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segunda-feira, 25 de maio de 2026

A ETERNA CRIANÇA PERDIDA DENTRO DO HOMEM

Crédito: Felipe Campos (FLICKR)

 “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”

                 Seja bem-vindo, mais uma vez, caro leitor, ao mundo da imaginação. Sim, a literatura é o universo onde o céu é o limite. Falamos em céu, porque, quem dentre nós, para sermos bem sinceros, quando criança, nunca teve, ao menos uma vez (eu confesso que por muitas) o desejo de voar, fosse com aquela toalha que pegou escondido da mãe para fazer capa de super-herói (inclusive por que será que a habilidade de voar era a mais admirada em nossa geração?) ou montando uma nave na sala de casa, com cadeiras e outras parafernálias, para explorar o universo? Acontece que, após uma sequência de viagens permeadas por conflitos sociais, escolhi para nós, hoje, um roteiro mais suave. Possamos nós, agora, deixar a França e sua revolução, para nos dirigirmos até o ano de 1943. Para onde? Para o deserto do Saara. Olha só que viagem exótica, hein! E você pode perguntar: o que há para se ver lá além desse imenso oceano de areia? Ah, caro leitor, a literatura é capaz de realizar os fenômenos mais surpreendentes aos olhos humanos. Prepare-se para um encontro com a magia que, aliás, no mundo da literatura não funciona como o oposto da realidade, mas sim, como um complemento mais que necessário. E como não poderia faltar, aqui vai a nossa “playlist” de hoje: a trilha sonora da animação “O pequeno príncipe” feita para o filme de 2015, composta por Hans Zimmer e Richard Harvey.

                   Após uma pane em seu avião, um piloto faz um pouso forçado no referido deserto e, ao acordar do acidente sofrido, encontra um menino de cabelos de ouro e cachecol amarelo, que lhe pede um desenho. Cabe lembrar que nosso aviador, quando criança, desejava ser pintor, mas fora desencorajado pela falta de sensibilidade dos adultos. A partir daí, vai surgindo uma inesperada amizade, com base nos relatos de ambos para se conhecerem melhor. O piloto descobre que o rapaz à sua frente é um principezinho de um asteroide chamado B-612, que possui três vulcões (um extinto), uma rosa e alguns baobás. Essa rosa (A rosa vermelha) tomará boa parte da narrativa do menino, explicando o relacionamento que existe entre eles e a série de exigências que a mesma lhe fazia o tempo todo. Aí surge uma das frases maravilhosas embutidas nessa narrativa, quando o piloto diz a ele: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Muito interessado pela história do menino, o aviador ouve atentamente como foi sua viagem, curioso por saber como ele chegou aqui à Terra.

                O príncipe narra sua passagem por diversos asteroides, todos eles, assim como o seu, com apenas um morador, os quais não possuem um nome, contudo são reconhecidos ou nomeados pelo ofício que exercem em cada um deles. Tratam-se todos de adultos, completamente imersos em seus próprios “mundos”. Dentre eles, podemos citar o rei, para o qual “todos os demais são súditos”. Ele oferece um cargo ao príncipe, que não vê nenhum sentido e parte. Em outro planeta, encontra o vaidoso, tenta até uma conversa. “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios”. Um pouco mais adiante, encontra o beberrão, o qual admite que bebe para esquecer a vergonha que tem de beber. Depois encontra o acendedor de lampiões, que os acende e apaga constantemente, embora não saiba do sentido que tenha, mas o faz somente porque assim diz o regulamento.

                Ao passar por cada local, o jovenzinho leva consigo uma lição em forma de reflexão e questionamento, acerca da forma adulta de se ver a vida e de vivê-la. Em um dos asteroides, o geógrafo fala a ele sobre um planeta chamado Terra, um lugar repleto de gente, o que muito interessa ao principezinho, que parte para lá. É na Terra que ele conhecerá a mais cativante das personagens (opinião puramente minha, caro leitor): a raposa. Eles vão discutir sobre o valor da amizade, do amor e, sobretudo da responsabilidade que temos uns para com os outros, como em uma das mais célebres frases do livro: “Tu te tornas inteiramente responsável por aquilo que cativas”.

                O livro “O pequeno príncipe” é visto como um livro infanto-juvenil por alguns, infantil para outros, mas, para mim, caro leitor, essa classificação, quando se trata de um clássico, não faz a menor diferença ou até mesmo importância. E por quê? Porque este livro, em minha humilde opinião de mero leitor (mas apaixonado pela leitura) fala alto ao adulto e nos chama a atenção para uma viagem ao nosso íntimo. Para mim, é como se ele perguntasse a cada adulto: “O que você fez com aquela criança que foi um dia?” Aí vem a questão: muitas vezes, em nossa cultura, ouvimos frases como “deixa de ser criança”, “você não é mais criança”, como se elas representassem tão somente a imaturidade e a inocência. Durante sua viagem, o príncipe encontra adultos que viraram reféns de uma vida rasa, superficial, repleta de suas mais absurdas ambições. Em quase todos os asteroides, elas são sozinhas, como ele próprio diz: “As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. Fechamo-nos, caro leitor, em nossos mundinhos particulares que, como os asteroides visitados, não têm espaço para mais ninguém.

                A criança representa o encantamento pela vida, em suas manifestações mais simples, mantendo sua sensibilidade aberta ao espetáculo da existência. Como também podemos encontrar na fala da raposa: “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Muitos perderam esse olhar e seguem não mais vivendo, apenas existindo. E por que não dizer que alguns “vegetam” por aí, como pepinos ambulantes? Muitos, com medo de sair da sua zona de conforto, trancaram (infelizmente) a porta do seu coração porque “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas esquece sempre os benefícios de um amor sincero e pleno. Sabemos que certas experiências acabam nos deixando marcas profundas, verdadeiras cicatrizes emocionais, porém o sábio principezinho nos lembra de que “é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou”. As crianças também sofrem, mas se abrem a novas vivências. E o que as move? Acredito que a esperança ou até mesmo a confiança de que tudo pode ser diferente. Talvez, quando nos tornamos adultos, parece que perdemos essa insistência (que às vezes até nos irrita) que a criança tem para conseguir o que quer. Acho que passamos a desistir de nossos sonhos muito mais facilmente. “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”. Falta-nos a paciência (do adulto) e a expectativa (da criança). Passamos, então, a buscar o caminho mais fácil para tudo, esquecendo-nos de que a recompensa é proporcional ao tamanho do desafio.

                Poderia aqui citar ainda uma imensidade de trechos dessa fantástica obra que fala ao coração do homem e que busca encontrar, lá dentro, uma centelha daquela criança que ele já foi. Não, caro leitor, jamais retornaremos àquela doce inocência. Isso é um preço pago por atingir a maturidade. Entretanto, o encanto pela vida e o verdadeiro valor das coisas que realmente importam para se poder viver de verdade, esse ainda pode ser resgatado. Que possamos olhar o mundo com a responsabilidade do adulto, todavia sem perder, jamais, o encantamento da criança. Que possamos aprender mais com elas, com seu jeito simples de enxergar a vida e de dar sentido a ela, terminando com um trecho de um poema de William Wordsworth: “Meu coração salta quando vejo / Um arco-íris no céu: / Assim era quando minha vida começou; / Assim é agora que sou um homem; / Assim seja quando eu envelhecer, / Ou me deixe morrer! / A Criança é pai do Homem”. Até a próxima.

 SAINT-EXUPÉRY. Antoine. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.    


sexta-feira, 22 de maio de 2026

CORDEL DA RESISTÊNCIA

Crédito: Stein Egil Liland (PEXELS)

 

Eu vim aqui pra dizer

Que é preciso resistir.

Sei que a luta não é fácil,

Mas não pode desistir.

Não jogue ainda a toalha,

Não é o fim da batalha,

Pois é hora de insistir.

 

Levanta a sua cabeça,

Você não está sozinho.

Sempre alguém te estende a mão

Bem ao longo do caminho.

Não se deixe esmorecer,

Siga em frente pra vencer.

Falta só mais um pouquinho.

 

Não importa que essa noite

Pareça a ti mais escura,

Por mais longa que ela seja,

Por tanto tempo não dura.

A esperança não é vã,

Pois o sol, pela manhã,

Faz valer sua luz pura.

 

Não deixe de acreditar

No outro, em ti ou em Deus.

Nem abandone jamais

Um sonho sequer dos seus.

Segure-os por entre os dedos,

Encare todos os medos

E à pequenez diga adeus.

 

Eu sei que você consegue

Pois só de você depende

Verdadeiro vencedor

É quem nunca enfim se rende.

Não se importa com tropeços,

Porque há sempre recomeços,

E com os erros se aprende.

 

Não se esqueça que essa estrada

É cercada de beleza.

De repente, em qualquer curva,

Nos reserva uma surpresa.

Traga os olhos bem abertos

E seus instintos despertos

Pra não perder tal grandeza.

 

Por último, o que eu te digo,

Mas não menos importante:

Na vida jamais recue

Nem um mísero instante.

Siga de cabeça erguida,

Na estrada longa da vida

Caminhe sempre adiante.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

O REINO ENCANTADO DE KANTHAR (FEVEREIRO 2026)

Criado por IA

TEMA

As histórias de aventuras sempre foram muito comuns desde o século XIX, figurando entre os diversos romances. Também eram bem frequentes, entre os clássicos universais, as aventuras que tinham crianças e jovens no papel de protagonista como “As aventuras de Tom Sawyer”, “O livro da selva” entre tantos outros. No Brasil, personagens como Xisto (da histórica Coleção Vaga-Lume) povoaram o imaginário das crianças e jovens. Mas o que dizer das narrativas clássicas, que envolviam outros mundos, como “As crônicas de Nárnia”? Foi inspirado nesses heróis e universos que surgiu a ideia para esse cordel. Aliado a isso, o desejo comum a toda criança que sonha ser herói, em especial, quando essa criança vive em condições especiais. Todos esses elementos juntos foram considerados oportunos para um grande enredo.

SINOPSE

Pedrinho é um menino que vive mal humorado e muito triste devido à condição em que se encontra: por causa de um problema extremamente grave nas pernas, nunca conseguiu andar e vive preso a uma cadeira de rodas. Apesar da dedicação exemplar de seus pais para com ele e mesmo com todos os recursos financeiros de que seu pai dispõe, não deixando faltar nada ao filho, proporcionando a ele o bom e o melhor que se pode oferecer, Pedrinho jamais se sentiu feliz. Todos os médicos foram consultados e nada mais poder feito pelo garoto. Como uma última tentativa, os pais resolvem mudar de ares e levar o menino para uma linda fazenda que possuem, à qual nunca o levaram por ser muito distante e não possuir o conforto de que ele necessitava. Pedrinho nem imagina que está prestes a viver uma experiência mágica que vai transformar sua vida para sempre.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

MAIS UMA VEZ

Crédito: Stockcake.com

Se eu te visse mais uma vez

Correria de imediato ao teu encontro

Prostraria de joelhos aos teus pés

Pedindo mil perdões por minha insensatez.


Se eu te ouvisse mais uma vez

Prestaria toda a atenção do mundo

Observaria cada movimento dos teus lábios

Sendo o fiel confidente que negligenciei.


Se eu te abraçasse mais uma vez

Prenderia bem forte entre meus braços

Imploraria para que não partisse

Confessando ser só teu para todo sempre.


Se eu te beijasse mais uma vez

Colaria minha boca em teus lábios quentes

Entregaria todo o meu carinho e afeto

Jurando não te abandonar jamais.


Se eu te abandonasse mais uma vez

Desejaria padecer nas profundezas do inferno

Sofreria os mais insuportáveis tormentos

Merecendo a morte por ignorar o paraíso.

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

A EPIDEMIA DA DESIGUALDADE SOCIAL

Crédito: Petit Gervais (PYCRIL) 

 “Ensine aos ignorantes tanto quanto puder; a sociedade é culpada por não prover educação universal gratuita, e deve responder pela escuridão que produz. Se uma alma é deixada na escuridão, pecados serão cometidos. E a responsabilidade não é de quem comete o pecado, mas daqueles que causam a escuridão.”

                 Saudações, caro leitor. Espero que esteja preparado para mais uma jornada cheia de empolgação e agradáveis surpresas (porque as desagradáveis a vida já cuida de nos oferecer cotidianamente). Falando em viagem, deixemos a Inglaterra, novamente, mas não iremos muito longe desta vez, pois vamos nos dirigir às imediações, mais precisamente à nação francesa, no ano de 1862, porém, como já é de praxe, daí pegaremos o túnel do tempo para nos encontrarmos em 1815, período após a Revolução Francesa. É, caro amigo, como você já deve ter imaginado: hoje faremos um passeio histórico. Para tanto, vou dar o seguinte conselho: dar às costas à História é como ignorar as advertências da própria mãe e, depois, ter que ouvir da mesma, a velha frase: “eu bem que te avisei”. Vamos, então, acessar a nossa playlist para viagens, desta vez ouvindo o Hino Nacional da França, também conhecido como “A Marselhesa”, composto inclusive como uma canção revolucionária, em 1792.

                Em meio aos turbulentos acontecimentos diretamente derivados da citada revolução, encontraremos nosso protagonista, Jean Valjean, um homem de bom coração que ficou órfão ainda bem pequeno e que acaba sendo criado pela irmã mais velha. O tempo passa e quando a irmã, agora com sete filhos, fica viúva, Valjean se põe a ajudar a família como pode. Mas, para piorar a situação, ele perde seu emprego, única fonte de sustento para todos eles. A situação de sua família não se trata de uma exceção, porém quase uma regra da normalidade. O país vive um quadro de desigualdade medonho. No extremo da necessidade, sem qualquer tostão no bolso, Valjean acaba por furtar um pão, contudo é pego e condenado por seu crime a realizar trabalhos forçados (fico me perguntando quanto tempo seria necessário para pagar um simples e mísero pão). Ao tentar fugir de tal condição, recebe como punição uma pena de dezenove anos, os quais são rigorosamente cumpridos, e ele enfim é solto. Só que tem que carregar com ele uma folha amarela, que deve apresentar como sua identidade a todo lugar, como se fosse marcado com um selo de ex-detento.

                Mesmo após pagar (e muito caro, diga-se de passagem) por seu delito, esse homem vive uma vida de medo, pois o passado o persegue, como se ele não tivesse quitado a sua dívida com a sociedade. Não importa o que ele faça daqui em diante, o seu passado para sempre o condenará e todos continuarão vendo-o tal qual um marginal qualquer. Isso o faz mudar de nome, como se bastasse para remover dele a marca que lhe fizeram. Nosso herói tenta, de toda forma, tornar-se uma pessoa melhor, deparando-se sempre com a miséria e a injustiça em seu caminho, fora o fantasma do passado, que insiste em bater à sua porta constantemente. Vai trabalhar em uma fábrica, acaba solidarizando-se com a situação precária de outras pessoas e tenta buscar um espaço nesse mundo, que tem muita dificuldade em aceitá-lo, uma sociedade que prefere punir a orientar, aproveitando-se de uma frase do filósofo Foucault em seu livro Vigiar e punir: “As prisões não diminuem a taxa de criminalidade: pode-se aumentá-las, multiplicá-las ou transformá-las, a quantidade de crimes e de criminosos permanece estável, ou, ainda pior, aumenta (...) a prisão, consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos”. O que a prisão contribuiu para a transformação de Valjean, caro leitor? Definitivamente nada.

                Nesta nossa viagem de hoje, ficam-me duas conclusões que perpassam o caráter atemporal dessa obra-prima de Victor Hugo (quantos que não têm esse nome mal o sabem que é em homenagem a esse vulto da literatura universal). “Os miseráveis” nos mostra, primeiro, uma sociedade desigual por culpa de um Estado que não cumpre o seu papel básico: governar para o povo. E quando digo: povo, caro leitor, não é de forma específica não (quero avisar que não sou populista), é genérica mesmo: isso quer dizer todas as pessoas, sem qualquer tipo de exclusão. É garantir a todo mundo: educação, saúde, saneamento, prerrogativas que, em nosso país, ainda são vistas como certo privilégio, não como direitos irrevogáveis do ser humano. Para que ninguém fique confuso, quero esclarecer que não falo de assistencialismo, como quem joga uma moeda a um pedinte. Não, caro leitor, falo de direitos que estão previstos como retorno dos onerosos tributos que pagamos todos os anos. Nosso Estado adora falar de deveres em suas leis, mas nossos direitos estão sendo cada vez menos garantidos. Também não pense que estou falando deste ou daquele governo, mas de todos eles.

                Em segundo, toca-me fundo a questão da justiça. Agora, como diziam os antigos para que “não se confunda alhos com bugalhos” desejo deixar claro que não sou a favor da impunidade. De forma alguma. Veja o que essa besta feroz tem provocado em nossa sociedade com o passar dos tempos. Apenas acho que nossos sistemas judiciário e prisional não funcionam há muito tempo (na verdade não sei se já tiveram êxito real). Prendem-se, numa mesma cela, um ladrão de galinhas e um homicida. Qual a perspectiva de melhora? Mas aí alguém me diz que eles devem ser isolados do convívio da sociedade. E eu vos pergunto: quantos presídios mais precisaremos construir? Eles mal são inaugurados e já sofrem de superlotação. Você não acha que tem algo de errado com o sistema? Não se fala em recuperação, só em punição. Acontece que tal método não tem diminuído o número de infrações.

                Há tempos se encontra em voga, em nossa sociedade, a palavra meritocracia. Confesso que acho um tanto quanto complicado levar a isso a sério em uma sociedade como a nossa, na qual se constroem mais cadeias que escolas, em que o custo de um único preso daria para manter três alunos. Em que o dinheiro pode pagar por profissionais mais gabaritados e experientes, como podemos concluir facilmente pelos grandes julgamentos e processo envolvendo grandes montantes. Como diria o escritor latino Ovídio, para aquele momento erudito de nossa coluna, em que posso tirar um pouco da ferrugem do meu latim: “Cura pauperibus clausa est” (O tribunal está fechado para os pobres). Novamente, quero fazer-me entender que não estou dizendo que a justiça é comprada (se bem que há certos casos), contudo que ambas as partes não possuem os mesmos recursos. Se isto não for desigualdade, o que seria? E, se existe desigualdade, portanto, ocorre injustiça.

                Chegando ao fim de nossa viagem, amante que sou da cultura popular (cabe lembrar que tal nomenclatura não a classifica como inferior à clássica) quero traduzir a frase do célebre Ovídio para a sabedoria popular por meio dos versos de uma música sertaneja: “Eta, espinheira danada / Que o pobre atravessa pra sobreviver / Vive com a carga nas costas / E as dores que sente não pode dizer / Sonha com as belas promessas / Da gente importante que tem ao redor / Quando entrar o fulano / Sair o ciclano será bem melhor / Mas entra ano e sai ano / E o tal de fulano ainda é pior / Esse é meu cotidiano / Mas eu não me dano pois Deus é maior”. Caro leitor, termino a viagem de hoje desejando que a fé e a razão nos guiem a uma sociedade mais justa e mais coerente. Até a próxima.

HUGO, Victor Marie. Os miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2014.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

NO RUMO CERTO

Crédito: Igor Alves (PEXELS)

Recolhe as pedras que te foram atiradas,

Darão um belo alicerce para teu castelo

Os deboches e zombarias lançadas

Serão os degraus a conduzir-te à vitória.


Se provocações ferinas chegarem a incomodar,

Ergue a cabeça, encara os agressores,

A fim de que fitem os teus olhos

Para verem neles o brilho certo da superioridade

E segue a tua estrada, sempre em frente.


Não te importe com as maledicências às costas...

Elas se encontram no exato lugar a elas destinado:

Para trás, em direção ao passado e ao esquecimento

E devem ser deixadas no arquivo morto.


Não te preocupe em contar os teus passos

Muito menos em medir o quanto falta para chegar,

Se aos olhos alheios agrada fazê-lo por ti,

Deixa-os, eles têm tempo para tais mesquinharias

Ao passo que tens coisas mais importantes a fazer...


Tens um mundo todo ao teu alcance

Pronto, à espera de ser conquistado pelos bravos,

Por isso, respira fundo, arregaça as mangas e parte

Rumo ao futuro, pois as realizações te aguardam...

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A HUMANIDADE CUJA EVOLUÇÃO NÃO ACOMPANHA A TECNOLOGIA

 

Crédito: World History Enciclopedia

“O homem se dispusera a viver uma vida de tranquilidade e deleite explorando o trabalho duro de seus semelhantes. O homem usou o conceito de Necessidade como seu lema e sua desculpa, e agora a Necessidade se voltara contra ele”.

                 Bem-aventurado seja você, caro leitor, por poder estar aqui, junto comigo, em mais uma jornada pelo fascinante universo da literatura. E por que digo isso? Porque posso afirmar (sem qualquer receio) que aqueles os quais nunca leram um livro, com certeza perderam a oportunidade de fazer uma inesquecível viagem ao mundo da imaginação. E, falando em viagem, posso dizer que a de hoje será a mais pitoresca (adoro esse vocábulo) que já realizamos aqui nesse espaço (até agora). Sem mais delongas, vamos preparar para embarcar, mas, desta vez, não em um barco, em um avião ou até mesmo em uma nave especial, mas, sim, em uma máquina do tempo. Não, caro leitor, você não entendeu errado. Hoje faremos uma viagem temporal. Acessemos a nossa “playlist” de viagem com o tema principal da trilha sonora de composição de Klaus Badelt para o filme “A máquina do tempo” (2002) dirigido por Simon Wells e, sem sairmos da melancólica Londres (afinal de contas, desta vez, o espaço é um mero coadjuvante), no ano de 1895, vamos até a residência de um cientista.

                    Nosso protagonista (cujo nome não é revelado) é conhecido e tratado pelo narrador como “Viajante do tempo”. Em uma reunião em sua casa, ele garante que a viagem ao tempo não é mais uma possibilidade, mas um fato que será, em breve, provado aos distintos senhores. Por meio de uma série de cálculos matemáticos e fórmulas de física (poupemo-nos dos detalhes), ele diz ter chegado a uma resposta. Ele utiliza como demonstração uma miniatura da máquina, que chega a desaparecer diante dos olhos curiosos dos presentes, que custam a acreditar. Ele os convoca para uma nova reunião. Quando eles chegam a sua residência, encontram-no em um estado deplorável, ferido e quase irreconhecível. Aqui começa o relato de sua viagem, que é a nossa trama literária. Sua viagem começa no século LXXX, quando ele encontra sobre a terra uma raça humana conhecida como Elois. O lugar em que eles habitam é descrito como um verdadeiro paraíso, com um cenário encantador. Essas pessoas são extremamente pacíficas, vivem em sociedade de forma harmoniosa, buscando um modo de vida pautado no equilíbrio. Eles não precisam trabalhar, alimentam-se somente dos frutos que as arvores lhes fornecem. Essa visão positiva do futuro da raça humana dura tão pouco para nosso viajante quando, mais tarde, ele vem a saber que existe uma outra raça vivente: a dos Morlocks, que destoa, em todos os aspectos, dos Elois. Eles vivem abaixo da terra, na mais completa escuridão, locomovendo-se por meio de túneis. O ar lá embaixo é por demais pesado, pois não se renova como acima da superfície, por isso apresenta um odor nauseante. Eles não toleram a luz do sol, portanto só saem para a superfície em noites sem grande incidência de luar. O que eles fazem quando saem, querido leitor? Caçam os Elois porque se alimentam da carne deles.

                    O viajante fica horrorizado com tal realidade e acaba por ser raptado por eles, mas acaba sendo salvo por Weena, uma Eloi que, infelizmente, sacrifica-se pela liberdade dele e acaba morrendo nas mãos deles. Ele consegue, no último momento, fugir daquela época e se dirige, por duas vezes, a milhares de anos adiante, encontrando um planeta cada vez mais devastado e deserto, sem qualquer presença de vida, seja humana ou de qualquer outro ser. Esse pretenso tema da viagem no tempo e sua possibilidade sempre fascinou a humanidade, sendo grande fonte de inspiração para muitas histórias e teorias das mais diversas, inclusive dois filmes homônimos (1960 e 2002), sendo o último uma adaptação curiosa em que a máquina é criada pelo inventor para evitar a morte da amada, que foi atropelada, mas, toda vez que a salva, ela acaba morrendo por outra causa logo depois. Porém, quando li a obra, fiquei um tanto curioso quanto ao fato de o escritor escolher o futuro em detrimento do passado. Eu era um jovem e confesso que não entendia muita coisa. Você, caro leitor, que também já foi debutante, há de me entender, não é mesmo?

                Após algumas reflexões, compreendi (ah! a doce e fresca inocência) que nosso ilustre H. G. Wells queria fazer uma crítica ao comportamento humano e que a máquina era só um pretexto. Vida que segue, não é? O nobre escritor chamava a atenção para a dimensão que a revolução industrial estava tomando, portanto, não via com bons olhos o avanço tecnológico que seguia apartado do desenvolvimento humano: um mundo com mais máquinas e menos humanidade. O que ele diria, caro leitor, se acaso pudesse contemplar o mundo em que vivemos hoje? Teria a triste confirmação de estar certo. Se Wells assistisse ao filme “Tempos modernos” do gênio Charles Chaplin, sentiria o arrependimento de tanta convicção. A antológica cena do operário devorado pelas engrenagens mostra um homem à mercê do progresso. “E que progresso?” Você pode me perguntar. Aquele que não contempla a humanidade como um todo, mas que a divide em exploradores e explorados. Mesmo milhares de anos depois, o viajante continua a presenciar um mundo dividido nessas duas distintas classes.

                Entretanto, o autor não para por aí com seus presságios. A obra aponta para o poder destrutivo da humanidade, como uma mensagem ao homem de sua época que, conforme Wells, se não contiver sua ânsia desmesurada por riquezas, vai cavar a própria cova. Não é à toa, caro leitor, que presenciamos a diversos filmes, ao longo da história do cinema, os quais usavam como tema ou pano de fundo, o mundo pós-apocalíptico, tais como “Mad Max”, “Filhos da esperança”, “O dia seguinte”, “Waterworld”, entre tantos (sem contar aqueles de zumbis). Diante disso, eu me pergunto e pergunto também a você: “O quanto de fictício existe na ficção?” Confesso que tenho receio de responder quanto ao futuro. Apesar dos inúmeros apelos populares, estudos científicos e militâncias verdes espalhadas pelo mundo, engajamentos de celebridades pela nobre causa, o dinheiro ainda fala mais alto e a ganância mostra-se uma fera de apetite voraz e insaciável.

                Como diz um velho ditado indígena: “Não herdamos a terra de nossos pais, mas a emprestamos de nossos filhos”. Que mundo deixaremos a eles? Essa visão, para mim, parece a cada dia mais turva, mais sombria. Sei que não posso generalizar, mas, pouco a pouco, a tecnologia rouba uma fagulha de nossa humanidade. O homem, fascinado pelo progresso, como num trecho do poema de Álvaro de Campos: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina! / Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”, deixou de apaixonar-se pela própria humanidade, trocando seu encanto pelo outro por conquistas materiais. Resta-nos, caro leitor, acreditar que, talvez, as futuras gerações (nossos filhos e netos) possam adotar um olhar diferente para os dias que virão. Que a tecnologia veio para ficar, disso eu já estou ciente. Jamais me posicionei contra ela, mas penso que seu lugar na hierarquia das prioridades humanas está bem equivocado. Ainda prezo pela evolução humana, flertando com ideias como o autoconhecimento e a inteligência emocional. Como disse o sábio Mahatma Gandhi: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”. Que possamos trocar nossa avidez por riquezas pela sede de justiça e por um mundo em que um homem não tenha mais do que possa carregar a fim de que tantos outros não fiquem de mãos abanando. Até a próxima.

WELLS, H. G. A máquina do tempo. São Paulo: Darkside Books, 2021.


A ETERNA CRIANÇA PERDIDA DENTRO DO HOMEM

Crédito: Felipe Campos (FLICKR)   “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”                   Seja b...