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| Crédito: Dawn Hudson (Public Domain Pictures) |
“A pior nota que você pode receber é uma promessa, especialmente quando é confirmada com um juramento; após o qual todo homem se retira e desiste de todas as esperanças”.
Assim sendo, viajemos em companhia
do médico-cirurgião Lemuel Gulliver que, em sua primeira viagem marítima, acaba
por escapar de uma fatalidade, chegando à deriva a uma ilha desconhecida. Ele
acaba adormecendo na praia e, qual não é a sua surpresa, quando, ao acordar,
percebe-se totalmente amarrado e subjugado por um grande bando de homenzinhos
com aproximadamente quinze centímetros de altura. Bem surreal, não? Eles o
temem por seu tamanho, por isso ele se encontra imobilizado. Dizem que ele está
no reino de Lilliput. Convencidos de suas boas intenções, eles acabam por fazer
amizade. Os tais liliputianos, revestidos de exibições de autoridade e poder,
veem no gigante amigo uma ótima possibilidade de tomar o controle sobre a ilha
vizinha (Blefuscu). Gulliver concorda em ajudá-los, mas depois, por não
obedecer a todas as suas ordens, foi submetido a uma punição da qual fugiu.
Em sua segunda viagem, novamente
nosso protagonista acaba, contra a própria vontade, na ilha de Brobdingnag, o
país dos gigantes. Inclusive fico aqui pensando: “Como pode alguém ser tão
azarado assim para viajar de navio”? Lá ele acaba preso por um fazendeiro de 22
metros de altura que passa a exibir nosso herói como um animal raro,
transformando-o em uma grande atração. O excesso de apresentações deixa-o
doente e ele é vendido para a rainha. Depois de algum tempo, consegue novamente
fugir (aliás a vida desse personagem pode ser resumida em dois processos:
abandono e fuga).
Em sua terceira viagem, Gulliver
se encontra na ilha voadora de Laputa, a qual possui um povo bastante evoluído,
versado em artes musicais, astronomia e matemática, porém a fartura de
conhecimento depara-se com uma ausência de prática, pois nenhum desses saberes
resulta em qualquer benefício à sociedade, sendo uma cultura que se esgota em
si mesma. Nosso protagonista deixa a ilha e parte em busca de outras aventuras
por outros cantos desse imenso oceano que, segundo ele, trata-se do Índico.
O livro “As viagens de Gulliver”
foi e ainda é (assim crê este que vos escreve), muitas vezes, tratado como uma
obra para crianças. Ah, caro leitor, não caia nessa! Este é apenas um dos
tantos exemplos de que a literatura vive a pregar peças nos leitores ingênuos
há centenas de anos (como confirmam obras como “A revolução dos bichos” e
“Alice no país das maravilhas” entre tantos outros). Claro que não há nada de
errado em ler para o seu filho ou neto. O encontro com os liliputianos renderá
boas risadas e mexerá tão bem com o imaginário dos pequenos. Contudo, Jonathan
Swift foi muito além disso, pois, como sempre gosto de lembrar aos alunos, eis
a força dos clássicos: eles não se esgotam em simplórias interpretações ou
análises. Por isso sobrevivem ao poder corrosivo do tempo. Não é à toa que se
tornam fontes inesgotáveis de conhecimento. Por que com esse livro seria
diferente? Entretanto, acho que isso você já sabia (ou ao menos desconfiava)
após tantas viagens juntos.
Na verdade, trata-se de não uma,
mas várias jornadas, sempre ao mesmo lugar: o interior do homem. Pelas diversas
ilhas que passa, Gulliver sempre está a explorar a natureza humana, em seu lado
mais obscuro, como aquela face da lua que, por jamais termos visto,
praticamente não fazemos conta de conhecer, todavia continua lá, desde sempre.
Embora em ilhas diferentes, o protagonista frequentemente se depara com a mesma
circunstância: a mesquinharia humana, marcada, entre tantos aspectos, por um
assaz especial – a sede de poder, que a tudo justifica, como diz Caetano Veloso
em uma canção: “Enquanto os homens exercem / Seus podres poderes / Morrer e
matar de fome / De raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais...” Gulliver assiste a uma sede por poder e
riqueza, capaz de cegar qualquer um. Subjugar ao outro, tirar o que está de
posse dele para o benefício ou satisfação próprios parece algo assim banal.
Vemos a todo canto do mundo, nas
mais improváveis nações ou povos, que o homem jamais abre mão de suas ambições,
por mais que, para construir o castelo de seus sonhos, ele tenha que demolir a
tantos outros. É uma narrativa sobre respeito pela vida, sobre nobreza de
coração (não títulos comprados e vazios de mérito) e sobre a dignidade, tantas
vezes invisível aos olhos de muitos os quais se revestem da túnica da
autoridade. Cabe muito bem lembrar aqui que estamos falando de um animal que
escraviza seres da mesma espécie que a sua e ainda os trata como mercadoria
barata. Vemos, ao longo do livro, os motivos mais fúteis para justificar-se uma
guerra, como naquela música do grupo Uns e outros: “Vindo de todas as partes /
Indo pra lugar algum / Assim caminha a raça humana / Se devorando um a um”, sem
contar que certos homens enviam outros para a morte sobre a falácia de que
estarão defendendo a soberania da pátria, que deixarão seus nomes na história,
que sua morte em combate encherá de orgulho todos os seus.
Pode-se perceber que nossa humanidade
não acompanhou o avanço tecnológico, ou seja, não crescemos em empatia,
compreensão, tolerância. Se nossa ciência tanto evoluiu, ainda estamos em nível
primitivo em relação à inteligência emocional. Basta dar um pequeno passeio
pelas redes sociais para ver uma cultura de ódio, preconceito, intolerância e
presunção que chega a dar náuseas em pessoas com um mínimo de sensibilidade. Swift
faz uma crítica política e social à sua época, ao império inglês, em forma de
sátira. Segundo o próprio autor: “quis agredir o mundo, não diverti-lo”, o que
penso que estaria próximo de uma tragicomédia, como naquele velho ditado:
“seria cômico se não fosse trágico”.
Há quase trezentos anos, caro
leitor, é como se o autor perguntasse: “Aonde iremos parar?” Confesso que por
mais que desejasse saber, não tenho essa resposta. E vos digo mais: talvez
tenha medo de sabê-lo, pelo ritmo em que as coisas andam em tempos tão difíceis
e povoados por incertezas. Assim, desejo terminar meu artigo de hoje, no mesmo
tom de desilusão, com a última estrofe do poema de Drummond “Sentimento do
mundo”: “Quando os corpos passarem / eu ficarei sozinho / desafiando a
recordação / do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca
/ e não foram encontrados / ao amanhecer /esse amanhecer / mais que a noite”. Até
a próxima.






