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terça-feira, 7 de abril de 2026

A EPIDEMIA DA DESIGUALDADE SOCIAL

Crédito: Petit Gervais (PYCRIL) 

 “Ensine aos ignorantes tanto quanto puder; a sociedade é culpada por não prover educação universal gratuita, e deve responder pela escuridão que produz. Se uma alma é deixada na escuridão, pecados serão cometidos. E a responsabilidade não é de quem comete o pecado, mas daqueles que causam a escuridão.”

                 Saudações, caro leitor. Espero que esteja preparado para mais uma jornada cheia de empolgação e agradáveis surpresas (porque as desagradáveis a vida já cuida de nos oferecer cotidianamente). Falando em viagem, deixemos a Inglaterra, novamente, mas não iremos muito longe desta vez, pois vamos nos dirigir às imediações, mais precisamente à nação francesa, no ano de 1862, porém, como já é de praxe, daí pegaremos o túnel do tempo para nos encontrarmos em 1815, período após a Revolução Francesa. É, caro amigo, como você já deve ter imaginado: hoje faremos um passeio histórico. Para tanto, vou dar o seguinte conselho: dar às costas à História é como ignorar as advertências da própria mãe e, depois, ter que ouvir da mesma, a velha frase: “eu bem que te avisei”. Vamos, então, acessar a nossa playlist para viagens, desta vez ouvindo o Hino Nacional da França, também conhecido como “A Marselhesa”, composto inclusive como uma canção revolucionária, em 1792.

                Em meio aos turbulentos acontecimentos diretamente derivados da citada revolução, encontraremos nosso protagonista, Jean Valjean, um homem de bom coração que ficou órfão ainda bem pequeno e que acaba sendo criado pela irmã mais velha. O tempo passa e quando a irmã, agora com sete filhos, fica viúva, Valjean se põe a ajudar a família como pode. Mas, para piorar a situação, ele perde seu emprego, única fonte de sustento para todos eles. A situação de sua família não se trata de uma exceção, porém quase uma regra da normalidade. O país vive um quadro de desigualdade medonho. No extremo da necessidade, sem qualquer tostão no bolso, Valjean acaba por furtar um pão, contudo é pego e condenado por seu crime a realizar trabalhos forçados (fico me perguntando quanto tempo seria necessário para pagar um simples e mísero pão). Ao tentar fugir de tal condição, recebe como punição uma pena de dezenove anos, os quais são rigorosamente cumpridos, e ele enfim é solto. Só que tem que carregar com ele uma folha amarela, que deve apresentar como sua identidade a todo lugar, como se fosse marcado com um selo de ex-detento.

                Mesmo após pagar (e muito caro, diga-se de passagem) por seu delito, esse homem vive uma vida de medo, pois o passado o persegue, como se ele não tivesse quitado a sua dívida com a sociedade. Não importa o que ele faça daqui em diante, o seu passado para sempre o condenará e todos continuarão vendo-o tal qual um marginal qualquer. Isso o faz mudar de nome, como se bastasse para remover dele a marca que lhe fizeram. Nosso herói tenta, de toda forma, tornar-se uma pessoa melhor, deparando-se sempre com a miséria e a injustiça em seu caminho, fora o fantasma do passado, que insiste em bater à sua porta constantemente. Vai trabalhar em uma fábrica, acaba solidarizando-se com a situação precária de outras pessoas e tenta buscar um espaço nesse mundo, que tem muita dificuldade em aceitá-lo, uma sociedade que prefere punir a orientar, aproveitando-se de uma frase do filósofo Foucault em seu livro Vigiar e punir: “As prisões não diminuem a taxa de criminalidade: pode-se aumentá-las, multiplicá-las ou transformá-las, a quantidade de crimes e de criminosos permanece estável, ou, ainda pior, aumenta (...) a prisão, consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos”. O que a prisão contribuiu para a transformação de Valjean, caro leitor? Definitivamente nada.

                Nesta nossa viagem de hoje, ficam-me duas conclusões que perpassam o caráter atemporal dessa obra-prima de Victor Hugo (quantos que não têm esse nome mal o sabem que é em homenagem a esse vulto da literatura universal). “Os miseráveis” nos mostra, primeiro, uma sociedade desigual por culpa de um Estado que não cumpre o seu papel básico: governar para o povo. E quando digo: povo, caro leitor, não é de forma específica não (quero avisar que não sou populista), é genérica mesmo: isso quer dizer todas as pessoas, sem qualquer tipo de exclusão. É garantir a todo mundo: educação, saúde, saneamento, prerrogativas que, em nosso país, ainda são vistas como certo privilégio, não como direitos irrevogáveis do ser humano. Para que ninguém fique confuso, quero esclarecer que não falo de assistencialismo, como quem joga uma moeda a um pedinte. Não, caro leitor, falo de direitos que estão previstos como retorno dos onerosos tributos que pagamos todos os anos. Nosso Estado adora falar de deveres em suas leis, mas nossos direitos estão sendo cada vez menos garantidos. Também não pense que estou falando deste ou daquele governo, mas de todos eles.

                Em segundo, toca-me fundo a questão da justiça. Agora, como diziam os antigos para que “não se confunda alhos com bugalhos” desejo deixar claro que não sou a favor da impunidade. De forma alguma. Veja o que essa besta feroz tem provocado em nossa sociedade com o passar dos tempos. Apenas acho que nossos sistemas judiciário e prisional não funcionam há muito tempo (na verdade não sei se já tiveram êxito real). Prendem-se, numa mesma cela, um ladrão de galinhas e um homicida. Qual a perspectiva de melhora? Mas aí alguém me diz que eles devem ser isolados do convívio da sociedade. E eu vos pergunto: quantos presídios mais precisaremos construir? Eles mal são inaugurados e já sofrem de superlotação. Você não acha que tem algo de errado com o sistema? Não se fala em recuperação, só em punição. Acontece que tal método não tem diminuído o número de infrações.

                Há tempos se encontra em voga, em nossa sociedade, a palavra meritocracia. Confesso que acho um tanto quanto complicado levar a isso a sério em uma sociedade como a nossa, na qual se constroem mais cadeias que escolas, em que o custo de um único preso daria para manter três alunos. Em que o dinheiro pode pagar por profissionais mais gabaritados e experientes, como podemos concluir facilmente pelos grandes julgamentos e processo envolvendo grandes montantes. Como diria o escritor latino Ovídio, para aquele momento erudito de nossa coluna, em que posso tirar um pouco da ferrugem do meu latim: “Cura pauperibus clausa est” (O tribunal está fechado para os pobres). Novamente, quero fazer-me entender que não estou dizendo que a justiça é comprada (se bem que há certos casos), contudo que ambas as partes não possuem os mesmos recursos. Se isto não for desigualdade, o que seria? E, se existe desigualdade, portanto, ocorre injustiça.

                Chegando ao fim de nossa viagem, amante que sou da cultura popular (cabe lembrar que tal nomenclatura não a classifica como inferior à clássica) quero traduzir a frase do célebre Ovídio para a sabedoria popular por meio dos versos de uma música sertaneja: “Eta, espinheira danada / Que o pobre atravessa pra sobreviver / Vive com a carga nas costas / E as dores que sente não pode dizer / Sonha com as belas promessas / Da gente importante que tem ao redor / Quando entrar o fulano / Sair o ciclano será bem melhor / Mas entra ano e sai ano / E o tal de fulano ainda é pior / Esse é meu cotidiano / Mas eu não me dano pois Deus é maior”. Caro leitor, termino a viagem de hoje desejando que a fé e a razão nos guiem a uma sociedade mais justa e mais coerente. Até a próxima.

HUGO, Victor Marie. Os miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2014.

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