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terça-feira, 17 de março de 2026

A CIDADE DAS ALMAS PERDIDAS: A ROMARIA DOS CONDENADOS (JANEIRO 2026)

 

Feito pela IA Copilot

TEMA

É muito antiga, nos países de cultura católica, a difusão de diversas histórias (lendas urbanas) que buscam demonstrar as consequências atribuídas ao desrespeito pelas tradições religiosas. Há uma vasta variedade de maldições ou castigos divinos originados na cultura popular, advindos, muitas vezes, de Portugal que serviu como nossa matriz cultural religiosa. Todas essas narrativas giram em torno de locais e rituais sagrados, milagres e prodígios, buscando estabelecer regras morais e evidenciar a intervenção divina por meio de histórias que acontecem em ambientes envolvidos pelo sobrenatural, produzindo enredos os quais alimentam o medo e reforçando a importância do sagrado em nosso cotidiano. Foram desses elementos que surgiu esse cordel.

SINOPSE

Seis amigos preparam-se para um feriado de muita diversão. A caminhonete já está abastecida com muita bebida e carne para fazer aquele churrasco caprichado. Eles resolvem partir no Dia de finados, logo de manhã. Antes de saírem da cidade, passam em frente ao cemitério para zombar das pessoas que vão até lá para prestar homenagem aos seus mortos e depois partem às gargalhadas. Mas, de um trecho em diante, a viagem parece tomar um rumo inesperado. Eles acabam chegando a uma cidade muito estranha, silenciosa e tomada por uma atmosfera inquietante. Romarias misteriosas, habitantes perturbadores e outros sinais de que algo errado predomina naquele lugar. Os seis amigos tentam entender que segredos guardam aquela cidade e como se faz para sair dela. Prepare-se para uma história de suspense, medo e horror. 


segunda-feira, 16 de março de 2026

A LUTA DO HOMEM PARA CONQUISTAR SEU LUGAR AO SOL

 

Crédito: Renz Isidro (PEXELS)

“Velho. É o que sou. Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.

                 Bem-vindo de volta, caro leitor! Novamente nos encontramos aqui presentes. Possamos mergulhar de cabeça nas águas; ora cristalinas, ora turvas, desse infinito oceano de saberes que é a literatura. Deixemo-nos levar ao sabor das ondas das experiências trazidas dos clássicos universais. Por que vos falo dessa maneira, com esse linguajar um tanto assim marítimo? Já deve imaginar que é porque hoje, mais uma vez, iremos singrar os sete mares. Acabei de pensar em quantas navegações fizemos juntos... não é mesmo? Aliás, nossa última viagem, se o caro leitor ainda lembra, foi marcada por uma sucessão de abandonos e naufrágios (acho que o Swift apelou com o Gulliver), o que acabou por não deixar boas recordações (sem falar no cruel destino do pobre capitão Ahab). Mas, deixemos de prosa e vamos voltar ao ano de 1952, nosso destino: mar de Havana, na costa da ilha de Cuba. Para a nossa “playlist” de hoje, recomendo a música “O velho e o mar” (2016) do cantor Rubel, inspirada nos desafios do protagonista do romance, uma música no estilo folk para nos fazer viajar.

                 É aqui, à beira-mar, que vamos encontrar Santiago, um pescador que já começa a sentir o peso dos anos. Fazia um tempo considerável que ele não realizava boas pescas, não exibia grandes peixes. Apesar de ser uma pessoa dotada de grande experiência e dono de uma sabedoria que só a bagagem dos anos pode trazer, nosso protagonista é tido como uma pessoa já sem sorte para lançar-se ao mar, um fator que, (acredite se quiser!) se leva muito em consideração entre seus pares. Até mesmo seu aprendiz, Manolin, não o acompanha mais por conselho da família, sendo obrigado a procurar por pescadores mais jovens, contudo jamais deixa o companheiro, pois ambos possuem uma daquelas amizades inabaláveis, demonstrada por diversas vezes ao longo do romance, com várias manifestações de respeito e cuidado.

                É por causa do jovem amigo que Santiago não desiste de vez de seu ofício. Sua confiança é a energia que ainda o impele a aventurar-se pelo grande mar. Quando ele está por completar quase três longos meses sem pescar coisa alguma, desafiado pelos mais jovens, o velho resolve tentar uma nova tática: contrariando a lógica de cardume, distancia-se dos demais e aguarda. A estratégia acaba dando certo e um enorme espadarte (um peixe de uns cinco metros) fisga sua isca. A partir de agora, vai ter início uma feroz batalha: do homem contra o peixe; da experiência contra o vigor físico, das forças humanas contra o instinto da natureza. A força do peixe acaba arrastando-o para alto mar, onde o sol e o desgaste da luta com o peixe castigam-no impiedosamente.

                Extenuado, Santiago enfim vence o espadarte. Mas, se você, caro leitor, acha que a luta termina aí. Lamento estragar a sua alegria. Tubarões aproximam-se para banquetear-se com o troféu de nosso herói, arrancando (literalmente) pedaços de sua grande conquista solitária. A distância da orla ainda é muito grande. Ele se encontra sozinho, exausto, o caminho de volta parece infinito, mas ele está disposto a lutar até o fim. Agora, caro leitor, vamos mergulhar mais fundo. É um livro curto, talvez o menor dos clássicos (120 páginas); porém não cometa o erro de subestimá-lo. Não faça isso, eu te peço. Há quem acredite que se trata apenas da história de um velho que sai para pegar um peixe. Como algo tão raso tornar-se-ia um clássico? Eis a sua resposta: não se trata apenas disso. Estes leitores pescaram somente os peixinhos pequenos que se aventuram tolamente pela superfície. Então, vamos ver a profundidade da obra.

                Começo com um questionamento, arvorado em um pensamento de Buda: “Por mais que na batalha se vença um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de todas as vitórias”. Contra quem Santiago lutava? Contra a natureza, contra o peixe, contra os mais jovens, contra a falta de sorte? Penso que com todos eles e, ao mesmo tempo, nenhum. Na verdade, é a luta do homem consigo mesmo. É a luta de alguém contra os seus limites, suas fraquezas, seus medos, sua condição humana. Não há nada a se provar para ninguém, a não ser para si mesmo. É disso que o Buda falava aos discípulos. É isso que leva Santiago ao confronto com o espadarte. Essa, caro leitor, preste bem atenção, é a luta de todos nós. E que fique bem claro: ela não se finda assim, de uma hora pra outra. Como se diz na estrofe inicial do poema de Gonçalves Dias “Canção do tamoio”: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar.” Ouvi, certa vez, que o mundo não para pra que você o conserte. Santiago usa de todas as suas forças, conhecimento, sabedoria, paciência para vencer o desafio. Ele está sozinho, contando só consigo mesmo. No fundo, não há mais a quem recorrer. É só ele, sempre foi só ele.

                Não é à toa que ele se lança ao mar: aquela infinitude de água, a perder de vista, representa a vida, com seus ciclos: marés, ondas, tempestades, placidez. É a nossa vivência posta à prova, continuamente. Mas não para por aí: Santiago vem mostrar que a força da juventude ainda tem muito o que aprender com a sabedoria da velhice. E você pode me perguntar: “Como se faz para adquirir a sabedoria?” E eu te respondo, amigo leitor, só com a experiência. Por que você acha que o critério de liderança nas tribos indígenas é a idade? Por ser óbvio que a sabedoria é fruto da vivência, logo: quanto mais se vive, mais se aprende, mais se tem para ensinar. O homem mais velho foi posto mais vezes à prova pela vida. Também já parou para pensar por que Manolin e Santiago se dão tão bem? Um dos fatores é sua idade. Ambos estão à margem na consideração da sociedade: um já passou do tempo e o outro ainda não está na sua vez. O adulto se esquece de que já foi criança e mais ainda de que será um idoso. Esses dois se encontram, enxergam-se um no outro, esse ainda não chegou a ser um grande homem, coisa que aquele já foi, mas faz um bom tempo. Nesse abandono social, eles têm um ao outro, numa relação tão bonita de respeito e de carinho. Como é bom quando a gente consegue se ver em alguém...

                Caro leitor, note que, apesar das suas limitações e das circunstâncias, apesar do que os demais pensam ou até mesmo dizem sobre ele, apesar da ideia de que o universo conspira contra ele, Santiago ainda se permite sonhar e se dá a oportunidade de perseguir seu sonho. É dando sequência sobre essa grande metáfora da vida que termino o artigo de hoje com os versos da encantadora música de Tim Maia: “Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar”. Até a próxima.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

               


sexta-feira, 13 de março de 2026

OS DOIS LOBOS (DEZEMBRO 2025)

 

Capa gerada por IA

TEMA

Poucos são os ensinamentos que nos chegaram dos povos ancestrais, infelizmente, devido ao sentimento de soberba do colonizador europeu, o qual pensava não ter nada a aprender com as nações indígenas. Por meio de narrativas, alguns conhecimentos, transmitidos de geração para geração, sobreviveram ao tempo e nos presenteiam com sua sabedoria e um modo particular diferente de encarar a vida e seus desafios. Por se tratar de uma cultura de base oral, a liderança sempre ficava a cargo do integrante mais velho da tribo, pois, segundo o entendimento deles, aquele que viveu mais tempo, possui uma quantidade maior de experiências de vida, contribuindo para um grau de sabedoria maior, fator esse que endossa a sua autoridade sobre o grupo. Da admiração por essa sabedoria, surgiu a ideia de adaptar para o cordel esse conto pertencente à nação Cherokee.  

SINOPSE

O conselho da tribo reúne-se para discutir o problema de um dos seus membros: um jovem que, a partir do momento em que foi vítima de uma injustiça, passou a ter um temperamento explosivo acompanhando de uma visão amarga da vida e um desejo contínuo de vingança. A preocupação deles é que tal comportamento o conduza para um caminho sem volta. O avô pede permissão ao conselho para que, antes de qualquer decisão, possa conversar a sós com ele. Para isso o convida para um passeio pela floresta, ao qual o jovem aceita, apesar de um tanto desconfiado. Uma cena, ao mesmo tempo, tão comum e tão surpreendente, vai fazer com que aquele jovem aprenda uma maravilhosa lição de vida.


Sabe-se que as narrativas

Surgiram na Antiguidade,

Presentes em cada povo,

Com muita simplicidade,

Porém sempre revestidas

Dos nuances da verdade.


Todos os povos carregam

Sinais de sua presença,

Podendo ser atestada

Como marca de nascença.

Para contar uma delas

Agora peço licença.


Existe uma bela história 

De um tempo já bem distante,

Vem da nação Cherokee,

Uma história interessante

Que mostra a sabedoria

Desse povo cativante.


Sabemos que entre os indígenas

A marca da autoridade

Pra sempre vem imbuída

Por uma questão de idade,

Os mais velhos respeitados

Por toda a comunidade.


Um dos jovens desta tribo,

Que vivia amargurado,

Reclamava aos quatro ventos

O seu canto angustiado

E o motivo disso tudo

É ter sido injustiçado.


quinta-feira, 12 de março de 2026

TEM QUE PLANTAR A SEMENTE

Crédito: RDNE Stock project (PEXELS)


Neste mundo em que vivemos 

Que tudo se faz urgente 

Pessoas querem retorno

De tudo imediatamente 

Quem quer a sombra da árvore 

Tem que plantar a semente.


Tudo tem seu tempo certo

Tem que esperar paciente

Não adianta pensar 

Que tudo vem de repente 

Quem quiser comer do fruto 

Tem que plantar a semente. 


É preciso planejar 

E também ser insistente 

Pois nada virá de graça 

Embrulhado pra presente

Se quer o aroma da flor

Tem que plantar a semente. 


A fartura de alimento 

Na casa de toda a gente

Vem do trabalho da terra

E do cultivo frequente

Se quer comida na mesa

Tem que plantar a semente. 


Se quer esperar da vida

Nunca seja negligente

Para receber o prêmio 

Tenha esforço consistente 

Pra ter a mais alta árvore 

Tem que plantar a semente. 


Mesmo em face ao duro clima

Busque ser resiliente

Seja no tempo das chuvas

Ou sob o sol inclemente

Pra celebrar a colheita

Tem que plantar a semente.


Pra quem quer deitar na relva

Como um colchão excelente

Ver grama a perder de vista

Tal qual tapete crescente 

Pra formar tão belos campos

Tem que plantar a semente. 


Se quiser subir bem alto

Pelos galhos agilmente

E depois de lá de cima

Contemplar o sol poente

Pra desfrutar do espetáculo

Tem que plantar a semente.


Se quiser em teu jardim

Uma fragrância evidente

O colorido das flores 

Num encanto reluzente 

E a formosura da rosa

Tem que plantar a semente.


Eu termino por aqui

Desculpe ser contundente

Mas quero apenas lembrar

Que a vida se faz resistente

Se quiser colher os louros

Tem que plantar a semente.


segunda-feira, 9 de março de 2026

SOBRE A NATUREZA HUMANA E SUAS MESQUINHARIAS

Crédito: Dawn Hudson (Public Domain Pictures)

 A pior nota que você pode receber é uma promessa, especialmente quando é confirmada com um juramento; após o qual todo homem se retira e desiste de todas as esperanças”.

                 Bem-vindos de volta, caros amigos leitores! Cá estamos nós, mais uma vez, impelidos pelo espírito aventureiro, dispostos a ultrapassar mais uma fronteira em direção ao fabuloso universo da literatura. Possamos então seguir viagem, partindo da Polônia que nos permitiu acesso ao império do polêmico Nero, para nos deslocarmos até a cidade de Dublin, na Irlanda, no ano de 1726. Lá tomaremos um navio. Bem sei que o caro leitor não tem boas lembranças da última vez que embarcamos a bordo de um navio, na presença do capitão Ahab. Infelizmente, não trago boas notícias, pois nossa viagem não chegará ao seu destino programado. Inclusive, permita-me perguntar se o caro amigo sabe nadar, porque, novamente, seremos vitimas de um naufrágio.  Para não sairmos do clima, acessemos a nossa “playlist” para a audição da música “Titanic suíte” (1998) de composição de James Horner para o filme que conta um dos senão o mais célebre naufrágio da história dos sete mares.

Assim sendo, viajemos em companhia do médico-cirurgião Lemuel Gulliver que, em sua primeira viagem marítima, acaba por escapar de uma fatalidade, chegando à deriva a uma ilha desconhecida. Ele acaba adormecendo na praia e, qual não é a sua surpresa, quando, ao acordar, percebe-se totalmente amarrado e subjugado por um grande bando de homenzinhos com aproximadamente quinze centímetros de altura. Bem surreal, não? Eles o temem por seu tamanho, por isso ele se encontra imobilizado. Dizem que ele está no reino de Lilliput. Convencidos de suas boas intenções, eles acabam por fazer amizade. Os tais liliputianos, revestidos de exibições de autoridade e poder, veem no gigante amigo uma ótima possibilidade de tomar o controle sobre a ilha vizinha (Blefuscu). Gulliver concorda em ajudá-los, mas depois, por não obedecer a todas as suas ordens, foi submetido a uma punição da qual fugiu.

Em sua segunda viagem, novamente nosso protagonista acaba, contra a própria vontade, na ilha de Brobdingnag, o país dos gigantes. Inclusive fico aqui pensando: “Como pode alguém ser tão azarado assim para viajar de navio”? Lá ele acaba preso por um fazendeiro de 22 metros de altura que passa a exibir nosso herói como um animal raro, transformando-o em uma grande atração. O excesso de apresentações deixa-o doente e ele é vendido para a rainha. Depois de algum tempo, consegue novamente fugir (aliás a vida desse personagem pode ser resumida em dois processos: abandono e fuga).

Em sua terceira viagem, Gulliver se encontra na ilha voadora de Laputa, a qual possui um povo bastante evoluído, versado em artes musicais, astronomia e matemática, porém a fartura de conhecimento depara-se com uma ausência de prática, pois nenhum desses saberes resulta em qualquer benefício à sociedade, sendo uma cultura que se esgota em si mesma. Nosso protagonista deixa a ilha e parte em busca de outras aventuras por outros cantos desse imenso oceano que, segundo ele, trata-se do Índico.

O livro “As viagens de Gulliver” foi e ainda é (assim crê este que vos escreve), muitas vezes, tratado como uma obra para crianças. Ah, caro leitor, não caia nessa! Este é apenas um dos tantos exemplos de que a literatura vive a pregar peças nos leitores ingênuos há centenas de anos (como confirmam obras como “A revolução dos bichos” e “Alice no país das maravilhas” entre tantos outros). Claro que não há nada de errado em ler para o seu filho ou neto. O encontro com os liliputianos renderá boas risadas e mexerá tão bem com o imaginário dos pequenos. Contudo, Jonathan Swift foi muito além disso, pois, como sempre gosto de lembrar aos alunos, eis a força dos clássicos: eles não se esgotam em simplórias interpretações ou análises. Por isso sobrevivem ao poder corrosivo do tempo. Não é à toa que se tornam fontes inesgotáveis de conhecimento. Por que com esse livro seria diferente? Entretanto, acho que isso você já sabia (ou ao menos desconfiava) após tantas viagens juntos.

Na verdade, trata-se de não uma, mas várias jornadas, sempre ao mesmo lugar: o interior do homem. Pelas diversas ilhas que passa, Gulliver sempre está a explorar a natureza humana, em seu lado mais obscuro, como aquela face da lua que, por jamais termos visto, praticamente não fazemos conta de conhecer, todavia continua lá, desde sempre. Embora em ilhas diferentes, o protagonista frequentemente se depara com a mesma circunstância: a mesquinharia humana, marcada, entre tantos aspectos, por um assaz especial – a sede de poder, que a tudo justifica, como diz Caetano Veloso em uma canção: “Enquanto os homens exercem / Seus podres poderes / Morrer e matar de fome / De raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais...”  Gulliver assiste a uma sede por poder e riqueza, capaz de cegar qualquer um. Subjugar ao outro, tirar o que está de posse dele para o benefício ou satisfação próprios parece algo assim banal.

Vemos a todo canto do mundo, nas mais improváveis nações ou povos, que o homem jamais abre mão de suas ambições, por mais que, para construir o castelo de seus sonhos, ele tenha que demolir a tantos outros. É uma narrativa sobre respeito pela vida, sobre nobreza de coração (não títulos comprados e vazios de mérito) e sobre a dignidade, tantas vezes invisível aos olhos de muitos os quais se revestem da túnica da autoridade. Cabe muito bem lembrar aqui que estamos falando de um animal que escraviza seres da mesma espécie que a sua e ainda os trata como mercadoria barata. Vemos, ao longo do livro, os motivos mais fúteis para justificar-se uma guerra, como naquela música do grupo Uns e outros: “Vindo de todas as partes / Indo pra lugar algum / Assim caminha a raça humana / Se devorando um a um”, sem contar que certos homens enviam outros para a morte sobre a falácia de que estarão defendendo a soberania da pátria, que deixarão seus nomes na história, que sua morte em combate encherá de orgulho todos os seus.

Pode-se perceber que nossa humanidade não acompanhou o avanço tecnológico, ou seja, não crescemos em empatia, compreensão, tolerância. Se nossa ciência tanto evoluiu, ainda estamos em nível primitivo em relação à inteligência emocional. Basta dar um pequeno passeio pelas redes sociais para ver uma cultura de ódio, preconceito, intolerância e presunção que chega a dar náuseas em pessoas com um mínimo de sensibilidade. Swift faz uma crítica política e social à sua época, ao império inglês, em forma de sátira. Segundo o próprio autor: “quis agredir o mundo, não diverti-lo”, o que penso que estaria próximo de uma tragicomédia, como naquele velho ditado: “seria cômico se não fosse trágico”.

Há quase trezentos anos, caro leitor, é como se o autor perguntasse: “Aonde iremos parar?” Confesso que por mais que desejasse saber, não tenho essa resposta. E vos digo mais: talvez tenha medo de sabê-lo, pelo ritmo em que as coisas andam em tempos tão difíceis e povoados por incertezas. Assim, desejo terminar meu artigo de hoje, no mesmo tom de desilusão, com a última estrofe do poema de Drummond “Sentimento do mundo”: “Quando os corpos passarem / eu ficarei sozinho / desafiando a recordação / do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca / e não foram encontrados / ao amanhecer /esse amanhecer / mais que a noite”. Até a próxima.     

 SWIFT, Jonathan. As aventuras de Gulliver. São Paulo: Martin Claret, 2013.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ESCADA EVOLUTIVA

Crédito: Nikita Belokhonov (PEXELS)

 

Exortam-me a pensar positivo:

Primeiro degrau de uma escada

À estreita porta da vitória.

 

Após o passar de um dia,

Perguntam-me o que farei da vida,

De volta ao início da escada.

 

Toda experiência é malsucedida,

Para mais ou para menos,

Do contrário, não daria origem a tantas outras.

 

A perfeição, objetivo comum,

É a morte do processo evolutivo,

Após a plenitude nada mais resta,

Apenas o marasmo da imortalidade.


segunda-feira, 2 de março de 2026

QUANDO O AMOR E A LIBERDADE SE ENCONTRAM NO MESMO LUGAR

Crédito: Flickr (Cena do filme, 1951)

 Riquezas, glória, poder são mera fumaça, vaidade! O homem rico encontrará alguém mais rico do que ele mesmo; a maior glória de outro eclipsará um homem famoso; um homem forte será conquistado por um mais forte”.

                 Seja bem-vindo, amigo leitor, a mais uma incursão pelos domínios infindáveis do reino da literatura. Vamos dar sequência a esse nosso itinerário fantástico e imprevisível. Quero recorrer a nossa eclética “playlist” para a audição da canção “Ira di Dio” da fenomenal soprano francesa Emma Shapplin e deixemos a sua voz angelical nos levar além. Após termos conhecido a morte em pessoa (sei que isso é discutível), vamos sair às pressas do torrão lusitano para visitarmos a Polônia, no ano de 1895. Sim, meu caro, mais um carimbo em seu passaporte nessa nossa temporada europeia. Aviso de antemão que não ficaremos muito tempo por aqui, pois nossa obra de hoje nos remete ao Império Romano, ao longínquo século I, no início da Era da cristandade. Aqui encontraremos um misto de personagens reais e fictícias, porque, afinal de contas, a literatura é a fronteira mais tênue entre a realidade e a fantasia.

                Antes de tudo, seria importante dizer que a expressão latina “quo vadis”, título do livro, significa “para onde vais”. Segundo a tradição cristã, essa pergunta teria sido feita pelo apóstolo Pedro, quando viu uma aparição do Cristo enquanto fugia de Roma, e o mesmo teria respondido a ele que já que ela estava fugindo e abandonando seu povo, ele (Cristo) estaria voltando para ser crucificado novamente pelo império. Você pode estar perguntando o que isso tem a ver com a obra. Eu respondo: tudo. Estamos no governo de Nero, um dos mais polêmicos imperadores romanos e figuras da história da humanidade, famoso por sua perseguição aos cristãos. Em uma festa promovida por ele, aliás, esses romanos eram famosos por suas festas, daí que veio o curioso vocábulo “bacanal” (sobre o qual não teremos tempo de explanar, ficando como tarefa para casa aos mais curiosos), mas, voltando à específica festa: nela estão presentes diversas figuras da alta sociedade, entre elas – Lígia e Vinícius.

                Ao mais aguçado leitor que já sentiu no ar o cheiro de par romântico, meus parabéns! Embora eu acredite que isso não seria tão difícil assim de se prever. O leitor também já sabe que onde há um par romântico, há de ter um obstáculo ao amor dos dois. Isso é uma regra de ouro do Romantismo (sem qualquer exceção). Eles pertencem a mundos totalmente distintos: ela, criada na fé cristã, ainda rejeitada pelo império; ele, um centurião romano, comandante militar, entregue às tradições. Lembra muito aquele poema divertido de Drummond “Balada do amor através das idades”, que conta a história de dois amantes que em todas as eras da história se encontram dos lados opostos, como na estrofe: “Virei soldado romano, / perseguidor de cristãos. / Na porta da catacumba / encontrei-te novamente. / Mas quando vi você nua / caída na areia do circo / e o leão que vinha vindo, / dei um pulo desesperado / e o leão comeu nós dois”.

                Infelizmente, caro leitor, a vida desse casal não será nada fácil, visto que se encontram no centro dos antagonismos de sua era. Esse tema é uma constante presente no cinema mundial, do qual fica aqui uma dica: o filme “Um reino unido” (2016) do diretor Amma Asante, baseado em uma história real de 1940, envolvendo o trono de Botsuana. Assista e veja o que uma sociedade é capaz de fazer para matar um verdadeiro amor. Aliás, voltando ao nosso casal protagonista: por conta do amor, o impulsivo rapaz deseja roubar a moça e fugirem para um clássico “felizes para sempre”, o que ela não aceita. Então ele decide enfrentar o império, até o próprio Nero se preciso, para sua liberdade. Lígia, que antes não tinha nenhum interesse pelo centurião, agora se vê perdidamente apaixonada por ele. Os cristãos são frequentemente perseguidos, porém Lígia conta com a proteção do grande Ursus, fiel criado de sua mãe, um homem simples e inocente, dotado de uma força descomunal, o qual jurou proteger a moça com a própria vida.

                 Nero, ensandecido (está mais para uma caricatura do imperador), ateia fogo em Roma, pondo a culpa nos cristãos (inclusive, esse é um ponto complicado da história de Roma: não confirmam que foi ele, mas também não duvidam), gerando, assim, uma perseguição sem limites, com delações em troca de dinheiro por parte do povo, inclusive de Chilón, um filósofo que, por pura ambição, infiltra-se entre os cristãos, ganha sua confiança para depois entregá-los ao império por uma boa quantia.  Todos eles são entregues ao Circo Máximo (uma espécie de estádio) onde são entregues às feras selvagens, como sacrifício e forma de diversão (embora não tenha sido no império de Nero que isso tenha sido feito). Não, caro leitor, não é um erro. As pessoas divertiam-se ao ver algo do tipo, considerado até como um grande espetáculo, assistido de camarote, o que me faz lembrar Roberto Carlos, em uma de suas canções: “Eu queria ser civilizado como os animais...”, chocado diante da selvageria humana.

                É uma obra muito rica em conteúdo, tanto que rendeu a seu criador o prêmio Nobel de literatura em 1905. Então, o que destacar disso tudo? Sienkiewicz critica os grandes impérios, erguidos à custa de banhos de sangue, pilhagens, opressão e, acima de tudo, o desrespeito pela vida humana. Escravização e exploração fazem parte da receita da ascensão de muitas das grandes nações (poderíamos citar muitas aqui) e com Roma não foi diferente. Quantas nações ao redor do globo ainda provam as sequelas do imperialismo, amargando como legado a guerra civil e a miséria? Vemos a intolerância religiosa dos romanos contra os seguidores do Cristianismo, crença ainda em desabroche, em torno de uns trinta anos passados da passagem do Cristo pela Terra. Ah! Como a vida pode ser irônica, caro leitor... o que diriam os cristãos (tão perseguidos nesta época) se pudessem ver que muitos de seus descendentes fazem, hoje, o mesmo com diversos outros credos, em especial aqueles que são frutos da matriz africana. O homem tem uma incrível capacidade, muito bem demonstrada pela História, de passar de vítima a algoz. A obra nos mostra os senadores romanos, que fizeram de seus mandatos um balcão de negócios, transformando o compromisso com o povo em uma legislação em prol dos próprios interesses. Já se passaram dois mil anos e nada mudou neste aspecto, basta olhar o número crescente de escândalos envolvendo os ditos “homens públicos”.

                Por outro lado, presenciamos um povo sedento de sangue, que se banqueteia com a desgraça alheia e assiste aos desastres como uma apresentação de gala. Não há mais atrações no coliseu romano, mas temos a mídia sensacionalista, que ganha preciosos níveis de audiência ao expor a desventura e pesar das famílias em rede nacional, somada aos abutres de internet, que ficam a farejar o infortúnio para convertê-lo em visualizações e curtidas. Infelizmente, meu caro, há gente que sente prazer em viralizar o sofrimento alheio (e não são poucos). Por último, a obra nos mostra que todo regime totalitário se alimenta de suprimir a liberdade. Ah, a liberdade... todo homem nasceu para ser livre e, não sei se o leitor concorda comigo, a liberdade é condição sine qua non para o amor, é o seu oxigênio. Como diz o centurião, no trecho do livro que abre nosso artigo de hoje, tudo o mais não passa de mera vaidade, material com o qual se constrói o alicerce dos impérios. Termino nossa viagem de hoje lembrando o apóstolo Paulo (também presente nessa obra) que por meio de sua carta aos Coríntios, inspirou Renato Russo (vinte séculos depois) nos versos da música Monte Castelo: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria...”. Até a próxima viagem.     

SIENKIEWICZ, Henryk. Quo vadis. Campinas: Sétimo Selo, 2023.   

A CIDADE DAS ALMAS PERDIDAS: A ROMARIA DOS CONDENADOS (JANEIRO 2026)

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