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| Crédito: Petit Gervais (PYCRIL) |
“Ensine aos ignorantes tanto quanto puder; a sociedade é culpada por não prover educação universal gratuita, e deve responder pela escuridão que produz. Se uma alma é deixada na escuridão, pecados serão cometidos. E a responsabilidade não é de quem comete o pecado, mas daqueles que causam a escuridão.”
Em
meio aos turbulentos acontecimentos diretamente derivados da citada revolução,
encontraremos nosso protagonista, Jean Valjean, um homem de bom coração que
ficou órfão ainda bem pequeno e que acaba sendo criado pela irmã mais velha. O
tempo passa e quando a irmã, agora com sete filhos, fica viúva, Valjean se põe
a ajudar a família como pode. Mas, para piorar a situação, ele perde seu
emprego, única fonte de sustento para todos eles. A situação de sua família não
se trata de uma exceção, porém quase uma regra da normalidade. O país vive um
quadro de desigualdade medonho. No extremo da necessidade, sem qualquer tostão
no bolso, Valjean acaba por furtar um pão, contudo é pego e condenado por seu
crime a realizar trabalhos forçados (fico me perguntando quanto tempo seria
necessário para pagar um simples e mísero pão). Ao tentar fugir de tal
condição, recebe como punição uma pena de dezenove anos, os quais são rigorosamente
cumpridos, e ele enfim é solto. Só que tem que carregar com ele uma folha
amarela, que deve apresentar como sua identidade a todo lugar, como se fosse
marcado com um selo de ex-detento.
Mesmo
após pagar (e muito caro, diga-se de passagem) por seu delito, esse homem vive
uma vida de medo, pois o passado o persegue, como se ele não tivesse quitado a
sua dívida com a sociedade. Não importa o que ele faça daqui em diante, o seu
passado para sempre o condenará e todos continuarão vendo-o tal qual um
marginal qualquer. Isso o faz mudar de nome, como se bastasse para remover dele
a marca que lhe fizeram. Nosso herói tenta, de toda forma, tornar-se uma pessoa
melhor, deparando-se sempre com a miséria e a injustiça em seu caminho, fora o
fantasma do passado, que insiste em bater à sua porta constantemente. Vai
trabalhar em uma fábrica, acaba solidarizando-se com a situação precária de
outras pessoas e tenta buscar um espaço nesse mundo, que tem muita dificuldade
em aceitá-lo, uma sociedade que prefere punir a orientar, aproveitando-se de
uma frase do filósofo Foucault em seu livro Vigiar e punir: “As prisões não
diminuem a taxa de criminalidade: pode-se aumentá-las, multiplicá-las ou
transformá-las, a quantidade de crimes e de criminosos permanece estável, ou,
ainda pior, aumenta (...) a prisão, consequentemente, em vez de devolver à
liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos”.
O que a prisão contribuiu para a transformação de Valjean, caro leitor?
Definitivamente nada.
Nesta
nossa viagem de hoje, ficam-me duas conclusões que perpassam o caráter
atemporal dessa obra-prima de Victor Hugo (quantos que não têm esse nome mal o
sabem que é em homenagem a esse vulto da literatura universal). “Os miseráveis”
nos mostra, primeiro, uma sociedade desigual por culpa de um Estado que não
cumpre o seu papel básico: governar para o povo. E quando digo: povo, caro
leitor, não é de forma específica não (quero avisar que não sou populista), é
genérica mesmo: isso quer dizer todas as pessoas, sem qualquer tipo de exclusão.
É garantir a todo mundo: educação, saúde, saneamento, prerrogativas que, em
nosso país, ainda são vistas como certo privilégio, não como direitos
irrevogáveis do ser humano. Para que ninguém fique confuso, quero esclarecer
que não falo de assistencialismo, como quem joga uma moeda a um pedinte. Não,
caro leitor, falo de direitos que estão previstos como retorno dos onerosos
tributos que pagamos todos os anos. Nosso Estado adora falar de deveres em suas
leis, mas nossos direitos estão sendo cada vez menos garantidos. Também não
pense que estou falando deste ou daquele governo, mas de todos eles.
Em
segundo, toca-me fundo a questão da justiça. Agora, como diziam os antigos para
que “não se confunda alhos com bugalhos” desejo deixar claro que não sou a favor
da impunidade. De forma alguma. Veja o que essa besta feroz tem provocado em
nossa sociedade com o passar dos tempos. Apenas acho que nossos sistemas
judiciário e prisional não funcionam há muito tempo (na verdade não sei se já
tiveram êxito real). Prendem-se, numa mesma cela, um ladrão de galinhas e um
homicida. Qual a perspectiva de melhora? Mas aí alguém me diz que eles devem
ser isolados do convívio da sociedade. E eu vos pergunto: quantos presídios
mais precisaremos construir? Eles mal são inaugurados e já sofrem de
superlotação. Você não acha que tem algo de errado com o sistema? Não se fala
em recuperação, só em punição. Acontece que tal método não tem diminuído o
número de infrações.
Há
tempos se encontra em voga, em nossa sociedade, a palavra meritocracia.
Confesso que acho um tanto quanto complicado levar a isso a sério em uma
sociedade como a nossa, na qual se constroem mais cadeias que escolas, em que o
custo de um único preso daria para manter três alunos. Em que o dinheiro pode
pagar por profissionais mais gabaritados e experientes, como podemos concluir
facilmente pelos grandes julgamentos e processo envolvendo grandes montantes.
Como diria o escritor latino Ovídio, para aquele momento erudito de nossa
coluna, em que posso tirar um pouco da ferrugem do meu latim: “Cura pauperibus
clausa est” (O tribunal está fechado para os pobres). Novamente, quero fazer-me
entender que não estou dizendo que a justiça é comprada (se bem que há certos
casos), contudo que ambas as partes não possuem os mesmos recursos. Se isto não
for desigualdade, o que seria? E, se existe desigualdade, portanto, ocorre
injustiça.
Chegando
ao fim de nossa viagem, amante que sou da cultura popular (cabe lembrar que tal
nomenclatura não a classifica como inferior à clássica) quero traduzir a frase
do célebre Ovídio para a sabedoria popular por meio dos versos de uma música
sertaneja: “Eta, espinheira danada / Que o pobre atravessa pra sobreviver /
Vive com a carga nas costas / E as dores que sente não pode dizer / Sonha com as
belas promessas / Da gente importante que tem ao redor / Quando entrar o fulano
/ Sair o ciclano será bem melhor / Mas entra ano e sai ano / E o tal de fulano
ainda é pior / Esse é meu cotidiano / Mas eu não me dano pois Deus é maior”. Caro
leitor, termino a viagem de hoje desejando que a fé e a razão nos guiem a uma
sociedade mais justa e mais coerente. Até
a próxima.
HUGO, Victor Marie. Os miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2014.

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