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quarta-feira, 1 de abril de 2026

NO RUMO CERTO

Crédito: Igor Alves (PEXELS)

Recolhe as pedras que te foram atiradas,

Darão um belo alicerce para teu castelo

Os deboches e zombarias lançadas

Serão os degraus a conduzir-te à vitória.


Se provocações ferinas chegarem a incomodar,

Ergue a cabeça, encara os agressores,

A fim de que fitem os teus olhos

Para verem neles o brilho certo da superioridade

E segue a tua estrada, sempre em frente.


Não te importe com as maledicências às costas...

Elas se encontram no exato lugar a elas destinado:

Para trás, em direção ao passado e ao esquecimento

E devem ser deixadas no arquivo morto.


Não te preocupe em contar os teus passos

Muito menos em medir o quanto falta para chegar,

Se aos olhos alheios agrada fazê-lo por ti,

Deixa-os, eles têm tempo para tais mesquinharias

Ao passo que tens coisas mais importantes a fazer...


Tens um mundo todo ao teu alcance

Pronto, à espera de ser conquistado pelos bravos,

Por isso, respira fundo, arregaça as mangas e parte

Rumo ao futuro, pois as realizações te aguardam...

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A HUMANIDADE CUJA EVOLUÇÃO NÃO ACOMPANHA A TECNOLOGIA

 

Crédito: World History Enciclopedia

“O homem se dispusera a viver uma vida de tranquilidade e deleite explorando o trabalho duro de seus semelhantes. O homem usou o conceito de Necessidade como seu lema e sua desculpa, e agora a Necessidade se voltara contra ele”.

                 Bem-aventurado seja você, caro leitor, por poder estar aqui, junto comigo, em mais uma jornada pelo fascinante universo da literatura. E por que digo isso? Porque posso afirmar (sem qualquer receio) que aqueles os quais nunca leram um livro, com certeza perderam a oportunidade de fazer uma inesquecível viagem ao mundo da imaginação. E, falando em viagem, posso dizer que a de hoje será a mais pitoresca (adoro esse vocábulo) que já realizamos aqui nesse espaço (até agora). Sem mais delongas, vamos preparar para embarcar, mas, desta vez, não em um barco, em um avião ou até mesmo em uma nave especial, mas, sim, em uma máquina do tempo. Não, caro leitor, você não entendeu errado. Hoje faremos uma viagem temporal. Acessemos a nossa “playlist” de viagem com o tema principal da trilha sonora de composição de Klaus Badelt para o filme “A máquina do tempo” (2002) dirigido por Simon Wells e, sem sairmos da melancólica Londres (afinal de contas, desta vez, o espaço é um mero coadjuvante), no ano de 1895, vamos até a residência de um cientista.

                    Nosso protagonista (cujo nome não é revelado) é conhecido e tratado pelo narrador como “Viajante do tempo”. Em uma reunião em sua casa, ele garante que a viagem ao tempo não é mais uma possibilidade, mas um fato que será, em breve, provado aos distintos senhores. Por meio de uma série de cálculos matemáticos e fórmulas de física (poupemo-nos dos detalhes), ele diz ter chegado a uma resposta. Ele utiliza como demonstração uma miniatura da máquina, que chega a desaparecer diante dos olhos curiosos dos presentes, que custam a acreditar. Ele os convoca para uma nova reunião. Quando eles chegam a sua residência, encontram-no em um estado deplorável, ferido e quase irreconhecível. Aqui começa o relato de sua viagem, que é a nossa trama literária. Sua viagem começa no século LXXX, quando ele encontra sobre a terra uma raça humana conhecida como Elois. O lugar em que eles habitam é descrito como um verdadeiro paraíso, com um cenário encantador. Essas pessoas são extremamente pacíficas, vivem em sociedade de forma harmoniosa, buscando um modo de vida pautado no equilíbrio. Eles não precisam trabalhar, alimentam-se somente dos frutos que as arvores lhes fornecem. Essa visão positiva do futuro da raça humana dura tão pouco para nosso viajante quando, mais tarde, ele vem a saber que existe uma outra raça vivente: a dos Morlocks, que destoa, em todos os aspectos, dos Elois. Eles vivem abaixo da terra, na mais completa escuridão, locomovendo-se por meio de túneis. O ar lá embaixo é por demais pesado, pois não se renova como acima da superfície, por isso apresenta um odor nauseante. Eles não toleram a luz do sol, portanto só saem para a superfície em noites sem grande incidência de luar. O que eles fazem quando saem, querido leitor? Caçam os Elois porque se alimentam da carne deles.

                    O viajante fica horrorizado com tal realidade e acaba por ser raptado por eles, mas acaba sendo salvo por Weena, uma Eloi que, infelizmente, sacrifica-se pela liberdade dele e acaba morrendo nas mãos deles. Ele consegue, no último momento, fugir daquela época e se dirige, por duas vezes, a milhares de anos adiante, encontrando um planeta cada vez mais devastado e deserto, sem qualquer presença de vida, seja humana ou de qualquer outro ser. Esse pretenso tema da viagem no tempo e sua possibilidade sempre fascinou a humanidade, sendo grande fonte de inspiração para muitas histórias e teorias das mais diversas, inclusive dois filmes homônimos (1960 e 2002), sendo o último uma adaptação curiosa em que a máquina é criada pelo inventor para evitar a morte da amada, que foi atropelada, mas, toda vez que a salva, ela acaba morrendo por outra causa logo depois. Porém, quando li a obra, fiquei um tanto curioso quanto ao fato de o escritor escolher o futuro em detrimento do passado. Eu era um jovem e confesso que não entendia muita coisa. Você, caro leitor, que também já foi debutante, há de me entender, não é mesmo?

                Após algumas reflexões, compreendi (ah! a doce e fresca inocência) que nosso ilustre H. G. Wells queria fazer uma crítica ao comportamento humano e que a máquina era só um pretexto. Vida que segue, não é? O nobre escritor chamava a atenção para a dimensão que a revolução industrial estava tomando, portanto, não via com bons olhos o avanço tecnológico que seguia apartado do desenvolvimento humano: um mundo com mais máquinas e menos humanidade. O que ele diria, caro leitor, se acaso pudesse contemplar o mundo em que vivemos hoje? Teria a triste confirmação de estar certo. Se Wells assistisse ao filme “Tempos modernos” do gênio Charles Chaplin, sentiria o arrependimento de tanta convicção. A antológica cena do operário devorado pelas engrenagens mostra um homem à mercê do progresso. “E que progresso?” Você pode me perguntar. Aquele que não contempla a humanidade como um todo, mas que a divide em exploradores e explorados. Mesmo milhares de anos depois, o viajante continua a presenciar um mundo dividido nessas duas distintas classes.

                Entretanto, o autor não para por aí com seus presságios. A obra aponta para o poder destrutivo da humanidade, como uma mensagem ao homem de sua época que, conforme Wells, se não contiver sua ânsia desmesurada por riquezas, vai cavar a própria cova. Não é à toa, caro leitor, que presenciamos a diversos filmes, ao longo da história do cinema, os quais usavam como tema ou pano de fundo, o mundo pós-apocalíptico, tais como “Mad Max”, “Filhos da esperança”, “O dia seguinte”, “Waterworld”, entre tantos (sem contar aqueles de zumbis). Diante disso, eu me pergunto e pergunto também a você: “O quanto de fictício existe na ficção?” Confesso que tenho receio de responder quanto ao futuro. Apesar dos inúmeros apelos populares, estudos científicos e militâncias verdes espalhadas pelo mundo, engajamentos de celebridades pela nobre causa, o dinheiro ainda fala mais alto e a ganância mostra-se uma fera de apetite voraz e insaciável.

                Como diz um velho ditado indígena: “Não herdamos a terra de nossos pais, mas a emprestamos de nossos filhos”. Que mundo deixaremos a eles? Essa visão, para mim, parece a cada dia mais turva, mais sombria. Sei que não posso generalizar, mas, pouco a pouco, a tecnologia rouba uma fagulha de nossa humanidade. O homem, fascinado pelo progresso, como num trecho do poema de Álvaro de Campos: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina! / Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”, deixou de apaixonar-se pela própria humanidade, trocando seu encanto pelo outro por conquistas materiais. Resta-nos, caro leitor, acreditar que, talvez, as futuras gerações (nossos filhos e netos) possam adotar um olhar diferente para os dias que virão. Que a tecnologia veio para ficar, disso eu já estou ciente. Jamais me posicionei contra ela, mas penso que seu lugar na hierarquia das prioridades humanas está bem equivocado. Ainda prezo pela evolução humana, flertando com ideias como o autoconhecimento e a inteligência emocional. Como disse o sábio Mahatma Gandhi: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”. Que possamos trocar nossa avidez por riquezas pela sede de justiça e por um mundo em que um homem não tenha mais do que possa carregar a fim de que tantos outros não fiquem de mãos abanando. Até a próxima.

WELLS, H. G. A máquina do tempo. São Paulo: Darkside Books, 2021.


sexta-feira, 27 de março de 2026

FELICIDADE PARTILHADA

Crédito: Rayan Hassan (PEXELS)

 

Neste mundo é Deus por todos

E cada um para si

Quem nunca ouviu tal ditado

Eu tantas vezes ouvi

Que nesta vida afinal

Tudo é individual

Disso jamais me esqueci.

 

Conforme eu segui crescendo

Permanecia o motivo

Preparar-se pra viver

Num mundo competitivo

E salvar a própria vida

Pra poder achar saída

Em um contexto agressivo.

 

Ninguém tem a obrigação

De ajudar um outro alguém

Defende este pensamento

Quem se acha ser do bem

Não será contradição

Dizer tal afirmação

Será mesmo que convém?

 

A vida parece simples

A quem isso defender

Cada um é responsável

Pelo que lhe suceder

Você tem o que merece

Na vida só acontece

O que faz por receber.

 

Tem entrado muito em voga

A tal meritocracia

Que só deriva do esforço

O que se ganha algum dia

Se você não conquistou

É porque não se empenhou

Não foi de grande valia.

 

Essa ideia descabida

Nega mil contestações

De que os homens não nasceram

Sob as mesmas condições

Perante falso pretexto

Ignora-se o contexto

De tantas situações.

 

Aquele que nasceu pobre

Cercado pela miséria

Carente e desprotegido

Sem a mínima matéria

Por tal vida miserável

É o próprio responsável

Essa ideia não é séria.


O bem tem por natureza

Difundir felicidade

Dar àquele que não tem

Um pouco de dignidade

Acender a luz do amor

Expandir o seu calor

Por meio da caridade.

 

Qual seria o empecilho

Em estender sua mão

Erguer quem está caído

Ajudar a um irmão

Ter respeito pela vida

Fazer dela mais garrida

Com mais consideração?

 

Para quem defende o bem

É preciso ter mudança

Um tom de voz mais fraterno

Compartilhar esperança

Desejar sempre o melhor

A todos ao seu redor

Adulto, idoso e criança.

 

A paz é grande demais

Para se viver sozinho

Pensá-la individual

É pensamento mesquinho

Caminharmos sempre unidos

Uns por outros protegidos

Torna mais lindo o caminho.

 

Eu deixo este meu recado

Preste atenção, caro amigo

Para ser feliz não basta

Estar em paz só consigo

Não faz mal ser altruísta

Menos individualista

Ser para o outro um abrigo.

quarta-feira, 25 de março de 2026

JOGOS DE AZAR

Crédito: Aidan Howe (PEXELS)

 

Na mesa de fundo azul-celeste

Com os dados a rolar de mãos imortais

Deuses inescrupulosos brincam de destino.

"A sorte está lançada!"


A bolsa, aberta para novas apostas,

Os peões dão andamento ao jogo

Uma partida de vida e morte…


A roda da fortuna gira, incansavelmente…

O futuro é um verdadeiro jogo de azar

Por isso os lúcidos nos desejam a todo instante

Boa sorte!”


A vida consiste em uma partida obrigatória

Em fase sempre eliminatória.

Vivemos um jogo de cartas marcadas

Nesta mesa os jogadores veteranos

Cedem, em fim de carreira, seu lugar aos amadores


Aos vencedores, a glória da imortalidade!

Aos demais, adeus aos sonhos!

segunda-feira, 23 de março de 2026

A SOCIEDADE QUE TORNA AS CRIANÇAS INVISÍVEIS

Crédito: Wikimedia Commons

 “Os homens que olham para a natureza e para seus semelhantes, e gritam que tudo é sombrio e lúgubre, têm suas razões, visto que essas cores tristes que eles veem provêm de seus olhos e de seus corações amargurados. Para ver as cores tão verdadeiras e delicadas como elas são, é necessário possuir uma visão mais clara.”

                 Bem-vindo mais uma vez, caro leitor, ao fantástico universo da literatura, esse mundo mágico e único que abre as suas infinitas portas para a imaginação e para o faz-de-conta, sem, contudo, abrir mão da reflexão a respeito da realidade nua e crua que nos cerca. É isso mesmo. De uma forma um tanto rústica de se definir: a literatura é uma mentira que mostra a verdade. É com essa definição que deixaremos o agitado mar de Havana para, novamente, estarmos em terra firme (afinal de contas, já era hora, após tanto tempo em águas revoltas). Voltaremos no tempo e no espaço, refazendo uma de nossas viagens passadas com destino às proximidades de Londres, na Era Vitoriana, para ser mais preciso, no ano de 1837. Não sei se o amigo leitor consegue se lembrar de nossa última estadia por lá e da curiosa história do jovem Dorian Grey e seu quadro, porém o que nos motiva dessa vez é outro aspecto da realidade. Não podemos nos esquecer de acessar a nossa “playlist” com a trilha sonora composta por Rachel Portman e conduzida por David Snell para o filme homônimo do livro de hoje “Oliver Twist” (2005), dirigido por ninguém mais, ninguém menos que Roman Polanski.

                Tudo começa em uma casa de correção, instituição pública comum para a época, no auge da Revolução Industrial, responsável por abrigar e “corrigir” (tome bastante cuidado com as implicações que esse verbo pode trazer) os marginais que infestam a sociedade e ameaçam a sua ordem e bem estar. É lá, neste local, que uma mulher irá dar à luz ao nosso personagem: Oliver Twist. Inclusive, cabe aqui vos dizer que se trata do primeiro livro, na literatura universal, em que o protagonista é uma criança. Se o leitor por acaso chegar a pensar que teremos uma história infantil, preciso dizer que, na verdade, não será desta vez que isso acontecerá. É novamente sobre o mundo adulto, só que o foco, agora, é a forma com que ele trata as suas crianças. A primeira demonstração disso é a morte da mãe logo após o nascimento do filho, que também já nasce sem pai.

                Oliver é deixado aos cuidados das instituições responsáveis por zelar por sua integridade (poderíamos aqui enumerar uma enorme lista da Declaração Universal dos Direitos Humanos e até mesmo do Estatuto da Criança e do Adolescente, com as mais belas e tocantes palavras que a mente humana pode produzir e o papel registrar a respeito dos cuidados para com o menor, mas isto de nada adiantaria, pois a meu ver não passa de romantismo). Oliver é expulso por causa de pedir para repetir uma refeição. Começa a trabalhar para um dono de uma funerária, mudando de ambiente, porém a situação é a mesma: continua sendo vítima de maus tratos e humilhações. Entre idas e voltas, resolve rebelar-se e fugir para Londres em busca de algo melhor. E aí o leitor pensa: “Mas também, com uma vida tão ruim dessas, não há como piorar”. Ah, caro amigo, como nos enganamos nesta nossa vida, não é? Oliver é recrutado para uma gangue de pequenos furtos, os tão famosos batedores de carteiras da época, liderados por um homem sem escrúpulos de nome Fagin.

                Nosso protagonista vê-se novamente em apuros, acaba sendo preso depois de um roubo em que seus comparsas ligeiramente escapam. Ele é levado perante a autoridade, mas a vítima (Mr. Brownlow) não crê que aquele menino tenha verdadeiramente culpa e pede para que ele seja solto. É a primeira vez que alguém enfim o vê como ele realmente é: uma criança. O senhor, homem de bom coração, tenta ajudar o menino, tarefa bem espinhosa em um mundo em que o mal espalha seus tentáculos por todas as partes para roubar a inocência e a pureza das crianças. Charles Dickens, um crítico à sua época, denuncia uma sociedade que pouco (ou nada) se importa com a vulnerabilidade dos menores de idade. Um sistema que quase nada faz, quando não consegue ainda piorar aquilo que já era muito ruim. Podemos retornar aos nossos tempos e enumerar uma série de instituições que deveriam ser chamadas de depósitos de gente. Poderia aqui falar de lugares de correção que têm a singular capacidade de devolver ao mundo as crianças, que lhes foram confiadas, muito piores em comparação ao modo como entraram.

                Como denuncia o grande contador de histórias, nosso querido baiano Jorge Amado, em seu livro Capitães de areia (1937), curiosamente cem anos depois da obra de Dickens, os meninos de rua estão abandonados à própria sorte. Eles não contam com o apoio de quase ninguém nessa vida. Poucos os veem como realmente são: crianças. As instituições são mostradas, nestas duas obras, mais como uma agência de controle de pragas do que como um lugar capaz de recuperar alguém. Em um país com casos de extrema pobreza como o nosso, é muito comum enxergarmos milhares de exemplos como o citado no início da canção de Chico Buarque: “Quando, seu moço, nasceu meu rebento / Não era o momento dele rebentar / Já foi nascendo com cara de fome / E eu não tinha nem nome pra lhe dar / Como fui levando, não sei lhe explicar...” Sei que algumas coisas já mudaram, mas ainda é muito tímido o apoio que deveria ser dado aos menores de rua. É muito fácil falar em proteção à infância quando se olha os meninos e as meninas bem cuidadas, de famílias estruturadas, com pais e mães presentes, que têm os seus direitos mais básicos garantidos pelos seus. Todavia, ter o mesmo pensamento ao se deparar com os pedintes em semáforos e esquinas de nossa cidade é de uma diferença estratosférica. Concordo que é bem mais fácil mudar de calçada, virar o rosto para o outro lado, subir o vidro do carro ou todas aquelas outras estratégias que você, caro leitor, assim como eu (não pense que sou diferente) já usamos diversas vezes.

                Cansado de dizer tanta coisa ruim, gostaria de terminar chamando a atenção para o trecho do livro que abre esse artigo: nele vemos a pessoa de Mr. Brownlow. Ele é a chama que arde teimosamente. O único que enxergou (com clareza) Oliver em sua essência. Também quero frisar que, apesar dos maus tratos aos quais severamente foi submetido, nosso herói não foi influenciado por eles. Ainda resta esperança, caro leitor. Mais uma vez, desejo salientar que, como sempre, corro o risco de ser mal interpretado e ser rotulado como alguém que defende a impunidade. Nunca preguei isso. Chamo a atenção para uma parcela (muito significativa) de nossa sociedade que prega a punição a todo custo, mas jamais o acolhimento e a compreensão. Ainda existe gente que defende o castigo antes da orientação e vai mais além: trata criança como adulto.

Eles encontram-se espalhados por aí, num número que parece cada vez maior. Fechar os olhos ou mudar o trajeto não os fará diminuir ou desaparecer magicamente de uma hora para outra, como tentamos fazer em vão com tantos outros problemas com que nos deparamos, em expressões usadas pelos mais antigos como “tapar o sol com a peneira” ou “varrer a sujeira para debaixo do tapete”. Fica o desejo de que os direitos e os estatutos deixem de ser uma utopia, que saiam das belas molduras na parede e das gavetas dos gabinetes e passem a ser realidade. Desejo que não façamos mais vista grossa e lembremos, como fala a canção de Toquinho: “Sério ou engraçado / No frio ou no calor / Criança quer cuidado / Criança quer amor / Em qualquer lugar criança quer o quê? / Criança quer sonhar / Criança quer viver”. Até a próxima.

 DICKENS, Charles. Oliver Twist. São Paulo: Penguin Companhia, 2024.

sexta-feira, 20 de março de 2026

O IDOSO QUE EU QUERO SER

Crédito: Shabaz Zaman (PEXELS)

 

Num futuro perto ou longe

Quando os anos se passarem

De mansinho ou supetão

À minha porta chegarem

Os mil giros do relógio

Em meu corpo se notarem .

 

Mesmo se a mente falhar

Ao lembrar alguma história

Vou me esforçar pra puxar

Lá do baú da memória

Certos momentos de luz

Daqueles dias de glória.

 

Não quero ser nenhum fardo

A nenhuma filha ou filho

Nem quero que os olhos percam

Uma centelha do brilho

Não desejo ser estorvo

Para alguém um empecilho.

 

Também não desejo ser

Simplesmente abandonado

Como um simples objeto

Pronto pra ser descartado

Espero acima de tudo

Ser um pouco respeitado.

 

Vou na contramão do tempo

Voltarei a ser criança

Tempo livre pra curtir

Alma cheia de esperança

Coisas novas pra provar

Fazer bastante lambança.

 

Com o olhar bem curioso

Ver a tudo que puder

Seguir as minhas vontades

Comerei o que quiser

Viverei de peito aberto

Para o que der e vier.

 

Reunido com os netos

Haja tanta brincadeira

Pra pular e pra sorrir

O dia e a tarde inteira

Vou falar pra aproveitarem

Porque a vida é passageira.

 

Visitar velhos amigos

Pra chorar ou pra sorrir

Quero fazer tudo isso

Antes de ter que partir

Acumular alegria

Pra depois distribuir.

 

Não quero fama ou riqueza

Eu só peço por saúde

Para não ficar de cama

Pra poder ter atitude

Corrigir os meus defeitos

Alcançar uma virtude

 

E quando chegar a hora

Seja esperada ou não

Que eu consiga então partir

Sem tristeza ou frustração

Que me lembrem com carinho

Guardando no coração.

quarta-feira, 18 de março de 2026

FAZ-DE-CONTA

Crédito: Thaís Silva (PEXELS)

Vem comigo, querida!

Dê-me a sua mão!

Deixa-me ser o seu guia

Por estradas desconhecidas

Bem longe dos olhares curiosos

E dos corações tomados pela inveja.

 

Cantaremos nossa canção preferida

Acompanhados pelos passarinhos

Dançaremos com as libélulas

Ao bailar suave da brisa.

 

Nadaremos nus pelo lago

Trocaremos beijos gelados sob a cachoeira

Deitaremos ao sol na relva

Nossos corpos repletos de calor...

 

Perseguiremos coloridas borboletas

Ao anoitecer contaremos as estrelas

Faremos nosso juramento perante a lua cheia

E os vaga-lumes serão nosso cortejo

Até uma gruta de águas cristalinas

Onde cansados deitaremos abraçados

Nossas almas unidas para sempre. 

terça-feira, 17 de março de 2026

A CIDADE DAS ALMAS PERDIDAS: A ROMARIA DOS CONDENADOS (JANEIRO 2026)

 

Feito pela IA Copilot

TEMA

É muito antiga, nos países de cultura católica, a difusão de diversas histórias (lendas urbanas) que buscam demonstrar as consequências atribuídas ao desrespeito pelas tradições religiosas. Há uma vasta variedade de maldições ou castigos divinos originados na cultura popular, advindos, muitas vezes, de Portugal que serviu como nossa matriz cultural religiosa. Todas essas narrativas giram em torno de locais e rituais sagrados, milagres e prodígios, buscando estabelecer regras morais e evidenciar a intervenção divina por meio de histórias que acontecem em ambientes envolvidos pelo sobrenatural, produzindo enredos os quais alimentam o medo e reforçando a importância do sagrado em nosso cotidiano. Foram desses elementos que surgiu esse cordel.

SINOPSE

Seis amigos preparam-se para um feriado de muita diversão. A caminhonete já está abastecida com muita bebida e carne para fazer aquele churrasco caprichado. Eles resolvem partir no Dia de finados, logo de manhã. Antes de saírem da cidade, passam em frente ao cemitério para zombar das pessoas que vão até lá para prestar homenagem aos seus mortos e depois partem às gargalhadas. Mas, de um trecho em diante, a viagem parece tomar um rumo inesperado. Eles acabam chegando a uma cidade muito estranha, silenciosa e tomada por uma atmosfera inquietante. Romarias misteriosas, habitantes perturbadores e outros sinais de que algo errado predomina naquele lugar. Os seis amigos tentam entender que segredos guardam aquela cidade e como se faz para sair dela. Prepare-se para uma história de suspense, medo e horror. 


segunda-feira, 16 de março de 2026

A LUTA DO HOMEM PARA CONQUISTAR SEU LUGAR AO SOL

 

Crédito: Renz Isidro (PEXELS)

“Velho. É o que sou. Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.

                 Bem-vindo de volta, caro leitor! Novamente nos encontramos aqui presentes. Possamos mergulhar de cabeça nas águas; ora cristalinas, ora turvas, desse infinito oceano de saberes que é a literatura. Deixemo-nos levar ao sabor das ondas das experiências trazidas dos clássicos universais. Por que vos falo dessa maneira, com esse linguajar um tanto assim marítimo? Já deve imaginar que é porque hoje, mais uma vez, iremos singrar os sete mares. Acabei de pensar em quantas navegações fizemos juntos... não é mesmo? Aliás, nossa última viagem, se o caro leitor ainda lembra, foi marcada por uma sucessão de abandonos e naufrágios (acho que o Swift apelou com o Gulliver), o que acabou por não deixar boas recordações (sem falar no cruel destino do pobre capitão Ahab). Mas, deixemos de prosa e vamos voltar ao ano de 1952, nosso destino: mar de Havana, na costa da ilha de Cuba. Para a nossa “playlist” de hoje, recomendo a música “O velho e o mar” (2016) do cantor Rubel, inspirada nos desafios do protagonista do romance, uma música no estilo folk para nos fazer viajar.

                 É aqui, à beira-mar, que vamos encontrar Santiago, um pescador que já começa a sentir o peso dos anos. Fazia um tempo considerável que ele não realizava boas pescas, não exibia grandes peixes. Apesar de ser uma pessoa dotada de grande experiência e dono de uma sabedoria que só a bagagem dos anos pode trazer, nosso protagonista é tido como uma pessoa já sem sorte para lançar-se ao mar, um fator que, (acredite se quiser!) se leva muito em consideração entre seus pares. Até mesmo seu aprendiz, Manolin, não o acompanha mais por conselho da família, sendo obrigado a procurar por pescadores mais jovens, contudo jamais deixa o companheiro, pois ambos possuem uma daquelas amizades inabaláveis, demonstrada por diversas vezes ao longo do romance, com várias manifestações de respeito e cuidado.

                É por causa do jovem amigo que Santiago não desiste de vez de seu ofício. Sua confiança é a energia que ainda o impele a aventurar-se pelo grande mar. Quando ele está por completar quase três longos meses sem pescar coisa alguma, desafiado pelos mais jovens, o velho resolve tentar uma nova tática: contrariando a lógica de cardume, distancia-se dos demais e aguarda. A estratégia acaba dando certo e um enorme espadarte (um peixe de uns cinco metros) fisga sua isca. A partir de agora, vai ter início uma feroz batalha: do homem contra o peixe; da experiência contra o vigor físico, das forças humanas contra o instinto da natureza. A força do peixe acaba arrastando-o para alto mar, onde o sol e o desgaste da luta com o peixe castigam-no impiedosamente.

                Extenuado, Santiago enfim vence o espadarte. Mas, se você, caro leitor, acha que a luta termina aí. Lamento estragar a sua alegria. Tubarões aproximam-se para banquetear-se com o troféu de nosso herói, arrancando (literalmente) pedaços de sua grande conquista solitária. A distância da orla ainda é muito grande. Ele se encontra sozinho, exausto, o caminho de volta parece infinito, mas ele está disposto a lutar até o fim. Agora, caro leitor, vamos mergulhar mais fundo. É um livro curto, talvez o menor dos clássicos (120 páginas); porém não cometa o erro de subestimá-lo. Não faça isso, eu te peço. Há quem acredite que se trata apenas da história de um velho que sai para pegar um peixe. Como algo tão raso tornar-se-ia um clássico? Eis a sua resposta: não se trata apenas disso. Estes leitores pescaram somente os peixinhos pequenos que se aventuram tolamente pela superfície. Então, vamos ver a profundidade da obra.

                Começo com um questionamento, arvorado em um pensamento de Buda: “Por mais que na batalha se vença um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de todas as vitórias”. Contra quem Santiago lutava? Contra a natureza, contra o peixe, contra os mais jovens, contra a falta de sorte? Penso que com todos eles e, ao mesmo tempo, nenhum. Na verdade, é a luta do homem consigo mesmo. É a luta de alguém contra os seus limites, suas fraquezas, seus medos, sua condição humana. Não há nada a se provar para ninguém, a não ser para si mesmo. É disso que o Buda falava aos discípulos. É isso que leva Santiago ao confronto com o espadarte. Essa, caro leitor, preste bem atenção, é a luta de todos nós. E que fique bem claro: ela não se finda assim, de uma hora pra outra. Como se diz na estrofe inicial do poema de Gonçalves Dias “Canção do tamoio”: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar.” Ouvi, certa vez, que o mundo não para pra que você o conserte. Santiago usa de todas as suas forças, conhecimento, sabedoria, paciência para vencer o desafio. Ele está sozinho, contando só consigo mesmo. No fundo, não há mais a quem recorrer. É só ele, sempre foi só ele.

                Não é à toa que ele se lança ao mar: aquela infinitude de água, a perder de vista, representa a vida, com seus ciclos: marés, ondas, tempestades, placidez. É a nossa vivência posta à prova, continuamente. Mas não para por aí: Santiago vem mostrar que a força da juventude ainda tem muito o que aprender com a sabedoria da velhice. E você pode me perguntar: “Como se faz para adquirir a sabedoria?” E eu te respondo, amigo leitor, só com a experiência. Por que você acha que o critério de liderança nas tribos indígenas é a idade? Por ser óbvio que a sabedoria é fruto da vivência, logo: quanto mais se vive, mais se aprende, mais se tem para ensinar. O homem mais velho foi posto mais vezes à prova pela vida. Também já parou para pensar por que Manolin e Santiago se dão tão bem? Um dos fatores é sua idade. Ambos estão à margem na consideração da sociedade: um já passou do tempo e o outro ainda não está na sua vez. O adulto se esquece de que já foi criança e mais ainda de que será um idoso. Esses dois se encontram, enxergam-se um no outro, esse ainda não chegou a ser um grande homem, coisa que aquele já foi, mas faz um bom tempo. Nesse abandono social, eles têm um ao outro, numa relação tão bonita de respeito e de carinho. Como é bom quando a gente consegue se ver em alguém...

                Caro leitor, note que, apesar das suas limitações e das circunstâncias, apesar do que os demais pensam ou até mesmo dizem sobre ele, apesar da ideia de que o universo conspira contra ele, Santiago ainda se permite sonhar e se dá a oportunidade de perseguir seu sonho. É dando sequência sobre essa grande metáfora da vida que termino o artigo de hoje com os versos da encantadora música de Tim Maia: “Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar”. Até a próxima.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

               


sexta-feira, 13 de março de 2026

OS DOIS LOBOS (DEZEMBRO 2025)

 

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Poucos são os ensinamentos que nos chegaram dos povos ancestrais, infelizmente, devido ao sentimento de soberba do colonizador europeu, o qual pensava não ter nada a aprender com as nações indígenas. Por meio de narrativas, alguns conhecimentos, transmitidos de geração para geração, sobreviveram ao tempo e nos presenteiam com sua sabedoria e um modo particular diferente de encarar a vida e seus desafios. Por se tratar de uma cultura de base oral, a liderança sempre ficava a cargo do integrante mais velho da tribo, pois, segundo o entendimento deles, aquele que viveu mais tempo, possui uma quantidade maior de experiências de vida, contribuindo para um grau de sabedoria maior, fator esse que endossa a sua autoridade sobre o grupo. Da admiração por essa sabedoria, surgiu a ideia de adaptar para o cordel esse conto pertencente à nação Cherokee.  

SINOPSE

O conselho da tribo reúne-se para discutir o problema de um dos seus membros: um jovem que, a partir do momento em que foi vítima de uma injustiça, passou a ter um temperamento explosivo acompanhando de uma visão amarga da vida e um desejo contínuo de vingança. A preocupação deles é que tal comportamento o conduza para um caminho sem volta. O avô pede permissão ao conselho para que, antes de qualquer decisão, possa conversar a sós com ele. Para isso o convida para um passeio pela floresta, ao qual o jovem aceita, apesar de um tanto desconfiado. Uma cena, ao mesmo tempo, tão comum e tão surpreendente, vai fazer com que aquele jovem aprenda uma maravilhosa lição de vida.


Sabe-se que as narrativas

Surgiram na Antiguidade,

Presentes em cada povo,

Com muita simplicidade,

Porém sempre revestidas

Dos nuances da verdade.


Todos os povos carregam

Sinais de sua presença,

Podendo ser atestada

Como marca de nascença.

Para contar uma delas

Agora peço licença.


Existe uma bela história 

De um tempo já bem distante,

Vem da nação Cherokee,

Uma história interessante

Que mostra a sabedoria

Desse povo cativante.


Sabemos que entre os indígenas

A marca da autoridade

Pra sempre vem imbuída

Por uma questão de idade,

Os mais velhos respeitados

Por toda a comunidade.


Um dos jovens desta tribo,

Que vivia amargurado,

Reclamava aos quatro ventos

O seu canto angustiado

E o motivo disso tudo

É ter sido injustiçado.


quinta-feira, 12 de março de 2026

TEM QUE PLANTAR A SEMENTE

Crédito: RDNE Stock project (PEXELS)


Neste mundo em que vivemos 

Que tudo se faz urgente 

Pessoas querem retorno

De tudo imediatamente 

Quem quer a sombra da árvore 

Tem que plantar a semente.


Tudo tem seu tempo certo

Tem que esperar paciente

Não adianta pensar 

Que tudo vem de repente 

Quem quiser comer do fruto 

Tem que plantar a semente. 


É preciso planejar 

E também ser insistente 

Pois nada virá de graça 

Embrulhado pra presente

Se quer o aroma da flor

Tem que plantar a semente. 


A fartura de alimento 

Na casa de toda a gente

Vem do trabalho da terra

E do cultivo frequente

Se quer comida na mesa

Tem que plantar a semente. 


Se quer esperar da vida

Nunca seja negligente

Para receber o prêmio 

Tenha esforço consistente 

Pra ter a mais alta árvore 

Tem que plantar a semente. 


Mesmo em face ao duro clima

Busque ser resiliente

Seja no tempo das chuvas

Ou sob o sol inclemente

Pra celebrar a colheita

Tem que plantar a semente.


Pra quem quer deitar na relva

Como um colchão excelente

Ver grama a perder de vista

Tal qual tapete crescente 

Pra formar tão belos campos

Tem que plantar a semente. 


Se quiser subir bem alto

Pelos galhos agilmente

E depois de lá de cima

Contemplar o sol poente

Pra desfrutar do espetáculo

Tem que plantar a semente.


Se quiser em teu jardim

Uma fragrância evidente

O colorido das flores 

Num encanto reluzente 

E a formosura da rosa

Tem que plantar a semente.


Eu termino por aqui

Desculpe ser contundente

Mas quero apenas lembrar

Que a vida se faz resistente

Se quiser colher os louros

Tem que plantar a semente.


segunda-feira, 9 de março de 2026

SOBRE A NATUREZA HUMANA E SUAS MESQUINHARIAS

Crédito: Dawn Hudson (Public Domain Pictures)

 A pior nota que você pode receber é uma promessa, especialmente quando é confirmada com um juramento; após o qual todo homem se retira e desiste de todas as esperanças”.

                 Bem-vindos de volta, caros amigos leitores! Cá estamos nós, mais uma vez, impelidos pelo espírito aventureiro, dispostos a ultrapassar mais uma fronteira em direção ao fabuloso universo da literatura. Possamos então seguir viagem, partindo da Polônia que nos permitiu acesso ao império do polêmico Nero, para nos deslocarmos até a cidade de Dublin, na Irlanda, no ano de 1726. Lá tomaremos um navio. Bem sei que o caro leitor não tem boas lembranças da última vez que embarcamos a bordo de um navio, na presença do capitão Ahab. Infelizmente, não trago boas notícias, pois nossa viagem não chegará ao seu destino programado. Inclusive, permita-me perguntar se o caro amigo sabe nadar, porque, novamente, seremos vitimas de um naufrágio.  Para não sairmos do clima, acessemos a nossa “playlist” para a audição da música “Titanic suíte” (1998) de composição de James Horner para o filme que conta um dos senão o mais célebre naufrágio da história dos sete mares.

Assim sendo, viajemos em companhia do médico-cirurgião Lemuel Gulliver que, em sua primeira viagem marítima, acaba por escapar de uma fatalidade, chegando à deriva a uma ilha desconhecida. Ele acaba adormecendo na praia e, qual não é a sua surpresa, quando, ao acordar, percebe-se totalmente amarrado e subjugado por um grande bando de homenzinhos com aproximadamente quinze centímetros de altura. Bem surreal, não? Eles o temem por seu tamanho, por isso ele se encontra imobilizado. Dizem que ele está no reino de Lilliput. Convencidos de suas boas intenções, eles acabam por fazer amizade. Os tais liliputianos, revestidos de exibições de autoridade e poder, veem no gigante amigo uma ótima possibilidade de tomar o controle sobre a ilha vizinha (Blefuscu). Gulliver concorda em ajudá-los, mas depois, por não obedecer a todas as suas ordens, foi submetido a uma punição da qual fugiu.

Em sua segunda viagem, novamente nosso protagonista acaba, contra a própria vontade, na ilha de Brobdingnag, o país dos gigantes. Inclusive fico aqui pensando: “Como pode alguém ser tão azarado assim para viajar de navio”? Lá ele acaba preso por um fazendeiro de 22 metros de altura que passa a exibir nosso herói como um animal raro, transformando-o em uma grande atração. O excesso de apresentações deixa-o doente e ele é vendido para a rainha. Depois de algum tempo, consegue novamente fugir (aliás a vida desse personagem pode ser resumida em dois processos: abandono e fuga).

Em sua terceira viagem, Gulliver se encontra na ilha voadora de Laputa, a qual possui um povo bastante evoluído, versado em artes musicais, astronomia e matemática, porém a fartura de conhecimento depara-se com uma ausência de prática, pois nenhum desses saberes resulta em qualquer benefício à sociedade, sendo uma cultura que se esgota em si mesma. Nosso protagonista deixa a ilha e parte em busca de outras aventuras por outros cantos desse imenso oceano que, segundo ele, trata-se do Índico.

O livro “As viagens de Gulliver” foi e ainda é (assim crê este que vos escreve), muitas vezes, tratado como uma obra para crianças. Ah, caro leitor, não caia nessa! Este é apenas um dos tantos exemplos de que a literatura vive a pregar peças nos leitores ingênuos há centenas de anos (como confirmam obras como “A revolução dos bichos” e “Alice no país das maravilhas” entre tantos outros). Claro que não há nada de errado em ler para o seu filho ou neto. O encontro com os liliputianos renderá boas risadas e mexerá tão bem com o imaginário dos pequenos. Contudo, Jonathan Swift foi muito além disso, pois, como sempre gosto de lembrar aos alunos, eis a força dos clássicos: eles não se esgotam em simplórias interpretações ou análises. Por isso sobrevivem ao poder corrosivo do tempo. Não é à toa que se tornam fontes inesgotáveis de conhecimento. Por que com esse livro seria diferente? Entretanto, acho que isso você já sabia (ou ao menos desconfiava) após tantas viagens juntos.

Na verdade, trata-se de não uma, mas várias jornadas, sempre ao mesmo lugar: o interior do homem. Pelas diversas ilhas que passa, Gulliver sempre está a explorar a natureza humana, em seu lado mais obscuro, como aquela face da lua que, por jamais termos visto, praticamente não fazemos conta de conhecer, todavia continua lá, desde sempre. Embora em ilhas diferentes, o protagonista frequentemente se depara com a mesma circunstância: a mesquinharia humana, marcada, entre tantos aspectos, por um assaz especial – a sede de poder, que a tudo justifica, como diz Caetano Veloso em uma canção: “Enquanto os homens exercem / Seus podres poderes / Morrer e matar de fome / De raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais...”  Gulliver assiste a uma sede por poder e riqueza, capaz de cegar qualquer um. Subjugar ao outro, tirar o que está de posse dele para o benefício ou satisfação próprios parece algo assim banal.

Vemos a todo canto do mundo, nas mais improváveis nações ou povos, que o homem jamais abre mão de suas ambições, por mais que, para construir o castelo de seus sonhos, ele tenha que demolir a tantos outros. É uma narrativa sobre respeito pela vida, sobre nobreza de coração (não títulos comprados e vazios de mérito) e sobre a dignidade, tantas vezes invisível aos olhos de muitos os quais se revestem da túnica da autoridade. Cabe muito bem lembrar aqui que estamos falando de um animal que escraviza seres da mesma espécie que a sua e ainda os trata como mercadoria barata. Vemos, ao longo do livro, os motivos mais fúteis para justificar-se uma guerra, como naquela música do grupo Uns e outros: “Vindo de todas as partes / Indo pra lugar algum / Assim caminha a raça humana / Se devorando um a um”, sem contar que certos homens enviam outros para a morte sobre a falácia de que estarão defendendo a soberania da pátria, que deixarão seus nomes na história, que sua morte em combate encherá de orgulho todos os seus.

Pode-se perceber que nossa humanidade não acompanhou o avanço tecnológico, ou seja, não crescemos em empatia, compreensão, tolerância. Se nossa ciência tanto evoluiu, ainda estamos em nível primitivo em relação à inteligência emocional. Basta dar um pequeno passeio pelas redes sociais para ver uma cultura de ódio, preconceito, intolerância e presunção que chega a dar náuseas em pessoas com um mínimo de sensibilidade. Swift faz uma crítica política e social à sua época, ao império inglês, em forma de sátira. Segundo o próprio autor: “quis agredir o mundo, não diverti-lo”, o que penso que estaria próximo de uma tragicomédia, como naquele velho ditado: “seria cômico se não fosse trágico”.

Há quase trezentos anos, caro leitor, é como se o autor perguntasse: “Aonde iremos parar?” Confesso que por mais que desejasse saber, não tenho essa resposta. E vos digo mais: talvez tenha medo de sabê-lo, pelo ritmo em que as coisas andam em tempos tão difíceis e povoados por incertezas. Assim, desejo terminar meu artigo de hoje, no mesmo tom de desilusão, com a última estrofe do poema de Drummond “Sentimento do mundo”: “Quando os corpos passarem / eu ficarei sozinho / desafiando a recordação / do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca / e não foram encontrados / ao amanhecer /esse amanhecer / mais que a noite”. Até a próxima.     

 SWIFT, Jonathan. As aventuras de Gulliver. São Paulo: Martin Claret, 2013.

NO RUMO CERTO

Crédito: Igor Alves (PEXELS) Recolhe as pedras que te foram atiradas, Darão um belo alicerce para teu castelo Os deboches e zombarias lançad...