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| Foto cedida pela autora |
"Um espaço para se perder e se encontrar no universo em expansão da literatura."
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| Foto cedida pela autora |
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| Crédito: @coldbeer |
Montei num cavalo do tipo fogoso
Queria mostrar que era grande ginete
Eu tinha treinado em um bom cavalete
Por isso me achava um peão tão garboso
Fiz pose de bravo, subindo orgulhoso
Mas mal me sentei, começou a pular
Direto pro chão conseguiu me jogar
Foi dura a tal queda e aprendi a lição
De forma que agora só faço canção
Nos dez de galope na beira do mar.
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| Crédito: Johannes Plenio (PEXELS) |
Talvez eu esqueça as juras
De amor que tu não cumpriste,
Talvez se acabem as lágrimas
De dor que tu jamais viste,
Talvez apague pra sempre
O dia em que tu partiste.
Talvez chegue enfim o dia
Que provarei liberdade,
Talvez o meu peito possa
Não mais doer de saudade,
Talvez eu veja de novo
A tal da felicidade.
Talvez certo dia possa
Tomar-te o arrependimento,
Talvez tomes consciência
De todo o meu sofrimento,
Talvez finalmente entendas
Este meu padecimento.
Talvez eu até consiga
Livrar-me desse embaraço,
Talvez ver que em sua vida
Jamais tive algum espaço,
Talvez parta para outra
Dando fim a tal cansaço.
Talvez possas enxergar
Todo o mal que me tem feito,
Talvez retorne à lembrança
Promessas de amor perfeito,
Talvez saibas de uma vez
Que sempre foi do teu jeito.
Talvez veja que a mentira
Sempre foi o teu caminho,
Talvez eu enfim aceite
Que só caminhas sozinho,
Talvez eu até desista
De implorar o teu carinho.
Talvez o cruel remorso
Para sempre te persiga,
Talvez me faça entender
Que não passei de uma amiga,
Talvez também me convença:
Foi inútil cada briga.
Talvez a vida me ensine
A caminhar solitária,
Talvez a trilha se mostre
Bem mais extraordinária,
Talvez ache na amizade
Relação mais solidária.
Talvez tu por fim descubras
O verdadeiro sentido,
Talvez tu sintas na pele
A dor de ser esquecido,
Talvez possas entender
O quanto tenho sofrido.
Talvez após a jornada
Estejas bem mais maduro,
Talvez sejas para alguém
Aquele porto seguro,
Talvez sejas uma porta
Em direção ao futuro.
Talvez seja eu a última
A quem cobriste de enganos,
Talvez não apliques mais
Os teus gestos mais insanos,
Talvez tenhas mais juízo
Após o passar dos anos.
Talvez eu encontre alguém
Que não desfaça o que fiz,
Talvez eu ainda encontre
Motivo pra ser feliz,
Talvez o elixir do tempo
Apague esta cicatriz.
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| Crédito: Mihman Duganli (PEXELS) |
Um menino faceiro acena do outro lado da janela...
Cá dentro, contento-me em apenas assistir.
Exige minha atenção por meio de insistentes braços
Não ouso sair, ele não me inspira confiança.
Além do mais, anda por caminhos incertos
E não sou afeito a aventuras.
Tranquei-as todas no baú de minha mocidade
Agora só inicio minhas jornadas na companhia do previsível...
Embora o menino persista de um jeito todo convidativo
Meu coração já não está para surpresas
A idade não permite navegar ao sabor das ondas
Ele pode oferecer-me um mundo de novidades
Prefiro continuar com os pés cravados no chão
E a linha de chegada ao alcance dos olhos.
Tudo o mais, deixo à mocidade com seus ares de ousadia...
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| Crédito: Ekaterina Belinskaya (PEXELS) |
O caminho mais curto para a fama
Os aplausos de um público que inflama
A sensação de estar em plena graça.
Mas a plateia um dia fica escassa
E a voz inflada do ego já reclama
Migalhas de sucesso ele então clama
Não basta desejar, logo fracassa.
Pois o sucesso é uma curta estrada
Da qual nunca se sabe qual o fim
Nem quando ela será interditada.
Pois um dia o fracasso chega, enfim,
E a mente que não for tão preparada
Vai passar sua vida inteira assim.
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| Crédito: Pavel Danilyuk (PEXELS) |
Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitor, todos que me acompanham nessa viagem alucinante pelo vasto universo da literatura. Seguimos desbravando os clássicos e seus criadores. Vamos deixar a tenebrosa Transilvânia e a experiência de terror que vivemos na Romênia e vamos, mais uma vez, voltar à charmosa França, para isso vamos acessar a nossa “playlist” com a canção “O vermelho e o negro” na voz de Angélica Rizzi. Enquanto isso vamos nos dirigir ao ano de 1830, chamado de Tempo da Restauração. Após nossa devida localização, vamos apresentar nosso protagonista, o jovem Julien Sorel, rapaz inteligente e bonito, que passa o tempo lendo ou envolvido no mundo dos sonhos, em vez de trabalhar com seus irmãos no ofício de carpinteiro. Mais tarde, ele vira um acólito e acaba recebendo a função de tutor dos filhos do prefeito. Ah! Julien também se mostra um rapaz ambicioso. Um dos seus artifícios para impressionar as pessoas é citar partes da bíblia que ele memorizou (hoje, na era da internet, para pousar de intelectual, as pessoas copiam e colam, não é? Ou pedem para a IA).
Julien, trabalhando como tutor na casa do prefeito, acaba se apaixonando pela esposa dele por causa da forma muito gentil com que ela o trata. Ela, uma mulher ingênua, quando se dá conta, também está apaixonada pelo jovem. Como não é difícil de imaginar, o leitor já pressupõe que vamos presenciar um caso de adultério, ação comum nesses romances, (vamos lembrar nossa Madame Bovary) e está totalmente correto. Acontece que a camareira da senhora Renal também estava apaixonada por Julien, mas foi recusada por ele. Ah, caro leitor, nunca subestime um coração desprezado, pois ele é capaz de tantas coisas (como nos casos do sombrio Heathcliff e do pobre Werther). Ao descobrir o caso dos dois, ela não teve a menor dúvida: espalhou para toda a cidade. Como se isso não bastasse, o prefeito ainda recebe uma carta anônima. Diante do escândalo, o superior de Julien retira o rapaz e o manda a um seminário em outra cidade. Logo depois de livrá-lo de perseguições, ele o recomenda ao cargo de secretário do Marquês de La Mole.
Julien, então, parte para Paris e passa a conviver com a família do marquês. Agora ele tem acesso à alta sociedade, aos ambientes cheios de pompas e pessoas de grande influência, o que, de início o vislumbra, devido à sua ambição, mas isso de nada adianta porque as pessoas ainda o veem como um mero plebeu por causa de suas origens. O jovem aprende, da forma mais dura, os mecanismos de hipocrisia da elite, os quais jamais possibilitarão que alguém capaz como ele possa ascender socialmente. Mas também se pode observar uma contradição no rapaz: ele odeia a classe alta, mas quer pertencer a ela. Certo dia, Julien é levado a uma reunião secreta e é enviado em uma perigosa missão secreta, na qual leva uma carta política a um destinatário desconhecido, mas mal sabe ele que se trata de uma conspiração, pondo em risco sua vida.
Além disso, Julien desenvolve uma paixão pela filha do marquês, a qual também começa a nutrir certo interesse por ele, mas tem suas ressalvas por ele pertencer a uma classe social inferior. Entre altos e baixos, encontros e desencontros, seduções e rejeições, Julien segue os conselhos de um conhecido russo a fim de tentar conquistar de vez o coração de Mathilde. Quando o plano enfim parece estar dando certo, ela fica grávida dele e ele acaba caindo nas graças do marquês, pronto a receber propriedade, título de nobreza e um posto no exército, o pai da moça recebe uma carta da senhora Rênal, antiga amante de Julien, denunciando como um oportunista, um rapaz que seduz mulheres ingênuas. Inconformado com isso, Julien vai À procura da ex-amante e atira nela dentro da igreja, durante a missa. A partir daí, segue-se sua prisão e condenação enquanto alguns dos amigos que fez durante todo esse tempo tentar salvar sua vida e anular sua condenação. Sua amada, Mathilde, visita-o com frequência na prisão, demonstrando não querer desistir dele; porém, para a surpresa do leitor, ele acaba se cansando disso. Isso porque, em poucos dias, ele recebe a visita de sua vítima, que escapou ao atentado e revela que ainda o ama. Ele, então, descobre, no fim das contas, que ela é seu verdadeiro amor.
Meu caro leitor, o que vai acontecer daqui para frente já não vai nos trazer surpresa alguma, até porque é a consequência previsível do que acontece com alguém não pertencente à alta sociedade (basta-nos recordar a sina de outro cidadão francês: Valjean) tantas vezes no sistema judiciário. Claro que não posso isentar Julien de sua ação homicida, pois não há como justificar o ato de tirar a vida de alguém. Não há mesmo. Lembrando que, em enredos românticos como esse, são comuns os crimes ditos passionais, nos quais a razão abandona de vez o ser humano e a paixão o torna um trem desgovernado como se diz naquela canção eternizada na voz de Orlando Silva: “O coração tem razões / Que a própria razão desconhece”. O romance também tem seu tom realista ao revelar o adultério como uma prática comum da sociedade, ignorando qualquer argumento, justificada pelo desejo de uma vida mais emocionante e a vivência do amor como uma aventura a se experimentar.
Um aspecto que não deixa de ser importante é a ambição do protagonista, que procurava ascender socialmente, acreditando que ali encontraria a felicidade que buscava. Entretanto, apesar de seus atributos como a inteligência e a beleza, sempre teve tudo isso praticamente ignorado em detrimento de sua origem humilde, não trazendo a ele a realização pessoal (mesmo drama acontecido ao personagem Eugênio no mais famoso romance de Érico Veríssimo). Outro aspecto que não podemos deixar de observar, nas duas pretendentes, a falta de amor próprio, que as leva a se humilharem diante de um homem que procurou se aproveitar delas e, inclusive, usá-las como escada social. Isso sem contar que uma delas quase foi morta por ele a tiros. Ambas o visitam na prisão sabendo da presença da outra no coração de seu amado, mesmo assim dispostas a dar-lhe seu perdão devido ao medo de ficarem sem ele para sempre, como se a felicidade delas dependesse exclusivamente dele. Entendo que, no fim das contas, faltou, a ele e a elas, uma boa dose de amor próprio para poder norteá-los em sua procura. Não é à toa que o homem mais sábio que já passou por essa terra disse-nos para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Ah, como ele sabia das coisas. Ele entendia que não pode ser possível amar alguém verdadeiramente se não amarmos a nós primeiramente. Que em nossa busca eterna pela felicidade não percamos, no meio do caminho, o amor por nós mesmos. Até a próxima.
STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016.
Foto cedida pela autora Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o grande prazer de receber a escritora e artista plástica Roseli Farias ...