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segunda-feira, 13 de julho de 2026

QUANDO O CORAÇÃO SE PERDE NOS LABIRINTOS DA VINGANÇA

Crédito: Wikimedia Commons

“As feridas morais têm a particularidade de que se escondem, mas não se fecham; sempre dolorosas, sempre prontas a sangrar quando são tocadas, ficam vivas e abertas no coração. ”

Sejam bem-vindos e bem-vindas, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem ao mundo da literatura, esse universo repleto de magias e encantos prontos a serem descobertos. Eis, aqui, o nosso propósito inicial. Portanto, apertem os cintos porque vamos deixar, agora, a Itália medieval, nosso último paradeiro, no qual presenciamos uma trama tenebrosa e obscura, e façamos uma viagem curta até a França. Para tal, vamos acessar nossa tradicional “playlist” com a trilha sonora de “O conde de Monte Cristo” feita por Volker Bertelmann para a mais recente adaptação para as telas (2024), constando uma outra de 2002, sem contar tantas outras feitas durante o século XX. Nossa narrativa inicia-se no ano de 1815, em um período conhecido como o governo dos cem dias, quando Napoleão Bonaparte retorna ao poder após sua fuga do exílio na ilha de Elba.

                Mas é chegado o momento de vos apresentar o nosso protagonista Edmond Dantès, um jovem marinheiro que é imediato do navio Faraó e está noivo da bela Mercédès. Tudo está indo de vento em popa na sua vida, mas, como todos já sabem, algo de ruim terá de acontecer com nosso pobre Edmond para que seja criado o conflito de nossa trama. E isso não demora a ocorrer: às vésperas de seu casamento, ele é preso na Costa da Marselha, acusado injustamente de ser um espião bonapartista. E o curioso leitor pode acaso perguntar: “Como isso aconteceu? ” Ah, meu caro. Edmond foi vítima de um plano ardiloso arquitetado por três homens (Mondego, Danglars e Villefort) cada um deles tendo encontrado uma forma de tirar proveito dessa falsa acusação. O rapaz é enviado para a tenebrosa prisão do Castelo de If onde vai amargar por longos 14 anos. Isso mesmo que você ouviu: um longo período da sua vida por algo que ele não fez. Durante todo esse tempo, você deve estar pensando o que se passou com sua noiva.  Um dos traidores, Mondego, convence-a da morte de Edmond e acaba insistindo até que ela acaba tornando-se sua esposa. Não poderia ser pior, não é?

Porém, nem tudo são espinhos no calvário enfrentado pelo jovem marinheiro. Pois, como se fosse uma providência divina, lá ele conhece um outro preso: o Abade Faria, um homem de grande sabedoria e de muitos conhecimentos que (aí vem uma parte interessante) ele procura passar ao jovem como uma forma de alcançar a liberdade. O caro leitor deve recordar que, em nossa última viagem, vimos a relação entre conhecimento e poder. A partir de então tem começo uma relação de mestre e aprendiz, mas também uma grande amizade, algo que fazia muita falta a ambos. Antes de morrer, o velho revela a Edmond a localização de um grande tesouro que pode torná-lo um homem muito rico, desde que ele prometa que irá usar boa parte dele para fazer caridade. Após uma fuga espetacular da prisão, ele tem acesso ao referido tesouro e se torna um homem extremamente rico. Agora começa a nossa discussão sobre o tema deste nosso espaço. Você agora pode pensar: “Até que enfim, a justiça foi feita e agora o já não mais pobre jovem pode recuperar tudo que perdeu em vida e provar da felicidade. ” Ledo engano! Sabe o que fez com que Edmond sobrevivesse e resistisse a todos esses quatorze anos de sofrimentos e privações? Não foi a esperança ou a fé, mas um sentimento de poder avassalador e destrutivo: o desejo de vingança. Alguns leitores afirmarão que já imaginam como isso vai acabar. Estão corretos! Aos que acompanharam conosco os destinos de capitão Ahab (Moby Dick) e de Heathcliff (O morro dos ventos uivantes), sabemos muito bem do poder corrosivo da vingança, que suga tudo ao redor como um buraco negro, quase sempre disfarçada de senso de justiça.

 Nosso protagonista passa por uma drástica transformação: de uma vítima inocente de uma vil traição a um severo juiz que vai julgar, condenar e executar a sentença, tudo isso em nome da velha e boa justiça. Quantos de nosso mundo não se perderam nessa dicotomia justiça/vingança e acabaram destruindo suas almas para sempre, consumidos pela mágoa, pela revolta e pelo ódio. Não é à toa que existe um ditado de autoria desconhecida que diz: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas. “ Inclusive, reza a lenda de que o escritor, Alexandre Dumas, encontrou inspiração para esse romance ao encontrar uma história parecida nos arquivos da polícia de sua época. Agora, tendo o tempo e o anonimato como seus dois grandes aliados, não podemos também nos esquecer da fortuna que vai lhe abrir muitas portas, Edmond, esquecido e dado como morto, retorna a sua terra como o Conde de Monte Cristo para executar seu meticuloso plano de vingança a fim de retribuir a    ardilosa traição sofrida por ele há quatorze anos. Munido do ditado “A vingança é um prato que se come frio”, ele pensa em cada detalhe para que possa assistir de camarote à derrocada de seus algozes, os quais encontra gozando de todos os benefícios possíveis. Não bastasse isso, ele ainda é obrigado a ver o seu grande amor casado com um de seus malfeitores.

Durante o enredo, o conde tem a possibilidade de tomar outro caminho, mas a sua “sede de justiça” fala mais alto, fazendo ele abrir mão de sua felicidade pessoal. Ele possui todas as condições para um novo começo (tantas vezes vislumbrado na personagem Haydée, uma escrava salva por ele, a qual sempre apresenta o lado mais humano que poderia fazer o protagonista esquecer seu desejo nocivo, oferecendo a ele uma lealdade e uma ternura há muito não vistos por ele), entretanto, seu desejo de retribuição do mal que lhe fizeram sempre o domina (o ódio não aceita ser dominado, ele sempre domina) e ele segue cego em seu plano de vingança. Aos poucos, o conde sente o preço a pagar: o isolamento. Com o passar do tempo, ele próprio percebe que está trilhando um caminho sem volta e que a felicidade e a vingança não dividem a mesma estrada. Além disso, quanto mais ele avança, mais vai sentindo o vazio que se ocupa de sua existência. Nosso protagonista luta por uma causa que não lhe trará benefício algum, ou melhor, não trará nada de bom a ninguém. Pode-se dizer que ele escolheu por continuar no passado, não vivendo o presente nem cogitando o futuro. Quando seu plano estiver consumado, o que lhe restará? O que sobrará do jovem Edmond, cheio de sonhos e aspirações? Infelizmente esse jovem não mais existe, perdeu-se para sempre no caminho da vingança.   

Independentemente do desfecho dessa trama (leia o livro), seu enredo nos fala sobre as escolhas que todo homem tem diante de si, falando também que, quem fica preso ao passado, deixa de viver o presente e pode ser considerado uma pessoa sem futuro. Ainda mais se esse passado é portador exclusivo de ódio e dor. Edmond poderia ter um caminho muito diferente, mas escolheu o do ressentimento. Quero terminar essa viagem de hoje pedindo licença para uma citação bem incomum, mas oportuna, uma frase tida como bastante hilária de um dos episódios do impagável seriado do Chaves: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. “ Creio que seja uma definição muito pertinente e que traz consigo uma seriedade absurda. Que não nos percamos nos labirintos do ódio. Até a próxima!

DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. São Paulo: Clube de Autores, 2022. 

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