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| Crédito: World History Enciclopedia |
“O homem se
dispusera a viver uma vida de tranquilidade e deleite explorando o trabalho
duro de seus semelhantes. O homem usou o conceito de Necessidade como seu lema
e sua desculpa, e agora a Necessidade se voltara contra ele”.
Nosso
protagonista (cujo nome não é revelado) é conhecido e tratado pelo narrador
como “Viajante do tempo”. Em uma reunião em sua casa, ele garante que a viagem
ao tempo não é mais uma possibilidade, mas um fato que será, em breve, provado
aos distintos senhores. Por meio de uma série de cálculos matemáticos e
fórmulas de física (poupemo-nos dos detalhes), ele diz ter chegado a uma
resposta. Ele utiliza como demonstração uma miniatura da máquina, que chega a
desaparecer diante dos olhos curiosos dos presentes, que custam a acreditar.
Ele os convoca para uma nova reunião. Quando eles chegam a sua residência,
encontram-no em um estado deplorável, ferido e quase irreconhecível. Aqui
começa o relato de sua viagem, que é a nossa trama literária. Sua viagem começa
no século LXXX, quando ele encontra sobre a terra uma raça humana conhecida
como Elois. O lugar em que eles habitam é descrito como um verdadeiro paraíso,
com um cenário encantador. Essas pessoas são extremamente pacíficas, vivem em
sociedade de forma harmoniosa, buscando um modo de vida pautado no equilíbrio. Eles
não precisam trabalhar, alimentam-se somente dos frutos que as arvores lhes
fornecem. Essa visão positiva do futuro da raça humana dura tão pouco para
nosso viajante quando, mais tarde, ele vem a saber que existe uma outra raça
vivente: a dos Morlocks, que destoa, em todos os aspectos, dos Elois. Eles
vivem abaixo da terra, na mais completa escuridão, locomovendo-se por meio de
túneis. O ar lá embaixo é por demais pesado, pois não se renova como acima da
superfície, por isso apresenta um odor nauseante. Eles não toleram a luz do
sol, portanto só saem para a superfície em noites sem grande incidência de luar.
O que eles fazem quando saem, querido leitor? Caçam os Elois porque se
alimentam da carne deles.
O viajante fica horrorizado com tal
realidade e acaba por ser raptado por eles, mas acaba sendo salvo por Weena,
uma Eloi que, infelizmente, sacrifica-se pela liberdade dele e acaba morrendo
nas mãos deles. Ele consegue, no último momento, fugir daquela época e se
dirige, por duas vezes, a milhares de anos adiante, encontrando um planeta cada
vez mais devastado e deserto, sem qualquer presença de vida, seja humana ou de
qualquer outro ser. Esse pretenso tema da viagem no tempo e sua possibilidade
sempre fascinou a humanidade, sendo grande fonte de inspiração para muitas
histórias e teorias das mais diversas, inclusive dois filmes homônimos (1960 e
2002), sendo o último uma adaptação curiosa em que a máquina é criada pelo
inventor para evitar a morte da amada, que foi atropelada, mas, toda vez que a
salva, ela acaba morrendo por outra causa logo depois. Porém, quando li a obra,
fiquei um tanto curioso quanto ao fato de o escritor escolher o futuro em
detrimento do passado. Eu era um jovem e confesso que não entendia muita coisa.
Você, caro leitor, que também já foi debutante, há de me entender, não é mesmo?
Após
algumas reflexões, compreendi (ah! a doce e fresca inocência) que nosso ilustre
H. G. Wells queria fazer uma crítica ao comportamento humano e que a máquina
era só um pretexto. Vida que segue, não é? O nobre escritor chamava a atenção
para a dimensão que a revolução industrial estava tomando, portanto, não via
com bons olhos o avanço tecnológico que seguia apartado do desenvolvimento
humano: um mundo com mais máquinas e menos humanidade. O que ele diria, caro
leitor, se acaso pudesse contemplar o mundo em que vivemos hoje? Teria a triste
confirmação de estar certo. Se Wells assistisse ao filme “Tempos modernos” do
gênio Charles Chaplin, sentiria o arrependimento de tanta convicção. A
antológica cena do operário devorado pelas engrenagens mostra um homem à mercê
do progresso. “E que progresso?” Você pode me perguntar. Aquele que não
contempla a humanidade como um todo, mas que a divide em exploradores e
explorados. Mesmo milhares de anos depois, o viajante continua a presenciar um
mundo dividido nessas duas distintas classes.
Entretanto,
o autor não para por aí com seus presságios. A obra aponta para o poder
destrutivo da humanidade, como uma mensagem ao homem de sua época que, conforme
Wells, se não contiver sua ânsia desmesurada por riquezas, vai cavar a própria
cova. Não é à toa, caro leitor, que presenciamos a diversos filmes, ao longo da
história do cinema, os quais usavam como tema ou pano de fundo, o mundo
pós-apocalíptico, tais como “Mad Max”, “Filhos da esperança”, “O dia seguinte”,
“Waterworld”, entre tantos (sem contar aqueles de zumbis). Diante disso, eu me
pergunto e pergunto também a você: “O quanto de fictício existe na ficção?”
Confesso que tenho receio de responder quanto ao futuro. Apesar dos inúmeros
apelos populares, estudos científicos e militâncias verdes espalhadas pelo
mundo, engajamentos de celebridades pela nobre causa, o dinheiro ainda fala
mais alto e a ganância mostra-se uma fera de apetite voraz e insaciável.
Como diz um velho ditado
indígena: “Não herdamos a terra de nossos pais, mas a emprestamos de nossos
filhos”. Que mundo deixaremos a eles? Essa visão, para mim, parece a cada dia
mais turva, mais sombria. Sei que não posso generalizar, mas, pouco a pouco, a
tecnologia rouba uma fagulha de nossa humanidade. O homem, fascinado pelo
progresso, como num trecho do poema de Álvaro de Campos: “Ah, poder exprimir-me
todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina! / Poder ir na
vida triunfante como um automóvel último-modelo!”, deixou de apaixonar-se pela
própria humanidade, trocando seu encanto pelo outro por conquistas materiais.
Resta-nos, caro leitor, acreditar que, talvez, as futuras gerações (nossos
filhos e netos) possam adotar um olhar diferente para os dias que virão. Que a
tecnologia veio para ficar, disso eu já estou ciente. Jamais me posicionei
contra ela, mas penso que seu lugar na hierarquia das prioridades humanas está
bem equivocado. Ainda prezo pela evolução humana, flertando com ideias como o
autoconhecimento e a inteligência emocional. Como disse o sábio Mahatma Gandhi:
“Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua
ambição”. Que possamos trocar nossa avidez por riquezas pela sede de justiça e
por um mundo em que um homem não tenha mais do que possa carregar a fim de que
tantos outros não fiquem de mãos abanando. Até a próxima.
WELLS, H. G. A máquina do tempo. São Paulo: Darkside Books, 2021.

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