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segunda-feira, 16 de março de 2026

A LUTA DO HOMEM PARA CONQUISTAR SEU LUGAR AO SOL

 

Crédito: Renz Isidro (PEXELS)

“Velho. É o que sou. Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.

                 Bem-vindo de volta, caro leitor! Novamente nos encontramos aqui presentes. Possamos mergulhar de cabeça nas águas; ora cristalinas, ora turvas, desse infinito oceano de saberes que é a literatura. Deixemo-nos levar ao sabor das ondas das experiências trazidas dos clássicos universais. Por que vos falo dessa maneira, com esse linguajar um tanto assim marítimo? Já deve imaginar que é porque hoje, mais uma vez, iremos singrar os sete mares. Acabei de pensar em quantas navegações fizemos juntos... não é mesmo? Aliás, nossa última viagem, se o caro leitor ainda lembra, foi marcada por uma sucessão de abandonos e naufrágios (acho que o Swift apelou com o Gulliver), o que acabou por não deixar boas recordações (sem falar no cruel destino do pobre capitão Ahab). Mas, deixemos de prosa e vamos voltar ao ano de 1952, nosso destino: mar de Havana, na costa da ilha de Cuba. Para a nossa “playlist” de hoje, recomendo a música “O velho e o mar” (2016) do cantor Rubel, inspirada nos desafios do protagonista do romance, uma música no estilo folk para nos fazer viajar.

                 É aqui, à beira-mar, que vamos encontrar Santiago, um pescador que já começa a sentir o peso dos anos. Fazia um tempo considerável que ele não realizava boas pescas, não exibia grandes peixes. Apesar de ser uma pessoa dotada de grande experiência e dono de uma sabedoria que só a bagagem dos anos pode trazer, nosso protagonista é tido como uma pessoa já sem sorte para lançar-se ao mar, um fator que, (acredite se quiser!) se leva muito em consideração entre seus pares. Até mesmo seu aprendiz, Manolin, não o acompanha mais por conselho da família, sendo obrigado a procurar por pescadores mais jovens, contudo jamais deixa o companheiro, pois ambos possuem uma daquelas amizades inabaláveis, demonstrada por diversas vezes ao longo do romance, com várias manifestações de respeito e cuidado.

                É por causa do jovem amigo que Santiago não desiste de vez de seu ofício. Sua confiança é a energia que ainda o impele a aventurar-se pelo grande mar. Quando ele está por completar quase três longos meses sem pescar coisa alguma, desafiado pelos mais jovens, o velho resolve tentar uma nova tática: contrariando a lógica de cardume, distancia-se dos demais e aguarda. A estratégia acaba dando certo e um enorme espadarte (um peixe de uns cinco metros) fisga sua isca. A partir de agora, vai ter início uma feroz batalha: do homem contra o peixe; da experiência contra o vigor físico, das forças humanas contra o instinto da natureza. A força do peixe acaba arrastando-o para alto mar, onde o sol e o desgaste da luta com o peixe castigam-no impiedosamente.

                Extenuado, Santiago enfim vence o espadarte. Mas, se você, caro leitor, acha que a luta termina aí. Lamento estragar a sua alegria. Tubarões aproximam-se para banquetear-se com o troféu de nosso herói, arrancando (literalmente) pedaços de sua grande conquista solitária. A distância da orla ainda é muito grande. Ele se encontra sozinho, exausto, o caminho de volta parece infinito, mas ele está disposto a lutar até o fim. Agora, caro leitor, vamos mergulhar mais fundo. É um livro curto, talvez o menor dos clássicos (120 páginas); porém não cometa o erro de subestimá-lo. Não faça isso, eu te peço. Há quem acredite que se trata apenas da história de um velho que sai para pegar um peixe. Como algo tão raso tornar-se-ia um clássico? Eis a sua resposta: não se trata apenas disso. Estes leitores pescaram somente os peixinhos pequenos que se aventuram tolamente pela superfície. Então, vamos ver a profundidade da obra.

                Começo com um questionamento, arvorado em um pensamento de Buda: “Por mais que na batalha se vença um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de todas as vitórias”. Contra quem Santiago lutava? Contra a natureza, contra o peixe, contra os mais jovens, contra a falta de sorte? Penso que com todos eles e, ao mesmo tempo, nenhum. Na verdade, é a luta do homem consigo mesmo. É a luta de alguém contra os seus limites, suas fraquezas, seus medos, sua condição humana. Não há nada a se provar para ninguém, a não ser para si mesmo. É disso que o Buda falava aos discípulos. É isso que leva Santiago ao confronto com o espadarte. Essa, caro leitor, preste bem atenção, é a luta de todos nós. E que fique bem claro: ela não se finda assim, de uma hora pra outra. Como se diz na estrofe inicial do poema de Gonçalves Dias “Canção do tamoio”: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar.” Ouvi, certa vez, que o mundo não para pra que você o conserte. Santiago usa de todas as suas forças, conhecimento, sabedoria, paciência para vencer o desafio. Ele está sozinho, contando só consigo mesmo. No fundo, não há mais a quem recorrer. É só ele, sempre foi só ele.

                Não é à toa que ele se lança ao mar: aquela infinitude de água, a perder de vista, representa a vida, com seus ciclos: marés, ondas, tempestades, placidez. É a nossa vivência posta à prova, continuamente. Mas não para por aí: Santiago vem mostrar que a força da juventude ainda tem muito o que aprender com a sabedoria da velhice. E você pode me perguntar: “Como se faz para adquirir a sabedoria?” E eu te respondo, amigo leitor, só com a experiência. Por que você acha que o critério de liderança nas tribos indígenas é a idade? Por ser óbvio que a sabedoria é fruto da vivência, logo: quanto mais se vive, mais se aprende, mais se tem para ensinar. O homem mais velho foi posto mais vezes à prova pela vida. Também já parou para pensar por que Manolin e Santiago se dão tão bem? Um dos fatores é sua idade. Ambos estão à margem na consideração da sociedade: um já passou do tempo e o outro ainda não está na sua vez. O adulto se esquece de que já foi criança e mais ainda de que será um idoso. Esses dois se encontram, enxergam-se um no outro, esse ainda não chegou a ser um grande homem, coisa que aquele já foi, mas faz um bom tempo. Nesse abandono social, eles têm um ao outro, numa relação tão bonita de respeito e de carinho. Como é bom quando a gente consegue se ver em alguém...

                Caro leitor, note que, apesar das suas limitações e das circunstâncias, apesar do que os demais pensam ou até mesmo dizem sobre ele, apesar da ideia de que o universo conspira contra ele, Santiago ainda se permite sonhar e se dá a oportunidade de perseguir seu sonho. É dando sequência sobre essa grande metáfora da vida que termino o artigo de hoje com os versos da encantadora música de Tim Maia: “Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar”. Até a próxima.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

               


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