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| Crédito: Wikimedia Commons |
“As feridas morais têm a particularidade de que se escondem, mas não se
fecham; sempre dolorosas, sempre prontas a sangrar quando são tocadas, ficam
vivas e abertas no coração. ”
Sejam bem-vindos
e bem-vindas, caros leitores e caras leitoras, a mais uma viagem ao mundo da
literatura, esse universo repleto de magias e encantos prontos a serem
descobertos. Eis, aqui, o nosso propósito inicial. Portanto, apertem os cintos
porque vamos deixar, agora, a Itália medieval, nosso último paradeiro, no qual
presenciamos uma trama tenebrosa e obscura, e façamos uma viagem curta até a
França. Para tal, vamos acessar nossa tradicional “playlist” com a trilha
sonora de “O conde de Monte Cristo” feita por Volker Bertelmann para a mais
recente adaptação para as telas (2024), constando uma outra de 2002, sem contar
tantas outras feitas durante o século XX. Nossa narrativa inicia-se no ano de
1815, em um período conhecido como o governo dos cem dias, quando Napoleão
Bonaparte retorna ao poder após sua fuga do exílio na ilha de Elba.
Mas
é chegado o momento de vos apresentar o nosso protagonista Edmond Dantès, um
jovem marinheiro que é imediato do navio Faraó e está noivo da bela Mercédès. Tudo
está indo de vento em popa na sua vida, mas, como todos já sabem, algo de ruim
terá de acontecer com nosso pobre Edmond para que seja criado o conflito de
nossa trama. E isso não demora a ocorrer: às vésperas de seu casamento, ele é
preso na Costa da Marselha, acusado injustamente de ser um espião bonapartista.
E o curioso leitor pode acaso perguntar: “Como isso aconteceu? ” Ah, meu caro. Edmond
foi vítima de um plano ardiloso arquitetado por três homens (Mondego, Danglars
e Villefort) cada um deles tendo encontrado uma forma de tirar proveito dessa
falsa acusação. O rapaz é enviado para a tenebrosa prisão do Castelo de If onde
vai amargar por longos 14 anos. Isso mesmo que você ouviu: um longo período da
sua vida por algo que ele não fez. Durante todo esse tempo, você deve estar
pensando o que se passou com sua noiva. Um
dos traidores, Mondego, convence-a da morte de Edmond e acaba insistindo até
que ela acaba tornando-se sua esposa. Não poderia ser pior, não é?
Porém, nem
tudo são espinhos no calvário enfrentado pelo jovem marinheiro. Pois, como se
fosse uma providência divina, lá ele conhece um outro preso: o Abade Faria, um
homem de grande sabedoria e de muitos conhecimentos que (aí vem uma parte
interessante) ele procura passar ao jovem como uma forma de alcançar a
liberdade. O caro leitor deve recordar que, em nossa última viagem, vimos a
relação entre conhecimento e poder. A partir de então tem começo uma relação de
mestre e aprendiz, mas também uma grande amizade, algo que fazia muita falta a
ambos. Antes de morrer, o velho revela a Edmond a localização de um grande
tesouro que pode torná-lo um homem muito rico, desde que ele prometa que irá
usar boa parte dele para fazer caridade. Após uma fuga espetacular da prisão,
ele tem acesso ao referido tesouro e se torna um homem extremamente rico. Agora
começa a nossa discussão sobre o tema deste nosso espaço. Você agora pode
pensar: “Até que enfim, a justiça foi feita e agora o já não mais pobre jovem
pode recuperar tudo que perdeu em vida e provar da felicidade. ” Ledo engano! Sabe
o que fez com que Edmond sobrevivesse e resistisse a todos esses quatorze anos
de sofrimentos e privações? Não foi a esperança ou a fé, mas um sentimento de
poder avassalador e destrutivo: o desejo de vingança. Alguns leitores afirmarão
que já imaginam como isso vai acabar. Estão corretos! Aos que acompanharam
conosco os destinos de capitão Ahab (Moby Dick) e de Heathcliff (O morro dos
ventos uivantes), sabemos muito bem do poder corrosivo da vingança, que suga
tudo ao redor como um buraco negro, quase sempre disfarçada de senso de
justiça.
Nosso protagonista passa por uma drástica
transformação: de uma vítima inocente de uma vil traição a um severo juiz que
vai julgar, condenar e executar a sentença, tudo isso em nome da velha e boa
justiça. Quantos de nosso mundo não se perderam nessa dicotomia
justiça/vingança e acabaram destruindo suas almas para sempre, consumidos pela
mágoa, pela revolta e pelo ódio. Não é à toa que existe um ditado de autoria
desconhecida que diz: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas. “ Inclusive,
reza a lenda de que o escritor, Alexandre Dumas, encontrou inspiração para esse
romance ao encontrar uma história parecida nos arquivos da polícia de sua
época. Agora, tendo o tempo e o anonimato como seus dois grandes aliados, não podemos
também nos esquecer da fortuna que vai lhe abrir muitas portas, Edmond, esquecido
e dado como morto, retorna a sua terra como o Conde de Monte Cristo para
executar seu meticuloso plano de vingança a fim de retribuir a ardilosa traição sofrida por ele há quatorze
anos. Munido do ditado “A vingança é um prato que se come frio”, ele pensa em
cada detalhe para que possa assistir de camarote à derrocada de seus algozes,
os quais encontra gozando de todos os benefícios possíveis. Não bastasse isso,
ele ainda é obrigado a ver o seu grande amor casado com um de seus malfeitores.
Durante o
enredo, o conde tem a possibilidade de tomar outro caminho, mas a sua “sede de
justiça” fala mais alto, fazendo ele abrir mão de sua felicidade pessoal. Ele possui
todas as condições para um novo começo (tantas vezes vislumbrado na personagem Haydée,
uma escrava salva por ele, a qual sempre apresenta o lado mais humano que
poderia fazer o protagonista esquecer seu desejo nocivo, oferecendo a ele uma
lealdade e uma ternura há muito não vistos por ele), entretanto, seu desejo de
retribuição do mal que lhe fizeram sempre o domina (o ódio não aceita ser dominado,
ele sempre domina) e ele segue cego em seu plano de vingança. Aos poucos, o
conde sente o preço a pagar: o isolamento. Com o passar do tempo, ele próprio
percebe que está trilhando um caminho sem volta e que a felicidade e a vingança
não dividem a mesma estrada. Além disso, quanto mais ele avança, mais vai
sentindo o vazio que se ocupa de sua existência. Nosso protagonista luta por
uma causa que não lhe trará benefício algum, ou melhor, não trará nada de bom a
ninguém. Pode-se dizer que ele escolheu por continuar no passado, não vivendo o
presente nem cogitando o futuro. Quando seu plano estiver consumado, o que lhe
restará? O que sobrará do jovem Edmond, cheio de sonhos e aspirações? Infelizmente
esse jovem não mais existe, perdeu-se para sempre no caminho da vingança.
Independentemente
do desfecho dessa trama (leia o livro), seu enredo nos fala sobre as escolhas
que todo homem tem diante de si, falando também que, quem fica preso ao passado,
deixa de viver o presente e pode ser considerado uma pessoa sem futuro. Ainda mais
se esse passado é portador exclusivo de ódio e dor. Edmond poderia ter um
caminho muito diferente, mas escolheu o do ressentimento. Quero terminar essa
viagem de hoje pedindo licença para uma citação bem incomum, mas oportuna, uma
frase tida como bastante hilária de um dos episódios do impagável seriado do
Chaves: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. “ Creio que seja
uma definição muito pertinente e que traz consigo uma seriedade absurda. Que não
nos percamos nos labirintos do ódio. Até a próxima!
DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. São Paulo: Clube de Autores, 2022.

Resenha escrita com maestria.
ResponderExcluirAdorei!
Parabéns!