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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

VIGÍLIA NAS SOMBRAS

 

Imagem obtida por IA


Faz-se noite...

Trevas desabam sob a luz diurna

Por terra caem todas as certezas.

Bruxas à solta!

Pairam no ar o temor e a insegurança

Precipitam-se impressões sobre os descrentes

Por entre as sombras, o esquivar dos vultos.

Os ouvidos tornam-se, repentinamente, atentos

A todo e qualquer ruído, inclusive ao mais furtivo,

Em meio à escuridão, uma agonia se instala.

Parece ter a duração de séculos

Encerrados no compasso dos ponteiros do relógio...

Mentes abrem espaço a medos irracionais,

O coração, ansioso espera, em constante vigília,

O clarear libertador da aurora.


terça-feira, 16 de setembro de 2025

TIÃO VALENTÃO E ROSA FORMOSA (MAIO 2025)

 

Capa de Hadoock de Aninha


TEMA

Quantos enredos na literatura já não exploraram a figura do “valente”, seja na condição de um embuste ou de verdadeira coragem? Desde os contos do regionalismo universal de Guimarães Rosa em personagens como Targino e Augusto Matraga até os cordéis clássicos com protagonistas como Antônio Cobra Choca (Antônio Vila Nova) e o Valentão do Mundo (Severino Milanês) e tantos outros que poderiam ser citados aqui temos o exemplo dessa personagem característica do sertão. Escolhida a figura do valentão por que não o introduzir numa história de amor, daquelas típicas dos folhetins do século XIX, com um tom açucarado? O resultado foi essa história classificada por mim mesmo como clichê, com espaço de destaque para um momento de dramaticidade inspirado nas páginas do romance “Quo vadis” (1896). Pode parecer muita idealização, mas foi uma tentativa de adoçar um pouco a vida do leitor um tanto enfadado pelo amargor da realidade.

SINOPSE

Essa é a história de duas personagens: Tião, um valente à moda antiga, no mais puro sentido da palavra. Famoso por não ter medo de nada e de ninguém, seu nome corre de boca em boca pelo sertão como o homem mais temido da região; Rosa, uma bela moça da cidade, fina, sofisticada, simpática, muito gentil e atenciosa, não havendo quem não goste dela. Quis o destino caprichoso que essas pessoas pertencentes a dois mundos tão distantes acabassem se encontrando em circunstâncias para lá de inesperadas. Após esse encontro, marcado por fortes emoções, a vida não será mais a mesma para nenhum deles. O que realmente mudará no destino de cada um? Poderão esses dois mundos em contraste conviver em completa harmonia superando tamanhas diferenças? 

Sempre dizem que o amor
É capaz de coisa tanta,
Com poder devastador,
Ele encanta e desencanta.
Entre a paixão e o fervor
Se rebaixa ou se levanta.

O leitor deve pensar:
Essa é mais uma daquelas
Histórias de se esperar:
Cenas e tramas singelas
Como tantas a rodar,
Com moças bastante belas.

Também deve haver mocinho
Que ofereça proteção,
Tirando da rosa o espinho
E trazendo a salvação.
Seguem o mesmo caminho
E se acaba a narração.

Não está de todo errado
Sobre aquilo que vai ler.
Este tema bem usado
Eu também quis escrever.
Mas foi bem elaborado.
Continue para ver.

Eu peço, neste momento,
Somente um pouco de crédito,
Pois não há regulamento,
Nenhuma espécie de édito
Ao citar tal sentimento.
Mais nada também de inédito. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

AS FRONTEIRAS ENTRE A LUCIDEZ E A LOUCURA; O IDEALISMO E O SENSO DE JUSTIÇA

 

Rosinante - ilustração de Gustave Doré
https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/


“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é utopia, não é loucura, é justiça”.

               Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras. Conforme prometido na semana passada, hoje começamos nossa grande jornada pelos clássicos universais É com uma das falas mais lúcidas de um dos maiores símbolos da loucura da literatura universal que começo nossa primeira viagem (prometendo retornar a ela no momento oportuno). Apertem seus cintos, pois estamos nos aproximando da Espanha, mais precisamente da região de La Mancha, uma área natural e histórica localizada no centro-sul, abrangendo partes das províncias de Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo, conhecida por suas vastas planícies. O ano é 1605. Antes que você me pergunte o que fazemos aqui, tão distantes no tempo e no espaço, eu respondo: vim apresentá-lo a um dos mais conhecidos, senão o maior de todos, personagens da literatura universal: o fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Antes de partirmos, vamos preparar a nossa “playlist” de viagem com a música “Sonho impossível” (seja na voz do saudoso Altemar Dutra ou da esplêndida Maria Bethânia) cujo original “The Impossible Dream (The Quest)" é uma canção popular composta para o musical da Broadway de 1965, O Homem de La Mancha, também aparecendo no filme homônimo de 1972, estrelado por Peter O'Toole.

Esse compulsivo leitor das novelas de cavalaria (sim, ler pode virar uma compulsão, mas não se preocupe com isso agora) gênero literário predominante em sua época, em especial na península Ibérica, nosso protagonista, cujo nome real era Alonso Quijano, após tantas e tantas leituras, acabou mergulhando de cabeça no universo fictício do mundo medieval e de lá não conseguiu retornar jamais de tal forma que se batizou com seu novo nome de cavaleiro errante e passou a uma vida de aventuras, aquelas que tantas vezes lera nas novelas que abarrotavam as estantes de sua casa. 

O cavalo pangaré transforma-se no corcel Rocinante, uma bacia na cabeça torna-se o elmo de Mambrino e a camponesa da vizinhança vira a bela e nobre donzela Dulcineia. Tomado pelos elementos de idealização que retornariam mais tarde, no Romantismo, que vai adotar o cavaleiro medieval como herói, nosso paladino singular parte para a batalha. Acredite em mim, estimado leitor, nem uma centena de artigos nesta coluna seriam suficientes para cobrir as inúmeras proezas e aventuras vividas por ele, mas também não é esse o nosso objetivo. Até porque, para ser bem sincero, nada (guarde bem essa primeira lição literária!), nada pode substituir a leitura integral de um clássico.

O maior dos encantos dessa obra é, sem dúvida, a observação de um homem que trocou a realidade pela fantasia, o cotidiano pelo sonho. Sempre acordado, ele recusa-se a despertar para a realidade, colocando-se, o tempo todo, em maus lençóis pelos desvarios aos quais chama de aventuras. Agora, sim, retomando à nossa frase inicial, o protagonista enxerga sua missão de cavaleiro como a de qualquer outro homem comum neste mundo: a defesa da justiça. Justamente daí vem a simpatia por ele de tantos leitores como eu, que passam a desejar seu sucesso e torcer por um possível final feliz. Nosso cavaleiro busca a glória inacessível? Sim, mas por meio da manutenção de princípios mais do que sólidos e nobres. Isso nos põe a pensar: seria mesmo ele totalmente louco?

Uma das mágicas feitas pela literatura pode ser encontrada nesse livro, o qual o autor pretendeu usar como crítica ao gênero de cavalaria, que predominava em sua época como, segundo o mesmo, uma ficção exagerada que deturpava ao extremo a consciência da realidade. Acontece que (agora vem a segunda lição literária de hoje) nenhum autor tem controle sobre sua obra a partir do momento que ela sai de suas mãos e chega até o leitor. Nosso bravo Dom Quixote abriu um leque de releituras e interpretações a respeito da visão que se tem da realidade. Ao redor dos milhares de análises que já se fizeram, notamos em destaque palavras como loucura, alienação, utopia, idealismo e muitas outras.

Ao escutar um trecho da tradução da faixa original de nossa “playlist” de hoje: “Sonhar o sonho impossível,/ Sofrer a angústia implacável,/ Pisar onde os bravos não ousam,/ Reparar o mal irreparável,/ Amar um amor casto à distância,/ Enfrentar o inimigo invencível,/ Tentar quando as forças se esvaem,/ Alcançar a estrela inatingível:/ Essa é a minha busca”, fica claro o idealismo com o qual nosso guerreiro se reveste tal qual uma armadura impenetrável. Mesmo perdendo o senso da realidade, ele jamais abandona o ímpeto de lutar, lutar por algo que valha a pena, lutar por algo que faça sentido. Não se trata de um sonho egoísta ou mesquinho, uma besteira ou um mero capricho, mas um sonho que abarca um mundo todo. Um mundo que todos nós gostaríamos que se concretizasse. 

Dom Quixote faz o perfil do herói solitário, como tantos o são (ou será que solitária é a sua causa?), mas, para sua penosa diligência conta com a ajuda de seu escudeiro Sancho Pança, uma pequena parcela de juízo ou senso encarnado em um homem simples e que vê tudo de uma maneira muito pragmática ou prática. É como uma consciência que o tenta fazer colocar os pés no chão novamente e fazê-lo enxergar o quanto pode perder com essa sua louca busca (e aqui não há como não se lembrar do grilo falante que acompanha o personagem Pinóquio, do italiano Carlo Collodi, em suas aventuras). São dois opostos que se completam nessa jornada, mas que se resumem a dois extremos: enquanto esse não enxerga a realidade, aquele não se permite sonhar jamais.

A mais emblemática passagem do livro se dá quando o paladino da justiça confunde os moinhos de vento, tão comuns em sua região, com verdadeiros gigantes, e parte em ataque impetuoso, mesmo sob as advertências vazias de seu fiel escudeiro; episódio eternizado em telas de célebres pintores como Salvador Dali e Pablo Picasso e, mesmo léguas e eras distantes, na letra da música homônima do grupo Engenheiros do Hawaii no trecho: “Por amor às causas perdidas/ Tudo bem, até pode ser/ Que os dragões sejam moinhos de vento” (também vale a pena ouvir). Aproveitando o rock nacional, por que não lembrar a bela canção “O poeta está vivo”, composta por Frejat em homenagem a Cazuza com o trecho “O poeta está vivo/ Com seus moinhos de vento/ A impulsionar/ A grande roda da história” que faz uma bela comparação do poeta, com seus sonhos e desafios diante da crua realidade, com o nosso eterno cavaleiro que, aliás, deu origem ao adjetivo “quixotesco”, que caracteriza a pessoa utópica e sonhadora, inclusive deu vida a tantos fantásticos personagens, entre eles, nosso Policarpo Quaresma, da obra de Lima Barreto, que muito merece uma leitura.

Nossa viagem de hoje termina por aqui, com algumas reflexões que podem durar até a nossa próxima escala: cá entre nós, amigo leitor, quem nunca teve seus lampejos ou seus surtos quixotescos? Quem de nós não teve um sonho classificado como impossível ou simplesmente absurdo por outras pessoas? Que nunca desejou mudar a realidade em que vive ou até mesmo querer fechar os olhos para o mundo que nos cerca e sonhar, mesmo que por uma fração de segundos, com outra realidade? Quantos já não foram chamados de tolos ou loucos por almejar algo considerado impossível pela maioria? Despeço-me desejando, de coração, que nenhum de nós deixe apagar aquela centelha de Dom Quixote que resiste bravamente dentro de cada um. Não estou pedindo que se ignore a nua e crua realidade, mas, que nenhum de nós abra mão do direito de sonhar com um mundo mais justo e mais humano. Como diz um trecho de mais uma canção do musical “O homem de la Mancha”: “Pois quem não se aventura/ Com fé e ternura/ Não pode o mundo mudar”. Caro leitor, que ninguém perca a ternura, jamais. Salve, Dom Quixote! Padroeiro dos loucos e dos sonhadores.


SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. Dom Quixote. Rio de Janeiro: Antofágica, 2024.

 


sábado, 13 de setembro de 2025

QUANDO A MORTE ENTROU DE FÉRIAS (ABRIL 2025)

Capa de Isadora Oliveira Monteiro

TEMA

Muitos homens já chegaram a sonhar com a imortalidade. Para a humanidade, desde os tempos mais remotos, a morte é o inimigo a ser batido. Por isso, as ideias mais surreais tentaram tal façanha, tendo todas fracassado, uma a uma. Hoje a ciência, em especial a medicina, tem se debruçado a encontrar formas de prolongar a vida das pessoas. Inspirado no romance “As intermitências da morte” (2005), do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que trabalha brilhantemente com a possibilidade de um mundo sem a morte, explorando todos os aspectos que a envolvem: religião, economia, relacionamentos familiares, estrutura do estado entre outros, veio a ideia dessa narrativa que busca simular as consequências de um mundo sem a morte e, além de tudo, compreender a sua influência, invisível para muitos, em nossa vida social.

SINOPSE

Tudo começa quando a Morte, de maneira repentina, convoca todos os súditos de seu reino para um pronunciamento, fato totalmente inédito até então, portanto, despertando a suspeita de quase todos, que não deixam de especular a razão para tal acontecimento. No dia e hora marcados, tão esperados por todos, os quais não deixaram de comparecer à convocação, ela faz o grande anúncio: pela primeira vez, em milhares de séculos, ela resolveu tirar as tão merecidas férias, portanto deixará de agir, aproveitando também para observar como a humanidade vai lidar com a chance da imortalidade por algum tempo. Os servos ficam todos espantados com a notícia e são tomados pelos mais variados questionamentos: será essa uma boa ideia? Não ficará o mundo à beira do caos sem ela? Como os homens irão se comportar sabendo que não correm nenhum risco de morrer?

Seguem as primeiras estrofes:

Num reino muito distante

Bem pra lá do fim do mundo
Nas fronteiras do além,

Em um abismo profundo,
Reina toda absoluta
Em um solo infecundo.
 
A figura mais ilustre  
Da qual se teve notícia.
A ela ninguém engana
Com astúcia ou com malícia.
Ela é mais do que real,
Mas, para alguns, fictícia.
 
Dentre todo o universo          
É a Senhora Suprema.
A sua onipotência
Supera qualquer dilema.
Diante de sua face,
Não existe quem não trema.

Pois ela se encontra acima
De tudo que é mortal.
Tem natureza infinita,
Paira sobre o bem e o mal,
A razão e o sentimento.
Algo sobrenatural.
 
Alguns a chamam Destino,
Outros chamam de Má Sorte,
Às vezes Fatalidade,
A palavra é sempre forte.
Porém todos a conhecem
Tão simplesmente por Morte.



 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

UM ARTISTA ENTRE TRAÇOS E LETRAS


 

Hoje, na estreia do nosso espaço “De papo com o escritor”, temos a honra de receber o múltiplo artista e meu grande parceiro de projetos, Arnaldo Júnior. Para começar, vamos apresentar aos leitores um pequeno resumo de suas tantas atividades:

Arnaldo Martinez de Bacco Junior é professor de História, mestre e doutor em Educação, também é fanzineiro, cartunista, ilustrador, poeta, escritor (principalmente de literatura infantil e cordel) e ainda se atreve a fazer quadrinhos, roteirizando e/ou desenhando. Gosta de trabalhar em parceria e tem um montão de trabalhos publicados por aí. Participou dos zines Boca de Porco, O Travessão, Os Arnaldos Zine, Fede e muitos outros. Faz parte dos Coletivos Z, RPHQ e Escape para o Perigo. Seus quadrinhos mais significativos são: A Garota Perigo, Cospe Fogo, Ike o viajante do tempo, Cabelo, Pagando Micos e o Homem sem Graça Nenhuma. Em literatura infantil publicou Poemas Siderais (com André Oliveira, Alexandre Azevedo e Marciano Vasques), Dani Down um menino legal, O maior campeonato de todos os tempos e Histórias Avoadas, todos em parceria com André Oliveira e O menino e a avó do menino pela Caravana Editorial. Também ilustrou “Ribeirão Preto para as crianças” com textos de Ângelo Davanço, para a revista Revide. Em cordel, compôs e ilustrou diversos folhetos, muitos em parceria com Marcio Fabiano. Seus trabalhos podem ser vistos nas redes sociais: @osarnaldos,  @versosembrasa e @arnaldojunioreducacaoearte.

Arnaldo, gostaria de dizer que é uma grande satisfação receber você aqui nesse espaço. Seja muito bem-vindo ao “De papo com o escritor”.

Muito obrigado, Márcio. É um prazer estar aqui e falar um pouquinho com os seus leitores sobre o meu trabalho. Também é uma honra muito grande poder abrir a sessão de entrevistas deste blog literário. Desejo a este blog muito sucesso e vida longa.

São tantas e variadas as atividades que você desenvolve na sua carreira artística, mas que se dividem, praticamente, em dois grandes grupos: a escrita e a ilustração. Pode nos contar como cada uma delas surgiu na sua vida? Como foi que se deu esse contato?

Começando pela ilustração, que é mais simples, o que posso dizer é que todos nós desenhamos quando crianças, mas depois, por razões diversas, principalmente as críticas dos adultos, vamos abandonando. Eu nunca parei. Continuei desenhando e soltando a imaginação e aí, talvez, a partir de um certo tempo, carregado pela escrita. Essa me chegou primeiro pelos ouvidos, nas leituras que minha mãe fazia na hora de dormir, nos programas de rádio em que eu ouvia as narrativas da coleção Disquinho do saudoso Braguinha. Além disso, meu pai tinha uma pequena tipografia e lá, com ele, fui aprendendo as primeiras letras, rodeado de papel e tinta gráfica. Então, este conjunto de coisas foi fazendo em mim um apaixonado pela imagem e pelas letras.

Tanto na sua vida de escritor quanto na sua vida de ilustrador, você chegou a ter algumas grandes referências (profissionais, artísticas) que o ajudaram em seu desenvolvimento técnico e na busca do rumo verdadeiro na sua carreira? Como foi essa trajetória?

As influências são fundamentais na vida de quem trabalha com criação e digo “fundamentais” no sentido de fundamento mesmo, alicerce. Para mim, as maiores influências vieram dos quadrinhos e da música. Sempre gostei muito de quadrinhos e lia tudo, de Pato Donald a Spirit, de Mafalda a Valentina, de Tarzan a Pasquim. Inegável que esse contato com traços tão diferentes contribuiu na minha formação enquanto ilustrador, enquanto as letras de música foram minhas primeiras influências na escrita. Na adolescência, eu queria ser músico e foi assim que comecei a escrever minhas primeiras letras, meus primeiros versos.

Permanecendo ainda nesse caminho de um paralelo entre essas duas linguagens utilizadas nos seus trabalhos, poderia nos dizer qual o maior desafio que cada uma delas oferece para que o artista possa se fazer compreendido?

A escrita flui mais fácil, geralmente, enquanto a ilustração exige mais técnica, mais trabalho e equilíbrio. Quando ilustro um trabalho, meu ou de outro autor, preciso estar atento ao equilíbrio. A ilustração não pode ser somente uma repetição do que já está escrito nem pode criar uma outra narrativa para além do que o escritor deseja passar aos leitores. Então, seguramente, ilustrar acaba sendo um desafio maior.

Vamos fazer aqui uma pequena lista dos gêneros: história infantil, poesia, cordel, história em quadrinhos, fanzine, charge. Só de enumerar, já parece tanta coisa. Pensando em rotina e tempo hábil, como é se desdobrar entre tantos tipos de gêneros tão diferentes entre si e como se organizar para dar conta de toda essa produção?

Sinceramente não sei, rsrsrsrsrs. A poesia, a charge, as tirinhas, os contos infantis, foram surgindo naturalmente, sem que eu me desse conta. Então, de repente, vem uma ideia de charge ou de história em quadrinhos, ou de poema, se cordel ou verso livre, isso não tem hora para acontecer. É a necessidade do momento, do que quero transmitir, que determina o veículo. Acho que é isso, mas francamente não sei mesmo responder essa pergunta.

Nota-se que toda a sua produção, de uma forma geral, acaba sendo direcionada para o público pré-adolescente e mais ainda para o infantil. Olhando para sua biografia, o fato de ser professor e, depois, de ser avô, exerceu alguma influência na escolha por esse público?

Certamente que estar próximo dos jovens e principalmente dos mais jovens ainda, vai exercer um peso considerável quando estou produzindo alguma coisa, seja texto, seja imagem. Mas tenho também um lado mais adulto, mais reflexivo, embora pouco divulgado, até porque as produções literárias voltadas para os mais jovens têm tomado um bom espaço nas coisas que faço.

Ao analisar sua obra como um todo, observa-se que você possui vários trabalhos solo, mas o que chama mais a atenção é a quantidade de produções em diversas parcerias. Como é essa questão de trabalhar com outros autores, dividir a autoria de uma mesma obra?  

Embora boa parte de minha produção seja de trabalhos solo, gosto muito de trabalhar em parcerias e isso vem desde a minha adolescência. Dentre os vários parceiros, tive e tenho a honra e o prazer de trabalhar com Cordeiro de Sá, Vitor Pandão, David Lima, Karen Fagu, Denis Pimentão, Josy, Lucas Lourenço, Vinil, Alexandre Peixoto, Camilo, Zé Luís Jabá, Lucas Busatto, Julinho Nascimento, Evandro Navarro e meus parceiros mais assíduos: André Oliveira, Arnaldo Neto, Ângelo Davanço e Marcio Fabiano. Desenhando, escrevendo, compondo... é muito gratificante e só tenho a agradecer a essas pessoas incríveis.

Agora, tratando especificamente sobre a ilustração: após tanto tempo desenhando, como você descreveria o seu estilo hoje? Pode-se afirmar que seu traço passou por alguma transformação ao longo do tempo? Ele pode ser considerado definitivo a partir de então?

Minha ilustração é muito variada, eclética mesmo. Além de utilizar várias técnicas como guache, aquarela, lápis de cor, mesa digitalizadora, entre outros, para cada tipo de texto há a necessidade de se usar um tipo de ilustração específico para tal ocasião. E sim, meu desenho mudou e tem mudado muito e nunca deixará de mudar, mas sempre deixando uma marca, uma identidade. Ainda bem.

Falando sobre as temáticas abordadas em suas obras: você costuma ter algum tema recorrente, aquele de estimação, em seus livros? Se houver esse tema, qual a justificativa para tal escolha?

Isso pode variar bastante, pois o tema, às vezes, costuma surgir de uma inspiração, de um acontecimento ou até mesmo de um sonho, mas, por outro lado, ele pode também ser pré-determinado, sobretudo quando é um texto feito por encomenda. Então, posso dizer que eu não escolho os temas, na verdade, são eles que me escolhem.  

Agora, abordando especificamente a produção das histórias em quadrinhos por acabarem envolvendo simultaneamente os dois tipos de linguagem com os quais você trabalha. Gostaria que você explicasse como funciona o seu processo criativo. Existe alguma rotina ou sequência específica?

Varia um pouco, mas, geralmente, a ideia acaba surgindo primeiro. Depois vem a elaboração do personagem, que tipo de traço eu vou usar para contar aquela história e qual técnica usarei. Nessa fase, eu costumo fazer bastantes esboços e estudos, até conseguir encontrar o caminho da narrativa visual. Tudo isso acontece enquanto também estou brigando com o texto, definindo a narrativa, até chegar ao resultado que eu quero para aquele momento.

A respeito do seu mais recente lançamento, divulgado nas redes sociais: o livro “O menino e a avó do menino”. Fale-nos de onde e como surgiu a ideia desse livro e, afinal de contas, o que o leitor pode esperar encontrar dentro dele.

É um livro infantil que surgiu a partir de uma conversa com um amigo que me contava dos cuidados que ele tinha com a avó, já em idade bem avançada. A partir daí, comecei a lembrar de alguns casos envolvendo pessoas de mais idade e comecei a compor a história. O livro trata da perda de memória e da aquisição de memórias, respectivamente, entre a avó e o menino. Acometida por uma enfermidade que a faz voltar a ser criança, a avó encontra no menino, seu neto, o companheiro dessa nova fase de sua vida, enquanto o neto se alegra por ter com quem brincar e, assim, os dois embarcam nessa aventura maravilhosa chamada vida, com muita ternura, muito carinho, compreensão e amor. No final, acabei me dando conta de que escrevi um livro para toda a família.

Para terminar esse nosso bate-papo, gostaria que você falasse um pouco sobre o futuro. O que nossos leitores podem esperar daqui para frente? Restaram alguns projetos ainda guardados dentro da gaveta? Já existe algo em mente? 

A cabeça da gente é uma verdadeira usina. Não para nunca. No momento estou terminando a escrita de dois livros infantis e ilustrando um livro de um amigo muito querido. Nos quadrinhos estou também terminado um projeto muito legal do escritor e jornalista Gabriel Pereira que é o Chairman, um herói cadeirante. Estou muito empolgado com este projeto. Estou também retomando o Quadricordel, que é uma HQ de heróis narrada em cordel e mistura personagens da literatura clássica nacional, em parceria com meu grande amigo e ora entrevistador, Marcio Fabiano. Isso além das tiras semanais que faço para o cine Cauim e um ou outro projeto que surge pelo caminho. Então, caro leitor, pode aguardar que em breve, muito breve teremos novidades por aí.

Arnaldo, foi muito gratificante este bate-papo com você. Espero que nossos leitores tenham apreciado esse momento. Nosso blog agradece a sua disponibilidade que permitiu aproveitarmos essa conversa literária. Desejamos a você um grande futuro repleto de projetos e novas ideias. Até a próxima!

Eu que agradeço pela oportunidade e, repito, pelo privilégio de ser o primeiro entrevistado deste blog. Muito obrigado, Márcio e muito obrigado, leitores. Até mais e, enquanto isso, peço que nos acompanhem pelas redes sociais: @osrarnaldos, @versosembrasa, @arnaldojunioreducacaoearte. Abraços.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

A CRIATURA (MARÇO 2025)

Capa obtida por IA

 

TEMA

Quem nunca ouviu o ditado “A curiosidade matou o gato”? Segundo algumas fontes, a origem do ditado veio da Inglaterra e, em um primeiro momento era “A preocupação matou o gato”. Com o tempo, a preocupação foi trocada pela curiosidade. E é com base nesse ditado, o qual explora as consequências da curiosidade desmedida, que surgiu esse cordel cujo autor buscou inspiração em algumas histórias como o famoso e emblemático mito grego da Caixa de Pandora e do conto “A caixa” de Richard Matheson, que virou um filme escrito e dirigido por Richard Kelly. Aliás, o cinema está repleto de filmes com esse argumento. Tomando como ponto de partida, a curiosidade, que acaba por abrir um artefato que não deveria ser aberto, libertando um mal que estava aprisionado, surgiu esse cordel, com o diferencial de quebrar a estrutura narrativa tradicional e tendo o conflito como início.

SINOPSE

Três irmãos dispostos a viver uma grande aventura; uma cabana isolada no meio da floresta; um senhor já idoso de hábitos muito duvidosos e que vive de forma isolada, mantendo o mínimo de contato com a sociedade; um baú cujo conteúdo secreto, de acordo com os moradores do vilarejo mais próximo, deve guardar um preciosíssimo tesouro. Todos esses elementos juntos formam esse suspense que pretende prender o leitor do começo ao fim. O que haverá de tão valioso dentro de tal artefato? Seu interior guarda a resposta que mudará para sempre o destino dos três rapazes.


— Anda logo, desgraçado,
E não pare para olhar.
Se fizer isso de novo,
Eu irei te abandonar.
Ela deve estar por perto,
Trate de ficar esperto,
Não podemos vacilar.

Mas Artur, ainda em pânico,
Não sabia o que fazer.
Parecia tanto tempo
Que desatara a correr.
Tomado pelo cansaço,
Dolorida a perna e o braço,
Tentavam adormecer.

— Se ao menos vocês tivessem
Prestado mais atenção
Naquilo que eu tinha dito,
Em cada observação.
Não estávamos sofrendo,
Quais condenados correndo,
Passando tanta aflição.

Ah, não, mas vocês queriam 
Viver mais que uma aventura
E me colocaram nessa...
Como não vi tal loucura?
Pois agora olhe onde estamos:
Nem sei para onde vamos. –
Falou de forma bem dura.

Artur se encontrava em prantos,
As lágrimas escorriam
Por sua face rosada
E pela relva caíam.
Sem parar pra descansar,
O peito, agudo, a arfar.
Por quanto que aguentariam?

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O QUE FAZER

Imagem obtida por IA

 

O que fazer das lágrimas derramadas

durante a partida de quem se amou?

O que fazer das palavras amargas

ditas de maneira impensada a quem não as merecia?

O que fazer do precioso tempo perdido

em busca de certezas vãs e sonhos fúteis?

O que fazer da atitude do covarde silêncio

diante do direito sagrado de protestar?

O que fazer da oportunidade única

desperdiçada para sempre?

O que fazer do amor perdido

devido a um acesso de puro egoísmo?

O que fazer do sonho ideal

transformado em desilusão e pessimismo?

 

Nada mais a fazer

senão... lamentar...


Márcio Fabiano


CORDEL DA VIOLÊNCIA

Crédito: Enrico Hanel (PEXELS) “Quem pode mais, chora menos” Já diz o velho ditado. O homem se faz violento Pra não ser violentado Pois arma...