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| Crédito: Renz Isidro (PEXELS) |
“Velho. É o
que sou. Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais
alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares
e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.”
Bem-vindo
de volta, caro leitor! Novamente nos encontramos aqui presentes. Possamos
mergulhar de cabeça nas águas; ora cristalinas, ora turvas, desse infinito
oceano de saberes que é a literatura. Deixemo-nos levar ao sabor das ondas das
experiências trazidas dos clássicos universais. Por que vos falo dessa maneira,
com esse linguajar um tanto assim marítimo? Já deve imaginar que é porque hoje,
mais uma vez, iremos singrar os sete mares. Acabei de pensar em quantas navegações
fizemos juntos... não é mesmo? Aliás, nossa última viagem, se o caro leitor
ainda lembra, foi marcada por uma sucessão de abandonos e naufrágios (acho que
o Swift apelou com o Gulliver), o que acabou por não deixar boas recordações
(sem falar no cruel destino do pobre capitão Ahab). Mas, deixemos de prosa e
vamos voltar ao ano de 1952, nosso destino: mar de Havana, na costa da ilha de
Cuba. Para a nossa “playlist” de hoje, recomendo a música “O velho e o mar”
(2016) do cantor Rubel, inspirada nos desafios do protagonista do romance, uma
música no estilo folk para nos fazer viajar.
É aqui, à beira-mar, que vamos encontrar
Santiago, um pescador que já começa a sentir o peso dos anos. Fazia um tempo
considerável que ele não realizava boas pescas, não exibia grandes peixes.
Apesar de ser uma pessoa dotada de grande experiência e dono de uma sabedoria
que só a bagagem dos anos pode trazer, nosso protagonista é tido como uma
pessoa já sem sorte para lançar-se ao mar, um fator que, (acredite se quiser!)
se leva muito em consideração entre seus pares. Até mesmo seu aprendiz,
Manolin, não o acompanha mais por conselho da família, sendo obrigado a
procurar por pescadores mais jovens, contudo jamais deixa o companheiro, pois
ambos possuem uma daquelas amizades inabaláveis, demonstrada por diversas vezes
ao longo do romance, com várias manifestações de respeito e cuidado.
É
por causa do jovem amigo que Santiago não desiste de vez de seu ofício. Sua
confiança é a energia que ainda o impele a aventurar-se pelo grande mar. Quando
ele está por completar quase três longos meses sem pescar coisa alguma,
desafiado pelos mais jovens, o velho resolve tentar uma nova tática:
contrariando a lógica de cardume, distancia-se dos demais e aguarda. A
estratégia acaba dando certo e um enorme espadarte (um peixe de uns cinco
metros) fisga sua isca. A partir de agora, vai ter início uma feroz batalha: do
homem contra o peixe; da experiência contra o vigor físico, das forças humanas
contra o instinto da natureza. A força do peixe acaba arrastando-o para alto
mar, onde o sol e o desgaste da luta com o peixe castigam-no impiedosamente.
Extenuado,
Santiago enfim vence o espadarte. Mas, se você, caro leitor, acha que a luta
termina aí. Lamento estragar a sua alegria. Tubarões aproximam-se para
banquetear-se com o troféu de nosso herói, arrancando (literalmente) pedaços de
sua grande conquista solitária. A distância da orla ainda é muito grande. Ele
se encontra sozinho, exausto, o caminho de volta parece infinito, mas ele está
disposto a lutar até o fim. Agora, caro leitor, vamos mergulhar mais fundo. É
um livro curto, talvez o menor dos clássicos (120 páginas); porém não cometa o
erro de subestimá-lo. Não faça isso, eu te peço. Há quem acredite que se trata
apenas da história de um velho que sai para pegar um peixe. Como algo tão raso
tornar-se-ia um clássico? Eis a sua resposta: não se trata apenas disso. Estes
leitores pescaram somente os peixinhos pequenos que se aventuram tolamente pela
superfície. Então, vamos ver a profundidade da obra.
Começo
com um questionamento, arvorado em um pensamento de Buda: “Por mais que na
batalha se vença um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de
todas as vitórias”. Contra quem Santiago lutava? Contra a natureza, contra o
peixe, contra os mais jovens, contra a falta de sorte? Penso que com todos eles
e, ao mesmo tempo, nenhum. Na verdade, é a luta do homem consigo mesmo. É a
luta de alguém contra os seus limites, suas fraquezas, seus medos, sua condição
humana. Não há nada a se provar para ninguém, a não ser para si mesmo. É disso
que o Buda falava aos discípulos. É isso que leva Santiago ao confronto com o
espadarte. Essa, caro leitor, preste bem atenção, é a luta de todos nós. E que
fique bem claro: ela não se finda assim, de uma hora pra outra. Como se diz na
estrofe inicial do poema de Gonçalves Dias “Canção do tamoio”: “Não chores, meu
filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é
combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar.”
Ouvi, certa vez, que o mundo não para pra que você o conserte. Santiago usa de
todas as suas forças, conhecimento, sabedoria, paciência para vencer o desafio.
Ele está sozinho, contando só consigo mesmo. No fundo, não há mais a quem
recorrer. É só ele, sempre foi só ele.
Não
é à toa que ele se lança ao mar: aquela infinitude de água, a perder de vista,
representa a vida, com seus ciclos: marés, ondas, tempestades, placidez. É a
nossa vivência posta à prova, continuamente. Mas não para por aí: Santiago vem
mostrar que a força da juventude ainda tem muito o que aprender com a sabedoria
da velhice. E você pode me perguntar: “Como se faz para adquirir a sabedoria?”
E eu te respondo, amigo leitor, só com a experiência. Por que você acha que o
critério de liderança nas tribos indígenas é a idade? Por ser óbvio que a
sabedoria é fruto da vivência, logo: quanto mais se vive, mais se aprende, mais
se tem para ensinar. O homem mais velho foi posto mais vezes à prova pela vida.
Também já parou para pensar por que Manolin e Santiago se dão tão bem? Um dos
fatores é sua idade. Ambos estão à margem na consideração da sociedade: um já
passou do tempo e o outro ainda não está na sua vez. O adulto se esquece de que
já foi criança e mais ainda de que será um idoso. Esses dois se encontram,
enxergam-se um no outro, esse ainda não chegou a ser um grande homem, coisa que
aquele já foi, mas faz um bom tempo. Nesse abandono social, eles têm um ao
outro, numa relação tão bonita de respeito e de carinho. Como é bom quando a
gente consegue se ver em alguém...
Caro
leitor, note que, apesar das suas limitações e das circunstâncias, apesar do
que os demais pensam ou até mesmo dizem sobre ele, apesar da ideia de que o
universo conspira contra ele, Santiago ainda se permite sonhar e se dá a
oportunidade de perseguir seu sonho. É dando sequência sobre essa grande
metáfora da vida que termino o artigo de hoje com os versos da encantadora
música de Tim Maia: “Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir
achar / Razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho
todo azul / Azul da cor do mar”. Até a próxima.
HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2013.