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| Crédito: Felipe Campos (FLICKR) |
“Todas as
pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”
Seja
bem-vindo, mais uma vez, caro leitor, ao mundo da imaginação. Sim, a literatura
é o universo onde o céu é o limite. Falamos em céu, porque, quem dentre nós,
para sermos bem sinceros, quando criança, nunca teve, ao menos uma vez (eu
confesso que por muitas) o desejo de voar, fosse com aquela toalha que pegou
escondido da mãe para fazer capa de super-herói (inclusive por que será que a
habilidade de voar era a mais admirada em nossa geração?) ou montando uma nave
na sala de casa, com cadeiras e outras parafernálias, para explorar o universo?
Acontece que, após uma sequência de viagens permeadas por conflitos sociais,
escolhi para nós, hoje, um roteiro mais suave. Possamos nós, agora, deixar a
França e sua revolução, para nos dirigirmos até o ano de 1943. Para onde? Para
o deserto do Saara. Olha só que viagem exótica, hein! E você pode perguntar: o
que há para se ver lá além desse imenso oceano de areia? Ah, caro leitor, a
literatura é capaz de realizar os fenômenos mais surpreendentes aos olhos
humanos. Prepare-se para um encontro com a magia que, aliás, no mundo da
literatura não funciona como o oposto da realidade, mas sim, como um
complemento mais que necessário. E como não poderia faltar, aqui vai a nossa
“playlist” de hoje: a trilha sonora da animação “O pequeno príncipe” feita para
o filme de 2015, composta por Hans Zimmer e Richard Harvey.
Após uma pane em seu avião, um piloto faz um
pouso forçado no referido deserto e, ao acordar do acidente sofrido, encontra
um menino de cabelos de ouro e cachecol amarelo, que lhe pede um desenho. Cabe
lembrar que nosso aviador, quando criança, desejava ser pintor, mas fora
desencorajado pela falta de sensibilidade dos adultos. A partir daí, vai
surgindo uma inesperada amizade, com base nos relatos de ambos para se
conhecerem melhor. O piloto descobre que o rapaz à sua frente é um
principezinho de um asteroide chamado B-612, que possui três vulcões (um
extinto), uma rosa e alguns baobás. Essa rosa (A rosa vermelha) tomará boa
parte da narrativa do menino, explicando o relacionamento que existe entre eles
e a série de exigências que a mesma lhe fazia o tempo todo. Aí surge uma das
frases maravilhosas embutidas nessa narrativa, quando o piloto diz a ele: “Foi
o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Muito
interessado pela história do menino, o aviador ouve atentamente como foi sua
viagem, curioso por saber como ele chegou aqui à Terra.
O
príncipe narra sua passagem por diversos asteroides, todos eles, assim como o
seu, com apenas um morador, os quais não possuem um nome, contudo são reconhecidos
ou nomeados pelo ofício que exercem em cada um deles. Tratam-se todos de
adultos, completamente imersos em seus próprios “mundos”. Dentre eles, podemos
citar o rei, para o qual “todos os demais são súditos”. Ele oferece um cargo ao
príncipe, que não vê nenhum sentido e parte. Em outro planeta, encontra o
vaidoso, tenta até uma conversa. “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só
ouvem elogios”. Um pouco mais adiante, encontra o beberrão, o qual admite
que bebe para esquecer a vergonha que tem de beber. Depois encontra o acendedor
de lampiões, que os acende e apaga constantemente, embora não saiba do sentido
que tenha, mas o faz somente porque assim diz o regulamento.
Ao
passar por cada local, o jovenzinho leva consigo uma lição em forma de reflexão
e questionamento, acerca da forma adulta de se ver a vida e de vivê-la. Em um
dos asteroides, o geógrafo fala a ele sobre um planeta chamado Terra, um lugar
repleto de gente, o que muito interessa ao principezinho, que parte para lá. É
na Terra que ele conhecerá a mais cativante das personagens (opinião puramente
minha, caro leitor): a raposa. Eles vão discutir sobre o valor da amizade, do
amor e, sobretudo da responsabilidade que temos uns para com os outros, como em
uma das mais célebres frases do livro: “Tu te tornas inteiramente
responsável por aquilo que cativas”.
O
livro “O pequeno príncipe” é visto como um livro infanto-juvenil por alguns,
infantil para outros, mas, para mim, caro leitor, essa classificação, quando se
trata de um clássico, não faz a menor diferença ou até mesmo importância. E por
quê? Porque este livro, em minha humilde opinião de mero leitor (mas apaixonado
pela leitura) fala alto ao adulto e nos chama a atenção para uma viagem ao
nosso íntimo. Para mim, é como se ele perguntasse a cada adulto: “O que você
fez com aquela criança que foi um dia?” Aí vem a questão: muitas vezes, em
nossa cultura, ouvimos frases como “deixa de ser criança”, “você não é mais
criança”, como se elas representassem tão somente a imaturidade e a inocência.
Durante sua viagem, o príncipe encontra adultos que viraram reféns de uma vida
rasa, superficial, repleta de suas mais absurdas ambições. Em quase todos os
asteroides, elas são sozinhas, como ele próprio diz: “As pessoas são
solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. Fechamo-nos, caro
leitor, em nossos mundinhos particulares que, como os asteroides visitados, não
têm espaço para mais ninguém.
A
criança representa o encantamento pela vida, em suas manifestações mais
simples, mantendo sua sensibilidade aberta ao espetáculo da existência. Como
também podemos encontrar na fala da raposa: “só se vê bem com o coração, o
essencial é invisível aos olhos”. Muitos perderam esse olhar e seguem não
mais vivendo, apenas existindo. E por que não dizer que alguns “vegetam” por
aí, como pepinos ambulantes? Muitos, com medo de sair da sua zona de conforto,
trancaram (infelizmente) a porta do seu coração porque “a gente corre o
risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas esquece sempre os
benefícios de um amor sincero e pleno. Sabemos que certas experiências acabam
nos deixando marcas profundas, verdadeiras cicatrizes emocionais, porém o sábio
principezinho nos lembra de que “é loucura odiar todas as rosas porque uma
te espetou”. As crianças também sofrem, mas se abrem a novas vivências. E o
que as move? Acredito que a esperança ou até mesmo a confiança de que tudo pode
ser diferente. Talvez, quando nos tornamos adultos, parece que perdemos essa
insistência (que às vezes até nos irrita) que a criança tem para conseguir o
que quer. Acho que passamos a desistir de nossos sonhos muito mais facilmente. “É
preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”.
Falta-nos a paciência (do adulto) e a expectativa (da criança). Passamos,
então, a buscar o caminho mais fácil para tudo, esquecendo-nos de que a
recompensa é proporcional ao tamanho do desafio.
Poderia
aqui citar ainda uma imensidade de trechos dessa fantástica obra que fala ao
coração do homem e que busca encontrar, lá dentro, uma centelha daquela criança
que ele já foi. Não, caro leitor, jamais retornaremos àquela doce inocência.
Isso é um preço pago por atingir a maturidade. Entretanto, o encanto pela vida
e o verdadeiro valor das coisas que realmente importam para se poder viver de
verdade, esse ainda pode ser resgatado. Que possamos olhar o mundo com a
responsabilidade do adulto, todavia sem perder, jamais, o encantamento da
criança. Que possamos aprender mais com elas, com seu jeito simples de enxergar
a vida e de dar sentido a ela, terminando com um trecho de um poema de William
Wordsworth: “Meu coração salta quando vejo / Um arco-íris no céu: / Assim era
quando minha vida começou; / Assim é agora que sou um homem; / Assim seja
quando eu envelhecer, / Ou me deixe morrer! / A Criança é pai do Homem”. Até a
próxima.
SAINT-EXUPÉRY. Antoine. O pequeno príncipe. Rio de
Janeiro: Harper Collins, 2018.