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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

EXTRÍNSECA

Crédito: Arlind D (PEXELS)

 

Para encontrar a verdade, antes de tudo,

Precisa tirar os olhos de si

Eliminar a estúpida pretensão mortal

De que se tem sempre todas as respostas

Superar o complexo de autossuficiência.


Curar o estado de espírito de superioridade

Após altas doses de realidade nua e crua.

Quem se constitui mestre de si mesmo

Nomeia a tolice como guru espiritual

E conduz os passos ao abismo da ignorância... 


A ingrata ilusão de se enxergar maior que o mundo

Desperdiça ricas oportunidades de aprendizagem e crescimento

Todo aquele que ignora as preciosas lições de vida

Passa a existência em processo de recuperação contínua.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

CIÚMES

Crédito: RDNE Stock project (PEXELS)

Numa canção de ciúmes sempre existe

Uma nota de amor que se perdeu

De cujo juramento se esqueceu

E um vestígio sutil de posse insiste.


O coração passivo ainda assiste

À vil obsessão que assim nasceu 

E a fria razão não sobreviveu

Mas um frágil limite até resiste.


E o sentimento tão puro de outrora

Não passa mais de uma recordação

Uma velha ilusão que foi embora 


Sonho que se pintou de frustração

E que vive perdido por agora

Mais um triste refém da possessão.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

MENINAS (DIÉVOTCHKI) - LIUDMILA ULÍTSKAIA

Brenda, 30 - assessora jurídica

“No fundo, era um amor feliz, não exigia nada para si, e nem mesmo a ideia de servi-lo ocorreu a Kolivânova; e como poderia servir sua divindade a pequena Kolivânova, que não tinha na alma nada além de um vago enlevo?”

O livro Meninas, da autora Liudmila Ulítskaia, é uma coletânea de seis contos publicada no Brasil pela Editora 34, com a tradução primorosa de Irineu Franco Perpetuo. Foi o melhor livro que li até o momento em 2026 e, sem dúvida, um dos mais marcantes em que me debrucei nos últimos tempos.

A obra fala sobre o feminino, a dor intrínseca que a mulher carrega consigo desde a mais tenra infância, o conhecimento único repassado de mãe para filha (muitas vezes moldado pelo próprio silêncio ensinado às mulheres) e o medo, até mesmo daquilo que deveria ser fonte de prazer.

Mas antes de adentrar na obra propriamente dita, vale ressaltar a trajetória da autora, cuja biografia e coragem impressionam. 

Liudmila Evguênieva Ulítskaia nasceu em 1943 em Davliekánovo, na região dos Montes Urais (atualmente República do Bascortostão). Sua família, composta por cientistas, foi deslocada à força para lá nos anos 1930 em decorrência das campanhas antissemitas stalinistas. Mais tarde, em Moscou, Ulítskaia formou-se em genética e bioquímica. Entre 1979 e 1982, atuou como consultora literária do Teatro Judaico de Música de Câmara (KEMT) e, nos anos seguintes, escreveu ensaios, peças infantis, dramatizações para rádio e realizou revisões e traduções de poesia.

Começou a publicar ficção apenas no final dos anos 1980, época em que também escreveu roteiros de cinema. Em 1992, publicou a novela Sônietchka, com a qual alcançou reconhecimento internacional. Desde então, além de publicar mais de uma dúzia de livros traduzidos para mais de vinte idiomas, tornou-se conhecida por seu firme ativismo político e cultural.

Para quem se apega ao prestígio das premiações, a trajetória de Ulítskaia é incontestável: foi a primeira mulher a receber o Russian Booker Prize; em 1996, recebeu o prêmio francês Prix Médicis Étranger por Sônietchka; foi indicada cinco vezes ao prêmio Russki Buker; em 2011, recebeu o Prix Simone de Beauvoir pour la Liberté des Femmes; e figura recorrentemente entre os nomes cotados para o Nobel de Literatura.

A escrita de Ulítskaia, segundo Irineu Franco Perpetuo, aproxima-se da sutileza e da elegância de Ivan Turguêniev. E, por mais curioso que pareça, ela não é fã de Dostoiévski, e prefere Puchkin e Tolstói. 

Apaixonei-me pela escritora ao descobrir que ela perdeu um promissor emprego como geneticista por ajudar na distribuição de publicações clandestinas na era soviética. Não fosse essa coragem política, ela ainda aborda temas densos e historicamente tidos como tabus: a menarca, a homossexualidade, o peso de ser mulher, sem jamais abandonar o denso pano de fundo histórico e social.

Pois bem. A primeira obra de Ulítskaia lançada no Brasil, a coletânea “Meninas”, reúne seis contos que formam um ciclo de histórias ambientados em Moscou no período próximo à morte de Stálin, em 1953.

Os contos são protagonizados por meninas de 9 a 11 anos de idade, que aparecem e reaparecem na peculiar sequência das narrativas: 

“A dádiva prodigiosa”: Um grupo de escoteiras segue no encalço de uma mulher sem braços que bordou um retrato de Stálin com os pés. Uma premissa aparentemente simples, mas que expõe, sem rodeios, a atmosfera sufocante daquele período.

“Filhas de outro”: O silêncio guardado para proteger "boas novas" faz com que o marido recém-chegado da guerra conclua que a esposa engravidou de outro. De onde surge tal suspeita? Seria o rastro do trauma da guerra? E o que dizer desse silêncio resignado da mulher russa, mantido mesmo quando nada cometeu? Aqui, a escrita forte, simples e visceral da autora se revela em trechos inesquecíveis:

“Os fatos são os seguintes: primeiro nasceu Gayané, sem causar à mãe nenhum sofrimento acima do esperado. Quinze minutos depois, veio ao mundo Viktória, provocando duas grandes lacerações e muitos pequenos estragos nos portões sagrados, pelos quais é tão doce e fácil entrar, mas tão difícil e doloroso sair.” (Como você reescreveria a laceração no parto com tanta praticidade e sutileza? Não consigo imaginar. É um domínio estético impressionante).

“A enjeitada”: Um conflito entre gêmeas que se desenrola como uma fascinante releitura contemporânea da história bíblica de Esaú e Jacó.

“No dia 2 de março daquele mesmo ano”: O meu conto favorito. Aborda a menarca e a forma como as transformações hormonais nos fazem agir de maneira estranha até para nós mesmas. Mostra a dor visceral desse rito de passagem que, dentro da menina, parece mortal, mas para o mundo exterior não passa de um detalhe invisível diante de outros “grandes eventos”. A leitura me fez comparar a perspectiva feminina da autora com a visão masculina clássica. Vocês se recordam de como a primeira menstruação de Pombinha em O Cortiço é retratada quase como uma bênção divina e festiva? Qual dessas visões traduz a realidade crua da experiência feminina?

“Catapora”: As personagens se reúnem para o aniversário de Aliôna, filha de diplomatas. A partir de uma inocente brincadeira de bonecas, Ulítskaia fala de um tabu infantil, que a primeira vista é bem perturbador. O primeiro contato das meninas com “experiências sexuais”. Talvez pela complexidade do assunto, seja o conto que as pessoas menos gostam no livro. Percebi que há vergonha até em ler sobre.

“A pobre, feliz Kolivânova”: Aqui é sobre os amores platônicos em tenra idade. Bonito, inocente, não pede nada em troca. Quem nunca se apaixonou pelo professor ou professora na infância? É aquela admiração que chega doer os pobres coraçõezinhos. Mas como se trata de um conto da Ulítskaia, coisas interessantes e que explicam determinados pontos polêmicos do conto “Catapora”, são explicados. E mais uma triste realidade de pano de fundo.

Em pouco mais de 160 páginas, Meninas é um achado raro. Seja pela escrita seca, elegante e destemida, seja pelas verdades humanas gravadas nas entrelinhas, é uma obra indispensável.

ULÍTSKAIA, Liudmila. Meninas. São Paulo: Editora 34, 2021.

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

DE REPENTE

Crédito: cottonbro studio

De repente era mentira

O que pensei ser verdade.

E o “felizes para sempre”

Já não passa de saudade.

Agora é pura tristeza

O que foi felicidade.


De repente ficou só

A perfeita companhia

Trocando a bela aventura

Por mera monotonia

E o sorriso de esperança

Tornou-se melancolia.


De repente o grande amante

Não era mais que um amigo

Sobrando imenso deserto

Daquele tremendo abrigo

E o maravilhoso sonho

Resultou em tal castigo.


De repente as nobres juras

Viraram decepção,

Do sonho sobre o futuro

Ficou só a frustração.

O plano de vida a dois

Resultou em solidão.


De repente as mãos unidas

Para sempre se soltaram,

Dos olhos, antes brilhantes,

Muitas lágrimas rolaram.

Aquelas bocas famintas

Por mais nada se beijaram.


De repente a tal certeza

Foi um cruel desengano

E o sentimento sublime

Passou a ser desumano

E o compromisso tão leve

Tornou-se o maior tirano.


De repente o veloz tempo

Por uns instantes parou

E o amanhã promissor

Ah, este jamais chegou.

E aquela convicção

Afinal se equivocou.


De repente escureceu,

Apagou-se a bela luz.

O precioso troféu

Assumiu forma de cruz,

A estrada pro paraíso

Hoje ao calvário conduz.


De repente veio o eclipse

Sobre a lua mais brilhante,

Agora tem tom banal

O que foi emocionante.

Agora se olha pra trás

Não se enxergando adiante.


De repente o trem parou

Antes do fim da viagem,

Cobriu-se de espesso gelo

Aquela linda paisagem.

Ficou-se sem ida ou volta,

Não existe mais passagem.


De repente em preto e branco

Tornou-se o tão colorido,

Desmoronou-se o castelo

Cuidadosamente erguido,

Caiu chuva de granizo

Em nosso jardim florido.


De repente um lindo sonho

Virou coisa do passado,

Uma lembrança em retrato

Claramente desbotado.

De repente assim ficou

Pra sempre tudo acabado. 

 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A FLOR DA PAIXÃO

Crédito: Anurag Jamwal (PEXELS)

 

Clemência peço, senhora,

Por não amar

Tanto quanto merece.


A flor da paixão brotou

Após semear em meu ser.

Agora já não mais cresce!

Seu coração é rosa nobre,

Em meu peito não floresce.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

MÃO ÚNICA

Crédito: Clayton Leite (PEXELS)

Percorro uma estrada de mão única

Onde não se encontra um só acostamento

Qualquer parada é expressamente proibida.


A marcha à ré uma manobra praticamente impossível

Aqui não se permite olhar por sobre os ombros 

Quem decide correr o risco de bruscas freadas

Acaba por sofrer o iminente atropelamento...


As bifurcações exigem instantâneas tomadas de decisões

Tudo se movimenta em constante velocidade

Nada consiste em obstáculo para a passagem do tempo,

Na verdade não resta tempo para mais nada.


A ação é a única forma de resposta imediata

Não há espaço para lembranças nem previsões 

Somente o agora transita por esta via.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

JURAMENTO

Crédito: Rô Acunha (PEXELS)


Quem dera ter em minhas mãos teu rosto

Encarar os teus olhos de esmeralda

Banhada em flores como uma grinalda

De teus lábios maduros ter o gosto.


Provar o doce em tua boca de mel

Afagar teus cabelos sob o vento

Que lhe confere o terno movimento

Tornar-me teu amante mais fiel.


De joelhos jurar-te amor eterno

E não me afastar nem em pensamento

Envolver-te no abraço mais fraterno.


Olhos nos olhos mostrar meu sentimento

Entregar-me do jeito mais que terno

Pra tornar imortal este momento.


EXTRÍNSECA

Crédito: Arlind D (PEXELS)   Para encontrar a verdade, antes de tudo, Precisa tirar os olhos de si Eliminar a estúpida pretensão mortal De q...