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| Crédito: Felipe Campos (FLICKR) |
“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso.”
Após uma pane em seu avião, um piloto faz um
pouso forçado no referido deserto e, ao acordar do acidente sofrido, encontra
um menino de cabelos de ouro e cachecol amarelo, que lhe pede um desenho. Cabe
lembrar que nosso aviador, quando criança, desejava ser pintor, mas fora
desencorajado pela falta de sensibilidade dos adultos. A partir daí, vai
surgindo uma inesperada amizade, com base nos relatos de ambos para se
conhecerem melhor. O piloto descobre que o rapaz à sua frente é um
principezinho de um asteroide chamado B-612, que possui três vulcões (um
extinto), uma rosa e alguns baobás. Essa rosa (A rosa vermelha) tomará boa
parte da narrativa do menino, explicando o relacionamento que existe entre eles
e a série de exigências que a mesma lhe fazia o tempo todo. Aí surge uma das
frases maravilhosas embutidas nessa narrativa, quando o piloto diz a ele: “Foi
o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Muito
interessado pela história do menino, o aviador ouve atentamente como foi sua
viagem, curioso por saber como ele chegou aqui à Terra.
O
príncipe narra sua passagem por diversos asteroides, todos eles, assim como o
seu, com apenas um morador, os quais não possuem um nome, contudo são reconhecidos
ou nomeados pelo ofício que exercem em cada um deles. Tratam-se todos de
adultos, completamente imersos em seus próprios “mundos”. Dentre eles, podemos
citar o rei, para o qual “todos os demais são súditos”. Ele oferece um cargo ao
príncipe, que não vê nenhum sentido e parte. Em outro planeta, encontra o
vaidoso, tenta até uma conversa. “Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só
ouvem elogios”. Um pouco mais adiante, encontra o beberrão, o qual admite
que bebe para esquecer a vergonha que tem de beber. Depois encontra o acendedor
de lampiões, que os acende e apaga constantemente, embora não saiba do sentido
que tenha, mas o faz somente porque assim diz o regulamento.
Ao
passar por cada local, o jovenzinho leva consigo uma lição em forma de reflexão
e questionamento, acerca da forma adulta de se ver a vida e de vivê-la. Em um
dos asteroides, o geógrafo fala a ele sobre um planeta chamado Terra, um lugar
repleto de gente, o que muito interessa ao principezinho, que parte para lá. É
na Terra que ele conhecerá a mais cativante das personagens (opinião puramente
minha, caro leitor): a raposa. Eles vão discutir sobre o valor da amizade, do
amor e, sobretudo da responsabilidade que temos uns para com os outros, como em
uma das mais célebres frases do livro: “Tu te tornas inteiramente
responsável por aquilo que cativas”.
O
livro “O pequeno príncipe” é visto como um livro infanto-juvenil por alguns,
infantil para outros, mas, para mim, caro leitor, essa classificação, quando se
trata de um clássico, não faz a menor diferença ou até mesmo importância. E por
quê? Porque este livro, em minha humilde opinião de mero leitor (mas apaixonado
pela leitura) fala alto ao adulto e nos chama a atenção para uma viagem ao
nosso íntimo. Para mim, é como se ele perguntasse a cada adulto: “O que você
fez com aquela criança que foi um dia?” Aí vem a questão: muitas vezes, em
nossa cultura, ouvimos frases como “deixa de ser criança”, “você não é mais
criança”, como se elas representassem tão somente a imaturidade e a inocência.
Durante sua viagem, o príncipe encontra adultos que viraram reféns de uma vida
rasa, superficial, repleta de suas mais absurdas ambições. Em quase todos os
asteroides, elas são sozinhas, como ele próprio diz: “As pessoas são
solitárias porque constroem muros ao invés de pontes”. Fechamo-nos, caro
leitor, em nossos mundinhos particulares que, como os asteroides visitados, não
têm espaço para mais ninguém.
A
criança representa o encantamento pela vida, em suas manifestações mais
simples, mantendo sua sensibilidade aberta ao espetáculo da existência. Como
também podemos encontrar na fala da raposa: “só se vê bem com o coração, o
essencial é invisível aos olhos”. Muitos perderam esse olhar e seguem não
mais vivendo, apenas existindo. E por que não dizer que alguns “vegetam” por
aí, como pepinos ambulantes? Muitos, com medo de sair da sua zona de conforto,
trancaram (infelizmente) a porta do seu coração porque “a gente corre o
risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas esquece sempre os
benefícios de um amor sincero e pleno. Sabemos que certas experiências acabam
nos deixando marcas profundas, verdadeiras cicatrizes emocionais, porém o sábio
principezinho nos lembra de que “é loucura odiar todas as rosas porque uma
te espetou”. As crianças também sofrem, mas se abrem a novas vivências. E o
que as move? Acredito que a esperança ou até mesmo a confiança de que tudo pode
ser diferente. Talvez, quando nos tornamos adultos, parece que perdemos essa
insistência (que às vezes até nos irrita) que a criança tem para conseguir o
que quer. Acho que passamos a desistir de nossos sonhos muito mais facilmente. “É
preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”.
Falta-nos a paciência (do adulto) e a expectativa (da criança). Passamos,
então, a buscar o caminho mais fácil para tudo, esquecendo-nos de que a
recompensa é proporcional ao tamanho do desafio.
Poderia
aqui citar ainda uma imensidade de trechos dessa fantástica obra que fala ao
coração do homem e que busca encontrar, lá dentro, uma centelha daquela criança
que ele já foi. Não, caro leitor, jamais retornaremos àquela doce inocência.
Isso é um preço pago por atingir a maturidade. Entretanto, o encanto pela vida
e o verdadeiro valor das coisas que realmente importam para se poder viver de
verdade, esse ainda pode ser resgatado. Que possamos olhar o mundo com a
responsabilidade do adulto, todavia sem perder, jamais, o encantamento da
criança. Que possamos aprender mais com elas, com seu jeito simples de enxergar
a vida e de dar sentido a ela, terminando com um trecho de um poema de William
Wordsworth: “Meu coração salta quando vejo / Um arco-íris no céu: / Assim era
quando minha vida começou; / Assim é agora que sou um homem; / Assim seja
quando eu envelhecer, / Ou me deixe morrer! / A Criança é pai do Homem”. Até a
próxima.

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