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segunda-feira, 23 de março de 2026

A SOCIEDADE QUE TORNA AS CRIANÇAS INVISÍVEIS

Crédito: Wikimedia Commons

 “Os homens que olham para a natureza e para seus semelhantes, e gritam que tudo é sombrio e lúgubre, têm suas razões, visto que essas cores tristes que eles veem provêm de seus olhos e de seus corações amargurados. Para ver as cores tão verdadeiras e delicadas como elas são, é necessário possuir uma visão mais clara.”

                 Bem-vindo mais uma vez, caro leitor, ao fantástico universo da literatura, esse mundo mágico e único que abre as suas infinitas portas para a imaginação e para o faz-de-conta, sem, contudo, abrir mão da reflexão a respeito da realidade nua e crua que nos cerca. É isso mesmo. De uma forma um tanto rústica de se definir: a literatura é uma mentira que mostra a verdade. É com essa definição que deixaremos o agitado mar de Havana para, novamente, estarmos em terra firme (afinal de contas, já era hora, após tanto tempo em águas revoltas). Voltaremos no tempo e no espaço, refazendo uma de nossas viagens passadas com destino às proximidades de Londres, na Era Vitoriana, para ser mais preciso, no ano de 1837. Não sei se o amigo leitor consegue se lembrar de nossa última estadia por lá e da curiosa história do jovem Dorian Grey e seu quadro, porém o que nos motiva dessa vez é outro aspecto da realidade. Não podemos nos esquecer de acessar a nossa “playlist” com a trilha sonora composta por Rachel Portman e conduzida por David Snell para o filme homônimo do livro de hoje “Oliver Twist” (2005), dirigido por ninguém mais, ninguém menos que Roman Polanski.

                Tudo começa em uma casa de correção, instituição pública comum para a época, no auge da Revolução Industrial, responsável por abrigar e “corrigir” (tome bastante cuidado com as implicações que esse verbo pode trazer) os marginais que infestam a sociedade e ameaçam a sua ordem e bem estar. É lá, neste local, que uma mulher irá dar à luz ao nosso personagem: Oliver Twist. Inclusive, cabe aqui vos dizer que se trata do primeiro livro, na literatura universal, em que o protagonista é uma criança. Se o leitor por acaso chegar a pensar que teremos uma história infantil, preciso dizer que, na verdade, não será desta vez que isso acontecerá. É novamente sobre o mundo adulto, só que o foco, agora, é a forma com que ele trata as suas crianças. A primeira demonstração disso é a morte da mãe logo após o nascimento do filho, que também já nasce sem pai.

                Oliver é deixado aos cuidados das instituições responsáveis por zelar por sua integridade (poderíamos aqui enumerar uma enorme lista da Declaração Universal dos Direitos Humanos e até mesmo do Estatuto da Criança e do Adolescente, com as mais belas e tocantes palavras que a mente humana pode produzir e o papel registrar a respeito dos cuidados para com o menor, mas isto de nada adiantaria, pois a meu ver não passa de romantismo). Oliver é expulso por causa de pedir para repetir uma refeição. Começa a trabalhar para um dono de uma funerária, mudando de ambiente, porém a situação é a mesma: continua sendo vítima de maus tratos e humilhações. Entre idas e voltas, resolve rebelar-se e fugir para Londres em busca de algo melhor. E aí o leitor pensa: “Mas também, com uma vida tão ruim dessas, não há como piorar”. Ah, caro amigo, como nos enganamos nesta nossa vida, não é? Oliver é recrutado para uma gangue de pequenos furtos, os tão famosos batedores de carteiras da época, liderados por um homem sem escrúpulos de nome Fagin.

                Nosso protagonista vê-se novamente em apuros, acaba sendo preso depois de um roubo em que seus comparsas ligeiramente escapam. Ele é levado perante a autoridade, mas a vítima (Mr. Brownlow) não crê que aquele menino tenha verdadeiramente culpa e pede para que ele seja solto. É a primeira vez que alguém enfim o vê como ele realmente é: uma criança. O senhor, homem de bom coração, tenta ajudar o menino, tarefa bem espinhosa em um mundo em que o mal espalha seus tentáculos por todas as partes para roubar a inocência e a pureza das crianças. Charles Dickens, um crítico à sua época, denuncia uma sociedade que pouco (ou nada) se importa com a vulnerabilidade dos menores de idade. Um sistema que quase nada faz, quando não consegue ainda piorar aquilo que já era muito ruim. Podemos retornar aos nossos tempos e enumerar uma série de instituições que deveriam ser chamadas de depósitos de gente. Poderia aqui falar de lugares de correção que têm a singular capacidade de devolver ao mundo as crianças, que lhes foram confiadas, muito piores em comparação ao modo como entraram.

                Como denuncia o grande contador de histórias, nosso querido baiano Jorge Amado, em seu livro Capitães de areia (1937), curiosamente cem anos depois da obra de Dickens, os meninos de rua estão abandonados à própria sorte. Eles não contam com o apoio de quase ninguém nessa vida. Poucos os veem como realmente são: crianças. As instituições são mostradas, nestas duas obras, mais como uma agência de controle de pragas do que como um lugar capaz de recuperar alguém. Em um país com casos de extrema pobreza como o nosso, é muito comum enxergarmos milhares de exemplos como o citado no início da canção de Chico Buarque: “Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar / Já foi nascendo com cara de fome / E eu não tinha nem nome pra lhe dar / Como fui levando, não sei lhe explicar...” Sei que algumas coisas já mudaram, mas ainda é muito tímido o apoio que deveria ser dado aos menores de rua. É muito fácil falar em proteção à infância quando se olha os meninos e as meninas bem cuidadas, de famílias estruturadas, com pais e mães presentes, que têm os seus direitos mais básicos garantidos pelos seus. Todavia, ter o mesmo pensamento ao se deparar com os pedintes em semáforos e esquinas de nossa cidade é de uma diferença estratosférica. Concordo que é bem mais fácil mudar de calçada, virar o rosto para o outro lado, subir o vidro do carro ou todas aquelas outras estratégias que você, caro leitor, assim como eu (não pense que sou diferente) já usamos diversas vezes.

                Cansado de dizer tanta coisa ruim, gostaria de terminar chamando a atenção para o trecho do livro que abre esse artigo: nele vemos a pessoa de Mr. Brownlow. Ele é a chama que arde teimosamente. O único que enxergou (com clareza) Oliver em sua essência. Também quero frisar que, apesar dos maus tratos aos quais severamente foi submetido, nosso herói não foi influenciado por eles. Ainda resta esperança, caro leitor. Mais uma vez, desejo salientar que, como sempre, corro o risco de ser mal interpretado e ser rotulado como alguém que defende a impunidade. Nunca preguei isso. Chamo a atenção para uma parcela (muito significativa) de nossa sociedade que prega a punição a todo custo, mas jamais o acolhimento e a compreensão. Ainda existe gente que defende o castigo antes da orientação e vai mais além: trata criança como adulto.

Eles encontram-se espalhados por aí, num número que parece cada vez maior. Fechar os olhos ou mudar o trajeto não os fará diminuir ou desaparecer magicamente de uma hora para outra, como tentamos fazer em vão com tantos outros problemas com que nos deparamos, em expressões usadas pelos mais antigos como “tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para debaixo do tapete”. Fica o desejo de que os direitos e os estatutos deixem de ser uma utopia, que saiam das belas molduras na parede e das gavetas dos gabinetes e passem a ser realidade. Desejo que não façamos mais vista grossa e lembremos, como fala a canção de Toquinho: “Sério ou engraçado / No frio ou no calor / Criança quer cuidado / Criança quer amor / Em qualquer lugar criança quer o quê? / Criança quer sonhar / Criança quer viver”. Até a próxima.

 DICKENS, Charles. Oliver Twist. São Paulo: Penguin Companhia, 2024.

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