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| Crédito: manuscript_nerd (CC BY) |
"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas
as mentiras podem ser reconhecidas como tais."
Sejam
muito bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, fiéis
companheiros de viagem, a mais uma de nossas espetaculares jornadas
pelo incansável mundo da literatura. Deixemos para trás a
cosmopolita e glamorosa Nova York e todos os seus demais encantos
para passarmos por uma radical mudança de ambiente e de época.
Vamos novamente acessar nossa “playlist” com a trilha sonora do
filme “O nome da Rosa” composto pelo renomado James Horner para o
filme de 1986 que conta com a presença do ator Sean Connery entre
outros. Agora, que estamos devidamente prontos, embarquemos para o
ano de 1327. Chegando lá vamos nos dirigir até a belíssima Itália
onde encontraremos um mosteiro beneditino que será o espaço de
nossa aventura. Essa abadia, um a construção magnífica, por sinal,
prepara-se para ser o palco de um grande debate teológico entre os
franciscanos por causa de divergências que os dividem em dois grupos
distintos.
Até aí o caro leitor vai achar tudo muito normal, porém, com a
chegada de um frei chamado Guilherme de Baskerville (um dos
convidados para o tal debate) acompanhado do noviço Adso, um clima
de mistério cai sobre a narrativa, pois se descobre que no local têm
ocorrido mortes misteriosas, portanto, inexplicáveis aos olhos de
todos. Não por acaso, Frei Guilherme é um religioso, mas dotado de
grande capacidade de raciocínio e observação (praticamente um
Sherlock Holmes) e vai utilizar todas as suas faculdades mentais na
solução dessas mortes enigmáticas, curiosamente atribuídas ao
diabo por grande parte dos religiosos; cabendo lembrar ao leitor que
é muito mais fácil atribuir a culpa de algo a Deus ou ao diabo para
não precisar encontrar o verdadeiro culpado por alguma coisa como se
diz numa canção de Raul Seixas “É sempre mais fácil achar que a
culpa é do outro”, entretanto, o mais intrigante é que, quase
setecentos anos depois, isso não mudou muito – não é este o tema
de nossa coluna aqui? A verossimilhança? Mas nosso perspicaz
protagonista não se deixa enganar e resolve dar continuidade à sua
investigação por acreditar que existe alguém responsável por tais
assassinatos.
Após algum tempo, acaba-se descobrindo que todas as mortes estão
ligadas ao livro “Poética”, de Aristóteles. Todos os que o
tiveram em sua posse, acabaram morrendo envenenados. A partir de
então o foco volta-se para a maravilhosa biblioteca dos monges
beneditinos, quando se descobre que havia uma parte da biblioteca
cujo acesso era totalmente proibido aos demais. Não sei se é do
conhecimento do caro leitor que, durante boa parte da Idade Média as
bibliotecas, sempre situadas dentro dos muros da igreja, tinham o
absoluto controle do que as pessoas podiam ou não ler, guardando a
sete chaves os títulos considerados perigosos aos fiéis. Esses
livros eram adquiridos e retirados de circulação. Com a chegada da
imprensa, esse monopólio ficou ameaçado, o que obrigou a igreja a
criar o famoso Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros
Proibidos), que circulou por cerca de 400 anos, sendo abolido somente
pelo Papa Paulo VI em 1966. Mas estes são só alguns exemplos das
tantas perseguições que o conhecimento (simbolizado pelos livros)
sofreu ao longo das eras, as inúmeras censuras e recolhimentos de
exemplares que “atentavam contra moral e os bons costumes”, não
deixando de citar as cerimônias em que os nazistas queimavam
milhares e milhares de exemplares, também não posso deixar de
relatar que nosso caro Jorge Amado viu muitos exemplares de seu
fantástico “Capitães de areia” (1937) serem queimados em praça
pública.
Infelizmente não paramos por aí, caro leitor. Ultimamente temos
assistido com frequência a movimentos de proibição de livros
capitaneados por governos ou ainda liderados por pais de alunos em
diversas escolas, tudo isso sem a menor possibilidade de discussão
ou debate. “Não concordo com o livro!”, “Não gostei do que
li”, “Por que não proíbem algo assim?” Pronto! Está ligada a
luz de alerta para o retrocesso do conhecimento! A frase do filósofo
Francis Bacon, em 1597: “Scientia potentia est” (Conhecimento é
poder), acompanhada de uma reformulação pelo criador da
psicanálise, Sigmund Freud “Só o conhecimento traz o poder”,
assombram-me em tempos obscuros como esses (para aqueles que pensam
que a Idade das Trevas ficou para trás, para sempre). Pobre
inocência!
Voltando
mais um pouco ao enredo, descobre-se que o problema que paira sobre o
tal livro de Aristóteles é porque ele é dedicado ao riso e,
segundo frei Jorge: “o riso é uma ameaça capaz de destruir o
temor a Deus e, consequentemente o poder da igreja.” É a partir
desse ponto, caro leitor, que a literatura começa a ser considerada
algo perigoso: porque nos faz sonhar, viajar, conhecer outras
realidades e, por que não, a si mesmo? Pode nos trazer o riso e tudo
mais, inclusive a liberdade. Ah, e a liberdade é algo muito, muito
perigoso. Sempre foi. O enredo nos traz muitos outros conflitos, como
a chegada de um desafeto de frei Guilherme, Bernardo Gui, um temido
inquisidor, que faz suspender todas as investigações, numa
verdadeira caça às bruxas e ainda há espaço para uma paixão
envolvendo o noviço Adso. Com um desfecho inesperado (e que mantendo
minha regra de ouro, não o revelarei aqui. Leia a obra!), o leitor
tem todas as respostas de que precisava para entender a trama. E
quanto ao título? Você pode me perguntar. Ah, esse tal de Umberto
Eco era mesmo um brincalhão. Dizem por aí que colocou um título
que ficasse em aberto para muitas interpretações contidas no enredo
ou até mesmo fora dele. Se for curioso o suficiente, procure por
elas!
Sei
que hoje o caro leitor pode achar que peguei um pouco pesado com a
instituição Igreja, mas a intenção estava longe de ser essa, mas
sim mostrar o quanto a arte (no nosso caso, a literatura) foi e
continua sendo perseguida, vista como um instrumento de subversão e
rebeldia, porém isso é só a cereja do bolo porque, lá no fundo,
nas camadas do recheio, está a leitura como uma das formas de
aquisição do conhecimento. Cabe lembrar que isso é uma ameaça a
qualquer sistema (político, financeiro, religioso, ideológico) que
busca pela obediência cega e pela alienação que nos distancia cada
vez mais da realidade. Lembrando uma das frases que mais aprecio: “A
literatura é uma mentira que conta a verdade”. Ah! Caro leitor!
Toda nação que tem os livros como seus inimigos está fadada a
passar por tempos muito sombrios. Termino por aqui com um trecho de
um poema do brilhante Castro Alves: “Bendito
o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo
pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma, /
É chuva – que faz o mar!” Até a próxima.
ECO,
Umberto. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 2019.