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terça-feira, 30 de setembro de 2025

CAMINHO DE PEDRAS (LISTA FUVEST)


 

Caros vestibulandos e leitores, hoje é dia de mais uma análise de um livro da lista da FUVEST. Agora é a vez da obra “Caminhos de pedras”, o terceiro romance da escritora Rachel de Queiroz. O livro foi publicado em 1937, produzido algum tempo antes, quando Rachel foi presa como comunista no Corpo de Bombeiros de Fortaleza, ficando em regime incomunicável, portanto escrito na cadeia. Este livro é considerado o mais engajado de toda a sua carreira. 

Como não poderia deixar de dizer algumas palavras sobre a escritora que começou sua carreira jornalística escrevendo para o jornal quando tinha apenas 17 anos. Aos 19 anos, começou a escrever o romance “O Quinze”. Com sua publicação, em 1930, tornou-se nacionalmente conhecida. Foi presa pelo governo, acusada de ser comunista e permaneceu assim por dois anos. Além do prêmio da Fundação Graça Aranha, também ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil e o Prêmio Camões, a maior honraria dada a escritores de língua portuguesa.

Agora, vamos ao enredo: tudo começa com a chegada de Roberto a Fortaleza, ele é um jornalista encarregado de organizar os simpatizantes do socialismo. É apresentado aos demais membros por Luís, um dos líderes. Durante o discurso de Luís e a reação de alguns membros, percebe-se a divisão entre os operários e os intelectuais. Na visão dos trabalhadores, Roberto não sente na pele a exploração, portanto, não entenderia o sacrifício deles. Essa é uma pauta frequente nos encontros

Nesses encontros estão Angelita e Noemi, cujos maridos já foram participantes, mas desistiram da luta e se afastaram de vez, pois foram presos e perderam seus empregos, ou seja, pagaram um preço bem alto por seus sonhos. Elas resolvem ser militantes, assumem os riscos e se desentendem com os maridos, que as ensinaram a lutar e agora desistiram. O conflito entre Angelita e Assis vai se agravando cada vez mais porque ele enxerga para ela o mesmo destino que foi o dele. Enquanto isso, Noemi deseja ir além: reflete sobre a independência da mulher. Ela, cansada de viver uma vida enfadonha, em um trabalho que não gosta, em um casamento em que o amor acabou, deseja respirar novos ares. 

Logo, ela percebe que toda mulher tem uma luta a mais: os obstáculos criados por uma sociedade patriarcal. Em meio a isso tudo, ela conhece Roberto, apaixonando-se, primeiro por suas ideias, depois por seus sentimentos. Durante as reuniões, eles se aproximam cada vez mais e começam a ter um caso. Aos poucos, Noemi vai se despedindo da sua vida antiga e começando a construir uma nova, mas ainda é afetada pelo remorso devido a sua traição, por isso, depois de um tempo, pede a separação. Seu marido João Jacques se convence que não existe mais amor entre eles e vai embora de casa para deixar o caminho livre para Roberto. Agora, marcada como uma mulher divorciada, Noemi perde o seu emprego e, para agravar sua situação, seu filho, “Guri”, morre repentinamente por uma doença misteriosa. 

Apesar de tantos reveses, ela continua com Roberto em sua militância e, em um ato arriscado de panfletagem, os dois acabam presos, mas ela é liberada por estar grávida e termina o romance subindo, sozinha, uma ladeira de pedras, tropeça e se dá conta que terá um longo e árduo caminho pela frente. 

Quanto aos elementos, o foco narrativo é em terceira pessoa onisciente, com um narrador externo que tudo sabe. Essa forma dá acesso total ao leitor sobre os acontecimentos. O espaço, um tanto quanto restrito, limita-se ao redor da praça de Fortaleza, lugar propício às manifestações populares e manifestações. Nas imediações ocorrem os encontros sempre na clandestinidade. Nessa obra, a passagem do tempo é cronológica e não nos traz grandes mudanças, mas, quanto à sua marcação histórica, destaca-se o período da Era Vargas, momento de perseguição aos comunistas e simpatizantes. 

Sobre as temáticas presentes, a obra contempla uma sociedade em transição, na qual as mulheres começam a refletir sobre suas posições e papeis, representadas por Noemi, que decide atender seus desejos, mesmo às custas dos julgamentos da sociedade que enxerga a mulher apenas como mãe, esposa e dona de casa. Ela resolve enfrentar a tudo e a todos por sua felicidade. Caminho de Pedras é considerado um dos romances mais engajados de Rachel de Queiroz. A obra é marcada pelo distanciamento da autora do comunismo, refletindo críticas ao movimento. Mais uma vez, a autora nos revela uma mulher forte, protagonista, em sua luta por liberdade e um lugar ao sol. 

Paralela a esta luta, existe a luta de classes que segue adiante e que, apesar de pregar a igualdade, os homens ainda não tratam as mulheres como pares. Além disso, pode-se observar na obra um movimento todo dividido em duas classes: os operários e os intelectuais, mostrando uma autora que começa a se afastar da ideologia por causa das desilusões que vai sofrendo. 

A narrativa é marcada por um tom introspectivo mesclado a críticas sociais. Por meio de uma linguagem direta e clara, o leitor é convidado à reflexão. Nota-se ainda sua habilidade na construção das personagens femininas, acompanhada de um tom emocional intenso.  O título é a completa e precisa metáfora do caminho que Noemi decide traçar em direção à sua liberdade total. Vê-se uma mulher que ficou sem nada, mas continua a jornada sem perder as esperanças. 

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2025.


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

CANÇÃO PARA NINAR MENINO GRANDE (LISTA FUVEST)


         Caros leitores e vestibulandos, vamos dar continuidade à análise dos livros da lista FUVEST. Agora é a vez da obra “Canção para ninar gente grande” da escritora Conceição Evaristo, publicado em 2018 e que ganhou nova edição em 2022 por escolha da autora, que fez questão de acrescentar algumas ideias que ela notou ausentes e necessárias em relação à edição original. 

Falando um pouco sobre a autora: Conceição é escritora, ficcionista e ensaísta. Possui doutorado em Literatura comparada e começou como escritora em 1990. De lá para cá, teve a maior parte de seus livros traduzidos para outros idiomas, colecionou diversas homenagens e, entre outros prêmios, foi vencedora do troféu Jabuti em 2015 com a obra “Olhos d’água”. Já teve livros aprovados para o PNLD e é hoje uma das escritoras negras mais lidas do país, com textos marcados pela forte presença feminina e negra. 

Agora, vamos ao enredo: Fio Jasmim, o protagonista, tem um casamento prometido com Pérola Maria desde os 20 anos. Incentivado pelos amigos do trabalho e tomado por um trauma de infância, ele resolve exercer toda a sua virilidade sobre as mulheres que encontra pelo caminho. Uma delas, Neide Paranhos da Silva, uma jovem de 19 anos, cujos pés faz Fio reconhecer nela uma Cinderela Negra, o que o faz relembrar o grande trauma de sua infância: sua professora não o deixou ser o príncipe da história, mas, sim, um menino branco. Antes que ele parta, Neide pede que ele lhe dê um filho.  Depois de Neide, aparece Angelina Devaneia da Cruz, uma enfermeira, de 32 anos, que vivia à espera de um noivo para casar. Fio a conhece um pouco antes de se casar com Pérola e ao chegar à cidade dela é visto como o noivo pelo qual ela esperava, convencendo a todos, o que não passa de uma brincadeira que faz a moça cometer suicídio de tanto desgosto. 

        Aos 33 anos, Fio conhece Juventina Maria Perpétua, que tem apenas 17. Ele lhe dá uma margarida e ela enxerga nele a possibilidade de um amor e verdadeiro. Com ela, ele tem uma relação bem diferente das outras. Tornam-se amantes por anos, apesar dos conselhos de pessoas próximas a ela. Tina via nele a figura masculina que nunca teve em casa e escrevia-lhe diversas cartas de amor que ele nunca leu e que eram encontradas por sua mulher. Fio continuou conhecendo outras mulheres: Aurora Correa Liberto, uma moça alegre que nunca mais foi a mesma depois de deixada por ele, Dolores dos Santos, que teve duas filhas gêmeas dele; Dalva Ruiva, que teve mais três; Eleonora Distinta de Sá, com quem teve uma relação mais de amizade.  

        Anos depois, Depois de alguns anos, passa a viajar e procura compreender como funciona o amor das mulheres. Após 35 anos, termina de vez sua relação com Fio e dedica a ele o livro que fez. Fio reflete sobre os acontecimentos de sua vida: as mulheres, os filhos, e revê suas atitudes, mas agora é tarde demais para qualquer coisa. No fim, uma narradora-autora assume o foco como uma relatora da vida de cada uma dessas mulheres.

        Quanto aos elementos, o foco narrativo não se encontra no protagonista, mas nas vozes femininas que narram as histórias, retomadas por uma narradora que as reúne com suas vivências e experiências diversas. O tempo não é linear, pois faz uso do fluxo de consciência, partindo do presente do protagonista em direção ao seu passado. As mulheres com as quais se relaciona também não seguem uma ordem rigorosamente cronológica, formando uma narrativa fragmentada, porque o eixo está nas relações consumadas por Fio. Também não se encontra um contexto histórico especificado na obra.

São diversas as temáticas trabalhadas no romance, podendo começar pela masculinidade tóxica construída em cima do protagonista, um homem que deseja se mostrar viril e conquistador, incentivado pelos amigos e acreditando que isso iria deixá-lo no mesmo nível dos demais homens. Essa visão do personagem sempre acaba por voltar ao trauma da infância em que lhe negaram o papel de um príncipe. Apesar de belo, viril e desejado por tantas mulheres, ele ainda se sente inferior e não se livra da sensação de que está faltando algo. Por outro lado, essa busca se dá à custa dos sonhos e felicidade de várias mulheres com as quais se relaciona, inclusive uma delas acaba por tirar a própria vida, o que vem a reforçar a estrutura patriarcal de nossa sociedade.

        A obra explora a complexidade por trás da construção da personagem masculina, além de ressaltar que ele busca uma superioridade se baseando em um modelo que não diz respeito ao próprio negro. Não é só sobre machismo, mas racismo também. A autora preocupa-se com o rumo de homens e mulheres negras, vítimas constantes de tantos preconceitos. Fio é, ao mesmo tempo, vítima e algoz do sistema: se por um lado, iludiu e usou as mulheres, por outro, não se pode afirmar que todas elas eram inocentes a respeito de suas intenções.

        A obra é caracterizada por uma sucessão de elementos normalmente presentes no cotidiano, uma narrativa que se dá de forma plural (na voz das mulheres) no tocante aos mais variados temas que envolvem as relações entre pessoas envolvendo uma grande gama de sentimentos e emoções na busca por melhores referências simbólicas para homem e mulheres negros nesse Brasil. O protagonista, apresentado como anti-herói: um homem que machuca corações e continua machucado, acaba não sendo o destaque da narrativa, mas sim as mulheres que vão passando por sua vida e se tornando protagonistas de suas próprias histórias.  Chamo a atenção para um termo criado pela própria Conceição: "Escrevivência": que significa a união entre a escrita e a vivência, representado por cada personagem com destaque para as negras. 

        Fio Jasmim é o “menino grande” da narrativa, um homem que desde a infância sofre com a rejeição e, por isso, esse trauma permeia toda a sua vida, não o deixando crescer como adulto e tornar-se uma pessoa madura e bem resolvida. É um homem de aparência forte, de presença marcante entre as mulheres; mas, por dentro, ainda sente o vazio e a inferioridade que sentira ao ser trocado por um príncipe branco em sua infância. Fio representa os homens que seguem o manual e a tradição da dominação masculina, mas não passam de pessoas frágeis e infantilizadas.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2022.


sábado, 20 de setembro de 2025

MEMORIAS DE MARTHA (LISTA FUVEST)


 

Caros vestibulandos e leitores, hoje seguimos com nossa breve análise dos livros para o vestibular da FUVEST. Agora é a vez do livro “Memórias de Martha”, da escritora Júlia Lopes de Almeida, obra originalmente publicada em capítulos, como os folhetins românticos entre os anos de 1888 e 1889. Ao longo do tempo, foram lançadas três edições que possuem algumas pequenas diferenças. O romance, lançado em 1888, sempre foi sinônimo de dificuldade para ser obtido, apesar de sua importância histórica como o primeiro enredo sobre um cortiço.

                Agora, como já é de praxe, vou apresentar em poucas linhas sua autora: Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida foi escritora, cronista e teatróloga. Escreveu literatura infantil, romances, crônicas, peças de teatro e, desde o início, suas obras já demonstravam uma mulher à frente de seu tempo. Júlia fazia parte do grupo que planejou a criação da Academia Brasileira de Letras, contudo ficou de fora da primeira lista de “imortais” pelo simples fato de não ser homem. Em seu lugar foi empossado o marido, o escritor português Filinto de Almeida.

Mas, antes que alguém pergunte, vamos para a história: tudo começa por uma mulher já adulta, que começa a contar sua vida desde quando criança. Martha, a protagonista, perde seu pai, provedor da família. Com isso, a mãe, que também se chama Martha, não vê outra solução a não ser trabalhar como engomadeira para poder sustentar as duas. Elas, que tinham uma vida até razoável, com certo conforto, agora, com a pouca renda originada do serviço da mãe, veem-se obrigadas a morar em um cortiço em São Cristóvão, lembrando que os cortiços eram a grande sensação de moradia popular na época. A filha sente tremenda repulsa pelo lugar: úmido, constante mau cheiro devido a se localizar próximo a um matadouro, sempre sobrevoado por diversos urubus. Como se não bastasse, o quarto em que vivem é descrito como estreito, escuro e abafado, como de deveriam ser todos os outros, pois os cortiços eram quase que a última alternativa em questões de moradia devido a precárias estruturas e a localizações desfavoráveis.

A mãe, agora também costureira, trabalha arduamente para poder prover o sustento do lar e procura propiciar à filha a oportunidade de estudar, o que acaba se tornando o grande objetivo de Martha. Tudo o que ela mais quer é sair do cortiço, pois aquele ambiente cada vez mais a faz sentir a humilhação de ser pobre. Isso fica mais evidente ainda quando ela começa a comparar sua vida com as demais meninas que frequentam a escola com ela. Tal sonho começa a se tornar possível desde o momento em que Martha entra na escola. Lá ela conhece D. Aninha, uma professora que passa a incentivá-la para que estude e para que tente a carreira no magistério. Depois de algum tempo, Martha se torna adjunta e passa a receber um salário. Sua situação começa enfim a mudar porque agora ela já consegue alugar uma pequena casa e, finalmente, deixar de uma vez por todas o cortiço, o que pode ser encarado como uma grande vitória em sua vida.

Entretanto, nada disso vem fácil assim para ela, tudo é fruto de um esforço absurdo, pois a vida começa a mostrar as barreiras que toda mulher enfrenta em sua busca por independência. Ela chega a ser diagnosticada como histérica e o ouve do médico que deveria procurar por casamento, como se esse fosse o seu problema: não ter um homem ao seu lado. Procurando ajudar a moça para aliviar a tensão e a pressão social, D. Aninha a convida para passar as férias com ela em um lugar distante dali. Nesse local, ela é apresentada para Luís, primo de sua professora. Ela acaba se apaixonando por ele, todavia eles são muito diferentes, pois enquanto ele parece ser um rapaz cheio de vida, alegre e extrovertido, ela anda sempre triste, séria demais e muito tímida. Ao não ser correspondida, Martha acredita que a causa seja por ela ser feia e pobre. Aqui notamos que uma espécie de complexo de inferioridade a persegue.  A situação leva a moça a questionar se realmente o amor verdadeiro existe.  

Enquanto estava de férias, ela escrevia frequentemente cartas para a sua mãe. Nelas, demonstrava toda a sua paixão por Luís. A mãe passou a mostrar as cartas para um cliente chamado Miranda, que há um tempo estava viúvo e desde então vivia sozinho com os filhos. Após tantas leituras e comentários da mãe, Miranda acaba se apaixonando por Martha por causa de seus escritos, pois nunca tivera qualquer contato com ela. Ela finalmente participa de um concurso para professora e acaba sendo aprovada. Miranda então pede sua mão em casamento. Num primeiro instante, ela não aceita porque não sente nada por ele.

Martha, agora mais do que nunca, tem a possibilidade de ser independente, porque já possuía um emprego e, portanto, não precisava se casar por conveniência. Porém a mãe insiste com ela sobre a frágil reputação das mulheres que permanecem solteiras depois de certa idade. Depois de pensar e ouvir a mãe, ela decide aceitar, mas não deixa de lembrar seus sonhos e lamentar seu destino.  Depois de oito dias do casamento, a mãe vem a falecer. Ao que tudo indica, estava adiando o fim até que tivesse certeza que sua filha não ficaria desamparada e que, enfim, sua missão fora cumprida. Agora podia descansar em paz após essa luta de tantos anos. Martha termina sua narrativa dando-se por realizada com o espaço que conquistou.

Quanto aos elementos, o foco narrativo conserva-se na primeira pessoa, com a própria Martha sendo a narradora e protagonista. O leitor acompanha suas lembranças, iniciando pela infância, passando pela juventude difícil e chegando enfim à vida adulta. Tal história é contada por meio de suas percepções e reflexões sobre o ambiente à sua volta, permitindo ao leitor ver de perto as experiências e emoções de Martha. Ao explorar a subjetividade da personagem, o leitor pode ter uma visão íntima da realidade social da época, o que vem a reforçar a crítica social, pois, por meio de suas experiências, tem-se acesso às dificuldades enfrentadas pelas mulheres de sua época. O retrato dela é o retrato da mulher no final do século XIX.

O tempo da narrativa é marcado pela alternância: o momento presente em que a protagonista relembra sua história e a infância e juventude, permitindo que se acompanhem suas recordações, mesclando suas impressões do passado com reflexões de sua trajetória, pois se trata de uma mulher madura que interpreta os eventos do passado com a experiência do presente, podendo compreender as marcas que o tempo deixou. O espaço central da narrativa é o cortiço no Rio de Janeiro, onde Martha e sua mãe vivem em condições precárias. Outros espaços são citados, porém com menor importância, na maioria das vezes, servindo como contraste com a realidade do cortiço, símbolo da miséria e desigualdade, revelando a crítica social da obra.

A obra apresenta-se por meio de diversas transgressões: autoria de uma mulher, a não aceitação do casamento por Martha, o seu atributo intelectual e não físico como era comum nas protagonistas, demonstrando a profundidade tão ignorada das mulheres. Destaque para os estudos e o trabalho como desejos de uma mulher e trilhas para sua satisfação, valorizando  

a posição de independência e enfatizando a capacidade da mulher para vencer desafios. Além disso, há um certo pioneirismo em focar a educação como uma forma de ascensão social.  Martha busca o casamento como ato de amor e não como garantia econômica. Mas seu caminho não será nada fácil diante das hostilidades que recebe de uma sociedade patriarcal.

Na obra, podem-se observar elementos do Realismo, como descrições detalhadas de cenas e espaços do cotidiano, também elementos do Naturalismo como a questão do Determinismo que, acaba sendo refutado, em parte, pelo exemplo da protagonista. Apesar de acabar cedendo a uma vontade da mãe e acabar se casando em nome da estabilidade, da moral e dos bons costumes, Martha termina o romance sentindo-se uma vencedora.

                Vou ficando por aqui, caro vestibulando. Espero ter sido útil. Até a próxima obra.

ALMEIDA, Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Martha. São Paulo: Via Leitura, 2024. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

BALADA DE AMOR AO VENTO (LISTA FUVEST)


 

        Caros leitores e vestibulandos, hoje é dia de estreia da nossa página de livros para vestibular da FUVEST. Começaremos pela obra “Balada de amor ao vento”, da moçambicana Paulina Chiziane. Primeiramente, gostaria de frisar a importância simbólica desse livro que é considerado um marco na literatura moçambicana. Afinal de contas, trata-se do primeiro romance escrito por uma mulher, publicado em 1990, sendo também o primeiro a expor as temáticas do universo feminino. Guarde essa informação!

        Mas, antes de falar sobre a obra, achei necessária uma pequena apresentação da autora, pois, acredito eu, seja uma célebre desconhecida de estudantes e leitores brasileiros, então vamos lá: Paulina nasceu numa família protestante e cresceu no subúrbio da cidade de Maputo, capital do país. Aprendeu o português em uma escola católica e começou seus estudos de linguística na universidade, mas não chegou a terminá-los. Entrou para a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), mas, com o tempo, deixou a política para que pudesse se dedicar de forma exclusiva à literatura. Assim, iniciou sua atividade literária em 1984. Desde então, suas obras têm gerado algumas polêmicas acerca de questões sociais até porque a escritora discute temas nunca discutidos antes em sua terra, além do mais por uma mulher. Em 2016, decidiu abandonar a escrita. Ao longo da carreira, recebeu homenagens e condecorações, das quais convém destacar o Prêmio Camões (2021), considerado reconhecimento máximo a um escritor de língua portuguesa, além de ser tema de um documentário e ainda figurar na lista das cem mulheres mais inspiradoras do mundo, elaborada pela BBC.

         Agora, sem mais delongas, vamos ao que interessa: o tradicional resumo da narrativa, como resposta à clássica pergunta do aluno “Qual é a história?”. A protagonista, Sarnau, agora adulta, começa falando de suas lembranças, direcionando o leitor à sua juventude. É nessa época de estudos que ela conhece Mwando. Acontece que os dois acabam se apaixonando perdidamente e assim permanecem por um bom tempo. O rapaz vive um grande conflito interno porque está estudando com o desejo de tornar-se padre, mas, ao mesmo tempo, encontra-se perdidamente apaixonado por ela. Por fim, seu romance acaba por ser descoberto e ele acaba expulso do seminário. Ela, ainda muito apaixonada, descobre que está grávida e, para sua decepção (e esta é apenas a primeira de muitas), é abandonada por ele, que tem um casamento arranjado com uma moça, escolhida por seus pais por ser rica e de família católica.   

        Sarnau dá início a um penoso caminho, sozinha. Totalmente arrasada, resolve cometer suicídio para dar fim ao seu sofrimento, mas é salva. Como alternativa, procura um “griot” (espécie de curandeiro local) para abortar a criança da qual não conseguirá cuidar nas atuais condições. De repente, a vida lhe dá uma nova oportunidade: casar-se com Nguila, aquele que está destinado a ser futuro rei de sua terra. O casamento é realizado, Sarnau desfruta de uma vida de luxo e de estabilidade, o sonho de tantas mulheres de sua terra, porém, para a surpresa de muitos, não se sente nada feliz. Primeiro pela constante pressão para dar à luz um filho homem, pois só havia parido gêmeas, lembrando que estamos falando de uma sociedade patriarcal, na qual só o homem tem valor, ainda amarga uma convivência difícil com as outras esposas (seu marido, como tantos outros, é adepto da poligamia), que disputam a atenção principal do marido, em especial Phati. Como se não bastasse tanto desgosto, ainda sofre com a violência doméstica

           É em meio a esse mar de frustrações que, de repente, reencontra o antigo amor, Mwando, que resolve explicar sua saga: foi abandonado pela esposa logo após a morte de seu filho único. Logo após essa perda, ela o trocou por outro.  Diante de seu confesso arrependimento, Sarnau se vê dividida entre manter seu casamento (vida sofrida e estável) ou fugir com o grande amor de sua vida (que já a havia abandonado uma vez). Tudo isso ocorre justo agora que um curandeiro tinha feito com que o marido voltasse a procurar por ela, pois a disputa entre as esposas segue firme. Ela volta a se relacionar clandestinamente com o antigo amor e, para variar, volta a ficar grávida dele. Ele insiste para que fiquem juntos. Uma de suas adversárias, Phati, acaba denunciando-a por adultério. 

            Sarnau decide fugir com Mwando deixando tudo e todos para trás por causa dele, inclusive as filhas. Mais tarde, adivinha o que acontece? Com o argumento de temer alguma espécie de vingança do rei, ele a abandona (mais uma vez e grávida), o que talvez não cause ao leitor surpresa alguma. Novamente sozinha e desamaparada (já virou um hábito) é obrigada a se prostituir para devolver a quantia do “lobolo” (espécie de dote que a noiva recebe do noivo como compensação ao casar-se e que deve ser restituído em caso de separação) de Nguila. Sua filha Chivite passa mal e, de acordo com os curandeiros, só se curaria quando recebesse o nome do espírito causador de seu mal, por isso é renomeada Phati. O tempo vai passando e, tempos depois, como fosse uma maldição ou um “flashback”, quem ela reencontra? Ele mesmo: Mwando, que, para o espanto de todos, agora se diz novamente arrependido e conta mais um episódio de sua história, agora dos anos que passou nos campos de trabalho forçado em Angola. 

                Cansada de suas promessas, ela diz que desta vez ele terá que pagar o lobolo para poder ficar com ela, ao passo que ele a recrimina por se prostituir, recebendo a resposta de que foi apenas a consequência da situação em que mais uma vez ele a deixou. Dividida novamente entre a razão e a emoção, pressionada por seus sentimentos antigos e pela filha que necessita de um pai, ela acaba o aceitando de volta e assim termina a história.

     A respeito dos elementos narrativos, temos um foco narrativo em primeira pessoa, tudo é contado do ponto de vista de Sarnau, compartilhando com o leitor cada experiência. Ela não observa somente, mas sua narrativa vai sendo formada por sua vivência. É a voz que põe fim à mordaça patriarcal, permitindo que se possam conhecer seus pensamentos e sentimentos. Há apenas uma mudança de foco para a terceira pessoa nos capítulos que descrevem a relação de Mwando com sua esposa Sumbi. 

        O espaço limita-se a Moçambique, com destaque para alguns locais importantes para a protagonista, que nos mostram o contexto social do país na época e que buscam apresentar a cultura moçambicana, a vida nas aldeias e nas cidades, o choque entre a tradição africana e a sociedade colonial. O tempo, no contexto histórico da obra, situa-se no período colonial português; quanto à narrativa, é contado a partir do ponto de vista dela, já idosa, que relembra seu passado, portanto, não se trata de uma narrativa linear, de modo que as situações se repetem.  

    Entre as temáticas presentes, destacam-se o dilema entre os desejos individuais e o futuro imposto pela tradição e pela cultura; a denúncia da opressão e da exploração das mulheres na sociedade moçambicana; as dificuldades que elas enfrentam na luta por respeito e liberdade; a tensão entre a cultura cristã e as tradições africanas, exposta nas crenças e nos costumes; a estrutura social dominada pelo patriarcalismo e pela poligamia. 

    Destaque para a linguagem presente no livro que, de forma poética, contribui com leveza para um enredo marcado pela densidade conferindo leveza poética a um enredo denso e complexo, representada por diversas figuras de linguagem, como a palavra “vento”, que faz parte do título, representando a liberdade e a mudança constante de curso. Há também de se observar a presença da oralidade africana, trazendo elementos simbólicos e míticos. A descrição lírica da natureza é constante, simbolizando prazeres e frustrações, criando um contraste com a realidade cruel de um país devastado pela guerra e por inúmeros conflitos.

    Espero ter ajudado o caro vestibulando com esse texto. Conto com você novamente por aqui. Até a próxima!

CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. 

 


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