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sexta-feira, 13 de março de 2026

OS DOIS LOBOS (DEZEMBRO 2025)

 

Capa gerada por IA

TEMA

Poucos são os ensinamentos que nos chegaram dos povos ancestrais, infelizmente, devido ao sentimento de soberba do colonizador europeu, o qual pensava não ter nada a aprender com as nações indígenas. Por meio de narrativas, alguns conhecimentos, transmitidos de geração para geração, sobreviveram ao tempo e nos presenteiam com sua sabedoria e um modo particular diferente de encarar a vida e seus desafios. Por se tratar de uma cultura de base oral, a liderança sempre ficava a cargo do integrante mais velho da tribo, pois, segundo o entendimento deles, aquele que viveu mais tempo, possui uma quantidade maior de experiências de vida, contribuindo para um grau de sabedoria maior, fator esse que endossa a sua autoridade sobre o grupo. Da admiração por essa sabedoria, surgiu a ideia de adaptar para o cordel esse conto pertencente à nação Cherokee.  

SINOPSE

O conselho da tribo reúne-se para discutir o problema de um dos seus membros: um jovem que, a partir do momento em que foi vítima de uma injustiça, passou a ter um temperamento explosivo acompanhando de uma visão amarga da vida e um desejo contínuo de vingança. A preocupação deles é que tal comportamento o conduza para um caminho sem volta. O avô pede permissão ao conselho para que, antes de qualquer decisão, possa conversar a sós com ele. Para isso o convida para um passeio pela floresta, ao qual o jovem aceita, apesar de um tanto desconfiado. Uma cena, ao mesmo tempo, tão comum e tão surpreendente, vai fazer com que aquele jovem aprenda uma maravilhosa lição de vida.


Sabe-se que as narrativas

Surgiram na Antiguidade,

Presentes em cada povo,

Com muita simplicidade,

Porém sempre revestidas

Dos nuances da verdade.


Todos os povos carregam

Sinais de sua presença,

Podendo ser atestada

Como marca de nascença.

Para contar uma delas

Agora peço licença.


Existe uma bela história 

De um tempo já bem distante,

Vem da nação Cherokee,

Uma história interessante

Que mostra a sabedoria

Desse povo cativante.


Sabemos que entre os indígenas

A marca da autoridade

Pra sempre vem imbuída

Por uma questão de idade,

Os mais velhos respeitados

Por toda a comunidade.


Um dos jovens desta tribo,

Que vivia amargurado,

Reclamava aos quatro ventos

O seu canto angustiado

E o motivo disso tudo

É ter sido injustiçado.


quinta-feira, 12 de março de 2026

TEM QUE PLANTAR A SEMENTE

Crédito: RDNE Stock project (PEXELS)


Neste mundo em que vivemos 

Que tudo se faz urgente 

Pessoas querem retorno

De tudo imediatamente 

Quem quer a sombra da árvore 

Tem que plantar a semente.


Tudo tem seu tempo certo

Tem que esperar paciente

Não adianta pensar 

Que tudo vem de repente 

Quem quiser comer do fruto 

Tem que plantar a semente. 


É preciso planejar 

E também ser insistente 

Pois nada virá de graça 

Embrulhado pra presente

Se quer o aroma da flor

Tem que plantar a semente. 


A fartura de alimento 

Na casa de toda a gente

Vem do trabalho da terra

E do cultivo frequente

Se quer comida na mesa

Tem que plantar a semente. 


Se quer esperar da vida

Nunca seja negligente

Para receber o prêmio 

Tenha esforço consistente 

Pra ter a mais alta árvore 

Tem que plantar a semente. 


Mesmo em face ao duro clima

Busque ser resiliente

Seja no tempo das chuvas

Ou sob o sol inclemente

Pra celebrar a colheita

Tem que plantar a semente.


Pra quem quer deitar na relva

Como um colchão excelente

Ver grama a perder de vista

Tal qual tapete crescente 

Pra formar tão belos campos

Tem que plantar a semente. 


Se quiser subir bem alto

Pelos galhos agilmente

E depois de lá de cima

Contemplar o sol poente

Pra desfrutar do espetáculo

Tem que plantar a semente.


Se quiser em teu jardim

Uma fragrância evidente

O colorido das flores 

Num encanto reluzente 

E a formosura da rosa

Tem que plantar a semente.


Eu termino por aqui

Desculpe ser contundente

Mas quero apenas lembrar

Que a vida se faz resistente

Se quiser colher os louros

Tem que plantar a semente.


segunda-feira, 9 de março de 2026

SOBRE A NATUREZA HUMANA E SUAS MESQUINHARIAS

Crédito: Dawn Hudson (Public Domain Pictures)

 A pior nota que você pode receber é uma promessa, especialmente quando é confirmada com um juramento; após o qual todo homem se retira e desiste de todas as esperanças”.

                 Bem-vindos de volta, caros amigos leitores! Cá estamos nós, mais uma vez, impelidos pelo espírito aventureiro, dispostos a ultrapassar mais uma fronteira em direção ao fabuloso universo da literatura. Possamos então seguir viagem, partindo da Polônia que nos permitiu acesso ao império do polêmico Nero, para nos deslocarmos até a cidade de Dublin, na Irlanda, no ano de 1726. Lá tomaremos um navio. Bem sei que o caro leitor não tem boas lembranças da última vez que embarcamos a bordo de um navio, na presença do capitão Ahab. Infelizmente, não trago boas notícias, pois nossa viagem não chegará ao seu destino programado. Inclusive, permita-me perguntar se o caro amigo sabe nadar, porque, novamente, seremos vitimas de um naufrágio.  Para não sairmos do clima, acessemos a nossa “playlist” para a audição da música “Titanic suíte” (1998) de composição de James Horner para o filme que conta um dos senão o mais célebre naufrágio da história dos sete mares.

Assim sendo, viajemos em companhia do médico-cirurgião Lemuel Gulliver que, em sua primeira viagem marítima, acaba por escapar de uma fatalidade, chegando à deriva a uma ilha desconhecida. Ele acaba adormecendo na praia e, qual não é a sua surpresa, quando, ao acordar, percebe-se totalmente amarrado e subjugado por um grande bando de homenzinhos com aproximadamente quinze centímetros de altura. Bem surreal, não? Eles o temem por seu tamanho, por isso ele se encontra imobilizado. Dizem que ele está no reino de Lilliput. Convencidos de suas boas intenções, eles acabam por fazer amizade. Os tais liliputianos, revestidos de exibições de autoridade e poder, veem no gigante amigo uma ótima possibilidade de tomar o controle sobre a ilha vizinha (Blefuscu). Gulliver concorda em ajudá-los, mas depois, por não obedecer a todas as suas ordens, foi submetido a uma punição da qual fugiu.

Em sua segunda viagem, novamente nosso protagonista acaba, contra a própria vontade, na ilha de Brobdingnag, o país dos gigantes. Inclusive fico aqui pensando: “Como pode alguém ser tão azarado assim para viajar de navio”? Lá ele acaba preso por um fazendeiro de 22 metros de altura que passa a exibir nosso herói como um animal raro, transformando-o em uma grande atração. O excesso de apresentações deixa-o doente e ele é vendido para a rainha. Depois de algum tempo, consegue novamente fugir (aliás a vida desse personagem pode ser resumida em dois processos: abandono e fuga).

Em sua terceira viagem, Gulliver se encontra na ilha voadora de Laputa, a qual possui um povo bastante evoluído, versado em artes musicais, astronomia e matemática, porém a fartura de conhecimento depara-se com uma ausência de prática, pois nenhum desses saberes resulta em qualquer benefício à sociedade, sendo uma cultura que se esgota em si mesma. Nosso protagonista deixa a ilha e parte em busca de outras aventuras por outros cantos desse imenso oceano que, segundo ele, trata-se do Índico.

O livro “As viagens de Gulliver” foi e ainda é (assim crê este que vos escreve), muitas vezes, tratado como uma obra para crianças. Ah, caro leitor, não caia nessa! Este é apenas um dos tantos exemplos de que a literatura vive a pregar peças nos leitores ingênuos há centenas de anos (como confirmam obras como “A revolução dos bichos” e “Alice no país das maravilhas” entre tantos outros). Claro que não há nada de errado em ler para o seu filho ou neto. O encontro com os liliputianos renderá boas risadas e mexerá tão bem com o imaginário dos pequenos. Contudo, Jonathan Swift foi muito além disso, pois, como sempre gosto de lembrar aos alunos, eis a força dos clássicos: eles não se esgotam em simplórias interpretações ou análises. Por isso sobrevivem ao poder corrosivo do tempo. Não é à toa que se tornam fontes inesgotáveis de conhecimento. Por que com esse livro seria diferente? Entretanto, acho que isso você já sabia (ou ao menos desconfiava) após tantas viagens juntos.

Na verdade, trata-se de não uma, mas várias jornadas, sempre ao mesmo lugar: o interior do homem. Pelas diversas ilhas que passa, Gulliver sempre está a explorar a natureza humana, em seu lado mais obscuro, como aquela face da lua que, por jamais termos visto, praticamente não fazemos conta de conhecer, todavia continua lá, desde sempre. Embora em ilhas diferentes, o protagonista frequentemente se depara com a mesma circunstância: a mesquinharia humana, marcada, entre tantos aspectos, por um assaz especial – a sede de poder, que a tudo justifica, como diz Caetano Veloso em uma canção: “Enquanto os homens exercem / Seus podres poderes / Morrer e matar de fome / De raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais...”  Gulliver assiste a uma sede por poder e riqueza, capaz de cegar qualquer um. Subjugar ao outro, tirar o que está de posse dele para o benefício ou satisfação próprios parece algo assim banal.

Vemos a todo canto do mundo, nas mais improváveis nações ou povos, que o homem jamais abre mão de suas ambições, por mais que, para construir o castelo de seus sonhos, ele tenha que demolir a tantos outros. É uma narrativa sobre respeito pela vida, sobre nobreza de coração (não títulos comprados e vazios de mérito) e sobre a dignidade, tantas vezes invisível aos olhos de muitos os quais se revestem da túnica da autoridade. Cabe muito bem lembrar aqui que estamos falando de um animal que escraviza seres da mesma espécie que a sua e ainda os trata como mercadoria barata. Vemos, ao longo do livro, os motivos mais fúteis para justificar-se uma guerra, como naquela música do grupo Uns e outros: “Vindo de todas as partes / Indo pra lugar algum / Assim caminha a raça humana / Se devorando um a um”, sem contar que certos homens enviam outros para a morte sobre a falácia de que estarão defendendo a soberania da pátria, que deixarão seus nomes na história, que sua morte em combate encherá de orgulho todos os seus.

Pode-se perceber que nossa humanidade não acompanhou o avanço tecnológico, ou seja, não crescemos em empatia, compreensão, tolerância. Se nossa ciência tanto evoluiu, ainda estamos em nível primitivo em relação à inteligência emocional. Basta dar um pequeno passeio pelas redes sociais para ver uma cultura de ódio, preconceito, intolerância e presunção que chega a dar náuseas em pessoas com um mínimo de sensibilidade. Swift faz uma crítica política e social à sua época, ao império inglês, em forma de sátira. Segundo o próprio autor: “quis agredir o mundo, não diverti-lo”, o que penso que estaria próximo de uma tragicomédia, como naquele velho ditado: “seria cômico se não fosse trágico”.

Há quase trezentos anos, caro leitor, é como se o autor perguntasse: “Aonde iremos parar?” Confesso que por mais que desejasse saber, não tenho essa resposta. E vos digo mais: talvez tenha medo de sabê-lo, pelo ritmo em que as coisas andam em tempos tão difíceis e povoados por incertezas. Assim, desejo terminar meu artigo de hoje, no mesmo tom de desilusão, com a última estrofe do poema de Drummond “Sentimento do mundo”: “Quando os corpos passarem / eu ficarei sozinho / desafiando a recordação / do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca / e não foram encontrados / ao amanhecer /esse amanhecer / mais que a noite”. Até a próxima.     

 SWIFT, Jonathan. As aventuras de Gulliver. São Paulo: Martin Claret, 2013.

quinta-feira, 5 de março de 2026

ESCADA EVOLUTIVA

Crédito: Nikita Belokhonov (PEXELS)

 

Exortam-me a pensar positivo:

Primeiro degrau de uma escada

À estreita porta da vitória.

 

Após o passar de um dia,

Perguntam-me o que farei da vida,

De volta ao início da escada.

 

Toda experiência é malsucedida,

Para mais ou para menos,

Do contrário, não daria origem a tantas outras.

 

A perfeição, objetivo comum,

É a morte do processo evolutivo,

Após a plenitude nada mais resta,

Apenas o marasmo da imortalidade.


segunda-feira, 2 de março de 2026

QUANDO O AMOR E A LIBERDADE SE ENCONTRAM NO MESMO LUGAR

Crédito: Flickr (Cena do filme, 1951)

 Riquezas, glória, poder são mera fumaça, vaidade! O homem rico encontrará alguém mais rico do que ele mesmo; a maior glória de outro eclipsará um homem famoso; um homem forte será conquistado por um mais forte”.

                 Seja bem-vindo, amigo leitor, a mais uma incursão pelos domínios infindáveis do reino da literatura. Vamos dar sequência a esse nosso itinerário fantástico e imprevisível. Quero recorrer a nossa eclética “playlist” para a audição da canção “Ira di Dio” da fenomenal soprano francesa Emma Shapplin e deixemos a sua voz angelical nos levar além. Após termos conhecido a morte em pessoa (sei que isso é discutível), vamos sair às pressas do torrão lusitano para visitarmos a Polônia, no ano de 1895. Sim, meu caro, mais um carimbo em seu passaporte nessa nossa temporada europeia. Aviso de antemão que não ficaremos muito tempo por aqui, pois nossa obra de hoje nos remete ao Império Romano, ao longínquo século I, no início da Era da cristandade. Aqui encontraremos um misto de personagens reais e fictícias, porque, afinal de contas, a literatura é a fronteira mais tênue entre a realidade e a fantasia.

                Antes de tudo, seria importante dizer que a expressão latina “quo vadis”, título do livro, significa “para onde vais”. Segundo a tradição cristã, essa pergunta teria sido feita pelo apóstolo Pedro, quando viu uma aparição do Cristo enquanto fugia de Roma, e o mesmo teria respondido a ele que já que ela estava fugindo e abandonando seu povo, ele (Cristo) estaria voltando para ser crucificado novamente pelo império. Você pode estar perguntando o que isso tem a ver com a obra. Eu respondo: tudo. Estamos no governo de Nero, um dos mais polêmicos imperadores romanos e figuras da história da humanidade, famoso por sua perseguição aos cristãos. Em uma festa promovida por ele, aliás, esses romanos eram famosos por suas festas, daí que veio o curioso vocábulo “bacanal” (sobre o qual não teremos tempo de explanar, ficando como tarefa para casa aos mais curiosos), mas, voltando à específica festa: nela estão presentes diversas figuras da alta sociedade, entre elas – Lígia e Vinícius.

                Ao mais aguçado leitor que já sentiu no ar o cheiro de par romântico, meus parabéns! Embora eu acredite que isso não seria tão difícil assim de se prever. O leitor também já sabe que onde há um par romântico, há de ter um obstáculo ao amor dos dois. Isso é uma regra de ouro do Romantismo (sem qualquer exceção). Eles pertencem a mundos totalmente distintos: ela, criada na fé cristã, ainda rejeitada pelo império; ele, um centurião romano, comandante militar, entregue às tradições. Lembra muito aquele poema divertido de Drummond “Balada do amor através das idades”, que conta a história de dois amantes que em todas as eras da história se encontram dos lados opostos, como na estrofe: “Virei soldado romano, / perseguidor de cristãos. / Na porta da catacumba / encontrei-te novamente. / Mas quando vi você nua / caída na areia do circo / e o leão que vinha vindo, / dei um pulo desesperado / e o leão comeu nós dois”.

                Infelizmente, caro leitor, a vida desse casal não será nada fácil, visto que se encontram no centro dos antagonismos de sua era. Esse tema é uma constante presente no cinema mundial, do qual fica aqui uma dica: o filme “Um reino unido” (2016) do diretor Amma Asante, baseado em uma história real de 1940, envolvendo o trono de Botsuana. Assista e veja o que uma sociedade é capaz de fazer para matar um verdadeiro amor. Aliás, voltando ao nosso casal protagonista: por conta do amor, o impulsivo rapaz deseja roubar a moça e fugirem para um clássico “felizes para sempre”, o que ela não aceita. Então ele decide enfrentar o império, até o próprio Nero se preciso, para sua liberdade. Lígia, que antes não tinha nenhum interesse pelo centurião, agora se vê perdidamente apaixonada por ele. Os cristãos são frequentemente perseguidos, porém Lígia conta com a proteção do grande Ursus, fiel criado de sua mãe, um homem simples e inocente, dotado de uma força descomunal, o qual jurou proteger a moça com a própria vida.

                 Nero, ensandecido (está mais para uma caricatura do imperador), ateia fogo em Roma, pondo a culpa nos cristãos (inclusive, esse é um ponto complicado da história de Roma: não confirmam que foi ele, mas também não duvidam), gerando, assim, uma perseguição sem limites, com delações em troca de dinheiro por parte do povo, inclusive de Chilón, um filósofo que, por pura ambição, infiltra-se entre os cristãos, ganha sua confiança para depois entregá-los ao império por uma boa quantia.  Todos eles são entregues ao Circo Máximo (uma espécie de estádio) onde são entregues às feras selvagens, como sacrifício e forma de diversão (embora não tenha sido no império de Nero que isso tenha sido feito). Não, caro leitor, não é um erro. As pessoas divertiam-se ao ver algo do tipo, considerado até como um grande espetáculo, assistido de camarote, o que me faz lembrar Roberto Carlos, em uma de suas canções: “Eu queria ser civilizado como os animais...”, chocado diante da selvageria humana.

                É uma obra muito rica em conteúdo, tanto que rendeu a seu criador o prêmio Nobel de literatura em 1905. Então, o que destacar disso tudo? Sienkiewicz critica os grandes impérios, erguidos à custa de banhos de sangue, pilhagens, opressão e, acima de tudo, o desrespeito pela vida humana. Escravização e exploração fazem parte da receita da ascensão de muitas das grandes nações (poderíamos citar muitas aqui) e com Roma não foi diferente. Quantas nações ao redor do globo ainda provam as sequelas do imperialismo, amargando como legado a guerra civil e a miséria? Vemos a intolerância religiosa dos romanos contra os seguidores do Cristianismo, crença ainda em desabroche, em torno de uns trinta anos passados da passagem do Cristo pela Terra. Ah! Como a vida pode ser irônica, caro leitor... o que diriam os cristãos (tão perseguidos nesta época) se pudessem ver que muitos de seus descendentes fazem, hoje, o mesmo com diversos outros credos, em especial aqueles que são frutos da matriz africana. O homem tem uma incrível capacidade, muito bem demonstrada pela História, de passar de vítima a algoz. A obra nos mostra os senadores romanos, que fizeram de seus mandatos um balcão de negócios, transformando o compromisso com o povo em uma legislação em prol dos próprios interesses. Já se passaram dois mil anos e nada mudou neste aspecto, basta olhar o número crescente de escândalos envolvendo os ditos “homens públicos”.

                Por outro lado, presenciamos um povo sedento de sangue, que se banqueteia com a desgraça alheia e assiste aos desastres como uma apresentação de gala. Não há mais atrações no coliseu romano, mas temos a mídia sensacionalista, que ganha preciosos níveis de audiência ao expor a desventura e pesar das famílias em rede nacional, somada aos abutres de internet, que ficam a farejar o infortúnio para convertê-lo em visualizações e curtidas. Infelizmente, meu caro, há gente que sente prazer em viralizar o sofrimento alheio (e não são poucos). Por último, a obra nos mostra que todo regime totalitário se alimenta de suprimir a liberdade. Ah, a liberdade... todo homem nasceu para ser livre e, não sei se o leitor concorda comigo, a liberdade é condição sine qua non para o amor, é o seu oxigênio. Como diz o centurião, no trecho do livro que abre nosso artigo de hoje, tudo o mais não passa de mera vaidade, material com o qual se constrói o alicerce dos impérios. Termino nossa viagem de hoje lembrando o apóstolo Paulo (também presente nessa obra) que por meio de sua carta aos Coríntios, inspirou Renato Russo (vinte séculos depois) nos versos da música Monte Castelo: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria...”. Até a próxima viagem.     

SIENKIEWICZ, Henryk. Quo vadis. Campinas: Sétimo Selo, 2023.   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A TOLA PRETENSÃO HUMANA DE LIVRAR-SE DA MORTE

Crédito: Wingspan Artist (PEXELS)

“A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos do que o homem”.

                 Salve, salve, estimado leitor! Após um período de férias, aqui vamos nós mais uma vez. Espero que esteja pronto para mais uma partida rumo a este universo de magia que é a literatura. Vamos imediatamente deixar para trás a atmosfera melancólica do fog londrino, destino de nossa última visita, para fazer aquela que, acredito piamente, talvez seja a mais insólita de todas as incursões, jamais feita por nós nessa coluna. E por que eu digo isso? Embora estejamos nos dirigindo a Portugal, no ano de 2005 (grave este ano porque será o mais perto que chegaremos de nossos dias atuais) por causa do célebre escritor José Saramago, nossa narrativa de hoje se passa em um país sem nome algum e, como se não bastasse, em tempo indeterminado. Dessa vez, será de suma importância para nossa preparação, acessar aquela nossa velha “playlist” de viagem e seguirmos ao som de “Requiém em ré menor” que se trata de uma missa fúnebre composta por ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart, por encomenda do Conde Franz von Walsegg e que, inclusive, ficou inacabada devido à morte do artista em 1791.

                Se o amigo leitor está pensando (aí consigo): “Por que falar tanto em morte?” Simples de responder: porque ela é, ao mesmo tempo, tema e protagonista de nosso romance de hoje. Isso mesmo. Você não entendeu errado, meu caro leitor: a temida e onipresente morte, a mais universalmente reconhecida criatura, em carne e osso (não sei se esse ditado pode ser aplicado a ela). Agora, caro amigo, envolvido por esse misto de curiosidade, mistério e temor, comecemos, enfim, a nossa história. Tudo começa no dia primeiro de janeiro, conhecido por alguns como primeiro dia do ano, com uma singela frase do autor: “Naquele dia ninguém morreu”. Acontece que a morte, já cansada da ingratidão dos mortais e de ser alvo de tantas injustiças e de tantas perdas vinculadas equivocadamente a ela, resolve deixar de agir dentro das fronteiras desse país desconhecido.

                Nessa primeira parte do romance, temos a morte, ainda abstrata e invisível, dando uma de Pôncio Pilatos, lavando suas mãos diante dos acontecimentos humanos, deixando, por tempo indeterminado, os homens entregues à sua própria sorte. A partir de agora, ninguém mais será levado por ela. Nesse ponto, o leitor desavisado pensa em todas as maravilhas e prodígios a que se resumiria um mundo em que o homem fosse imortal. Pense em quantas desgraças e tragédias seriam evitadas. Não haveria mais a dor da perda. Estaríamos para sempre perto de todos aqueles a quem amamos. Enfim, meu caro leitor, poderíamos fazer um imenso rol dos problemas e dores que nos seriam tirados como magica. Entretanto, não se iluda, pois é isso mesmo que Saramago faz com cada um de nós, leitores, nos dando uma belíssima corda para que possamos nos enforcar com ela mais tarde.

                Como num jogo de estratégia, o narrador vai mudando suas peças e, pouco a pouco, nos mostrando como seria um mundo sem a morte e, por mais incrível que pareça, o resultado é extremamente caótico. Partindo, primeiramente, do ponto de vista econômico: muitos negócios como as funerárias e companhias de seguro decretam falência (já parou para pensar, por um segundo, meu caro: quantas famílias a morte emprega? Quanto capital ela mobiliza nesse mundo?). Quanto aos hospitais, eles entram em crise por falta de leitos, porque ninguém mais morre por lá. As igrejas e templos tornam-se vazios, pois, nessa nova ordem, a religião não tem função alguma. Como pregar a salvação da vida eterna ou o temor pelo juízo final se ninguém mais tem de enfrentar a morte? A partir de agora, a fé torna-se algo puramente obsoleto. E nas famílias? Reina a desordem: os filhos não herdam mais os bens nem se tornam chefes dos negócios da família agora que seus pais estarão presentes para sempre.

                Na segunda parte, a morte, depois de sete meses de greve, resolve aparecer de volta, vendo que sua experiência não poderia ser pior e, avisa, em rede nacional: a partir desse momento, ela voltará a agir, mas com uma diferença – mandará uma carta avisando as pessoas com uma semana de antecedência. É quando ela tem uma dessas cartas negadas que ela resolve visitar o mortal pessoalmente, como naquele magnífico filme de Martin Brest “Encontro marcado” (1998) em que a morte vem buscar um magnata, porém se apaixona por sua filha e resolve passar uns dias entre os mortais. No livro, ela, personalizada como uma bela mulher, humanizada, vem buscar o violinista, mas se apaixona por ele e se nega a levá-lo com ela, passando a viver uma grande paixão com ele.

                Nos tantos livros e filmes em que a morte se materializou, sua discussão sempre foi sobre a vida, como no filme de Ingmar Bergman “O sétimo selo” (1957) no qual a morte vem buscar um cavaleiro das cruzadas, que a desafia para uma partida de xadrez enquanto conversam sobre a vida. Saramago não faz diferente, caro leitor, não o faz. A boa e velha morte continua sendo a discussão para o que fazemos das nossas vidas. A morte, meu caro amigo, é, na verdade, o que dá sentido à vida. Pense um pouco: é a consciência de que nossa vida tem fim que faz dela algo assim tão precioso, que faz cada minuto ser especial e incalculável. Mas não é só isso. Ela é a ordem desse mundo, muitas vezes tida como a grande vilã de todos os tempos. Sem sua presença, tudo seria um caos. No livro, o autor mostra por diversas vezes que o fim da morte em nada melhorou o homem. Ao contrário, tornou-o ainda mais imprudente e egoísta ao encontrar-se imortal, ou seja, uma vida que não se perde já não possui mais o mesmo valor. Tudo isso para mostrar o quanto negligenciamos esse dom tão precioso. Desejamos ser eternos, mas, afinal de contas, para quê? Para esgotarmos nosso planeta? Para satisfazermos os nossos desejos mais insanos?

                Saramago fala de uma morte que acaba por apaixonar-se pela vida humana, que sente inveja da vida que os homens podem viver, o que não é nenhuma surpresa, porque a vida, de fato, é apaixonante. Por isso, ela larga tudo para viver seu amor com o violinista, porque se encanta por sua música. Contudo, caro leitor, vê-se um homem cada vez mais preocupado em prolongar sua existência à custa de terapias, técnicas, medicamentos e pedras filosofais (já ouviu falar em criogenia?) de que viver a vida com intensidade e entusiasmo, sem desperdiçar uma só gota. Como diria o poeta Mário Quintana: “A morte chega cedo, / Pois breve é toda vida / O instante é o arremedo / De uma coisa perdida. / O amor foi começado, / O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou”. Nenhum momento pode ser perdido, meu caro leitor, nenhum sequer.

                Como mostra um trecho da obra no início deste artigo, o homem é o grande responsável pela maior parte das tragédias e desastres aos quais assistimos com frequência. Claro que é mais fácil chamar tudo isso de fatalidade, destino, sina, azar e uma sorte de tantos outros nomes que procuram isentar o ser humano de suas atitudes. Tudo é causa e consequência. O resto não passa de pura invencionice. Não nos esqueçamos, amigo leitor, de que a vida é breve e preciosa, que ninguém é dono do tempo, que ninguém conhece o amanhã. Como diz uma canção de Raul Seixas: “Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez / A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu não sei em que esquina ela vai me beijar”. Até a próxima viagem.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

PRESENTE

Crédito: Cottonbro Studio (PEXELS)

 

Corre, meu jovem, não demora!

A eternidade é ouro de tolo

O tempo foge ao mais suave toque dos seus pés...


A cada esquina esconde-se um novo perigo

A boca faminta escancarada à sua espera,

Mas o alto dos edifícios oferece

Verdadeiras maravilhas aos olhos mortais

Faltam braços arrojados para a escalada.


As batalhas cotidianas são inevitáveis,

Porém os custos das vitórias devem ser ponderados

E muitos caminhos levam para Roma…

Certas tempestades poderiam ser evitadas

Apenas com a lembrança de que os ventos mudam a direção…

O sol nasce para cristãos e hereges

Basta acordar cedo para ter direito ao espetáculo.


Enquanto se lamenta a chuva a cair

Recorda as flores que vão desabrochar mais belas…

E ao cair da noite, no lugar de amaldiçoar a escuridão,

Deita o corpo na grama e admira as estrelas

Até que adormeça feliz pelo presente de mais um dia.


OS DOIS LOBOS (DEZEMBRO 2025)

  Capa gerada por IA TEMA Poucos são os ensinamentos que nos chegaram dos povos ancestrais, infelizmente, devido ao sentimento de soberba ...