. São Paulo: Todavia, 2019.

 

O CONHECIMENTO COMO GARANTIA OU AMEAÇA AO PODER

Crédito: manuscript_nerd (CC BY) "Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como ta...