Hoje, o blog Cosmo Literário tem a honra
e a felicidade de receber o escritor ribeirão-pretano Perce Polegato. Segue
aqui um pouco sobre ele:
Perce
Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com
especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como
Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos
e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três
instituições universitárias.
É
autor de cinco romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”,
“Marcas de gentis predadores”, “Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na
escuridão”), quatro volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos
felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos
retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”). A metalinguagem, a busca
da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais
marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum”
(www.percepolegatto.com.br).
Seja
bem-vindo, Perce Polegatto, ao nosso quadro de entrevistas do blog Cosmo
Literário.
Muito obrigado pela recepção. Sou eu que agradeço.
Perce, você é
graduado em letras, com especialização em Literatura. Explorando as relações
entre o leitor, o escritor e o professor: como isso se deu? Quem veio primeiro?
Primeiro o leitor. Desde menino, desde que aprendi a
ler, queria ansiosamente entender o que eram todos aqueles sinais que eram as
palavras, geralmente complementando ilustrações de livros infantis. Depois, a
fase das HQs. Depois, só queria livros: policiais, espionagem, aventuras.
Quando fui para a faculdade, eu trabalhava em banco, durante o dia, e assim
sustentava meus estudos. Era jovem, pensava em fazer carreira no banco e
comecei mesmo: aos 22 anos, eu já tinha sido promovido duas vezes. E fui para o
curso superior, como diziam, mais para “ter um diploma”. Depois de formado,
passei a lecionar à noite em cursos supletivos e aproveitando as escassas oportunidades
que apareciam. Foi assim que tomei gosto pela profissão de professor. À parte
isso, a leitura era (e ainda é) um vício, independente de qualquer profissão ou
carreira que eu seguisse. O escritor tomou forma aos 19 anos, quando decidi
reescrever um diário íntimo que eu fazia e torná-lo um romance, distribuindo
alguns de meus pensamentos e visões de mundo entre personagens. Foi assim que
surgiu “Os últimos dias de agosto”. Comecei a escrevê-lo aos 19 e o terminei
aos 27, após oito anos de lapidação. Foi o maior tempo que dispendi na
concepção de um romance.
Segundo sua
biografia, você começou como poeta, mas assim que escreveu seu primeiro romance
“Os últimos dias de agosto”, resolveu dedicar-se inteiramente à literatura em
prosa. O que te fez tomar esse caminho sem volta?
Sim, eu tinha uma quantidade de poemas, escritos entre
o final da adolescência e os tempos de faculdade. Fiz uma triagem e publiquei
meu único volume de poesia, que é o “Diário contra o destino”. Era uma fase em
que eu só pensava em poesia, mesmo como leitor. Queria ler toda a poesia
possível, de nossos mestres brasileiros e de estrangeiros, de Castro Alves ao
enigmático Paul Celan. O que aconteceu foi que minhas ideias não eram mais
“poéticas”, eu já as imaginava na voz de algum personagem, imaginava as situações
e as sequências, enfim, narrativas em prosa. Como leitor, continuei lendo
poesia e admirando a criatividade dos pós-modernos, poetas e poetisas que eu ia
conhecendo ao longo do tempo.
Como leitor
voraz e professor de literatura você deve ter sofrido alguma influência de
algum escritor durante todo esse trajeto. Quais são suas referências?
São muitas, mas volto ao tradicional Machado de Assis,
que me impressionou com “Memórias póstumas de Brás Cubas”, uma verdadeira
revolução em muitos sentidos, o que me fez pensar que eu não deveria escrever
nada convencional, mas sempre orientado por essa ousadia criativa, algo que
surpreendesse o leitor e evitasse a mesmice, o tédio de textos previsíveis.
Sempre admirei os regionalistas, mas, talvez por sempre ter sido urbano, não me
identificava com eles. Um grande destaque para Dostoievski e Tchekhov, que
também me impressionaram muito quando os conheci.
Em suas falas
você tem sido categórico em se colocar como um escritor de literatura
exclusivamente feita para o público adulto. O que o fez enveredar de forma
exclusiva por esse público?
Meu primeiro romance, que citei anteriormente, era
sobre um jovem de 25 anos em crise existencial. Tudo isso era de adulto para
adulto, inclusive propondo sérios incômodos filosóficos, com a questão do
suicídio e a dificuldade em desenvolver um amor. Os livros infantis e infanto-juvenis
têm uma proposta positiva, politicamente correta, no sentido de romper
preconceitos, exercer a cidadania, mostrar às crianças e a adolescentes
caminhos para a vida, e o que eu queria, como leitor e como escritor, era
justamente a subversão, a denúncia do que havia de mais desafiador na condição
humana, o que inclui injustiças, sofrimentos, sem a obrigação de um final bem
compreendido, feliz ou edificante. Os finais inquietantes são os que mais me
atraem.
Você foi autor
homenageado na Feira Internacional do Livro em Ribeirão Preto no ano de 2024.
Gostaria que nos dissesse como se sentiu na época e como vê esse reconhecimento
como escritor.
Foi uma surpresa e tanto quando recebi o convite. Nem
de longe imaginava que meu nome estivesse entre os autores cotados para essa
homenagem. Cheguei mesmo a perguntar, educadamente, como foi que me “acharam”.
Foi gratificante ver que minha obra passava a merecer alguma atenção, algum
destaque. Também me senti privilegiado ao conhecer mais de outros autores
homenageados, como João Augusto e Matheus Arcaro, o homenageado deste ano, que
são muito talentosos, e isso me fez sentir realmente honrado.
Nessa
trajetória literária, são cinco romances, quatro livros de contos e um livro de
poesias. Como é o seu processo criativo para escrever isso tudo?
Eu não faço projetos, não me dou prazos, tenho a
chance de exercer essa atividade com toda liberdade. Só começo alguma coisa
quando tenho uma ideia que acho válida, própria a um texto literário. É preciso
ter cuidado com essa triagem, pois muitas ideias, pretensamente boas, ficariam bem
em um filme, não em uma narrativa literária. Quando fiz 40 anos (apenas
coincidência o ano exato), parei de escrever, por falta de boas ideias. Ao
longo de uma década, escrevi apenas três contos. Então, perto dos 50, me ocorreu
a ideia central de “Marcas de gentis predadores”, sobre um suposto crime, que
envolve, de maneira mais ampla, o universo masculino, os homens de todas as
partes do mundo e em todas as épocas, que eu chamei de “gentis predadores”.
Levei cinco anos para terminá-lo, mas estava completamente envolvido, talvez
por ter encontrado um tema muito próximo, os grupos a que pertencemos desde
meninos, os homens em todas as suas variações e a distância que nos separa das
mulheres, algo que só percebemos mais claramente depois de adultos.
A maioria dos
escritores, senão todos eles, costuma ter seus temas preferidos. Você tem
algum? Quais seus critérios de escolha?
Meu tema é genérico: a condição humana. Eu escrevo sobre o que nos faz viver e sobre o que nos faz morrer. Sobre as coisas que
pensamos conquistar e depois perdemos para sempre. Em meio a tudo, somos personagens
de uma existência estranha, quase indecifrável, moldada entre música e poesia, tragédias
e guerras.
Você se
envolveu recentemente com um novo projeto chamado “Um estreito, fino rastro de
sangue”. Pode nos contar como foi essa experiência?
Esse romance é uma versão adaptada de “Marcas de
gentis predadores”. Eu excluí os flashbacks que mostravam a juventude do
personagem e me concentrei na trama central, que é a mesma. É um de meus livros
mais vendidos, e acho que acertei em conceber essa nova versão, mais acessível
aos leitores que só se interessam pelo quebra-cabeça que é a própria trama. Recentemente,
Antônio Alexandre, da D Mais Rádio Web, propôs a gravação do romance, como um
audiolivro, e eu aceitei. Ele está sendo divulgado em episódios nessa rádio,
como um folhetim, todas as terças-feiras, às 21h. O programa se chama “Da
impressão à audição” e abre com uma vinheta meio sinistra, meio impactante, tudo
ideia dele.
Olhando para
trás e para tudo que fez até hoje, você se dá por satisfeito e realizado? você
acha que ainda falta fazer algo no campo da literatura?
Sim, completamente. Fico revendo minha evolução desde
meus primeiros contos ingênuos e com linguagem muito simples até um romance
como “Projeto esvanecendo-se”, que considero um de meus melhores trabalhos e
que utiliza todas as técnicas literárias que absorvi ao longo da vida, toda a
estética, toda a autocrítica que faz dele um texto amadurecido, criativo e,
como sempre, subversivo. Acho que não me falta nada como escritor, fiz tudo o
que quis fazer, até onde quis, e, como não pretendo escrever nada em outro
gênero, como teatro ou livros infantis, continuo apegado a ideias que eu possa
desenvolver em romances ou contos. No fundo, acho que não vou escrever nada
melhor do que o que já fiz antes, e isso inclui “A conspiração dos felizes” e
“Inconsistência dos retratos”. Dificilmente (talvez nunca) vou escrever algo
mais intenso e impactante que algumas dessas obras.
Como escritor e
como um estudioso graduado, como você vê a relação entre literatura e internet
hoje?
A internet é uma grande ferramenta de divulgação, isso
ajuda muito a quem escreve. Alguns começam por publicar em blogs e sites, como
se fazia no século XIX nos jornais, com o chamado folhetim, antes de concretizarem
seus textos em formato definitivo, encaminhando-os à forma de livro. E ainda
pode ser um livro digital, de baixo custo, acessível a todos. Da mesma forma
como a internet teve um importante papel na divulgação da música erudita, ela
ampliou as possibilidades para leitores e autores.
Perce, foi um
grande prazer ter você aqui conosco. Agradecemos o seu tempo e sua
disponibilidade para esse bate-papo.
Obrigado pelo convite e pela oportunidade. Falar em
livros, leitura e literatura é algo que me envolve naturalmente,
prazerosamente. Muito obrigado e um grande abraço.