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segunda-feira, 30 de março de 2026

A HUMANIDADE CUJA EVOLUÇÃO NÃO ACOMPANHA A TECNOLOGIA

 

Crédito: World History Enciclopedia

“O homem se dispusera a viver uma vida de tranquilidade e deleite explorando o trabalho duro de seus semelhantes. O homem usou o conceito de Necessidade como seu lema e sua desculpa, e agora a Necessidade se voltara contra ele”.

                 Bem-aventurado seja você, caro leitor, por poder estar aqui, junto comigo, em mais uma jornada pelo fascinante universo da literatura. E por que digo isso? Porque posso afirmar (sem qualquer receio) que aqueles os quais nunca leram um livro, com certeza perderam a oportunidade de fazer uma inesquecível viagem ao mundo da imaginação. E, falando em viagem, posso dizer que a de hoje será a mais pitoresca (adoro esse vocábulo) que já realizamos aqui nesse espaço (até agora). Sem mais delongas, vamos preparar para embarcar, mas, desta vez, não em um barco, em um avião ou até mesmo em uma nave especial, mas, sim, em uma máquina do tempo. Não, caro leitor, você não entendeu errado. Hoje faremos uma viagem temporal. Acessemos a nossa “playlist” de viagem com o tema principal da trilha sonora de composição de Klaus Badelt para o filme “A máquina do tempo” (2002) dirigido por Simon Wells e, sem sairmos da melancólica Londres (afinal de contas, desta vez, o espaço é um mero coadjuvante), no ano de 1895, vamos até a residência de um cientista.

                    Nosso protagonista (cujo nome não é revelado) é conhecido e tratado pelo narrador como “Viajante do tempo”. Em uma reunião em sua casa, ele garante que a viagem ao tempo não é mais uma possibilidade, mas um fato que será, em breve, provado aos distintos senhores. Por meio de uma série de cálculos matemáticos e fórmulas de física (poupemo-nos dos detalhes), ele diz ter chegado a uma resposta. Ele utiliza como demonstração uma miniatura da máquina, que chega a desaparecer diante dos olhos curiosos dos presentes, que custam a acreditar. Ele os convoca para uma nova reunião. Quando eles chegam a sua residência, encontram-no em um estado deplorável, ferido e quase irreconhecível. Aqui começa o relato de sua viagem, que é a nossa trama literária. Sua viagem começa no século LXXX, quando ele encontra sobre a terra uma raça humana conhecida como Elois. O lugar em que eles habitam é descrito como um verdadeiro paraíso, com um cenário encantador. Essas pessoas são extremamente pacíficas, vivem em sociedade de forma harmoniosa, buscando um modo de vida pautado no equilíbrio. Eles não precisam trabalhar, alimentam-se somente dos frutos que as arvores lhes fornecem. Essa visão positiva do futuro da raça humana dura tão pouco para nosso viajante quando, mais tarde, ele vem a saber que existe uma outra raça vivente: a dos Morlocks, que destoa, em todos os aspectos, dos Elois. Eles vivem abaixo da terra, na mais completa escuridão, locomovendo-se por meio de túneis. O ar lá embaixo é por demais pesado, pois não se renova como acima da superfície, por isso apresenta um odor nauseante. Eles não toleram a luz do sol, portanto só saem para a superfície em noites sem grande incidência de luar. O que eles fazem quando saem, querido leitor? Caçam os Elois porque se alimentam da carne deles.

                    O viajante fica horrorizado com tal realidade e acaba por ser raptado por eles, mas acaba sendo salvo por Weena, uma Eloi que, infelizmente, sacrifica-se pela liberdade dele e acaba morrendo nas mãos deles. Ele consegue, no último momento, fugir daquela época e se dirige, por duas vezes, a milhares de anos adiante, encontrando um planeta cada vez mais devastado e deserto, sem qualquer presença de vida, seja humana ou de qualquer outro ser. Esse pretenso tema da viagem no tempo e sua possibilidade sempre fascinou a humanidade, sendo grande fonte de inspiração para muitas histórias e teorias das mais diversas, inclusive dois filmes homônimos (1960 e 2002), sendo o último uma adaptação curiosa em que a máquina é criada pelo inventor para evitar a morte da amada, que foi atropelada, mas, toda vez que a salva, ela acaba morrendo por outra causa logo depois. Porém, quando li a obra, fiquei um tanto curioso quanto ao fato de o escritor escolher o futuro em detrimento do passado. Eu era um jovem e confesso que não entendia muita coisa. Você, caro leitor, que também já foi debutante, há de me entender, não é mesmo?

                Após algumas reflexões, compreendi (ah! a doce e fresca inocência) que nosso ilustre H. G. Wells queria fazer uma crítica ao comportamento humano e que a máquina era só um pretexto. Vida que segue, não é? O nobre escritor chamava a atenção para a dimensão que a revolução industrial estava tomando, portanto, não via com bons olhos o avanço tecnológico que seguia apartado do desenvolvimento humano: um mundo com mais máquinas e menos humanidade. O que ele diria, caro leitor, se acaso pudesse contemplar o mundo em que vivemos hoje? Teria a triste confirmação de estar certo. Se Wells assistisse ao filme “Tempos modernos” do gênio Charles Chaplin, sentiria o arrependimento de tanta convicção. A antológica cena do operário devorado pelas engrenagens mostra um homem à mercê do progresso. “E que progresso?” Você pode me perguntar. Aquele que não contempla a humanidade como um todo, mas que a divide em exploradores e explorados. Mesmo milhares de anos depois, o viajante continua a presenciar um mundo dividido nessas duas distintas classes.

                Entretanto, o autor não para por aí com seus presságios. A obra aponta para o poder destrutivo da humanidade, como uma mensagem ao homem de sua época que, conforme Wells, se não contiver sua ânsia desmesurada por riquezas, vai cavar a própria cova. Não é à toa, caro leitor, que presenciamos a diversos filmes, ao longo da história do cinema, os quais usavam como tema ou pano de fundo, o mundo pós-apocalíptico, tais como “Mad Max”, “Filhos da esperança”, “O dia seguinte”, “Waterworld”, entre tantos (sem contar aqueles de zumbis). Diante disso, eu me pergunto e pergunto também a você: “O quanto de fictício existe na ficção?” Confesso que tenho receio de responder quanto ao futuro. Apesar dos inúmeros apelos populares, estudos científicos e militâncias verdes espalhadas pelo mundo, engajamentos de celebridades pela nobre causa, o dinheiro ainda fala mais alto e a ganância mostra-se uma fera de apetite voraz e insaciável.

                Como diz um velho ditado indígena: “Não herdamos a terra de nossos pais, mas a emprestamos de nossos filhos”. Que mundo deixaremos a eles? Essa visão, para mim, parece a cada dia mais turva, mais sombria. Sei que não posso generalizar, mas, pouco a pouco, a tecnologia rouba uma fagulha de nossa humanidade. O homem, fascinado pelo progresso, como num trecho do poema de Álvaro de Campos: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina! / Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”, deixou de apaixonar-se pela própria humanidade, trocando seu encanto pelo outro por conquistas materiais. Resta-nos, caro leitor, acreditar que, talvez, as futuras gerações (nossos filhos e netos) possam adotar um olhar diferente para os dias que virão. Que a tecnologia veio para ficar, disso eu já estou ciente. Jamais me posicionei contra ela, mas penso que seu lugar na hierarquia das prioridades humanas está bem equivocado. Ainda prezo pela evolução humana, flertando com ideias como o autoconhecimento e a inteligência emocional. Como disse o sábio Mahatma Gandhi: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”. Que possamos trocar nossa avidez por riquezas pela sede de justiça e por um mundo em que um homem não tenha mais do que possa carregar a fim de que tantos outros não fiquem de mãos abanando. Até a próxima.

WELLS, H. G. A máquina do tempo. São Paulo: Darkside Books, 2021.


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