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| Crédito: Public Domain Media |
"Se queremos que tudo
continue como está, é preciso que tudo mude."
Chegando à Sicília,
vamos encontrar a aristocrática família Corbera e seu chefe Don Fabrizio, o
Príncipe de Salina, um homem imponente, muito culto, um tanto quanto cético
quanto aos seres humanos, mas que ainda porta certo carisma, o qual encontra,
dentro de sua propriedade, o corpo de um soldado do governo morto pelos
chamados “camisas-vermelhas”, forçando-o a entender que novos tempos estão
chegando, fato esse que os aristocratas como ele se negam a aceitar, preferindo
viver na ignorância sobre tal advento, lembrando aquele ditado antigo: “O que
os olhos não veem, o coração não sente”, ou ainda aquela expressão inglesa
clássica: “A ignorância é uma bênção”. Aqui acontece algo cômico senão trágico:
o príncipe possui consciência de classe e compreende muito bem o que está acontecendo,
porém não tomará decisão nenhuma quanto a isso e ficará assistindo à própria
derrocada da primeira fila como aquele motorista que vê um buraco à frente, tem
tempo para desviar dele, entretanto não o faz.
Agora o deixemos um pouco de lado para conhecermos
outro personagem importante: Tancredi, sobrinho do príncipe, um belo rapaz,
inteligente e bem ambicioso. Pena que lhe falte dinheiro para realizar seus
planos de futuro. Assim sendo, ele acaba desistindo de desposar sua prima
Concetta, segunda filha de Don Fabrizio, porque não vê mais futuro em uma união
aristocrática, visto que sua classe está se deteriorando, e busca, por meio do
casamento, uma forma de compensar essa sua situação. Tancredi se apaixona por
Angélica, uma linda moça, inteligente e de presença marcante, recém-chegada de
Florença. Ela é filha de Dom Calógero, prefeito local e esperto latifundiário,
um homem cuja ganância não tem limites, o qual representa a burguesia em
ascensão. Eles começam um namoro, o que
faz com que Concetta, desiludida, sofra em silêncio por não ter sido escolhida
e se torne uma pessoa cada dia mais amarga e melancólica.
Enquanto isso, Don Fabrizio enfrenta uma crise
existencial. Afinal de contas, o seu mundo está ruindo aos poucos, a
aristocracia está fadada a acabar e o que ele fará? Porque ele se dá conta de
que a única coisa que ele sabe fazer no mundo é ser aristocrata. Depois disso
tudo, o que lhe restará? Para a sua angústia, ele não tem nenhuma resposta. Ao
passo que seu sobrinho, muito mais perspicaz, já prevendo tal final, adianta-se
em seu casamento com Angélica, por ser a filha do homem mais rico da região.
União que também convém à família da moça que, com muito dinheiro, só lhe falta
o status trazido pelo sobrenome do futuro esposo. É, meu caro leitor, já vimos
esse filme do casamento de conveniência passar aqui por algumas vezes. E saber
que ele ainda sobrevive até hoje. Inclusive, em uma parte do livro, o autor
mostra que, até mesmo entre os camponeses, existia esse tipo de relação baseada
no interesse financeiro. Nem preciso dizer à cara leitora que não será um
casamento feliz, mas, quem disse que eles buscavam alguma felicidade nisso,
pois, em muitas ocasiões o status e o dinheiro falam mais alto e o casamento
por amor é visto como uma falácia do Romantismo. Outro ponto é o apoio de
Tancredi ao movimento de unificação, que ele considera inevitável, portanto, o
seu apoio em busca de futuras alianças que poderão lhe trazer algum benefício,
juntando-se, por isso, às tropas de Giuseppe Garibaldi e, depois, ao exército
real.
Outro personagem, que não chega a ser um
protagonista, mas apresenta um comportamento curioso é padre Pirroni, um
jesuíta que serve a família como capelão particular e se torna um grande
confidente e conselheiro do príncipe, mesmo sendo tratado, por diversas vezes,
com certo desdém por ele. O padre ouve todos os seus queixumes e desabafos nos
momentos de crise. É um homem de origem camponesa, humilde, mas que se agarra a
uma nobreza em evidente decadência por medo de que a reforma tire os
privilégios que sua igreja detém.
O ato de Tancredi junto aos revolucionários, não se
trata de idealismo, mas de uma estratégia de sobrevivência. Como diz mais um
ditado: “Vão-se os anéis, ficam-se os dedos”. Os nobres perderão seus títulos,
porém manterão suas posses. Por trás de uma falsa mudança na engrenagem,
aristocracia e burguesia atuam juntas em mais um espetáculo teatral no qual o
povo continua sendo mera plateia. Tudo continuará na mesma, como pudemos
observar em nossa viagem pela granja dos animais, não se lembram? O poder
corrompe e corrói e o dinheiro a tudo compra desde que se descubra qual o preço
a pagar. O autor demonstra, em seu romance, sua visão totalmente pessimista de
uma sociedade que não se transforma, mas que segue o seu caminho na prática da
troca de interesses. Se trouxermos nosso olhar vindo da Sicília do século XIX
para o Brasil do século XXI, infelizmente, chegaremos à conclusão de que não
mudou nada: grupos que se dizem antagônicos seguem fazendo alianças escusas e
se intitulando salvadores da pátria e deixando o seu povo em segundo plano.
Por isso, em tempos como esse, acho muito
complicadas as discussões que se dizem políticas e se ocupam de discutir
políticos em vez de ideias ou planos de governo. Observo famílias e amizades
que rompem seus belos laços de convivência por defenderem diferentes ídolos de
barro, tão frágeis e vazios. Que possamos nos tornar amantes das boas ideias e,
principalmente, daquelas que visem ao bem comum, isso se queremos
verdadeiramente que a mudança aconteça. Todavia, antes de tudo, não nos custa
lembrar o sábio Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”.
Que ela comece a brotar de mim, de você, de cada um de nós e, se a semearmos
pelas esquinas da vida, quem sabe, um dia, tenhamos a oportunidade de colhermos,
juntos, os doces e suculentos frutos da tão sonhada e frondosa árvore da
mudança. Até a próxima!
LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi di. O leopardo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.






