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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CONVITE NEGADO

Crédito: Mihman Duganli (PEXELS)


Um menino faceiro acena do outro lado da janela...

Cá dentro, contento-me em apenas assistir.

Exige minha atenção por meio de insistentes braços

Não ouso sair, ele não me inspira confiança.

Além do mais, anda por caminhos incertos

E não sou afeito a aventuras.


Tranquei-as todas no baú de minha mocidade

Agora só inicio minhas jornadas na companhia do previsível...

Embora o menino persista de um jeito todo convidativo

Meu coração já não está para surpresas

A idade não permite navegar ao sabor das ondas


Ele pode oferecer-me um mundo de novidades

Prefiro continuar com os pés cravados no chão

E a linha de chegada ao alcance dos olhos.

Tudo o mais, deixo à mocidade com seus ares de ousadia...


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O PREÇO DA FAMA

Crédito: Ekaterina Belinskaya (PEXELS)

Atirar uma pedra na vidraça

O caminho mais curto para a fama

Os aplausos de um público que inflama

A sensação de estar em plena graça.


Mas a plateia um dia fica escassa

E a voz inflada do ego já reclama

Migalhas de sucesso ele então clama

Não basta desejar, logo fracassa.


Pois o sucesso é uma curta estrada

Da qual nunca se sabe qual o fim

Nem quando ela será interditada.


Pois um dia o fracasso chega, enfim,

E a mente que não for tão preparada

Vai passar sua vida inteira assim.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A AMBIÇÃO E A FALTA DE AMOR PRÓPRIO NA BUSCA PELA FELICIDADE

Crédito: Pavel Danilyuk (PEXELS)

 "Qual é a grande ação que não parece extremada no momento em que a empreendem? Só quando foi cumprida é que parece possível às pessoas comuns."

Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitor, todos que me acompanham nessa viagem alucinante pelo vasto universo da literatura. Seguimos desbravando os clássicos e seus criadores. Vamos deixar a tenebrosa Transilvânia e a experiência de terror que vivemos na Romênia e vamos, mais uma vez, voltar à charmosa França, para isso vamos acessar a nossa “playlist” com a canção “O vermelho e o negro” na voz de Angélica Rizzi. Enquanto isso vamos nos dirigir ao ano de 1830, chamado de Tempo da Restauração. Após nossa devida localização, vamos apresentar nosso protagonista, o jovem Julien Sorel, rapaz inteligente e bonito, que passa o tempo lendo ou envolvido no mundo dos sonhos, em vez de trabalhar com seus irmãos no ofício de carpinteiro.  Mais tarde, ele vira um acólito e acaba recebendo a função de tutor dos filhos do prefeito. Ah! Julien também se mostra um rapaz ambicioso. Um dos seus artifícios para impressionar as pessoas é citar partes da bíblia que ele memorizou (hoje, na era da internet, para pousar de intelectual, as pessoas copiam e colam, não é? Ou pedem para a IA). 

Julien, trabalhando como tutor na casa do prefeito, acaba se apaixonando pela esposa dele por causa da forma muito gentil com que ela o trata. Ela, uma mulher ingênua, quando se dá conta, também está apaixonada pelo jovem. Como não é difícil de imaginar, o leitor já pressupõe que vamos presenciar um caso de adultério, ação comum nesses romances, (vamos lembrar nossa Madame Bovary) e está totalmente correto. Acontece que a camareira da senhora Renal também estava apaixonada por Julien, mas foi recusada por ele. Ah, caro leitor, nunca subestime um coração desprezado, pois ele é capaz de tantas coisas (como nos casos do sombrio Heathcliff e do pobre Werther). Ao descobrir o caso dos dois, ela não teve a menor dúvida: espalhou para toda a cidade. Como se isso não bastasse, o prefeito ainda recebe uma carta anônima. Diante do escândalo, o superior de Julien retira o rapaz e o manda a um seminário em outra cidade. Logo depois de livrá-lo de perseguições, ele o recomenda ao cargo de secretário do Marquês de La Mole.

Julien, então, parte para Paris e passa a conviver com a família do marquês. Agora ele tem acesso à alta sociedade, aos ambientes cheios de pompas e pessoas de grande influência, o que, de início o vislumbra, devido à sua ambição, mas isso de nada adianta porque as pessoas ainda o veem como um mero plebeu por causa de suas origens. O jovem aprende, da forma mais dura, os mecanismos de hipocrisia da elite, os quais jamais possibilitarão que alguém capaz como ele possa ascender socialmente. Mas também se pode observar uma contradição no rapaz: ele odeia a classe alta, mas quer pertencer a ela. Certo dia, Julien é levado a uma reunião secreta e é enviado em uma perigosa missão secreta, na qual leva uma carta política a um destinatário desconhecido, mas mal sabe ele que se trata de uma conspiração, pondo em risco sua vida. 

Além disso, Julien desenvolve uma paixão pela filha do marquês, a qual também começa a nutrir certo interesse por ele, mas tem suas ressalvas por ele pertencer a uma classe social inferior. Entre altos e baixos, encontros e desencontros, seduções e rejeições, Julien segue os conselhos de um conhecido russo a fim de tentar conquistar de vez o coração de Mathilde. Quando o plano enfim parece estar dando certo, ela fica grávida dele e ele acaba caindo nas graças do marquês, pronto a receber propriedade, título de nobreza e um posto no exército, o pai da moça recebe uma carta da senhora Rênal, antiga amante de Julien, denunciando como um oportunista, um rapaz que seduz mulheres ingênuas. Inconformado com isso, Julien vai À procura da ex-amante e atira nela dentro da igreja, durante a missa. A partir daí, segue-se sua prisão e condenação enquanto alguns dos amigos que fez durante todo esse tempo tentar salvar sua vida e anular sua condenação. Sua amada, Mathilde, visita-o com frequência na prisão, demonstrando não querer desistir dele; porém, para a surpresa do leitor, ele acaba se cansando disso. Isso porque, em poucos dias, ele recebe a visita de sua vítima, que escapou ao atentado e revela que ainda o ama. Ele, então, descobre, no fim das contas, que ela é seu verdadeiro amor. 

Meu caro leitor, o que vai acontecer daqui para frente já não vai nos trazer surpresa alguma, até porque é a consequência previsível do que acontece com alguém não pertencente à alta sociedade (basta-nos recordar a sina de outro cidadão francês: Valjean) tantas vezes no sistema judiciário. Claro que não posso isentar Julien de sua ação homicida, pois não há como justificar o ato de tirar a vida de alguém. Não há mesmo. Lembrando que, em enredos românticos como esse, são comuns os crimes ditos passionais, nos quais a razão abandona de vez o ser humano e a paixão o torna um trem desgovernado como se diz naquela canção eternizada na voz de Orlando Silva: “O coração tem razões / Que a própria razão desconhece”. O romance também tem seu tom realista ao revelar o adultério como uma prática comum da sociedade, ignorando qualquer argumento, justificada pelo desejo de uma vida mais emocionante e a vivência do amor como uma aventura a se experimentar. 

Um aspecto que não deixa de ser importante é a ambição do protagonista, que procurava ascender socialmente, acreditando que ali encontraria a felicidade que buscava. Entretanto, apesar de seus atributos como a inteligência e a beleza, sempre teve tudo isso praticamente ignorado em detrimento de sua origem humilde, não trazendo a ele a realização pessoal (mesmo drama acontecido ao personagem Eugênio no mais famoso romance de Érico Veríssimo). Outro aspecto que não podemos deixar de observar, nas duas pretendentes, a falta de amor próprio, que as leva a se humilharem diante de um homem que procurou se aproveitar delas e, inclusive, usá-las como escada social. Isso sem contar que uma delas quase foi morta por ele a tiros. Ambas o visitam na prisão sabendo da presença da outra no coração de seu amado, mesmo assim dispostas a dar-lhe seu perdão devido ao medo de ficarem sem ele para sempre, como se a felicidade delas dependesse exclusivamente dele. Entendo que, no fim das contas, faltou, a ele e a elas, uma boa dose de amor próprio para poder norteá-los em sua procura. Não é à toa que o homem mais sábio que já passou por essa terra disse-nos para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Ah, como ele sabia das coisas. Ele entendia que não pode ser possível amar alguém verdadeiramente se não amarmos a nós primeiramente. Que em nossa busca eterna pela felicidade não percamos, no meio do caminho, o amor por nós mesmos. Até a próxima.

STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

QUASE

Crédito: Francesco Ungaro (PEXELS)


Quase dei uma resposta

Pelas injúrias sofridas,

Quase questionei calúnias

Que a mim foram dirigidas,

Quase me curei da insônia

Das noites tão mal dormidas.


Quase encontrei um espaço

Pra fazer a própria história,

Quase tomei minha parte

Em um momento de glória

Quase registrei meu nome,

Nas páginas da vitória.


Quase superei os medos

Pra vencer a frustração,

Quase consegui a chave

Que abrisse meu coração,

Quase segui pela trilha

Em rumo à superação.


Quase deixei de pensar

De forma individualista,

Quase passei a agir

De uma maneira altruísta,

Quase pude concordar

Com outros pontos de vista.


Quase ofereci ajuda

Àqueles que tinham fome,

Quase parei de julgar

Alguns pelo sobrenome,

Quase chamei cada um

Pelo verdadeiro nome.


Quase protestei perante

Qualquer forma de injustiça,

Quase espantei de verdade

A sensação de preguiça,

Quase olhei pros bens alheios

Sem a mínima cobiça.


Quase estendi minha mão

Para algum irmão caído,

Quase fiz secar as lágrimas

Do próximo tão sofrido,

Quase mostrei a saída

A quem estava perdido.


Quase achei a solução

Para o problema que tinha,

Quase permiti ser nossa

A estrada que quis só minha,

Quase dei um rumo nobre

A esta vida mesquinha.


Quase deixei a ambição

Pra ser feliz de verdade,

Quase insisti em lutar

Por nova realidade,

Quase parei de mentir

Pra viver de honestidade.


Quase optei por justiça

No lugar de ter vingança,

Quase abdiquei do ódio

Para plantar esperança,

Quase abandonei o adulto

Pra voltar a ser criança.


Quase enterrei o passado

Para viver o presente,

Quase converti meu pranto

Em semblante sorridente,

Quase não mais recuei

Para enfim seguir em frente.


Quase tomei dianteira

Pra defender o mais fraco,

Quase provei que não era

Farinha do mesmo saco,

Quase trouxe o puro brilho

A este olhar tão opaco.


Quase conquistei amigos

Pra deixar de ser sozinho,

Quase busquei a grandeza

Em vez do plano mesquinho,

Quase esqueci de ser rude

Pra manifestar carinho.


Quase mudei minha rota

Pra procurar novo norte,

Quase fui por conta própria

Pra não contar com a sorte,

Quase me agarrei à vida

Para não temer a morte.


Quase protestei com força

Ao invés de me calar,

Quase continuei a marcha

Sem medo de fracassar,

Quase fui compreensivo

Sem intenção de julgar.


Quase fui até o fim

De cada projeto meu,

Quase por diversas vezes

Cheguei a ser mesmo eu.

Quase, quase, sempre quase...

Que isso tudo aconteceu. 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

RETORNO

Crédito: Rodrigo Menezes (PEXELS)

Retorna novamente, querida,

Espero desde sempre

Ansioso pela ausência.


Nosso lar aguarda tua chegada

Fui solitário por tempo demais

Volta para preencher minha existência

És a parte que faltava

Chama que alimenta minha essência.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ADEUS AOS SONHOS

Crédito: Ron Lach (PEXELS)

 

A fantasia escorre-nos por entre os dedos 

Enquanto a realidade cresce aos olhos.

O possível tem podadas as suas asas

O diamante torna-se pedra bruta

Na atmosfera respira-se a enxofre e carvão...


Os castelos de cristal são vulneráveis à queda,

Pisamos em ovos por entre os estilhaços 

Na busca desesperada por sobreviventes.


Os gritos de socorro abafam o som da lira

Vista de perto a vida não é tão azul

Mergulhamos de cabeça no cinza profundo

Na esperança de um dia poder vir à tona.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O ADULTO COM SAUDADES DA CRIANÇA

Crédito: Nascimento Jr. (PEXELS)


Desde o exato momento em que cresci

Senti saudades de quando criança

Esse tal faz-de-contas de esperança 

Foi a época que feliz vivi.


Entregue a ilusões de toda a sorte

Envoltas no cristal da fantasia

Jamais pensei no dia em que veria

Meus sonhos a correr risco de morte.


Oculto o tempo passa e o corpo cresce

Pobre criança, frágil, agoniza,

E a rude adolescência já floresce


A outro, em transição, cede lugar

Completo o rito, o adulto se eterniza

A criança partiu, pra não voltar.


CONVITE NEGADO

Crédito: Mihman Duganli (PEXELS) Um menino faceiro acena do outro lado da janela... Cá dentro, contento-me em apenas assistir. Exige minha a...