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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

QUANDO O JOGO DE INTERESSES SE DIFARÇA DE MUDANÇA

Crédito: Public Domain Media

 

                    "Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude."

 Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, ao surpreendente mundo da ficção. Espero que estejam prontos para mais uma viagem. Tendo seus passaportes em mãos, podem embarcar, apertar os cintos e se preparar para ganharmos o céu azul rumo à nossa próxima fantasia. Vamos deixar, mais uma vez, a bela França e seu glamour para nos dirigirmos à doce Itália, mais precisamente à região da Sicília. Para isso, vamos só adiantar um pouco o nosso relógio até o ano de 1848, perto do momento da unificação. Vamos acionar a nossa clássica “playlist” com a trilha sonora feita pelo aclamado maestro Nino Rota para o filme “O leopardo” (1963) dirigido por Luchino Visconti, que, aliás, vale a pena ver. Foi o ganhador da Palma de Ouro, do badalado e respeitado Festival de Cannes, contando com os astros Alain Delon e Burt Lancaster, e a estrela Claudia Cardinalle em seu farto elenco.

                Chegando à Sicília, vamos encontrar a aristocrática família Corbera e seu chefe Don Fabrizio, o Príncipe de Salina, um homem imponente, muito culto, um tanto quanto cético quanto aos seres humanos, mas que ainda porta certo carisma, o qual encontra, dentro de sua propriedade, o corpo de um soldado do governo morto pelos chamados “camisas-vermelhas”, forçando-o a entender que novos tempos estão chegando, fato esse que os aristocratas como ele se negam a aceitar, preferindo viver na ignorância sobre tal advento, lembrando aquele ditado antigo: “O que os olhos não veem, o coração não sente”, ou ainda aquela expressão inglesa clássica: “A ignorância é uma bênção”. Aqui acontece algo cômico senão trágico: o príncipe possui consciência de classe e compreende muito bem o que está acontecendo, porém não tomará decisão nenhuma quanto a isso e ficará assistindo à própria derrocada da primeira fila como aquele motorista que vê um buraco à frente, tem tempo para desviar dele, entretanto não o faz.

Agora o deixemos um pouco de lado para conhecermos outro personagem importante: Tancredi, sobrinho do príncipe, um belo rapaz, inteligente e bem ambicioso. Pena que lhe falte dinheiro para realizar seus planos de futuro. Assim sendo, ele acaba desistindo de desposar sua prima Concetta, segunda filha de Don Fabrizio, porque não vê mais futuro em uma união aristocrática, visto que sua classe está se deteriorando, e busca, por meio do casamento, uma forma de compensar essa sua situação. Tancredi se apaixona por Angélica, uma linda moça, inteligente e de presença marcante, recém-chegada de Florença. Ela é filha de Dom Calógero, prefeito local e esperto latifundiário, um homem cuja ganância não tem limites, o qual representa a burguesia em ascensão.  Eles começam um namoro, o que faz com que Concetta, desiludida, sofra em silêncio por não ter sido escolhida e se torne uma pessoa cada dia mais amarga e melancólica.

Enquanto isso, Don Fabrizio enfrenta uma crise existencial. Afinal de contas, o seu mundo está ruindo aos poucos, a aristocracia está fadada a acabar e o que ele fará? Porque ele se dá conta de que a única coisa que ele sabe fazer no mundo é ser aristocrata. Depois disso tudo, o que lhe restará? Para a sua angústia, ele não tem nenhuma resposta. Ao passo que seu sobrinho, muito mais perspicaz, já prevendo tal final, adianta-se em seu casamento com Angélica, por ser a filha do homem mais rico da região. União que também convém à família da moça que, com muito dinheiro, só lhe falta o status trazido pelo sobrenome do futuro esposo. É, meu caro leitor, já vimos esse filme do casamento de conveniência passar aqui por algumas vezes. E saber que ele ainda sobrevive até hoje. Inclusive, em uma parte do livro, o autor mostra que, até mesmo entre os camponeses, existia esse tipo de relação baseada no interesse financeiro. Nem preciso dizer à cara leitora que não será um casamento feliz, mas, quem disse que eles buscavam alguma felicidade nisso, pois, em muitas ocasiões o status e o dinheiro falam mais alto e o casamento por amor é visto como uma falácia do Romantismo. Outro ponto é o apoio de Tancredi ao movimento de unificação, que ele considera inevitável, portanto, o seu apoio em busca de futuras alianças que poderão lhe trazer algum benefício, juntando-se, por isso, às tropas de Giuseppe Garibaldi e, depois, ao exército real.

Outro personagem, que não chega a ser um protagonista, mas apresenta um comportamento curioso é padre Pirroni, um jesuíta que serve a família como capelão particular e se torna um grande confidente e conselheiro do príncipe, mesmo sendo tratado, por diversas vezes, com certo desdém por ele. O padre ouve todos os seus queixumes e desabafos nos momentos de crise. É um homem de origem camponesa, humilde, mas que se agarra a uma nobreza em evidente decadência por medo de que a reforma tire os privilégios que sua igreja detém.

O ato de Tancredi junto aos revolucionários, não se trata de idealismo, mas de uma estratégia de sobrevivência. Como diz mais um ditado: “Vão-se os anéis, ficam-se os dedos”. Os nobres perderão seus títulos, porém manterão suas posses. Por trás de uma falsa mudança na engrenagem, aristocracia e burguesia atuam juntas em mais um espetáculo teatral no qual o povo continua sendo mera plateia. Tudo continuará na mesma, como pudemos observar em nossa viagem pela granja dos animais, não se lembram? O poder corrompe e corrói e o dinheiro a tudo compra desde que se descubra qual o preço a pagar. O autor demonstra, em seu romance, sua visão totalmente pessimista de uma sociedade que não se transforma, mas que segue o seu caminho na prática da troca de interesses. Se trouxermos nosso olhar vindo da Sicília do século XIX para o Brasil do século XXI, infelizmente, chegaremos à conclusão de que não mudou nada: grupos que se dizem antagônicos seguem fazendo alianças escusas e se intitulando salvadores da pátria e deixando o seu povo em segundo plano.

Por isso, em tempos como esse, acho muito complicadas as discussões que se dizem políticas e se ocupam de discutir políticos em vez de ideias ou planos de governo. Observo famílias e amizades que rompem seus belos laços de convivência por defenderem diferentes ídolos de barro, tão frágeis e vazios. Que possamos nos tornar amantes das boas ideias e, principalmente, daquelas que visem ao bem comum, isso se queremos verdadeiramente que a mudança aconteça. Todavia, antes de tudo, não nos custa lembrar o sábio Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Que ela comece a brotar de mim, de você, de cada um de nós e, se a semearmos pelas esquinas da vida, quem sabe, um dia, tenhamos a oportunidade de colhermos, juntos, os doces e suculentos frutos da tão sonhada e frondosa árvore da mudança. Até a próxima!

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi di. O leopardo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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