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domingo, 30 de agosto de 2026

O INCANSÁVEL SEMEADOR DE POESIA

Foto fornecida pelo autor

Hoje o blog Cosmo Literário tem o orgulho e grande satisfação de entrevistar o grande divulgador da poesia popular brasileira, coordenador do grupo Desafios Poéticos, Cléber Duarte. Mas antes, de começarmos nossa conversa, vamos saber um pouco de sua história:

CLEBER DUARTE é um poeta potiguar nascido em Umarizal-RN, usa o pseudônimo de "Chico Furtado" nas redes sociais. Mora no Centro-Oeste brasileiro há quase 30 anos. Administrador de empresas por formação. Começou a fazer versos já no alto dos seus 37 anos, exatamente em 2018, mesmo ano do nascimento do seu primogênito: Vinícius.  Oito anos depois, em abril de 2026, nasceram os gêmeos Victor e Levi, diz ele, com todas as palavras, que renasceu poeta após o nascimento do seu primeiro filho. Casado desde 2012 com Rosy, filho de Ivete Duarte e João Furtado Sobrinho, irmão de Cleuma e Kleiton.

Escreve diversas modalidades de poesias, define-se como um ser muito curioso e, por essa razão, busca aprender tudo o que for possível sobre o fazer poético. É, atualmente, coordenador do importante Projeto Cultural: Desafios Poéticos.

Seja bem-vindo, poeta Cléber Duarte, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário.

Olá, meu Poeta Márcio Fabiano, muito obrigado pelo convite. É uma honra bater esse bate-papo poético contigo, aproveito para saudar a todos que estão tendo acesso a essa conversa. Esperamos que seja produtiva e instrutiva.

Cleber, para começarmos essa nossa conversa, como foi que a poesia entrou na sua vida? Foi um estalo na infância ou algo que desabrochou mais tarde? Conte-nos como se deu esse contato entre vocês.

Então, poeta. Acredito que a poesia já nasceu comigo, mas estava adormecida, e ela despertou com o nascimento do meu primeiro filho, Vinícius, há 8 anos e alguns meses. A emoção de ser pai foi tão grande, que busquei uma forma de me expressar e a poesia se apresentou como esse instrumento e desde então, escrevo... E nesse ano, Deus nos presenteou com mais duas inspirações: Victor e Levi, portanto, motivos para escrever não faltam!

Sabemos que todo escritor começou como leitor. No seu caso, quais são as suas maiores referências literárias? Quem são os escritores que moldaram o seu estilo de escrita?

Sempre gostei muito de ler, mas não tinha o hábito de ler poesia, era mais contos, prosas, romances... Mas desde que me descobri poeta, sou um leitor assíduo de poesia, especialmente os gêneros de estrutura fixa, ou seja, rimada e metrificada, sou visitante assíduo de sebos, um caçador de raridades. Gosto muito dos poetas antigos, mas bebo muito na fonte dos contemporâneos também, dentre os mais antigos, aprecio: Patativa do Assaré, Fernando Pessoa, Ronaldo Cunha Lima, Cancão, Rogaciano Leite, Cecília Meirelles... Já dentre os contemporâneos, Dedé Monteiro, Antonio Francisco, Luiz Gonzaga Maia e todos os poetas do Desafios Poéticos... Aprecio e aprendo, diariamente.

Ao visitar suas redes sociais, acabei descobrindo, no Instagram, que você adota o pseudônimo de Chico Furtado. De onde veio essa ideia e qual a razão de adotar um pseudônimo? Por que a escolha por esse nome?

Chico Furtado é meu nome também, me chamo: Francisco Cleber Duarte Furtado. Há quem ainda não saiba que se tratam da mesma pessoa, quando decidi criar um perfil no Instagram, pensei que não o faria com o meu nome mais conhecido, pois queria dedicá-lo somente a poesia e ele é assim até hoje, então tive a ideia de criar com o Chico Furtado.

Cleber, hoje você está à frente de um grupo denominado Desafios Poéticos. Poderia nos contar um pouco da história do grupo? Como foi que ele nasceu? Quando você começou a participar? Como que objetivos esse grupo foi criado?

O Desafios Poéticos, foi fundado e idealizado pelo poeta paraibano, Antônio Medeiros (Medeirão), juntamente com o seu primo, poeta José Medeiros e o poeta Bernardino Bezerra (os dois últimos in memoriam), teve o seu marco inicial, no dia 13 de dezembro de 2020, com o objetivo principal e o intuito de praticarem e aprimorarem o fazer poético, através de motes a serem glosados e estrofes analisadas e classificadas, com a dinâmica de um concurso poético diário. Inicialmente com pouco mais de uma dezena de membros, hoje temos 70 componentes. Esse nome: Desafios Poéticos, fora sugerido pelo poeta Bernardino Bezerra e aceito pelos demais pares, por se tratar exatamente de um desafio diário de poesia de bancada, onde a prática e a troca de experiências moldaram e até hoje contribuem para a evolução da escrita de todos os membros. Em 18 de maio de 2021, fui convidado pelo Poeta Luiz Gonzaga Maia e de pronto aceitei o convite quando ele me disse como era a dinâmica.

O projeto alcançou marcos incríveis de audiência e episódios distribuídos. Você poderia nos falar um pouco sobre o número de episódios já lançados, plataformas em que eles se encontram, além de números de países e ouvintes alcançados com esses episódios?

Ainda no mês de maio de 2021, começamos a publicar os trabalhos declamados nos canais de streamings, inicialmente pelo Spotify e hoje podem ser apreciados por diversas plataformas, dentre elas o Youtube, Amazon Music, Apple Podcast, Deezer dentre outros, por entender que tão belas poesias deveriam ganhar asas e atingir corações no mundo inteiro. Em decorrência, desse trabalho diário, de criação e divulgação dos episódios, estamos prestes a completar as 2100 edições. O nosso programa possui audiência em mais de 110 países, divididos em 5 continentes.

Tendo em vista esse alcance extraordinário por tantos países que, em sua maioria, não falam o nosso idioma, como você entende que outras nações e outras línguas apreciem a nossa poesia em Língua portuguesa?

Acredito que esse apreço, essa busca pela nossa poesia, se dê por brasileiros que moram fora ou por pessoas que falam a nossa língua, mas não se restringe somente a isso, hoje não há idioma que não se possa traduzir, a palavra é universal, da mesma maneira que pesquiso poesias fora daqui, o contrário também é verdadeiro. E o Desafios Poéticos hoje possui o maior acervo em minutagem de poesia de estrutura fixa declamada, serve de base para quem busca estudar a poesia. Hoje existem tradutores simultâneos nas principais plataformas de áudio e vídeo.

Para que os nossos leitores possam compreender melhor, como funciona a dinâmica do grupo hoje? Qualquer pessoa pode participar dos desafios ou interagir com vocês? Existe algum tipo de critério para selecionar quem participa do grupo?

A dinâmica do Desafios Poéticos funciona da seguinte maneira: diariamente alguém se disponibiliza de maneira voluntária a colocar um mote a ser glosado, normalmente é postado às 15h e todos os demais poetas tem 24 horas para enviar os seus trabalhos escritos e declamados para o autor do mote, para serem analisados por ele, que por volta das 16h do dia seguinte traz o resultado, contendo 50% dos classificados e 50% dos desclassificados que chamamos de “Menção Honrosa”. Temos duas modalidades de julgamento: a modalidade às claras e a modalidade às cegas. A diferença é simples, na primeira o autor no mote recebe diretamente do concorrente o seu trabalho, consequentemente julga sabendo de quem é a estrofe. Já na análise às cegas, o julgador recebe as estrofes sem o nome do participante, filtrado e organizado antes por um colaborador escolhido por ele. Além desse trabalho de análise e a concorrência diária, usamos as estrofes declamadas para criar diariamente um episódio no Spotify, Youtube e demais outros canais de streaming. Portanto, toda a atividade acompanha um episódio que fica salvo para a posteridade, todos os participantes da atividade entram no episódio, independente de classificação. Quanto à participação, qualquer poeta pode participar, mas temos alguns critérios, como por exemplo, o limite de participantes, hoje o grupo comporta apenas 70 componentes, mas temos lista de espera e uma vez que o poeta convidado esteja participando das atividades mesmo fora do grupo, o que chamamos de convidado, logo que surgir uma vaga, ele tem a oportunidade de entrar. Se alguém que está lendo, tiver o interesse, deixe uma mensagem em nossas redes sociais e retornamos.  

O carro chefe do seu grupo é a poesia popular, inclusive partiu dela a origem do grupo. Como vocês conseguem manter a essência dessa modalidade de poesia (cordel e repente) viva em um ambiente totalmente digital? Parece ser um grande desafio.

De fato, a essência hoje do nosso coletivo é a poesia popular, acredito que 98% dos nossos escritos até aqui, passeiam por ela. Mas como o próprio nome do grupo diz, não fugimos dos desafios e vez por outra escrevemos modalidades mais eruditas. Esse importante coletivo poético, que começou escrevendo décimas em 7 ou 10 sílabas, hoje passeia pelos diversos gêneros da poesia de estrutura fixa, da sextilha ao galope, da trova ao soneto.   Usamos a rede mundial para espalhar esses versos pelo mundo, é bem verdade que a audiência ainda é baixa, mas não buscamos números vazios, apenas para compor estatísticas, esperamos que aquele que tiver acesso aos nossos trabalhos, possam apreciar da melhor maneira possível.

Sabendo que no grupo existem participantes de todas as regiões do Brasil, de quase todos os estados, gostaria de saber se, além dessa dinâmica virtual, de interação nas redes sociais, o grupo também participa de algum tipo de atividade ou encontro presencial. De que forma isso acontece?

Estamos espalhados pelo país inteiro e por fora, como por exemplo na França e em Portugal; temos participantes nos 9 estados do Nordeste, Santa Catarina, Roraima, São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Brasília, Goiás... Sobre a nossa interação além do virtual, vez por outra nos encontramos, seja num Festival de Poesia de Bancada, seja nos demais encontros de poesia que acontecem pelo país afora. Outra oportunidade é quando estamos viajando de férias pela região que há alguém do grupo e fazemos assim um encontro com aqueles que moram mais próximos, expediente esse que ocorre muito no Nordeste. Os seus membros, diante da prática frequente e o aprimoramento da escrita poética, sempre são premiados em concursos diversos, espalhados pelo país à fora, além de participarem de alguns certames como jurados, em decorrência da expertise que a dinâmica oferece a cada um que lá esteja e se dedica. Além de diversas obras, que estão sendo publicadas pelos nossas poetas, eles têm sido convidados a participarem das principais academias de letras do território nacional.

Cleber, sabendo que muito já foi feito, mas, olhando para frente, quais são os próximos passos e projetos planejados para o Grupo Desafios Poéticos? O que a comunidade pode esperar?

Prestes a completar 6 anos de vida, ainda uma criança, pedimos ao Poeta Maior, que nos conceda, vigor poético e inspiração, para que possamos continuar criando e espalhando poesia aos quatro cantos do mundo, para que fique de legado as próximas gerações! O Desafios Poéticos não quer parar com as suas publicações diárias no Spotify e Youtube, bem como ampliará a sua maneira de se comunicar com os ouvintes, leitores, apreciadores dessa nobre arte, seja através de lives nas redes sociais, seja em publicações impressas, dentre outros. Inclusive, em primeira mão, quero dizer que estamos tentando desenvolver uma Rádio Web, para que toque a nossa poesia 24 horas por dia e os 7 dias por semana. Aguardem!

Cléber, saiba que foi um grande prazer ter você aqui conosco partilhando sua grande experiência como poeta e como um difusor da poesia. Desejamos a você muito sucesso em seus novos projetos. Muito obrigado!

Poeta Márcio Fabiano, muito obrigado pela oportunidade, conte comigo sempre que precisar, estarei sempre à disposição para contribuir de alguma forma com a difusão e divulgação da nossa poesia, parabéns por esse cuidado com a cultura. Quem quiser me encontrar, deixe uma mensagem em quaisquer um dos canais do Desafios Poéticos, seja no Spotify, Youtube, Instagram... O meu perfil pessoal é: poetachicofurtado e o meu WhatsApp: (61) 98214-5692. Obrigado pela atenção de todos. Um forte e cordial abraço de Cleber Duarte.

sábado, 29 de agosto de 2026

UM FILHO DOS CAMPOS, SOU RUDE VAQUEIRO

Crédito: Tuba Karabulut (PEXELS)


Eu monto no baio e cavalgo ligeiro

Cortando essa relva que forma a campina

A vista que alcança a paisagem divina 

Comove e emociona o veloz cavaleiro 

Um filho dos campos, sou rude vaqueiro 

No lombo dum potro sei bem me virar 

Eu domo, cavalgo, sou bom em laçar 

Entendo este ofício tal qual dom divino

Sou um defensor do viver campesino 

Nos dez de galope na beira do mar.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ESCOLA DA VIDA

Crédito: Alfred Dena (PEXELS)


Meu pai me disse uma vez:

- Presta atenção, filho meu,

Na grande escola da vida

Em que teu pai aprendeu. 

Muita gente se formou

Pelo tempo que viveu. 


Na vida nada é de graça: 

Para tudo existe um custo. 

O preço por que se paga

Nem sempre será o justo.

Por vezes pode ser fraco; 

Por outras, bem mais robusto. 


Escuta sempre os mais velhos,

Ouve a voz da experiência!

Não despreze seus conselhos,

Não faças tal negligência.

De todas as professoras

A maior é a vivência.


Toda longa caminhada 

Se começa num só passo,

Não sendo maior que a perna

Pra não cair no cansaço. 

Sempre mantenha a constância 

Para evitar o fracasso. 


O caminho bem mais curto

Não dá qualquer garantia

De que a trilha será fácil,

Que será só alegria...

Estrada que não tem pedra,

Caminhante desconfia.


Não sejas refém do ódio,

Prefere sempre a bonança.

Jamais confunda a justiça

Com desejo de vingança

Pra que a vil escuridão

Não roube tua esperança.


Haverá dias de chuva, 

Também dia ensolarado.

Em uns tudo dará certo,

Em outros dará errado.

O mundo vive em mudanças: 

Sempre esteja preparado! 


É bom contar com os outros,

Bem melhor contar contigo,

Pois tenha sempre amor próprio 

E ao menos um bom amigo 

Que partilhe as tuas glórias,

Te acompanhe no perigo. 


Respeite a qualquer pessoa 

Para merecer respeito.

Todos somos diferentes, 

Cada um com o seu jeito. 

Todos temos qualidades, 

Mas também algum defeito.


Sempre haverá uma pedra

Pra te fazer tropeçar. 

Cair faz parte da vida, 

Não deixa de levantar! 

Cada queda que sofrer,

Mais forte vai te deixar. 


Não importa a consequência, 

Defende sempre a verdade!

Nada pode valer mais 

Que a tua dignidade

Porque a honra não tem preço. 

É a tua identidade!


Nem tudo que há no mundo

Podes comprar com dinheiro.

Discerne o que é duradouro

Daquilo que é passageiro.

Não troca por ninharia

O teu bem mais verdadeiro.


Seja gentil com o mundo,

Pouco importa o resultado...

Gentileza é doação,

Não bilhete premiado.

Quando se pratica o bem,

Já estás recompensado.


Perante toda miséria,

Procura ser solidário.

Maior castigo do mundo:

Sentir-se tão solitário.

Faça do teu coração

O teu primeiro sacrário.


Mais fácil culpar o outro 

Que assumir tua fraqueza. 

Se não tiver humildade, 

Só mania de grandeza, 

Não irás evoluir

E disso eu tenho certeza.


Não temas pelo futuro!                                                                                       

Deves seguir sempre em frente.

Jamais olha para trás, 

Aproveita o teu presente! 

Se a gente cuida dos outros, 

A vida cuida da gente. 



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A SEUS SERVIÇOS

Crédito: Beard Kid (PEXELS)

 

Morrerei por você,

Minha doce amada.

Basta apenas pedir!


Estou disposto a qualquer sacrifício

Pronto a atender seus caprichos

Nasci para seus desejos servir

Derramarei até lágrimas de sangue

Para poder ver você sorrir...


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

EXTRÍNSECA

Crédito: Arlind D (PEXELS)

 

Para encontrar a verdade, antes de tudo,

Precisa tirar os olhos de si

Eliminar a estúpida pretensão mortal

De que se tem sempre todas as respostas

Superar o complexo de autossuficiência.


Curar o estado de espírito de superioridade

Após altas doses de realidade nua e crua.

Quem se constitui mestre de si mesmo

Nomeia a tolice como guru espiritual

E conduz os passos ao abismo da ignorância... 


A ingrata ilusão de se enxergar maior que o mundo

Desperdiça ricas oportunidades de aprendizagem e crescimento

Todo aquele que ignora as preciosas lições de vida

Passa a existência em processo de recuperação contínua.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

CIÚMES

Crédito: RDNE Stock project (PEXELS)

Numa canção de ciúmes sempre existe

Uma nota de amor que se perdeu

De cujo juramento se esqueceu

E um vestígio sutil de posse insiste.


O coração passivo ainda assiste

À vil obsessão que assim nasceu 

E a fria razão não sobreviveu

Mas um frágil limite até resiste.


E o sentimento tão puro de outrora

Não passa mais de uma recordação

Uma velha ilusão que foi embora 


Sonho que se pintou de frustração

E que vive perdido por agora

Mais um triste refém da possessão.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

MENINAS (DIÉVOTCHKI) - LIUDMILA ULÍTSKAIA

Brenda, 30 - assessora jurídica

“No fundo, era um amor feliz, não exigia nada para si, e nem mesmo a ideia de servi-lo ocorreu a Kolivânova; e como poderia servir sua divindade a pequena Kolivânova, que não tinha na alma nada além de um vago enlevo?”

O livro Meninas, da autora Liudmila Ulítskaia, é uma coletânea de seis contos publicada no Brasil pela Editora 34, com a tradução primorosa de Irineu Franco Perpetuo. Foi o melhor livro que li até o momento em 2026 e, sem dúvida, um dos mais marcantes em que me debrucei nos últimos tempos.

A obra fala sobre o feminino, a dor intrínseca que a mulher carrega consigo desde a mais tenra infância, o conhecimento único repassado de mãe para filha (muitas vezes moldado pelo próprio silêncio ensinado às mulheres) e o medo, até mesmo daquilo que deveria ser fonte de prazer.

Mas antes de adentrar na obra propriamente dita, vale ressaltar a trajetória da autora, cuja biografia e coragem impressionam. 

Liudmila Evguênieva Ulítskaia nasceu em 1943 em Davliekánovo, na região dos Montes Urais (atualmente República do Bascortostão). Sua família, composta por cientistas, foi deslocada à força para lá nos anos 1930 em decorrência das campanhas antissemitas stalinistas. Mais tarde, em Moscou, Ulítskaia formou-se em genética e bioquímica. Entre 1979 e 1982, atuou como consultora literária do Teatro Judaico de Música de Câmara (KEMT) e, nos anos seguintes, escreveu ensaios, peças infantis, dramatizações para rádio e realizou revisões e traduções de poesia.

Começou a publicar ficção apenas no final dos anos 1980, época em que também escreveu roteiros de cinema. Em 1992, publicou a novela Sônietchka, com a qual alcançou reconhecimento internacional. Desde então, além de publicar mais de uma dúzia de livros traduzidos para mais de vinte idiomas, tornou-se conhecida por seu firme ativismo político e cultural.

Para quem se apega ao prestígio das premiações, a trajetória de Ulítskaia é incontestável: foi a primeira mulher a receber o Russian Booker Prize; em 1996, recebeu o prêmio francês Prix Médicis Étranger por Sônietchka; foi indicada cinco vezes ao prêmio Russki Buker; em 2011, recebeu o Prix Simone de Beauvoir pour la Liberté des Femmes; e figura recorrentemente entre os nomes cotados para o Nobel de Literatura.

A escrita de Ulítskaia, segundo Irineu Franco Perpetuo, aproxima-se da sutileza e da elegância de Ivan Turguêniev. E, por mais curioso que pareça, ela não é fã de Dostoiévski, e prefere Puchkin e Tolstói. 

Apaixonei-me pela escritora ao descobrir que ela perdeu um promissor emprego como geneticista por ajudar na distribuição de publicações clandestinas na era soviética. Não fosse essa coragem política, ela ainda aborda temas densos e historicamente tidos como tabus: a menarca, a homossexualidade, o peso de ser mulher, sem jamais abandonar o denso pano de fundo histórico e social.

Pois bem. A primeira obra de Ulítskaia lançada no Brasil, a coletânea “Meninas”, reúne seis contos que formam um ciclo de histórias ambientados em Moscou no período próximo à morte de Stálin, em 1953.

Os contos são protagonizados por meninas de 9 a 11 anos de idade, que aparecem e reaparecem na peculiar sequência das narrativas: 

“A dádiva prodigiosa”: Um grupo de escoteiras segue no encalço de uma mulher sem braços que bordou um retrato de Stálin com os pés. Uma premissa aparentemente simples, mas que expõe, sem rodeios, a atmosfera sufocante daquele período.

“Filhas de outro”: O silêncio guardado para proteger "boas novas" faz com que o marido recém-chegado da guerra conclua que a esposa engravidou de outro. De onde surge tal suspeita? Seria o rastro do trauma da guerra? E o que dizer desse silêncio resignado da mulher russa, mantido mesmo quando nada cometeu? Aqui, a escrita forte, simples e visceral da autora se revela em trechos inesquecíveis:

“Os fatos são os seguintes: primeiro nasceu Gayané, sem causar à mãe nenhum sofrimento acima do esperado. Quinze minutos depois, veio ao mundo Viktória, provocando duas grandes lacerações e muitos pequenos estragos nos portões sagrados, pelos quais é tão doce e fácil entrar, mas tão difícil e doloroso sair.” (Como você reescreveria a laceração no parto com tanta praticidade e sutileza? Não consigo imaginar. É um domínio estético impressionante).

“A enjeitada”: Um conflito entre gêmeas que se desenrola como uma fascinante releitura contemporânea da história bíblica de Esaú e Jacó.

“No dia 2 de março daquele mesmo ano”: O meu conto favorito. Aborda a menarca e a forma como as transformações hormonais nos fazem agir de maneira estranha até para nós mesmas. Mostra a dor visceral desse rito de passagem que, dentro da menina, parece mortal, mas para o mundo exterior não passa de um detalhe invisível diante de outros “grandes eventos”. A leitura me fez comparar a perspectiva feminina da autora com a visão masculina clássica. Vocês se recordam de como a primeira menstruação de Pombinha em O Cortiço é retratada quase como uma bênção divina e festiva? Qual dessas visões traduz a realidade crua da experiência feminina?

“Catapora”: As personagens se reúnem para o aniversário de Aliôna, filha de diplomatas. A partir de uma inocente brincadeira de bonecas, Ulítskaia fala de um tabu infantil, que a primeira vista é bem perturbador. O primeiro contato das meninas com “experiências sexuais”. Talvez pela complexidade do assunto, seja o conto que as pessoas menos gostam no livro. Percebi que há vergonha até em ler sobre.

“A pobre, feliz Kolivânova”: Aqui é sobre os amores platônicos em tenra idade. Bonito, inocente, não pede nada em troca. Quem nunca se apaixonou pelo professor ou professora na infância? É aquela admiração que chega doer os pobres coraçõezinhos. Mas como se trata de um conto da Ulítskaia, coisas interessantes e que explicam determinados pontos polêmicos do conto “Catapora”, são explicados. E mais uma triste realidade de pano de fundo.

Em pouco mais de 160 páginas, Meninas é um achado raro. Seja pela escrita seca, elegante e destemida, seja pelas verdades humanas gravadas nas entrelinhas, é uma obra indispensável.

ULÍTSKAIA, Liudmila. Meninas. São Paulo: Editora 34, 2021.

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

DE REPENTE

Crédito: cottonbro studio

De repente era mentira

O que pensei ser verdade.

E o “felizes para sempre”

Já não passa de saudade.

Agora é pura tristeza

O que foi felicidade.


De repente ficou só

A perfeita companhia

Trocando a bela aventura

Por mera monotonia

E o sorriso de esperança

Tornou-se melancolia.


De repente o grande amante

Não era mais que um amigo

Sobrando imenso deserto

Daquele tremendo abrigo

E o maravilhoso sonho

Resultou em tal castigo.


De repente as nobres juras

Viraram decepção,

Do sonho sobre o futuro

Ficou só a frustração.

O plano de vida a dois

Resultou em solidão.


De repente as mãos unidas

Para sempre se soltaram,

Dos olhos, antes brilhantes,

Muitas lágrimas rolaram.

Aquelas bocas famintas

Por mais nada se beijaram.


De repente a tal certeza

Foi um cruel desengano

E o sentimento sublime

Passou a ser desumano

E o compromisso tão leve

Tornou-se o maior tirano.


De repente o veloz tempo

Por uns instantes parou

E o amanhã promissor

Ah, este jamais chegou.

E aquela convicção

Afinal se equivocou.


De repente escureceu,

Apagou-se a bela luz.

O precioso troféu

Assumiu forma de cruz,

A estrada pro paraíso

Hoje ao calvário conduz.


De repente veio o eclipse

Sobre a lua mais brilhante,

Agora tem tom banal

O que foi emocionante.

Agora se olha pra trás

Não se enxergando adiante.


De repente o trem parou

Antes do fim da viagem,

Cobriu-se de espesso gelo

Aquela linda paisagem.

Ficou-se sem ida ou volta,

Não existe mais passagem.


De repente em preto e branco

Tornou-se o tão colorido,

Desmoronou-se o castelo

Cuidadosamente erguido,

Caiu chuva de granizo

Em nosso jardim florido.


De repente um lindo sonho

Virou coisa do passado,

Uma lembrança em retrato

Claramente desbotado.

De repente assim ficou

Pra sempre tudo acabado. 

 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A FLOR DA PAIXÃO

Crédito: Anurag Jamwal (PEXELS)

 

Clemência peço, senhora,

Por não amar

Tanto quanto merece.


A flor da paixão brotou

Após semear em meu ser.

Agora já não mais cresce!

Seu coração é rosa nobre,

Em meu peito não floresce.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

MÃO ÚNICA

Crédito: Clayton Leite (PEXELS)

Percorro uma estrada de mão única

Onde não se encontra um só acostamento

Qualquer parada é expressamente proibida.


A marcha à ré uma manobra praticamente impossível

Aqui não se permite olhar por sobre os ombros 

Quem decide correr o risco de bruscas freadas

Acaba por sofrer o iminente atropelamento...


As bifurcações exigem instantâneas tomadas de decisões

Tudo se movimenta em constante velocidade

Nada consiste em obstáculo para a passagem do tempo,

Na verdade não resta tempo para mais nada.


A ação é a única forma de resposta imediata

Não há espaço para lembranças nem previsões 

Somente o agora transita por esta via.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

JURAMENTO

Crédito: Rô Acunha (PEXELS)


Quem dera ter em minhas mãos teu rosto

Encarar os teus olhos de esmeralda

Banhada em flores como uma grinalda

De teus lábios maduros ter o gosto.


Provar o doce em tua boca de mel

Afagar teus cabelos sob o vento

Que lhe confere o terno movimento

Tornar-me teu amante mais fiel.


De joelhos jurar-te amor eterno

E não me afastar nem em pensamento

Envolver-te no abraço mais fraterno.


Olhos nos olhos mostrar meu sentimento

Entregar-me do jeito mais que terno

Pra tornar imortal este momento.


domingo, 16 de agosto de 2026

PAIXÃO QUE SE MANIFESTA ENTRE DUAS ARTES

Foto cedida pela autora

Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o grande prazer de receber a escritora e artista plástica Roseli Farias Roque. Vamos saber um pouquinho sobre ela:
 
Roseli Farias Roque nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Atualmente morando em Coimbra, entre Portugal e Brasil. Ministrou aulas particulares nas escolas profissionalizantes em São José, SC. É escritora e artista plástica. Editou o livro Aurora, em 2021. Ministra aulas de pintura em Portugal, participa em exposições e faz parte de academias nacionais e internacionais.
 
Seja bem-vinda, Roseli, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário. Saiba que é um grande prazer ter você aqui.
 
O prazer é meu estar presente no seu blog Cosmo Literário.
 
Sabe-se que ser artista e se expressar por meio de uma arte trata-se de um fato nada comum. Fico imaginando, no seu caso, que trabalha com duas artes totalmente distintas: uma verbal e uma não-verbal. Explique para nós como é conciliar o trabalho com essas duas linguagens.
 
Trabalhar com essas duas linguagens é simplesmente maravilhoso, pois nesses dois mundos, encontro formas diferentes de me expressar. Posso pintar, poetizar e transformar sentimentos em arte. Na pintura, traduzo aquilo, que muitas vezes, as palavras não conseguem dizer. Na poesia, encontro palavras para dar voz às imagens que crio. É magnífico olhar para uma tela e enxergar nela um poema. Assim como é emocionante transformar um poema em cores e formas. São duas artes que dialogam, se completam e caminham juntas. Pintura e poesia me permitem criar, sentir e transmitir emoções. Para mim, unir essas duas linguagens é transformar a inspiração em arte.
 
Ainda falando sobre seu trabalho com as artes plásticas e com a literatura, que acontece de forma simultânea. Qual deles veio primeiro? O que motivou o início da carreira em cada um deles?
 
O que me motivou foram as minhas escolhas e o desejo de seguir caminhos ligados à minha sensibilidade. Na pintura, tudo começou pelo meu encantamento com as flores e suas cores. Sempre gostei de observá-las e de traduzir sua beleza por meio da pintura. Com o passar do tempo, fui pintando cada vez mais e de lá para cá nunca parei. A literatura chegou por outro caminho, através de contato com outros poetas nos saraus. Foi convivendo com eles que a escrita começou a despertar em mim. Quando li meu primeiro poema em público, enfrentei, também, a minha timidez. Aquele momento foi uma grande superação e me deu coragem para continuar. A partir dali a vida foi me mostrando pouco a pouco um caminho que um dia sonhei trilhar. Hoje, pintura e literatura caminham simultaneamente comigo, como duas formas de expressar minha sensibilidade.
 
Agora, tratando as artes plásticas de forma específica. Além de pintar diversos quadros, você também dá aulas de pintura. Tendo em conta o domínio das técnicas e a questão do processo de criação, há como distinguir a artista da professora?
 
Ao longo da vida, pintei muito e, também, tive alegria de presentear muitas das minhas obras. Minha trajetória começou em um clube de mães, onde dei os primeiros passos na pintura. A partir dali, busquei aperfeiçoamento e fui ampliando os meus conhecimentos. Participei de vários concursos nas escolas profissionalizantes de S. José, SC, para dar aula de pintura em tela. Durante nove anos, tive a oportunidade de ensinar pintura e compartilhar o que havia aprendido. Como professora, consigo transmitir aos alunos técnicas e conhecimentos adquiridos ao longo do tempo. Mas acredito que o artista e a professora caminham juntas e se complementam, também aprendi muito com os meus próprios alunos, pois cada um traz um olhar e uma maneira diferente de criar. Hoje, continuo pintando, expondo os meus trabalhos e apreciando cada vez mais o resultado da minha trajetória. Por isso, não consigo separar completamente, a artista da professora: Ambas fazem parte de quem sou.
 
Nas artes plásticas, quais estilos ou tendências você adota para fazer suas obras? Houve alguma mudança com o passar do tempo? Quais artistas servem de referência para você?
 
Não me prendo a um único estilo, pois gosto de experimentar e transitar por diferentes formas de expressão. Pinto diversos estilos, mas tenho uma identificação especial com a arte contemporânea e o modernismo. Acredito que a arte está sempre em movimento, assim como o próprio artista. A cada dia aprendo algo novo descobrindo possibilidades de ampliar o meu olhar, por isso sinto que ainda tenho muito a aprender, experimentar, expor e mostrar através da minha arte. Também gosto de explorar diferentes fases e possibilidades das cores em minhas obras. As cores têm, para mim, uma força especial e ajudam a traduzir sentimentos e emoções. Entre os artistas que admiro estão Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. As obras desses grandes nomes despertam a minha admiração e inspiração. Minha pintura continua em transformação, acompanhando minhas experiências, descobertas e tudo aquilo que ainda desejo criar.
 
Agora, partindo para a área da literatura, dentre os inúmeros gêneros e estilos, quais você costuma escrever com frequência? O que a fez ter preferência justamente por eles?
 
Na literatura iniciei com poemas do dia a dia, paisagens, filhos, amigos. Escrevo com frequência poesia romântica, cordéis, contos, crônicas, sextilhas, décimas, sonetos e trovas. Justamente pela técnica e construção das poesias e de relatar momentos de vida.
 
A sua vivência em outro país acaba despertando a curiosidade. Há quanto tempo está vivendo em Portugal? Acaso foi a arte que a motivou cruzar o oceano? Como é ser artista e professora em outra terra? 
 
Hoje vivo na Figueira da Foz, no distrito de Coimbra, Portugal. Não foi a arte que me fez cruzar o oceano, foi o amor. Depois de vinte anos criando meus filhos e trabalhando muito, eu já estava sozinha. Foi, então, que um português me encantou, me cativou e veio me buscar. Entre idas e vindas já são seis anos vivendo essa experiência em Portugal. Ao chegar, a arte continuou fazendo parte da minha vida e tudo nessa área despertou minha atenção. A cidade antiga, galerias, museus e espaços culturais passaram a fazer parte das minhas descobertas. Hoje sou associada de algumas instituições internacionais e ministro aulas de pintura e sigo vivendo novos desafios. Tenho segurança e experiência suficientes para enfrentar essa nova etapa. Como artista, estou me saindo muito bem e tenho encontrado em Portugal novas oportunidades para mostrar e desenvolver minha arte.
 
Aproveitando o gancho dessa rica experiência de ser artista em dois países que, apesar da relação histórica, possuem algumas questões culturais bem distintas, você nota alguma diferença na relação com o artista e com a arte em Portugal e no Brasil?
 
Percebo que em Portugal a arte é muito valorizada e ocupa um espaço importante na vida cultural. Tenho vivido essa experiência de maneira muito positiva como artista. Já tive oportunidade de vender muitas obras, que estão hoje espalhadas por diferentes países da Europa. Isso me deixa muito feliz e mostra que existe interesse e reconhecimento pelo meu trabalho artístico. Também percebo diferenças em relação ao Brasil, especialmente, na valorização da arte e da escrita. No Brasil, muitas vezes o artista e o escritor precisam exercer outra profissão para garantir o seu sustento. Nem sempre é possível viver exclusivamente da própria produção artística e literária. Aqui, sinto que existe uma abertura maior para conhecer, adquirir e valorizar o trabalho do artista. É uma experiência importante na minha trajetória e para meu crescimento profissional. Acredito que, em qualquer lugar, a arte merece ser reconhecida com trabalho, expressão, cultura e profissão.
 
Você mostra-se bastante envolvida com academias nacionais e internacionais, além de outros movimentos e grupos. Gostaria que nos falasse um pouco sobre suas obras publicadas como resultado desse engajamento literário.
 
Adoro esse movimento literário das tertúlias poéticas onde podemos ouvir, declamar, cantar e compartilhar a poesia. É muito bom estar em contato com as pessoas que possuem os mesmos interesses e com as quais me identifico. Esses encontros são momentos de troca, aprendizado e inspiração. Ao longo dessa caminhada, já tive a alegria de participar em muitas publicações. Tenho trabalhos publicados em cordéis, coletâneas, poemas e, também, em livro infantil. Cada publicação representa uma etapa importante da minha trajetória literária. Também é muito gratificante fazer parte de academias nacionais e internacionais. Vejo essa participação como uma forma de fortalecer meu engajamento com a literatura. Estar nesses espaços me permite conhecer novos escritores, aprender e compartilhar minha produção. Para mim, literatura é encontro, troca de pertencimento, e cada experiência amplia ainda mais esse meu caminho.
 
Nota-se, por suas publicações, feitas de forma contínua nas redes sociais, que sua vida cultural é bem ativa, com inúmeras participações em saraus, exposições e outros eventos. Como é participar e como é coordenar essas atividades?
 
Minha vida cultural é realmente muito ativa e está ligada aos dois mundos, à arte e à literatura. Participo de saraus, exposições, e de diversos eventos culturais. Também gosto muito de fazer pintura ao vivo nas praças ao som dos fados. São momentos que me permitem estar próxima das pessoas e compartilhar aquilo que faço. Também gosto de coordenar e organizar atividades dentro desse universo cultural. Para mim, é algo que acontece de forma muito natural, porque faz parte da minha vida, pois estou sempre buscando novas oportunidades para criar, participar e incentivar outras pessoas. Estar onde o povo está é, para mim, uma grande fonte de inspiração. É nesse contato com as pessoas, e com a arte e com a cultura que encontro motivação para continuar criando.
 
Você tem um livro intitulado “Aurora”, editado e publicado em 2021. Poderia contar-nos como foi esse processo desde sua idealização até o produto final?

Em 2021 nasceu “Aurora Poética”, um livro que representa muito para mim e a minha trajetória. Foi um prazer imenso transformar experiências de vida em palavras e dividi-las com o leitor. Em suas páginas, transcrevo poemas que carregam sentimentos, lembranças e emoções. São versos escritos para tocar o coração e despertar a sensibilidade de quem os lê. Talvez o leitor encontre em “Aurora Poética”, alguma experiência que, também, já tenha vivido. Cada poema traz um pouco da minha história, dos meus sentimentos e do meu olhar sobre a vida. Assim como a pintura, também, deixo na escrita minhas pinceladas e meu traço. São sensações vivas, paixão, sentimentos e uma poesia que nasce de forma livre. “Aurora Poética”, é, portanto, mais do que um livro: é um pedaço de mim compartilhado com você e com o mundo. E fico muito feliz quando as palavras encontram outros corações que despertam novas emoções.

Deixo aqui: 
“Pouco adianta ser grande e tentar ser o maior…
Só se cresce e se expande sendo cada dia melhor”.

Roseli, foi um prazer imenso poder conhecer um pouco de sua intensa vida artística e aprender com você um pouquinho mais sobre as artes. Desejamos a você muitas realizações e agradecemos a sua disponibilidade. Sucesso!
 
Agradeço imensamente. Foi um prazer ter sido entrevistada no seu blog, o que muito me honra. Deixo aqui os meus contatos:
@atelieroselifarias-espaço cultural roseli farias (Instagram)
Roseli Farias - Ateliê de Pintura (Facebook)
E-mail: roseli.farias@gmail.com
 

 

 

 


sábado, 15 de agosto de 2026

MONTEI NUM CAVALO DO TIPO FOGOSO

Crédito: @coldbeer

Montei num cavalo do tipo fogoso

Queria mostrar que era grande ginete

Eu tinha treinado em um bom cavalete

Por isso me achava um peão tão garboso

Fiz pose de bravo, subindo orgulhoso

Mas mal me sentei, começou a pular

Direto pro chão conseguiu me jogar

Foi dura a tal queda e aprendi a lição

De forma que agora só faço canção

Nos dez de galope na beira do mar. 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

TALVEZ

Crédito: Johannes Plenio (PEXELS)


Talvez eu esqueça as juras

De amor que tu não cumpriste,

Talvez se acabem as lágrimas

De dor que tu jamais viste,

Talvez apague pra sempre

O dia em que tu partiste.


Talvez chegue enfim o dia

Que provarei liberdade,

Talvez o meu peito possa

Não mais doer de saudade,

Talvez eu veja de novo

A tal da felicidade.


Talvez certo dia possa

Tomar-te o arrependimento,

Talvez tomes consciência

De todo o meu sofrimento,

Talvez finalmente entendas

Este meu padecimento.


Talvez eu até consiga

Livrar-me desse embaraço,

Talvez ver que em sua vida

Jamais tive algum espaço,

Talvez parta para outra

Dando fim a tal cansaço.


Talvez possas enxergar

Todo o mal que me tem feito,

Talvez retorne à lembrança

Promessas de amor perfeito,

Talvez saibas de uma vez

Que sempre foi do teu jeito.


Talvez veja que a mentira

Sempre foi o teu caminho,

Talvez eu enfim aceite

Que só caminhas sozinho,

Talvez eu até desista

De implorar o teu carinho.


Talvez o cruel remorso

Para sempre te persiga,

Talvez me faça entender

Que não passei de uma amiga,

Talvez também me convença:

Foi inútil cada briga.


Talvez a vida me ensine

A caminhar solitária,

Talvez a trilha se mostre

Bem mais extraordinária,

Talvez ache na amizade

Relação mais solidária.


Talvez tu por fim descubras

O verdadeiro sentido,

Talvez tu sintas na pele

A dor de ser esquecido,

Talvez possas entender

O quanto tenho sofrido.


Talvez após a jornada

Estejas bem mais maduro,

Talvez sejas para alguém

Aquele porto seguro,

Talvez sejas uma porta

Em direção ao futuro.


Talvez seja eu a última

A quem cobriste de enganos,

Talvez não apliques mais

Os teus gestos mais insanos,

Talvez tenhas mais juízo

Após o passar dos anos.


Talvez eu encontre alguém

Que não desfaça o que fiz,

Talvez eu ainda encontre

Motivo pra ser feliz,

Talvez o elixir do tempo

Apague esta cicatriz. 


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PROTESTO

Crédito: Darya Sannikova (PEXELS) 

Deverei permanecer calado

Perante tanta injustiça?

Pergunta minha consciência.


A realidade amarga meus lábios

Regurgito o fel da hipocrisia

Bombardeado pelas vozes da maledicência.

Retirarei a mordaça da censura

Pronto para assumir qualquer consequência...


 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CONVITE NEGADO

Crédito: Mihman Duganli (PEXELS)


Um menino faceiro acena do outro lado da janela...

Cá dentro, contento-me em apenas assistir.

Exige minha atenção por meio de insistentes braços

Não ouso sair, ele não me inspira confiança.

Além do mais, anda por caminhos incertos

E não sou afeito a aventuras.


Tranquei-as todas no baú de minha mocidade

Agora só inicio minhas jornadas na companhia do previsível...

Embora o menino persista de um jeito todo convidativo

Meu coração já não está para surpresas

A idade não permite navegar ao sabor das ondas


Ele pode oferecer-me um mundo de novidades

Prefiro continuar com os pés cravados no chão

E a linha de chegada ao alcance dos olhos.

Tudo o mais, deixo à mocidade com seus ares de ousadia...


terça-feira, 11 de agosto de 2026

O PREÇO DA FAMA

Crédito: Ekaterina Belinskaya (PEXELS)

Atirar uma pedra na vidraça

O caminho mais curto para a fama

Os aplausos de um público que inflama

A sensação de estar em plena graça.


Mas a plateia um dia fica escassa

E a voz inflada do ego já reclama

Migalhas de sucesso ele então clama

Não basta desejar, logo fracassa.


Pois o sucesso é uma curta estrada

Da qual nunca se sabe qual o fim

Nem quando ela será interditada.


Pois um dia o fracasso chega, enfim,

E a mente que não for tão preparada

Vai passar sua vida inteira assim.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A AMBIÇÃO E A FALTA DE AMOR PRÓPRIO NA BUSCA PELA FELICIDADE

Crédito: Pavel Danilyuk (PEXELS)

 "Qual é a grande ação que não parece extremada no momento em que a empreendem? Só quando foi cumprida é que parece possível às pessoas comuns."

Sejam bem-vindos, caro leitor e cara leitor, todos que me acompanham nessa viagem alucinante pelo vasto universo da literatura. Seguimos desbravando os clássicos e seus criadores. Vamos deixar a tenebrosa Transilvânia e a experiência de terror que vivemos na Romênia e vamos, mais uma vez, voltar à charmosa França, para isso vamos acessar a nossa “playlist” com a canção “O vermelho e o negro” na voz de Angélica Rizzi. Enquanto isso vamos nos dirigir ao ano de 1830, chamado de Tempo da Restauração. Após nossa devida localização, vamos apresentar nosso protagonista, o jovem Julien Sorel, rapaz inteligente e bonito, que passa o tempo lendo ou envolvido no mundo dos sonhos, em vez de trabalhar com seus irmãos no ofício de carpinteiro.  Mais tarde, ele vira um acólito e acaba recebendo a função de tutor dos filhos do prefeito. Ah! Julien também se mostra um rapaz ambicioso. Um dos seus artifícios para impressionar as pessoas é citar partes da bíblia que ele memorizou (hoje, na era da internet, para pousar de intelectual, as pessoas copiam e colam, não é? Ou pedem para a IA). 

Julien, trabalhando como tutor na casa do prefeito, acaba se apaixonando pela esposa dele por causa da forma muito gentil com que ela o trata. Ela, uma mulher ingênua, quando se dá conta, também está apaixonada pelo jovem. Como não é difícil de imaginar, o leitor já pressupõe que vamos presenciar um caso de adultério, ação comum nesses romances, (vamos lembrar nossa Madame Bovary) e está totalmente correto. Acontece que a camareira da senhora Renal também estava apaixonada por Julien, mas foi recusada por ele. Ah, caro leitor, nunca subestime um coração desprezado, pois ele é capaz de tantas coisas (como nos casos do sombrio Heathcliff e do pobre Werther). Ao descobrir o caso dos dois, ela não teve a menor dúvida: espalhou para toda a cidade. Como se isso não bastasse, o prefeito ainda recebe uma carta anônima. Diante do escândalo, o superior de Julien retira o rapaz e o manda a um seminário em outra cidade. Logo depois de livrá-lo de perseguições, ele o recomenda ao cargo de secretário do Marquês de La Mole.

Julien, então, parte para Paris e passa a conviver com a família do marquês. Agora ele tem acesso à alta sociedade, aos ambientes cheios de pompas e pessoas de grande influência, o que, de início o vislumbra, devido à sua ambição, mas isso de nada adianta porque as pessoas ainda o veem como um mero plebeu por causa de suas origens. O jovem aprende, da forma mais dura, os mecanismos de hipocrisia da elite, os quais jamais possibilitarão que alguém capaz como ele possa ascender socialmente. Mas também se pode observar uma contradição no rapaz: ele odeia a classe alta, mas quer pertencer a ela. Certo dia, Julien é levado a uma reunião secreta e é enviado em uma perigosa missão secreta, na qual leva uma carta política a um destinatário desconhecido, mas mal sabe ele que se trata de uma conspiração, pondo em risco sua vida. 

Além disso, Julien desenvolve uma paixão pela filha do marquês, a qual também começa a nutrir certo interesse por ele, mas tem suas ressalvas por ele pertencer a uma classe social inferior. Entre altos e baixos, encontros e desencontros, seduções e rejeições, Julien segue os conselhos de um conhecido russo a fim de tentar conquistar de vez o coração de Mathilde. Quando o plano enfim parece estar dando certo, ela fica grávida dele e ele acaba caindo nas graças do marquês, pronto a receber propriedade, título de nobreza e um posto no exército, o pai da moça recebe uma carta da senhora Rênal, antiga amante de Julien, denunciando como um oportunista, um rapaz que seduz mulheres ingênuas. Inconformado com isso, Julien vai À procura da ex-amante e atira nela dentro da igreja, durante a missa. A partir daí, segue-se sua prisão e condenação enquanto alguns dos amigos que fez durante todo esse tempo tentar salvar sua vida e anular sua condenação. Sua amada, Mathilde, visita-o com frequência na prisão, demonstrando não querer desistir dele; porém, para a surpresa do leitor, ele acaba se cansando disso. Isso porque, em poucos dias, ele recebe a visita de sua vítima, que escapou ao atentado e revela que ainda o ama. Ele, então, descobre, no fim das contas, que ela é seu verdadeiro amor. 

Meu caro leitor, o que vai acontecer daqui para frente já não vai nos trazer surpresa alguma, até porque é a consequência previsível do que acontece com alguém não pertencente à alta sociedade (basta-nos recordar a sina de outro cidadão francês: Valjean) tantas vezes no sistema judiciário. Claro que não posso isentar Julien de sua ação homicida, pois não há como justificar o ato de tirar a vida de alguém. Não há mesmo. Lembrando que, em enredos românticos como esse, são comuns os crimes ditos passionais, nos quais a razão abandona de vez o ser humano e a paixão o torna um trem desgovernado como se diz naquela canção eternizada na voz de Orlando Silva: “O coração tem razões / Que a própria razão desconhece”. O romance também tem seu tom realista ao revelar o adultério como uma prática comum da sociedade, ignorando qualquer argumento, justificada pelo desejo de uma vida mais emocionante e a vivência do amor como uma aventura a se experimentar. 

Um aspecto que não deixa de ser importante é a ambição do protagonista, que procurava ascender socialmente, acreditando que ali encontraria a felicidade que buscava. Entretanto, apesar de seus atributos como a inteligência e a beleza, sempre teve tudo isso praticamente ignorado em detrimento de sua origem humilde, não trazendo a ele a realização pessoal (mesmo drama acontecido ao personagem Eugênio no mais famoso romance de Érico Veríssimo). Outro aspecto que não podemos deixar de observar, nas duas pretendentes, a falta de amor próprio, que as leva a se humilharem diante de um homem que procurou se aproveitar delas e, inclusive, usá-las como escada social. Isso sem contar que uma delas quase foi morta por ele a tiros. Ambas o visitam na prisão sabendo da presença da outra no coração de seu amado, mesmo assim dispostas a dar-lhe seu perdão devido ao medo de ficarem sem ele para sempre, como se a felicidade delas dependesse exclusivamente dele. Entendo que, no fim das contas, faltou, a ele e a elas, uma boa dose de amor próprio para poder norteá-los em sua procura. Não é à toa que o homem mais sábio que já passou por essa terra disse-nos para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Ah, como ele sabia das coisas. Ele entendia que não pode ser possível amar alguém verdadeiramente se não amarmos a nós primeiramente. Que em nossa busca eterna pela felicidade não percamos, no meio do caminho, o amor por nós mesmos. Até a próxima.

STENDHAL. O Vermelho e o Negro, Porto Alegre: Ed. Dublinenses, 2016.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

QUASE

Crédito: Francesco Ungaro (PEXELS)


Quase dei uma resposta

Pelas injúrias sofridas,

Quase questionei calúnias

Que a mim foram dirigidas,

Quase me curei da insônia

Das noites tão mal dormidas.


Quase encontrei um espaço

Pra fazer a própria história,

Quase tomei minha parte

Em um momento de glória

Quase registrei meu nome,

Nas páginas da vitória.


Quase superei os medos

Pra vencer a frustração,

Quase consegui a chave

Que abrisse meu coração,

Quase segui pela trilha

Em rumo à superação.


Quase deixei de pensar

De forma individualista,

Quase passei a agir

De uma maneira altruísta,

Quase pude concordar

Com outros pontos de vista.


Quase ofereci ajuda

Àqueles que tinham fome,

Quase parei de julgar

Alguns pelo sobrenome,

Quase chamei cada um

Pelo verdadeiro nome.


Quase protestei perante

Qualquer forma de injustiça,

Quase espantei de verdade

A sensação de preguiça,

Quase olhei pros bens alheios

Sem a mínima cobiça.


Quase estendi minha mão

Para algum irmão caído,

Quase fiz secar as lágrimas

Do próximo tão sofrido,

Quase mostrei a saída

A quem estava perdido.


Quase achei a solução

Para o problema que tinha,

Quase permiti ser nossa

A estrada que quis só minha,

Quase dei um rumo nobre

A esta vida mesquinha.


Quase deixei a ambição

Pra ser feliz de verdade,

Quase insisti em lutar

Por nova realidade,

Quase parei de mentir

Pra viver de honestidade.


Quase optei por justiça

No lugar de ter vingança,

Quase abdiquei do ódio

Para plantar esperança,

Quase abandonei o adulto

Pra voltar a ser criança.


Quase enterrei o passado

Para viver o presente,

Quase converti meu pranto

Em semblante sorridente,

Quase não mais recuei

Para enfim seguir em frente.


Quase tomei dianteira

Pra defender o mais fraco,

Quase provei que não era

Farinha do mesmo saco,

Quase trouxe o puro brilho

A este olhar tão opaco.


Quase conquistei amigos

Pra deixar de ser sozinho,

Quase busquei a grandeza

Em vez do plano mesquinho,

Quase esqueci de ser rude

Pra manifestar carinho.


Quase mudei minha rota

Pra procurar novo norte,

Quase fui por conta própria

Pra não contar com a sorte,

Quase me agarrei à vida

Para não temer a morte.


Quase protestei com força

Ao invés de me calar,

Quase continuei a marcha

Sem medo de fracassar,

Quase fui compreensivo

Sem intenção de julgar.


Quase fui até o fim

De cada projeto meu,

Quase por diversas vezes

Cheguei a ser mesmo eu.

Quase, quase, sempre quase...

Que isso tudo aconteceu. 


NOSSO JARDIM

Crédito: Meriç Tuna (PEXELS) Voltará minha alegria Quando tu retornares Para seres minha. Nosso lindo jardim florescerá novamente: Juntos, b...