Minha lista de blogs

quinta-feira, 5 de março de 2026

ESCADA EVOLUTIVA

Crédito: Nikita Belokhonov (PEXELS)

 

Exortam-me a pensar positivo:

Primeiro degrau de uma escada

À estreita porta da vitória.

 

Após o passar de um dia,

Perguntam-me o que farei da vida,

De volta ao início da escada.

 

Toda experiência é malsucedida,

Para mais ou para menos,

Do contrário, não daria origem a tantas outras.

 

A perfeição, objetivo comum,

É a morte do processo evolutivo,

Após a plenitude nada mais resta,

Apenas o marasmo da imortalidade.


segunda-feira, 2 de março de 2026

QUANDO O AMOR E A LIBERDADE SE ENCONTRAM NO MESMO LUGAR

Crédito: Flickr (Cena do filme, 1951)

 Riquezas, glória, poder são mera fumaça, vaidade! O homem rico encontrará alguém mais rico do que ele mesmo; a maior glória de outro eclipsará um homem famoso; um homem forte será conquistado por um mais forte”.

                 Seja bem-vindo, amigo leitor, a mais uma incursão pelos domínios infindáveis do reino da literatura. Vamos dar sequência a esse nosso itinerário fantástico e imprevisível. Quero recorrer a nossa eclética “playlist” para a audição da canção “Ira di Dio” da fenomenal soprano francesa Emma Shapplin e deixemos a sua voz angelical nos levar além. Após termos conhecido a morte em pessoa (sei que isso é discutível), vamos sair às pressas do torrão lusitano para visitarmos a Polônia, no ano de 1895. Sim, meu caro, mais um carimbo em seu passaporte nessa nossa temporada europeia. Aviso de antemão que não ficaremos muito tempo por aqui, pois nossa obra de hoje nos remete ao Império Romano, ao longínquo século I, no início da Era da cristandade. Aqui encontraremos um misto de personagens reais e fictícias, porque, afinal de contas, a literatura é a fronteira mais tênue entre a realidade e a fantasia.

                Antes de tudo, seria importante dizer que a expressão latina “quo vadis”, título do livro, significa “para onde vais”. Segundo a tradição cristã, essa pergunta teria sido feita pelo apóstolo Pedro, quando viu uma aparição do Cristo enquanto fugia de Roma, e o mesmo teria respondido a ele que já que ela estava fugindo e abandonando seu povo, ele (Cristo) estaria voltando para ser crucificado novamente pelo império. Você pode estar perguntando o que isso tem a ver com a obra. Eu respondo: tudo. Estamos no governo de Nero, um dos mais polêmicos imperadores romanos e figuras da história da humanidade, famoso por sua perseguição aos cristãos. Em uma festa promovida por ele, aliás, esses romanos eram famosos por suas festas, daí que veio o curioso vocábulo “bacanal” (sobre o qual não teremos tempo de explanar, ficando como tarefa para casa aos mais curiosos), mas, voltando à específica festa: nela estão presentes diversas figuras da alta sociedade, entre elas – Lígia e Vinícius.

                Ao mais aguçado leitor que já sentiu no ar o cheiro de par romântico, meus parabéns! Embora eu acredite que isso não seria tão difícil assim de se prever. O leitor também já sabe que onde há um par romântico, há de ter um obstáculo ao amor dos dois. Isso é uma regra de ouro do Romantismo (sem qualquer exceção). Eles pertencem a mundos totalmente distintos: ela, criada na fé cristã, ainda rejeitada pelo império; ele, um centurião romano, comandante militar, entregue às tradições. Lembra muito aquele poema divertido de Drummond “Balada do amor através das idades”, que conta a história de dois amantes que em todas as eras da história se encontram dos lados opostos, como na estrofe: “Virei soldado romano, / perseguidor de cristãos. / Na porta da catacumba / encontrei-te novamente. / Mas quando vi você nua / caída na areia do circo / e o leão que vinha vindo, / dei um pulo desesperado / e o leão comeu nós dois”.

                Infelizmente, caro leitor, a vida desse casal não será nada fácil, visto que se encontram no centro dos antagonismos de sua era. Esse tema é uma constante presente no cinema mundial, do qual fica aqui uma dica: o filme “Um reino unido” (2016) do diretor Amma Asante, baseado em uma história real de 1940, envolvendo o trono de Botsuana. Assista e veja o que uma sociedade é capaz de fazer para matar um verdadeiro amor. Aliás, voltando ao nosso casal protagonista: por conta do amor, o impulsivo rapaz deseja roubar a moça e fugirem para um clássico “felizes para sempre”, o que ela não aceita. Então ele decide enfrentar o império, até o próprio Nero se preciso, para sua liberdade. Lígia, que antes não tinha nenhum interesse pelo centurião, agora se vê perdidamente apaixonada por ele. Os cristãos são frequentemente perseguidos, porém Lígia conta com a proteção do grande Ursus, fiel criado de sua mãe, um homem simples e inocente, dotado de uma força descomunal, o qual jurou proteger a moça com a própria vida.

                 Nero, ensandecido (está mais para uma caricatura do imperador), ateia fogo em Roma, pondo a culpa nos cristãos (inclusive, esse é um ponto complicado da história de Roma: não confirmam que foi ele, mas também não duvidam), gerando, assim, uma perseguição sem limites, com delações em troca de dinheiro por parte do povo, inclusive de Chilón, um filósofo que, por pura ambição, infiltra-se entre os cristãos, ganha sua confiança para depois entregá-los ao império por uma boa quantia.  Todos eles são entregues ao Circo Máximo (uma espécie de estádio) onde são entregues às feras selvagens, como sacrifício e forma de diversão (embora não tenha sido no império de Nero que isso tenha sido feito). Não, caro leitor, não é um erro. As pessoas divertiam-se ao ver algo do tipo, considerado até como um grande espetáculo, assistido de camarote, o que me faz lembrar Roberto Carlos, em uma de suas canções: “Eu queria ser civilizado como os animais...”, chocado diante da selvageria humana.

                É uma obra muito rica em conteúdo, tanto que rendeu a seu criador o prêmio Nobel de literatura em 1905. Então, o que destacar disso tudo? Sienkiewicz critica os grandes impérios, erguidos à custa de banhos de sangue, pilhagens, opressão e, acima de tudo, o desrespeito pela vida humana. Escravização e exploração fazem parte da receita da ascensão de muitas das grandes nações (poderíamos citar muitas aqui) e com Roma não foi diferente. Quantas nações ao redor do globo ainda provam as sequelas do imperialismo, amargando como legado a guerra civil e a miséria? Vemos a intolerância religiosa dos romanos contra os seguidores do Cristianismo, crença ainda em desabroche, em torno de uns trinta anos passados da passagem do Cristo pela Terra. Ah! Como a vida pode ser irônica, caro leitor... o que diriam os cristãos (tão perseguidos nesta época) se pudessem ver que muitos de seus descendentes fazem, hoje, o mesmo com diversos outros credos, em especial aqueles que são frutos da matriz africana. O homem tem uma incrível capacidade, muito bem demonstrada pela História, de passar de vítima a algoz. A obra nos mostra os senadores romanos, que fizeram de seus mandatos um balcão de negócios, transformando o compromisso com o povo em uma legislação em prol dos próprios interesses. Já se passaram dois mil anos e nada mudou neste aspecto, basta olhar o número crescente de escândalos envolvendo os ditos “homens públicos”.

                Por outro lado, presenciamos um povo sedento de sangue, que se banqueteia com a desgraça alheia e assiste aos desastres como uma apresentação de gala. Não há mais atrações no coliseu romano, mas temos a mídia sensacionalista, que ganha preciosos níveis de audiência ao expor a desventura e pesar das famílias em rede nacional, somada aos abutres de internet, que ficam a farejar o infortúnio para convertê-lo em visualizações e curtidas. Infelizmente, meu caro, há gente que sente prazer em viralizar o sofrimento alheio (e não são poucos). Por último, a obra nos mostra que todo regime totalitário se alimenta de suprimir a liberdade. Ah, a liberdade... todo homem nasceu para ser livre e, não sei se o leitor concorda comigo, a liberdade é condição sine qua non para o amor, é o seu oxigênio. Como diz o centurião, no trecho do livro que abre nosso artigo de hoje, tudo o mais não passa de mera vaidade, material com o qual se constrói o alicerce dos impérios. Termino nossa viagem de hoje lembrando o apóstolo Paulo (também presente nessa obra) que por meio de sua carta aos Coríntios, inspirou Renato Russo (vinte séculos depois) nos versos da música Monte Castelo: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria...”. Até a próxima viagem.     

SIENKIEWICZ, Henryk. Quo vadis. Campinas: Sétimo Selo, 2023.   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A TOLA PRETENSÃO HUMANA DE LIVRAR-SE DA MORTE

Crédito: Wingspan Artist (PEXELS)

“A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos do que o homem”.

                 Salve, salve, estimado leitor! Após um período de férias, aqui vamos nós mais uma vez. Espero que esteja pronto para mais uma partida rumo a este universo de magia que é a literatura. Vamos imediatamente deixar para trás a atmosfera melancólica do fog londrino, destino de nossa última visita, para fazer aquela que, acredito piamente, talvez seja a mais insólita de todas as incursões, jamais feita por nós nessa coluna. E por que eu digo isso? Embora estejamos nos dirigindo a Portugal, no ano de 2005 (grave este ano porque será o mais perto que chegaremos de nossos dias atuais) por causa do célebre escritor José Saramago, nossa narrativa de hoje se passa em um país sem nome algum e, como se não bastasse, em tempo indeterminado. Dessa vez, será de suma importância para nossa preparação, acessar aquela nossa velha “playlist” de viagem e seguirmos ao som de “Requiém em ré menor” que se trata de uma missa fúnebre composta por ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart, por encomenda do Conde Franz von Walsegg e que, inclusive, ficou inacabada devido à morte do artista em 1791.

                Se o amigo leitor está pensando (aí consigo): “Por que falar tanto em morte?” Simples de responder: porque ela é, ao mesmo tempo, tema e protagonista de nosso romance de hoje. Isso mesmo. Você não entendeu errado, meu caro leitor: a temida e onipresente morte, a mais universalmente reconhecida criatura, em carne e osso (não sei se esse ditado pode ser aplicado a ela). Agora, caro amigo, envolvido por esse misto de curiosidade, mistério e temor, comecemos, enfim, a nossa história. Tudo começa no dia primeiro de janeiro, conhecido por alguns como primeiro dia do ano, com uma singela frase do autor: “Naquele dia ninguém morreu”. Acontece que a morte, já cansada da ingratidão dos mortais e de ser alvo de tantas injustiças e de tantas perdas vinculadas equivocadamente a ela, resolve deixar de agir dentro das fronteiras desse país desconhecido.

                Nessa primeira parte do romance, temos a morte, ainda abstrata e invisível, dando uma de Pôncio Pilatos, lavando suas mãos diante dos acontecimentos humanos, deixando, por tempo indeterminado, os homens entregues à sua própria sorte. A partir de agora, ninguém mais será levado por ela. Nesse ponto, o leitor desavisado pensa em todas as maravilhas e prodígios a que se resumiria um mundo em que o homem fosse imortal. Pense em quantas desgraças e tragédias seriam evitadas. Não haveria mais a dor da perda. Estaríamos para sempre perto de todos aqueles a quem amamos. Enfim, meu caro leitor, poderíamos fazer um imenso rol dos problemas e dores que nos seriam tirados como magica. Entretanto, não se iluda, pois é isso mesmo que Saramago faz com cada um de nós, leitores, nos dando uma belíssima corda para que possamos nos enforcar com ela mais tarde.

                Como num jogo de estratégia, o narrador vai mudando suas peças e, pouco a pouco, nos mostrando como seria um mundo sem a morte e, por mais incrível que pareça, o resultado é extremamente caótico. Partindo, primeiramente, do ponto de vista econômico: muitos negócios como as funerárias e companhias de seguro decretam falência (já parou para pensar, por um segundo, meu caro: quantas famílias a morte emprega? Quanto capital ela mobiliza nesse mundo?). Quanto aos hospitais, eles entram em crise por falta de leitos, porque ninguém mais morre por lá. As igrejas e templos tornam-se vazios, pois, nessa nova ordem, a religião não tem função alguma. Como pregar a salvação da vida eterna ou o temor pelo juízo final se ninguém mais tem de enfrentar a morte? A partir de agora, a fé torna-se algo puramente obsoleto. E nas famílias? Reina a desordem: os filhos não herdam mais os bens nem se tornam chefes dos negócios da família agora que seus pais estarão presentes para sempre.

                Na segunda parte, a morte, depois de sete meses de greve, resolve aparecer de volta, vendo que sua experiência não poderia ser pior e, avisa, em rede nacional: a partir desse momento, ela voltará a agir, mas com uma diferença – mandará uma carta avisando as pessoas com uma semana de antecedência. É quando ela tem uma dessas cartas negadas que ela resolve visitar o mortal pessoalmente, como naquele magnífico filme de Martin Brest “Encontro marcado” (1998) em que a morte vem buscar um magnata, porém se apaixona por sua filha e resolve passar uns dias entre os mortais. No livro, ela, personalizada como uma bela mulher, humanizada, vem buscar o violinista, mas se apaixona por ele e se nega a levá-lo com ela, passando a viver uma grande paixão com ele.

                Nos tantos livros e filmes em que a morte se materializou, sua discussão sempre foi sobre a vida, como no filme de Ingmar Bergman “O sétimo selo” (1957) no qual a morte vem buscar um cavaleiro das cruzadas, que a desafia para uma partida de xadrez enquanto conversam sobre a vida. Saramago não faz diferente, caro leitor, não o faz. A boa e velha morte continua sendo a discussão para o que fazemos das nossas vidas. A morte, meu caro amigo, é, na verdade, o que dá sentido à vida. Pense um pouco: é a consciência de que nossa vida tem fim que faz dela algo assim tão precioso, que faz cada minuto ser especial e incalculável. Mas não é só isso. Ela é a ordem desse mundo, muitas vezes tida como a grande vilã de todos os tempos. Sem sua presença, tudo seria um caos. No livro, o autor mostra por diversas vezes que o fim da morte em nada melhorou o homem. Ao contrário, tornou-o ainda mais imprudente e egoísta ao encontrar-se imortal, ou seja, uma vida que não se perde já não possui mais o mesmo valor. Tudo isso para mostrar o quanto negligenciamos esse dom tão precioso. Desejamos ser eternos, mas, afinal de contas, para quê? Para esgotarmos nosso planeta? Para satisfazermos os nossos desejos mais insanos?

                Saramago fala de uma morte que acaba por apaixonar-se pela vida humana, que sente inveja da vida que os homens podem viver, o que não é nenhuma surpresa, porque a vida, de fato, é apaixonante. Por isso, ela larga tudo para viver seu amor com o violinista, porque se encanta por sua música. Contudo, caro leitor, vê-se um homem cada vez mais preocupado em prolongar sua existência à custa de terapias, técnicas, medicamentos e pedras filosofais (já ouviu falar em criogenia?) de que viver a vida com intensidade e entusiasmo, sem desperdiçar uma só gota. Como diria o poeta Mário Quintana: “A morte chega cedo, / Pois breve é toda vida / O instante é o arremedo / De uma coisa perdida. / O amor foi começado, / O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou”. Nenhum momento pode ser perdido, meu caro leitor, nenhum sequer.

                Como mostra um trecho da obra no início deste artigo, o homem é o grande responsável pela maior parte das tragédias e desastres aos quais assistimos com frequência. Claro que é mais fácil chamar tudo isso de fatalidade, destino, sina, azar e uma sorte de tantos outros nomes que procuram isentar o ser humano de suas atitudes. Tudo é causa e consequência. O resto não passa de pura invencionice. Não nos esqueçamos, amigo leitor, de que a vida é breve e preciosa, que ninguém é dono do tempo, que ninguém conhece o amanhã. Como diz uma canção de Raul Seixas: “Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez / A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu não sei em que esquina ela vai me beijar”. Até a próxima viagem.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

PRESENTE

Crédito: Cottonbro Studio (PEXELS)

 

Corre, meu jovem, não demora!

A eternidade é ouro de tolo

O tempo foge ao mais suave toque dos seus pés...


A cada esquina esconde-se um novo perigo

A boca faminta escancarada à sua espera,

Mas o alto dos edifícios oferece

Verdadeiras maravilhas aos olhos mortais

Faltam braços arrojados para a escalada.


As batalhas cotidianas são inevitáveis,

Porém os custos das vitórias devem ser ponderados

E muitos caminhos levam para Roma…

Certas tempestades poderiam ser evitadas

Apenas com a lembrança de que os ventos mudam a direção…

O sol nasce para cristãos e hereges

Basta acordar cedo para ter direito ao espetáculo.


Enquanto se lamenta a chuva a cair

Recorda as flores que vão desabrochar mais belas…

E ao cair da noite, no lugar de amaldiçoar a escuridão,

Deita o corpo na grama e admira as estrelas

Até que adormeça feliz pelo presente de mais um dia.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

DE UM LAMPEJO DE VAIDADE AO NARCISISMO QUE SEQUESTRA A ALMA

Crédito: Foro3D.com

 

“A harmonia do corpo e da alma... Nós, na nossa cegueira, separamos estas duas coisas para inventar um realismo vulgar e uma idealidade vazia!”

                 Seja bem-vindo, caro leitor; seja bem-vinda, cara leitora. Desculpem-me a pressa, mas, como diria o saudoso Cazuza em sua canção “O tempo não para”. Dirija-se até a poltrona reservada, acomode-se à sua maneira porque vamos seguir viagem mais uma vez. Prepare-se para mais um salto no tempo e no espaço, pois nosso itinerário jamais segue em linha reta. Em um verdadeiro ziguezague, seguimos pelo velho continente em nossa turnê literária. Vamos partir imediatamente da conturbada Tchecoslováquia com destino à melancólica Londres, em plena Era Vitoriana (1890), para testemunharmos mais um drama humano. Iremos, mais uma vez, acessar nossa costumeira “playlist” com a trilha sonora feita por Charlie Molly para o filme “O retrato de Dorian Gray” de 2009 sob a direção de Oliver Parker.

                 Estamos chegando ao exato momento em que o sensível artista, o pintor Basil Hallward está dando início a uma nova obra de arte, utilizando-se de Dorian Gray, seu nobre anfitrião, como modelo de corpo inteiro para a tela que o pintor considera ser um novo conceito de arte. Dorian é um jovem, dono de uma beleza estonteante, a qual chama a atenção de qualquer pessoa que o avista. É aí que entre em cena o amigo do pintor, Lord Henry, um aristocrata que adora emitir sua opinião sobre os mais diversos assuntos, que não deixa de reparar na beleza incomum do jovem rapaz. Como boa parte dos jovens, ainda em processo de formação acerca de sua condição perante o mundo, Dorian é uma pessoa facilmente influenciável, além do mais perante um homem experiente e vivido como Lord Henry.

                O tema principal da conversa entre os três acaba sendo a beleza e a juventude como uma combinação perfeita que oferece ao seu detentor um passaporte irrecusável para adentrar aos mais diversos prazeres que o mundo pode oferecer. Prazeres estes que não estão ao alcance de todos, porém totalmente possível ao jovem Dorian. Durante o diálogo, ele começa a vislumbrar um novo mundo de possibilidades e, convencido pelos dois homens de sua magnífica beleza, teme que esta um dia simplesmente desapareça, verdade mais do que certa, não é, caro leitor? Afinal, se tem alguém que jamais mente, esse é o tempo.

                  Diante de tal temor, ele faz um desejo, do fundo de sua alma: que o quadro possa envelhecer no seu lugar, para que ele conserve sua beleza para sempre. Pergunto, agora, a você: quem nunca teve um desejo assim, mesmo que passageiro, um dia, olhando o próprio retrato? Contudo, o desejo do jovem não teve nada de superficial ou momentâneo. Não, meu caro. Atrevo-me a dizer que o pobre rapaz jamais desejou algo assim, com tamanha intensidade. Nesse momento, acredito que inconscientemente, Dorian firma um pacto. Isso mesmo, eu não me enganei não. A partir de agora, que a tela de Basil absorva toda a passagem do tempo no lugar do belo corpo dele. Gostaria de fazer um aparte: a palavra pacto significa acordo entre duas partes. Nesse momento você pode estar imaginando: “Quem seria a outra parte no acordo com Dorian?”. Ah! Caro leitor, nem tudo o livro nos responde..., mas eu e você podemos imaginar que não se resume a alguém (ou algo) com boas intenções, não é? Até porque, nas narrativas, sejam elas populares ou clássicas, a palavra pacto acaba por referir-se, no fim das contas, a alguma entidade de natureza demoníaca.

                  A partir de então, Dorian passa a curtir a vida intensamente, em seu mais pleno significado, desfrutando da dádiva (ou maldição) de não envelhecer nunca, um só dia ao menos. É quando conhece Sibyl Vane, uma atriz shakespeariana que se apresenta em um teatro de aspecto um tanto quanto sombrio. Ela, que só tivera olhos para a carreira e para o palco durante toda a sua vida, agora vê desabrochar o amor por alguém: o “príncipe formoso”, como ela costumava chamá-lo. Ele corresponde ao seu amor, porém, em uma primeira oportunidade, quando ela faz a escolha pelo amor do jovem, desistindo de sua carreira, por entender que não havia espaço para duas paixões tão intensas, ele a despreza e a humilha, alegando que a sua atuação era a beleza que ele via nela. Extremamente cruel, Dorian sai da vida de Sibyl. Ao chegar a sua casa, observa o quadro e, para sua surpresa, percebe nele um sutil sorriso e crueldade. Sim, caro leitor, para nossa surpresa, o quadro não só absorvia o envelhecimento do jovem, mas também todos os seus pecados, isentando-o de qualquer consciência moral. Mais tarde, num raro arrebato de arrependimento, ele tenta retomar seu relacionamento com a atriz quando recebe a notícia de que ela havia cometido suicídio, tomando uma espécie de ácido. A partir de agora, o jovem pautará sua vida somente pela luxúria, no mundo das aparências, em uma vida puramente libertina.

                Disse Chaplin: “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”. Vindo de um homem cuja arte, sensível e inteligente, encantou a gerações (e continua encantando) não pode tratar-se de um engano. Acho que não. Creio que o equívoco reside justamente na interpretação sobre o conceito de beleza. Eis nosso ponto de partida de hoje: a que beleza se referia Chaplin? Seria a mesma que Dorian quis conservar consigo?  Antes de tudo, gostaria e salientar ao leitor que não sou, de forma alguma, contra a beleza. Jamais. O que quero colocar em evidência é a importância que se dá a ela em nossa sociedade e, consequentemente, como ela se faz presente.

                O personagem Lord Henry é uma alegoria do hedonismo que, em poucas palavras, é uma filosofia de vida que defende o prazer como o bem supremo, portanto, uma finalidade que não possui um código de ética, não se prendendo a moral alguma. É o que passa a viver o jovem Dorian de forma totalmente desenfreada. Dessa maneira, vai passando como um verdadeiro rolo compressor sobre os sentimentos das moças com que encontra. Cada comportamento tenebroso vai sendo absorvido pelo quadro, que vai tomando uma aparência horrenda, tornando-se um retrato fiel da alma de Dorian. Com o passar do tempo, o rapaz já não consegue mais encarar sua face na pintura, escondendo-a em um quarto de sua casa, como quem não pode mais encarar a si mesmo.

Quando a busca pelo prazer passa a ignorar qualquer diretriz, viver torna-se uma aventura perigosa. E o que isso tem a ver com a beleza? Na verdade, tudo. Aqui falo de uma beleza unicamente externa. Aparência e nada mais. Aquela beleza que, de um entre outros atributos, passou a meta exclusiva. Aquela mesma que acabou fazendo o pobre Narciso (mito grego indispensável para esta reflexão) apaixonar-se por si mesmo a ponto de perder a própria vida na beira do lago. Ah! Que mito tão cruel e ao mesmo tempo tão real! É por isso que existe o termo “narcisista” que faz todo o sentido aqui.    

                Vivemos uma nova ditadura: a ditadura da beleza, difundida por redes sociais, aplicativos diversos, programas de televisão e pseudocelebridades. Presenciamos a época do corpo perfeito e sarado, das medidas enxutas e exatas, das meninas que sonham em ter o corpo da boneca Barbie (e por que não também loiras e de cabelo liso?). Assistimos ainda a um momento em que as pessoas querem alcançar o “padrão de beleza” (que sempre achei ser um valor subjetivo) a todo e qualquer custo, inclusive, alguns, movidos pelo desespero inconsciente, buscam por soluções mágicas (procedimentos cirúrgicos e fórmulas mirabolantes) – cabe aqui lamentar, com grande pesar, as tantas mulheres que perderam suas vidas fazendo lipoaspiração ou comprometeram sua saúde colocando próteses de algum tipo. Existe até uma doença catalogada como síndrome de Dorian Gray, em que a pessoa tem medo de envelhecer por causa da aparência (conheço tanta gente que oculta a própria idade – só não entendo o sentido).

                O sagaz leitor e a atenta leitora que me acompanham já devem imaginar que a trilha escolhida por nosso protagonista irá conduzi-lo a um final tão trágico quanto ao do jovem grego citado anteriormente. Infelizmente ou não, cumprindo minha regra de ouro, não revelarei o final. Terá de ler o romance. Mas, agora, voltando-se ao autor: Oscar Wilde, em sua obra, faz uma pergunta a nós, leitores: “Existe um limite na busca pelo belo?” Em seu pacto, Dorian pagou pela beleza eterna com a sua própria alma. Ele trocou tudo que tinha para ficar somente com ela. Em um mundo de selfies e posts, curtidas e likes, o narcisismo encontra-se em um farto banquete, em uma longa mesa, onde tantos tomam seus lugares, tendo a vaidade como prato principal.  Assim termino minha reflexão com um trecho da canção do inteligente Zeca Baleiro: “Mundo velho e decadente mundo / Ainda não aprendeu a admirar a beleza / A verdadeira beleza, a beleza que põe mesa / E que deita na cama, a beleza de quem come / A beleza de quem ama / A beleza do erro, do engano, da imperfeição”. Até a próxima.

 WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Rio de Janeiro: DarkSide, 2021.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O MUNDO É UMA GRANDE RODA

Crédito: Jennifer Dridiger (PEXELS)

Tudo aquilo que começa

Vai um dia acabar

E quem hoje tanto fala

Amanhã vai se calar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


É bom prestar atenção

Naquilo que quer causar

Tudo aquilo que hoje vai

Amanhã pode voltar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Todo aquele que só sorri

Pode passar a chorar

E quem sempre andou tão firme

Pode vir a tropeçar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Quem hoje nada em dinheiro

Pode até pobre ficar

Quem escolhe tanta amizade

Sozinho vai terminar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Alguém que a tantos magoa

Também vai se magoar

Quem se sente tão seguro

Um dia vai duvidar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Aquele a quem você fere

Pode um dia te curar

E quem cometeu um erro

Um dia vai acertar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.

 

Quem já foi injustiçado

Pode vir a perdoar

E quem já passou por réu

Um dia irá julgar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Quem se sente poderoso

Pode um dia fraquejar

Quem sempre canta vitória

Um dia não vai ganhar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Quem dispensa mil conselhos

Vai um dia precisar

E aqueles que os davam

Pode não mais encontrar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Pois não passa de tolice

Querer se vangloriar

Achar-se superior

Ter sempre o melhor lugar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Para quem acha que tudo

Já não tem como mudar

Basta apenas um segundo

Pra poder se transformar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


Eu termino essa conversa

E um conselho quero dar

É bom ter muito cuidado

Para em alguém não pisar

O mundo é uma grande roda

Que não para de girar.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

CONJETURAS

Crédito: Kristin Vogt (PEXELS)

 

Sentado sobre o meu comodismo

Espero os ventos trazerem a boa-nova...

A superfície plácida do lago

Esconde um fundo de lama negra...

Aves voam para o norte

Destino contrário das minhas esperanças

Trancadas no porta-malas do carro.

 

Se o anúncio das nuvens fosse de confiança,

A chuva lavasse todos os meus pecados,

A manhã resplandeceria cor de paraíso

E meus sonhos de asas novas

Partiriam em perseguição às aves

No azul celeste da liberdade.

ESCADA EVOLUTIVA

Crédito: Nikita Belokhonov (PEXELS)   Exortam-me a pensar positivo: Primeiro degrau de uma escada À estreita porta da vitória.   Apó...