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domingo, 27 de setembro de 2026

TALENTO GERADO NO SEIO DA TERRA

Homenagem da artista Nice Forti

 

Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o enorme prazer de entrevistar um grande poeta contemporâneo de nossa região: Alceu Bigato. Entretanto, antes de começarmos nossa conversa, vamos saber um pouco de sua história:

Alceu Bigato, poeta sertanejo nascido em 1939, na Fazenda da Glória, Jardinópolis, é casado, tem três filhos, dois netos, uma neta e um bisneto. Gosta de escrever desde garoto, mas só depois de adulto, já em Ribeirão Preto e incentivado por um amigo, começou a divulgar seus textos em programas de rádio. Frequentou diversos programas, teve 44 músicas gravadas por várias duplas e trios sertanejos de Ribeirão Preto. Em 2009, lançou na Feira do Livro de Ribeirão Preto um CD declamando seus poemas. Desde então, frequenta os saraus Ponto & Vírgula, assim como da CPERP (Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto) e UEI (União dos Escritores Independentes). Publica seus textos nas antologias dessas entidades, na Revista Ponto & Vírgula e no Jornal Enfim. Em 2018 lançou seu primeiro livro solo: Lapidador da Natureza.

Seja bem-vindo, poeta Alceu Bigato, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário.

É um grande prazer bater esse papo com os leitores de seu blog, Márcio.

⁠Como ponto de partida da nossa conversa, vi a sua revelação de que, desde garoto, já demonstrava uma atração incomum pela escrita. Como foi que isso aconteceu? Como foi esse primeiro contato já tão cedo em sua vida?

Nos tempos de escola, sempre gostei das aulas de redação. Na época, geralmente, a professora estimulava a escrita a partir de uma gravura. Minhas redações eram elogiadas, mas eu não entendia bem o valor disso.

⁠Levando em conta esse tempo todo vivido na fazenda, duas delas na verdade, distante de tantas distrações e atrações que a cidade oferece, imerso em um ambiente cada vez mais incomum em nossa região, poderia nos dizer o quanto esse mundo influenciou na sua obra?

Muitos temas que abordo falam da natureza e sua aparente simplicidade. As relações entre as pessoas também eram diferentes, justamente pela falta das distrações atuais que você citou. Havia até uma certa inocência e mais convivência.

Durante sua trajetória, há o registro de inúmeras passagens por programas de rádio. Em um mundo, antes dominado pela televisão, mas agora, invadido pelos podcasts e plataformas de vídeo, poderia nos explicar a importância do rádio para a cultura brasileira e quais sensações diferentes de hoje esse veículo provocava no artista?

Para pessoas como nós, morando em fazendas e sem poder ir com frequência pra cidade, o rádio era muito importante pra nos conectar com o mundo. Através dele tínhamos acesso às notícias e muita diversão também. Ouvíamos música (poesia cantada), futebol e radionovelas (paixões nacionais). Acho que o fato de apenas ouvir as pessoas estimulava a imaginação. De repente, me vi frequentando emissoras de rádio e declamando meus textos. Foi emocionante e, ao mesmo tempo, natural.

O seu surgimento como artista (escritor) começou, bem lá atrás, com a composição de letras para canções sertanejas gravadas por duplas e trios da região. Como foi que começou sua relação com a música sertaneja para chegar a esse ponto?  

Fiz amizade com uma pessoa que morava perto de casa. Ele tinha uma dupla sertaneja. Um dia, mostrei um texto meu para ele. Ele gostou muito e me encorajou a frequentar programas de rádio. Nesses programas fiz muito amigos do meio sertanejo e assim comecei minha trajetória. Fui muito bem acolhido por muitos radialistas dessa cidade, aumentando minha admiração por essa profissão.

Sempre faço questão de ressaltar, em cada entrevista, que todo escritor começa por um bom leitor e que o prazer de ler acaba puxando o prazer de escrever. No seu caso foi da mesma forma? Há algum escritor que se tornou referência para o seu estilo?

Infelizmente minha geração não tinha acesso fácil à escola. Estudei por apenas quatro anos e não tive acesso a livros naquela época. Mas lembro que os cadernos tinham poesias e um dos primeiros poetas que me encantou foi Olavo Bilac. E, mais uma vez, destaco a importância do rádio porque, por muito tempo, tive contato apenas com a “poesia cantada” de compositores como José Fortuna, Teddy Vieira, Goiá e muitos outros. Talvez essas referências expliquem meu estilo.

Em sua biografia, o senhor se denomina um “poeta sertanejo”. Acredito que a maior parte dos leitores e leitoras deste blog ouve esse termo pela primeira vez. Poderia explicar esse título e dizer as características e particularidades que o justificam?

Um poeta sertanejo é aquele que, em princípio, escreve sobre a vida no campo, a natureza, desilusões amorosas. Com o passar do tempo e a urbanização, os poetas sertanejos diversificaram seus temas, mas sempre mantendo a simplicidade característica dessa poesia.

⁠Após tantas participações em programas de rádio, saraus, publicações, coletâneas e antologias, o senhor publicou, em 2018, seu primeiro livro solo de poesia “Lapidador da natureza”. O que isso representou para o poeta Alceu Bigato? E qual o significado pessoal dessa conquista?

Antes de começar a frequentar os saraus literários, eu me definia como compositor sertanejo. Nesses encontros comecei a ser chamado de poeta. Inicialmente, estranhei porque, para uma pessoa simples, poeta é alguém inalcançável. Aos poucos me acostumei, mas a emoção de lançar um livro solo é incrível. Foi um dia inesquecível.

Além de poeta e compositor, pode-se observar, pelos saraus nos quais participou, que o senhor também é um grande declamador, talento que não é comum aos poetas, e que suas declamações soam muito espontâneas e naturais. A que atribui essa capacidade? É um dom ou uma técnica?

É algo que não sei explicar. Para mim, declamar, é dar vida ao texto. Gosto de ter as mãos livres ao declamar porque gesticular me ajuda a dar a entonação que o texto pede.

⁠Após tantos anos nesta estrada, com toda a sua experiência como escritor, o senhor que descobriu esse talento tão cedo, ainda criança, o que aconselharia aos jovens leitores deste blog que pensam em ser escritores, mas ainda possuem muito receio e dúvidas quanto ao começo?

Todo começo é difícil, mas não escondam seus textos. Frequentem grupos de literatura e acreditem que há sempre um leitor à espera do que você tem a dizer.

Depois de tantos feitos e realizações literárias, participações em rádio, lançamento de músicas, de CD e de livro, falta ainda algum projeto a ser realizado ou concretizado como poeta sertanejo?

Eu tenho um projeto em andamento: meu segundo livro solo. Ainda não sei dizer quando será lançado, mas espero que em breve.

Alceu, foi uma enorme satisfação e alegria tê-lo aqui conosco, neste papo tão agradável, podendo nos mostrar um pouco do seu talento. Desejamos que continue esse seu lindo trabalho. Muito obrigado!

Eu que agradeço o convite. Ser lembrado por um escritor como você para fazer parte de seu blog me orgulha e me dá a certeza de que tem valido a pena. Como não uso redes sociais, podem me encontrar através de minha filha Marli da Penha Bigato.

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

PODEMOS NÓS TODOS CUIDAR MAIS DE ALGUÉM

Crédito: Kaique Rocha


Podemos nós todos cuidar mais de alguém

Fazer caridade e tal qual fez Jesus

Levar para o mundo mais focos de luz

Mostrar que se pode vencer com o bem

O amor é a arma tão forte também

Capaz de fazer qualquer um se encantar

Derruba barreiras em todo lugar

Não deixe de olhar pelo seu semelhante

Eu faço este apelo de forma constante

Nos dez de galope na beira do mar. 


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

PERDA DE IDENTIDADE

Crédito: Matheus Bertelli (PEXELS)

Em nossa sociedade

Virou agora mania:

Transformar tudo que vê

Em vídeo ou fotografia,

Forma comum de registro

Que domina o dia a dia.


Em qualquer lugar e hora

Também a situação:

Capturar e postar

É agora uma missão.

Não se sabe qual motivo,

Deve ser só convenção.


Mas não começou agora,

Não é recente a mudança.

Assim quando o homem pôde

Armazenar a lembrança

Passou a guardar momentos

Desde o tempo de criança.


Mas de uns tempos para cá

A prática acelerou:

O que era mero prazer,

Um hábito se tornou.

Com as redes sociais

Compulsão então virou.


Mas nesta ânsia cruel

De registrar o momento

Acabam perdendo espaço,

Emoção e sentimento.

E o instante, que era único,

Não teve aproveitamento.


A grande contradição

Que se vê recentemente:

Registrar tudo que vive,

Assim detalhadamente,

Eternizar o momento

E não viver o presente.


Acumulam-se postagens

Pelas redes sociais.

E os momentos preciosos

Já se tornaram banais,

Feitos de forma instantânea

Pra não se verem jamais.


Em busca da melhor pose,

Da imagem de qualidade,

Experiências profundas

Não chegam nem na metade.

Apenas corpo presente

E sem alma na verdade.


E o que vai acontecer

Será tremenda ironia,

Porque lá pelo futuro,

Num passe de nostalgia,

Em vez de recordações

Só terá fotografia.


Com ausência de emoção,

Em busca da própria história.

Sem ter marcada no peito

Velha sensação de glória.

Olhar triste para a tela

Agora já tão simplória.


Então um grande vazio

Chamará nossa atenção:

Tantos lugares, pessoas,

Porém nenhuma emoção.

Quem não vive seu presente

Não terá recordação.


Fotografias e vídeos

Estão em segundo plano

Pois nada substitui

Contato e calor humano,

E quem busca identidade

Não recorre neste engano. 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

NOVAS ANTIGAS PROMESSAS

Crédito: Aydin Photography (PEXELS)


Palavras, outrora esquecidas,

Ressuscitam antigos sonhos

Fazendo novas promessas...


Aquele falso amor (quase esquecido)

Retorna... insistente... reabrindo velhas chagas

Entre mil juras já confessas.

Todavia, ainda restam coloridas esperanças 

Desejando ser cumpridas às pressas.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

DEVANEIO

Crédito: Ksu&Eli Studio (PEXELS) 

 

No copo vazio sobre a mesa

Uma boca de rubro acena.

Ritualística, pronuncia meu nome,

Um convite à perdição...

 

A mente tenta, a todo custo,

Selar olhos e ouvidos...

Uma débil resistência.

Meu corpo fala por tudo!

 

Deito em lençóis de seda

Vislumbro imagens insólitas

Voo da terra ao céu

Abro os portais do êxtase

Perco-me entre o algodão das nuvens...

 

No fim da jornada, desfaleço.

Acordo, ainda sozinho...


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CORDEL DA VIOLÊNCIA

Crédito: Enrico Hanel (PEXELS)


“Quem pode mais, chora menos”

Já diz o velho ditado.

O homem se faz violento

Pra não ser violentado

Pois arma-se até os dentes

E pensa estar preparado.


Estando pronto pra guerra,

Procura por um abrigo.

Corre os olhos ao redor

Na busca pelo inimigo.

No frenesi do combate,

Se fere por fogo amigo.


Em prol da sobrevivência,

Neste afã de combater,

Ele torna-se implacável 

Pois é matar ou morrer.

Aos amigos, o perdão.

Aos inimigos, sofrer.


Renuncia à piedade,

Que ela não pode salvar.

Como o mal não tem limite,

Já basta de perdoar.

Velha lei do olho por olho

Passa agora a vigorar.


Pouco a pouco a lei da selva

Também entrou em vigor:

Só os mais fortes sobrevivem,

“Batatas ao vencedor!”

Se não quer ser dominado,

Seja um dominador.


E o homem que é violento,

Pobre vítima inocente,

Nunca percebe que o ódio 

Corrói coração e mente

E consome sua alma

Em vingança lentamente.


Quando pensa ter controle,

É que falta consciência.

Quando mata o violento,

Não se acaba a violência. 

É preciso muito mais

Pra chegar à sua essência.


Pois saiba que a força bruta

É potente combustível 

Para a máquina do mal,

Praticamente invisível, 

Como o fogo alimentado

Pronto a tornar-se invencível.


Uma chama que consome

Tudo o que vê pela frente:

As esperanças e os sonhos

E o sangue do inocente,

Que faz, entre tantas vítimas,

A cada amigo e parente.


Como estrada de mão única 

Em que se põe a andar,

Quanto mais longe se vai,

Mais difícil de voltar.

E muitos já se perderam

Sem mais chances de voltar.


Então não ceda ao impulso,

Resista à destruição. 

Jamais se deixe levar 

Por tal brutalização. 

Liberte o rancor do peito,

Jogue fora a munição.


Violência por si mesma

Não é questão resolvida.

Por acaso pode a morte

Defender a própria vida?

Não entre por esta porta,

Lá dentro não tem saída.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

NOSSO JARDIM

Crédito: Meriç Tuna (PEXELS)

Voltará minha alegria

Quando tu retornares

Para seres minha.


Nosso lindo jardim florescerá novamente:

Juntos, buscaremos plantar novas flores,

Arrancaremos imediatamente cada erva daninha.

Nosso amor desabrochará na união,

Qualquer flor perece estando sozinha.  


TALENTO GERADO NO SEIO DA TERRA

Homenagem da artista Nice Forti   Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o enorme prazer de entrevistar um grande poeta contemporâneo d...