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terça-feira, 29 de setembro de 2026

ETERNIZAR

Crédito: Atypeek Dgn (PEXELS)


Já não importa o tempo que demora

Pra alcançar o lugar tão pretendido

Logo após o propósito atingido

Não recue sequer uma só hora.


O espaço destinado a ti agora

Prêmio por todo o esforço merecido

Prova de nunca se dar por vencido

É posto do qual não se vai embora.


Pois que a meta que já foi conquistada

Há de ser conservada a todo custo

De forma alguma ser abandonada.


Resiste firme a todo quer sofrimento

Este parece um preço mais que justo

A fim de eternizar qualquer momento.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

QUANDO O JOGO DE INTERESSES SE DIFARÇA DE MUDANÇA

Crédito: Public Domain Media

 

                    "Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude."

 Sejam bem-vindos, caros leitores e caras leitoras, ao surpreendente mundo da ficção. Espero que estejam prontos para mais uma viagem. Tendo seus passaportes em mãos, podem embarcar, apertar os cintos e se preparar para ganharmos o céu azul rumo à nossa próxima fantasia. Vamos deixar, mais uma vez, a bela França e seu glamour para nos dirigirmos à doce Itália, mais precisamente à região da Sicília. Para isso, vamos só adiantar um pouco o nosso relógio até o ano de 1848, perto do momento da unificação. Vamos acionar a nossa clássica “playlist” com a trilha sonora feita pelo aclamado maestro Nino Rota para o filme “O leopardo” (1963) dirigido por Luchino Visconti, que, aliás, vale a pena ver. Foi o ganhador da Palma de Ouro, do badalado e respeitado Festival de Cannes, contando com os astros Alain Delon e Burt Lancaster, e a estrela Claudia Cardinalle em seu farto elenco.

                Chegando à Sicília, vamos encontrar a aristocrática família Corbera e seu chefe Don Fabrizio, o Príncipe de Salina, um homem imponente, muito culto, um tanto quanto cético quanto aos seres humanos, mas que ainda porta certo carisma, o qual encontra, dentro de sua propriedade, o corpo de um soldado do governo morto pelos chamados “camisas-vermelhas”, forçando-o a entender que novos tempos estão chegando, fato esse que os aristocratas como ele se negam a aceitar, preferindo viver na ignorância sobre tal advento, lembrando aquele ditado antigo: “O que os olhos não veem, o coração não sente”, ou ainda aquela expressão inglesa clássica: “A ignorância é uma bênção”. Aqui acontece algo cômico senão trágico: o príncipe possui consciência de classe e compreende muito bem o que está acontecendo, porém não tomará decisão nenhuma quanto a isso e ficará assistindo à própria derrocada da primeira fila como aquele motorista que vê um buraco à frente, tem tempo para desviar dele, entretanto não o faz.

Agora o deixemos um pouco de lado para conhecermos outro personagem importante: Tancredi, sobrinho do príncipe, um belo rapaz, inteligente e bem ambicioso. Pena que lhe falte dinheiro para realizar seus planos de futuro. Assim sendo, ele acaba desistindo de desposar sua prima Concetta, segunda filha de Don Fabrizio, porque não vê mais futuro em uma união aristocrática, visto que sua classe está se deteriorando, e busca, por meio do casamento, uma forma de compensar essa sua situação. Tancredi se apaixona por Angélica, uma linda moça, inteligente e de presença marcante, recém-chegada de Florença. Ela é filha de Dom Calógero, prefeito local e esperto latifundiário, um homem cuja ganância não tem limites, o qual representa a burguesia em ascensão.  Eles começam um namoro, o que faz com que Concetta, desiludida, sofra em silêncio por não ter sido escolhida e se torne uma pessoa cada dia mais amarga e melancólica.

Enquanto isso, Don Fabrizio enfrenta uma crise existencial. Afinal de contas, o seu mundo está ruindo aos poucos, a aristocracia está fadada a acabar e o que ele fará? Porque ele se dá conta de que a única coisa que ele sabe fazer no mundo é ser aristocrata. Depois disso tudo, o que lhe restará? Para a sua angústia, ele não tem nenhuma resposta. Ao passo que seu sobrinho, muito mais perspicaz, já prevendo tal final, adianta-se em seu casamento com Angélica, por ser a filha do homem mais rico da região. União que também convém à família da moça que, com muito dinheiro, só lhe falta o status trazido pelo sobrenome do futuro esposo. É, meu caro leitor, já vimos esse filme do casamento de conveniência passar aqui por algumas vezes. E saber que ele ainda sobrevive até hoje. Inclusive, em uma parte do livro, o autor mostra que, até mesmo entre os camponeses, existia esse tipo de relação baseada no interesse financeiro. Nem preciso dizer à cara leitora que não será um casamento feliz, mas, quem disse que eles buscavam alguma felicidade nisso, pois, em muitas ocasiões o status e o dinheiro falam mais alto e o casamento por amor é visto como uma falácia do Romantismo. Outro ponto é o apoio de Tancredi ao movimento de unificação, que ele considera inevitável, portanto, o seu apoio em busca de futuras alianças que poderão lhe trazer algum benefício, juntando-se, por isso, às tropas de Giuseppe Garibaldi e, depois, ao exército real.

Outro personagem, que não chega a ser um protagonista, mas apresenta um comportamento curioso é padre Pirroni, um jesuíta que serve a família como capelão particular e se torna um grande confidente e conselheiro do príncipe, mesmo sendo tratado, por diversas vezes, com certo desdém por ele. O padre ouve todos os seus queixumes e desabafos nos momentos de crise. É um homem de origem camponesa, humilde, mas que se agarra a uma nobreza em evidente decadência por medo de que a reforma tire os privilégios que sua igreja detém.

O ato de Tancredi junto aos revolucionários, não se trata de idealismo, mas de uma estratégia de sobrevivência. Como diz mais um ditado: “Vão-se os anéis, ficam-se os dedos”. Os nobres perderão seus títulos, porém manterão suas posses. Por trás de uma falsa mudança na engrenagem, aristocracia e burguesia atuam juntas em mais um espetáculo teatral no qual o povo continua sendo mera plateia. Tudo continuará na mesma, como pudemos observar em nossa viagem pela granja dos animais, não se lembram? O poder corrompe e corrói e o dinheiro a tudo compra desde que se descubra qual o preço a pagar. O autor demonstra, em seu romance, sua visão totalmente pessimista de uma sociedade que não se transforma, mas que segue o seu caminho na prática da troca de interesses. Se trouxermos nosso olhar vindo da Sicília do século XIX para o Brasil do século XXI, infelizmente, chegaremos à conclusão de que não mudou nada: grupos que se dizem antagônicos seguem fazendo alianças escusas e se intitulando salvadores da pátria e deixando o seu povo em segundo plano.

Por isso, em tempos como esse, acho muito complicadas as discussões que se dizem políticas e se ocupam de discutir políticos em vez de ideias ou planos de governo. Observo famílias e amizades que rompem seus belos laços de convivência por defenderem diferentes ídolos de barro, tão frágeis e vazios. Que possamos nos tornar amantes das boas ideias e, principalmente, daquelas que visem ao bem comum, isso se queremos verdadeiramente que a mudança aconteça. Todavia, antes de tudo, não nos custa lembrar o sábio Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Que ela comece a brotar de mim, de você, de cada um de nós e, se a semearmos pelas esquinas da vida, quem sabe, um dia, tenhamos a oportunidade de colhermos, juntos, os doces e suculentos frutos da tão sonhada e frondosa árvore da mudança. Até a próxima!

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi di. O leopardo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

domingo, 27 de setembro de 2026

TALENTO GERADO NO SEIO DA TERRA

Homenagem da artista Nice Forti

 

Hoje o blog Cosmo Literário tem a alegria e o enorme prazer de entrevistar um grande poeta contemporâneo de nossa região: Alceu Bigato. Entretanto, antes de começarmos nossa conversa, vamos saber um pouco de sua história:

Alceu Bigato, poeta sertanejo nascido em 1939, na Fazenda da Glória, Jardinópolis, é casado, tem três filhos, dois netos, uma neta e um bisneto. Gosta de escrever desde garoto, mas só depois de adulto, já em Ribeirão Preto e incentivado por um amigo, começou a divulgar seus textos em programas de rádio. Frequentou diversos programas, teve 44 músicas gravadas por várias duplas e trios sertanejos de Ribeirão Preto. Em 2009, lançou na Feira do Livro de Ribeirão Preto um CD declamando seus poemas. Desde então, frequenta os saraus Ponto & Vírgula, assim como da CPERP (Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto) e UEI (União dos Escritores Independentes). Publica seus textos nas antologias dessas entidades, na Revista Ponto & Vírgula e no Jornal Enfim. Em 2018 lançou seu primeiro livro solo: Lapidador da Natureza.

Seja bem-vindo, poeta Alceu Bigato, ao nosso espaço de entrevistas do blog Cosmo Literário.

É um grande prazer bater esse papo com os leitores de seu blog, Márcio.

⁠Como ponto de partida da nossa conversa, vi a sua revelação de que, desde garoto, já demonstrava uma atração incomum pela escrita. Como foi que isso aconteceu? Como foi esse primeiro contato já tão cedo em sua vida?

Nos tempos de escola, sempre gostei das aulas de redação. Na época, geralmente, a professora estimulava a escrita a partir de uma gravura. Minhas redações eram elogiadas, mas eu não entendia bem o valor disso.

⁠Levando em conta esse tempo todo vivido na fazenda, duas delas na verdade, distante de tantas distrações e atrações que a cidade oferece, imerso em um ambiente cada vez mais incomum em nossa região, poderia nos dizer o quanto esse mundo influenciou na sua obra?

Muitos temas que abordo falam da natureza e sua aparente simplicidade. As relações entre as pessoas também eram diferentes, justamente pela falta das distrações atuais que você citou. Havia até uma certa inocência e mais convivência.

Durante sua trajetória, há o registro de inúmeras passagens por programas de rádio. Em um mundo, antes dominado pela televisão, mas agora, invadido pelos podcasts e plataformas de vídeo, poderia nos explicar a importância do rádio para a cultura brasileira e quais sensações diferentes de hoje esse veículo provocava no artista?

Para pessoas como nós, morando em fazendas e sem poder ir com frequência pra cidade, o rádio era muito importante pra nos conectar com o mundo. Através dele tínhamos acesso às notícias e muita diversão também. Ouvíamos música (poesia cantada), futebol e radionovelas (paixões nacionais). Acho que o fato de apenas ouvir as pessoas estimulava a imaginação. De repente, me vi frequentando emissoras de rádio e declamando meus textos. Foi emocionante e, ao mesmo tempo, natural.

O seu surgimento como artista (escritor) começou, bem lá atrás, com a composição de letras para canções sertanejas gravadas por duplas e trios da região. Como foi que começou sua relação com a música sertaneja para chegar a esse ponto?  

Fiz amizade com uma pessoa que morava perto de casa. Ele tinha uma dupla sertaneja. Um dia, mostrei um texto meu para ele. Ele gostou muito e me encorajou a frequentar programas de rádio. Nesses programas fiz muito amigos do meio sertanejo e assim comecei minha trajetória. Fui muito bem acolhido por muitos radialistas dessa cidade, aumentando minha admiração por essa profissão.

Sempre faço questão de ressaltar, em cada entrevista, que todo escritor começa por um bom leitor e que o prazer de ler acaba puxando o prazer de escrever. No seu caso foi da mesma forma? Há algum escritor que se tornou referência para o seu estilo?

Infelizmente minha geração não tinha acesso fácil à escola. Estudei por apenas quatro anos e não tive acesso a livros naquela época. Mas lembro que os cadernos tinham poesias e um dos primeiros poetas que me encantou foi Olavo Bilac. E, mais uma vez, destaco a importância do rádio porque, por muito tempo, tive contato apenas com a “poesia cantada” de compositores como José Fortuna, Teddy Vieira, Goiá e muitos outros. Talvez essas referências expliquem meu estilo.

Em sua biografia, o senhor se denomina um “poeta sertanejo”. Acredito que a maior parte dos leitores e leitoras deste blog ouve esse termo pela primeira vez. Poderia explicar esse título e dizer as características e particularidades que o justificam?

Um poeta sertanejo é aquele que, em princípio, escreve sobre a vida no campo, a natureza, desilusões amorosas. Com o passar do tempo e a urbanização, os poetas sertanejos diversificaram seus temas, mas sempre mantendo a simplicidade característica dessa poesia.

⁠Após tantas participações em programas de rádio, saraus, publicações, coletâneas e antologias, o senhor publicou, em 2018, seu primeiro livro solo de poesia “Lapidador da natureza”. O que isso representou para o poeta Alceu Bigato? E qual o significado pessoal dessa conquista?

Antes de começar a frequentar os saraus literários, eu me definia como compositor sertanejo. Nesses encontros comecei a ser chamado de poeta. Inicialmente, estranhei porque, para uma pessoa simples, poeta é alguém inalcançável. Aos poucos me acostumei, mas a emoção de lançar um livro solo é incrível. Foi um dia inesquecível.

Além de poeta e compositor, pode-se observar, pelos saraus nos quais participou, que o senhor também é um grande declamador, talento que não é comum aos poetas, e que suas declamações soam muito espontâneas e naturais. A que atribui essa capacidade? É um dom ou uma técnica?

É algo que não sei explicar. Para mim, declamar, é dar vida ao texto. Gosto de ter as mãos livres ao declamar porque gesticular me ajuda a dar a entonação que o texto pede.

⁠Após tantos anos nesta estrada, com toda a sua experiência como escritor, o senhor que descobriu esse talento tão cedo, ainda criança, o que aconselharia aos jovens leitores deste blog que pensam em ser escritores, mas ainda possuem muito receio e dúvidas quanto ao começo?

Todo começo é difícil, mas não escondam seus textos. Frequentem grupos de literatura e acreditem que há sempre um leitor à espera do que você tem a dizer.

Depois de tantos feitos e realizações literárias, participações em rádio, lançamento de músicas, de CD e de livro, falta ainda algum projeto a ser realizado ou concretizado como poeta sertanejo?

Eu tenho um projeto em andamento: meu segundo livro solo. Ainda não sei dizer quando será lançado, mas espero que em breve.

Alceu, foi uma enorme satisfação e alegria tê-lo aqui conosco, neste papo tão agradável, podendo nos mostrar um pouco do seu talento. Desejamos que continue esse seu lindo trabalho. Muito obrigado!

Eu que agradeço o convite. Ser lembrado por um escritor como você para fazer parte de seu blog me orgulha e me dá a certeza de que tem valido a pena. Como não uso redes sociais, podem me encontrar através de minha filha Marli da Penha Bigato.

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

PODEMOS NÓS TODOS CUIDAR MAIS DE ALGUÉM

Crédito: Kaique Rocha


Podemos nós todos cuidar mais de alguém

Fazer caridade e tal qual fez Jesus

Levar para o mundo mais focos de luz

Mostrar que se pode vencer com o bem

O amor é a arma tão forte também

Capaz de fazer qualquer um se encantar

Derruba barreiras em todo lugar

Não deixe de olhar pelo seu semelhante

Eu faço este apelo de forma constante

Nos dez de galope na beira do mar. 


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

PERDA DE IDENTIDADE

Crédito: Matheus Bertelli (PEXELS)

Em nossa sociedade

Virou agora mania:

Transformar tudo que vê

Em vídeo ou fotografia,

Forma comum de registro

Que domina o dia a dia.


Em qualquer lugar e hora

Também a situação:

Capturar e postar

É agora uma missão.

Não se sabe qual motivo,

Deve ser só convenção.


Mas não começou agora,

Não é recente a mudança.

Assim quando o homem pôde

Armazenar a lembrança

Passou a guardar momentos

Desde o tempo de criança.


Mas de uns tempos para cá

A prática acelerou:

O que era mero prazer,

Um hábito se tornou.

Com as redes sociais

Compulsão então virou.


Mas nesta ânsia cruel

De registrar o momento

Acabam perdendo espaço,

Emoção e sentimento.

E o instante, que era único,

Não teve aproveitamento.


A grande contradição

Que se vê recentemente:

Registrar tudo que vive,

Assim detalhadamente,

Eternizar o momento

E não viver o presente.


Acumulam-se postagens

Pelas redes sociais.

E os momentos preciosos

Já se tornaram banais,

Feitos de forma instantânea

Pra não se verem jamais.


Em busca da melhor pose,

Da imagem de qualidade,

Experiências profundas

Não chegam nem na metade.

Apenas corpo presente

E sem alma na verdade.


E o que vai acontecer

Será tremenda ironia,

Porque lá pelo futuro,

Num passe de nostalgia,

Em vez de recordações

Só terá fotografia.


Com ausência de emoção,

Em busca da própria história.

Sem ter marcada no peito

Velha sensação de glória.

Olhar triste para a tela

Agora já tão simplória.


Então um grande vazio

Chamará nossa atenção:

Tantos lugares, pessoas,

Porém nenhuma emoção.

Quem não vive seu presente

Não terá recordação.


Fotografias e vídeos

Estão em segundo plano

Pois nada substitui

Contato e calor humano,

E quem busca identidade

Não recorre neste engano. 


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

NOVAS ANTIGAS PROMESSAS

Crédito: Aydin Photography (PEXELS)


Palavras, outrora esquecidas,

Ressuscitam antigos sonhos

Fazendo novas promessas...


Aquele falso amor (quase esquecido)

Retorna... insistente... reabrindo velhas chagas

Entre mil juras já confessas.

Todavia, ainda restam coloridas esperanças 

Desejando ser cumpridas às pressas.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

DEVANEIO

Crédito: Ksu&Eli Studio (PEXELS) 

 

No copo vazio sobre a mesa

Uma boca de rubro acena.

Ritualística, pronuncia meu nome,

Um convite à perdição...

 

A mente tenta, a todo custo,

Selar olhos e ouvidos...

Uma débil resistência.

Meu corpo fala por tudo!

 

Deito em lençóis de seda

Vislumbro imagens insólitas

Voo da terra ao céu

Abro os portais do êxtase

Perco-me entre o algodão das nuvens...

 

No fim da jornada, desfaleço.

Acordo, ainda sozinho...


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CORDEL DA VIOLÊNCIA

Crédito: Enrico Hanel (PEXELS)


“Quem pode mais, chora menos”

Já diz o velho ditado.

O homem se faz violento

Pra não ser violentado

Pois arma-se até os dentes

E pensa estar preparado.


Estando pronto pra guerra,

Procura por um abrigo.

Corre os olhos ao redor

Na busca pelo inimigo.

No frenesi do combate,

Se fere por fogo amigo.


Em prol da sobrevivência,

Neste afã de combater,

Ele torna-se implacável 

Pois é matar ou morrer.

Aos amigos, o perdão.

Aos inimigos, sofrer.


Renuncia à piedade,

Que ela não pode salvar.

Como o mal não tem limite,

Já basta de perdoar.

Velha lei do olho por olho

Passa agora a vigorar.


Pouco a pouco a lei da selva

Também entrou em vigor:

Só os mais fortes sobrevivem,

“Batatas ao vencedor!”

Se não quer ser dominado,

Seja um dominador.


E o homem que é violento,

Pobre vítima inocente,

Nunca percebe que o ódio 

Corrói coração e mente

E consome sua alma

Em vingança lentamente.


Quando pensa ter controle,

É que falta consciência.

Quando mata o violento,

Não se acaba a violência. 

É preciso muito mais

Pra chegar à sua essência.


Pois saiba que a força bruta

É potente combustível 

Para a máquina do mal,

Praticamente invisível, 

Como o fogo alimentado

Pronto a tornar-se invencível.


Uma chama que consome

Tudo o que vê pela frente:

As esperanças e os sonhos

E o sangue do inocente,

Que faz, entre tantas vítimas,

A cada amigo e parente.


Como estrada de mão única 

Em que se põe a andar,

Quanto mais longe se vai,

Mais difícil de voltar.

E muitos já se perderam

Sem mais chances de voltar.


Então não ceda ao impulso,

Resista à destruição. 

Jamais se deixe levar 

Por tal brutalização. 

Liberte o rancor do peito,

Jogue fora a munição.


Violência por si mesma

Não é questão resolvida.

Por acaso pode a morte

Defender a própria vida?

Não entre por esta porta,

Lá dentro não tem saída.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

NOSSO JARDIM

Crédito: Meriç Tuna (PEXELS)

Voltará minha alegria

Quando tu retornares

Para seres minha.


Nosso lindo jardim florescerá novamente:

Juntos, buscaremos plantar novas flores,

Arrancaremos imediatamente cada erva daninha.

Nosso amor desabrochará na união,

Qualquer flor perece estando sozinha.  


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

FARDO ETÁRIO

Crédito: Natália Olivera (PEXELS)

O tempo passa...

A energia abandona o corpo.

Os sonhos tingem-se de cor de frustração, 

Um gosto amargo vem à boca.


Os amigos, cada vez mais distantes,

Revisitados em fotografias de moldura antiga.

Tudo perde o caráter emergencial...

Recorda-se para poder sobreviver.


A vida torna-se um pesado fardo

E quem o compartilhava, já não é mais.

Um arrastar solitário por léguas,

A cabeça baixa afim de não mirar os olhos...


Agora se tem muito a perder,

Nada mais para conquistar.

Em silêncio, segue-se o trajeto,

Até que um dia: não mais.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

SONETO DA PAIXÃO

Crédito: Anderson Martins (PEXELS)


Todo este insano medo sentido por mim

Não chega a ser mais que tremenda ansiedade

Esta tão delirante e tão louca vontade

De ouvir da tua boca nada além do sim.


Esta estranha mania de suar tão frio

Seguida desta febre que causa delírios

Meu pobre coração, presa vil dos  martírios 

A provocar visões em forma de arrepio.


Todo esse turbilhão das emoções que sinto

Em ritmo veloz a me causar tontura

Vontade contra a própria vontade, não minto.


Pois tenho estado assim: dia e noite acordado

Por ora em sanidade, por vez em loucura

Logo, acima de tudo, todo apaixonado.


sábado, 12 de setembro de 2026

CUIDADO SE PENSA ENTREGAR-SE AO AMOR

Crédito: Mikhail Nilov (PEXELS)


Cuidado se pensa entregar-se ao amor,

Em suas mãos débeis deixar sua alma.

Porque, se de um lado, você já se acalma,

Do outro só prova o tormento ou a dor,

Pois tem forte chama, sinal de calor,

Faz tudo ao redor muito fácil findar.

Quem uma vez prova o tal gosto de amar,

Pra sempre que fica com peito afetado,

Tem seu coração por demais disparado

Nos dez de galope na beira do mar.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

FOGUEIRA DAS VAIDADES

Crédito: Nuh Isa El Carillo (PEXELS)

 

- Vaidade, tudo é vaidade.

É correr atrás do vento.

Assim diz o Eclesiastes

Lá no Antigo Testamento.

A beleza que é um dom

Torna-se então um tormento.


Há quem diga que a beleza 

É tão grande qualidade,

Porém quando se transforma

Na mais potente verdade,

Que importância tem o belo

Perante a realidade?


Se a beleza exterior

Passa a ser um só caminho,

Torna então o coração

Um tanto quanto mesquinho

E depois de certo tempo

Passa a caminhar sozinho.


E já não se pode mais

Enxergar o indescritível:

O interior das pessoas

Passa a ficar invisível 

E ver através dos corpos

Parece coisa impossível.


Pois quem adora a lindeza

A ponto de ser vaidoso,

Fecha os olhos para o mundo,

Nada vê de valoroso.

Só quem tem bela aparência

Pode ficar orgulhoso.


Começa a cruel corrida

E tudo parece justo,

Mexer onde for preciso:

Abdômen, rosto, busto.

Pra alcançar a perfeição 

Não importa qual o custo.


Agora qualquer detalhe

É medida do sucesso

E o mais preciso centímetro

Pode trazer o progresso

E ao reino das divindades

Dar o tão sonhado acesso.


Bisturi vira varinha

E faz mágica fantástica 

Porque ele tudo pode

Pela cirurgia plástica.

Tomar a estrada mais curta

Nem que lhe pareça drástica.


Queixo, nariz, boca e pálpebra,

A bochecha e a sobrancelha,

As costelas e o quadril,

Não se esqueça da orelha.

Pra tudo tem correção,

Embora não se aconselha.


Na busca desenfreada,

Há quem bastante se ilude.

Em nome da tal estética

Toma qualquer atitude.

Chega a colocar em risco

Até a própria saúde.


É selfie pra todo lado

Buscando o melhor perfil.

Não importa qual o fundo,

Pois é sempre o mesmo ardil:

Postar como natural,

Receber curtidas mil.


Em cada foto tirada

Ter apenas a certeza:

Parecer tão casual

Como a própria natureza.

Ganhar muitos comentários

Acerca de tal beleza.


Na vitrine da altivez,

A mídia dita o padrão, 

Estabelece medidas

Com critérios de exclusão,

Afasta a real beleza

Pra longe da discussão.


Porque, no final das contas,

Parece até engraçado:

Beleza, um dom natural,

Virou promissor mercado,

Vendida como produto

Que pode ser parcelado.


Na corrida do mais belo

É só ganhar ou perder.

Nada é mais importante

Pra que se possa aprender.

Não se enxerga o coração

Que tem muito a oferecer.


E sem mais assim termino

Para evitar confusão.

Jamais fui contra a beleza,

Eu critico a obsessão 

De quem preza a aparência 

E despreza o coração.


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

TRISTES MEMÓRIAS

Crédito: Karolina Grabowska (PEXELS)

 

Lembranças não trazem

Amor de volta,

Retornam somente dor.


Alegria que um dia habitou

Aquele coração cheio de vida,

Hoje é resquício do temor.

Cada lampejo tímido de memória

Antecede um ataque de torpor.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

REGRESSÃO

Crédito: Krishnendu Biswas (PEXELS)


Um pedaço de mim morre a cada dia...

Após as quedas nas lutas do cotidiano

Sinto parte do meu ser a esvair-se,

Meus ossos resultando em poeira

Pouco a pouco, volto ao barro primordial...


Desconstruo a própria criação 

Inexisto em contagem regressiva

Envolto na expectativa pelo ontem.


A cultura de um saudosismo que espera

A reparação dos erros na vida adulta

O regresso da oportunidade na juventude

A volta da alegria na infância 

Sempre a realização do que não foi

E nada mais há para ser...


Só resta o não ato, o desfazer,

A desintegração de todo o ser

No cumprimento da suprema profecia

Enfim o retorno ao pó absoluto.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

NOVOS ARES

Crédito: Alan Kabes (PEXELS)


Vindo do alto do topo deste mundo

Chega a galope o vento da mudança

Incomodando adulto até criança

Invadindo ao recanto mais profundo.


Todo homem, na verdade, possui medo

Ao mínimo sinal de novos ares

Ideias, sentimentos e lugares

Assumem certo odor de cru degredo.


Evita qualquer tipo de tendência

Capaz de alterar a ordem mais vigente

No plano da aparência ou da essência.


A tradição mantém-se resistente

Apesar da pressão da insistência

O conservadorismo está presente.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

1984 - GEORGE ORWELL


Igor Caldeira, 35 - advogado


1984 é um livro incontornável

1984 é um livro incontornável. Aprendi essa palavra agora, estudando em um grupo de estudos de Hegel, no Youtube, coordenado pelo professor Marcos Fábio Alexandre Nicolau. "Alguns filósofos são incontornáveis na história da Filosofia". Pois bem. É justamente a situação de 1984.

1984 trata não apenas de uma distopia antiga, como se fosse um livro datado, e numa época que supostamente já não existe mais. Tudo desvanece, mas algo se mantém. Já diria o filósofo de Iena. De fato, 1984 tem a profundidade de um clássico que toca profundamente na raiz de diversas discussões atuais, até mesmo no direito, mas não somente. É incrível perceber a força do livro quando aprendemos, nas aulas de processo penal, de que uma prova ilícita, se não respeitados os limites legais, não poderá ser utilizada no processo e deverá ser desentranhada (Art. 5°, Inc. LVI, Constituição Federal).

Às vezes pensamos que tudo pode para prender o "bandido". Mas não é bem assim. Valores importantes devem ser preservados, como a exemplo da intimidade e a privacidade. Não podemos simplesmente realizar uma interceptação telefônica sem autorização judicial e desde que seja realizada em uma investigação penal, apenas (Art. 5°, Inc. XII, da Constituição Federal). Imaginemos se os agentes do Estado pudessem simplesmente realizar toda espécie de interceptação sob qualquer situação, sem os limites legais? É o que acontece em 1984. As teletelas estão sempre em todos os locais, inclusive em nossos banheiros e em nossos quartos. Elas não apenas transmitem ideias do partido, mas também escutam tudo o que você fala, a ponto de não existir momento livre para ninguém externar nenhum pensamento.

Na história toda crítica contra o partido é considerado um crime inafiançável. E diante das telas sempre vigilantes, os personagens do livro de George Orwell não podem sequer possuir o resguardo de sua intimidade e privacidade. Pior ainda: e a liberdade de expressão, valor tão importante numa democracia? No livro, a situação chega num limite tão crítico que sequer escrever um diário é autorizado. Qualquer pensamento externado vai ser veementemente repreendido, até mesmo com a vaporização da pessoa, não apenas fisicamente, mas até nos anais da história.

Aqui existe uma situação curiosa. Por não existirem leis (positivadas) não existem limites legais e toda pena poderá ser implementada, em toda desproporcionalidade possível. Externar um pensamento se torna pena de morte ou de trabalhos forçados. E simplesmente ninguém pode trazer nenhum pensamento genuíno ou inteligente. Tudo será utilizado contra você. É um terror inimaginável: as pulsões são inibidas, os desabafos se tornam recalcados. E a vida se torna um inferno. A opressão de pensamento e de privacidade é tamanha que o nosso protagonista Winston precisa, até mesmo, alugar um quartinho, de um suposto vendedor de quinquilharias, para poder amar sem existir qualquer espécie de constrangimento.

Para tornar as pessoas avessas à revolução e fazê-las ir contra os interesses do Partido, a cúpula traz um expediente genial. Simplesmente realiza a simplificação da linguagem através da instituição de um novo idioma, denominado novilíngua. Um dicionário é incumbido de realizar a tarefa de registrar essa simplificação. Essa simplificação é basicamente através da restrição conceitual das palavras, de seus significados e até mesmo de suas ambiguidades.

 Não é possível não pensar em Wittgenstein quando ele diz que o mundo de uma pessoa é do tamanho do mundo de sua linguagem. Restringir a linguagem é restringir a atitude crítica, a criatividade e o pensamento livre.

Sem palavras para podermos expressar não poderemos conceituar o mundo, não seremos capazes de exprimir até mesmo o real. A restrição de palavras e de seus conceitos é a restrição da interpretação e de uma compreensão mais elaborada do mundo e da vida.

E quantas e quantas vezes não aparecem leis, inconstitucionais, diga-se de passagem, como a Escola sem Partido, que nada mais busca, senão, restringir do vocabulário dos professores o que se reputa como ideia de esquerda, inibindo uma atitude crítica dos seus alunos diante do mundo que lhes aparece?

A relação entre o livro e a conduta reacionária da direita é inevitável. Obviamente que o livro está nitidamente criticando o sistema soviético. Não é desconhecida a história da perseguição do governo soviético em face de Pachukanis, apenas porque sua teoria do direito não atendia aos interesses do regime de Stálin.             

Mas estou focando, aqui, em como o livro é atual e como dialoga com a contemporaneidade, e não se trata de uma discussão velha, apenas porque o muro de Berlim foi derrubado. O livro realmente é reflexivo de início ao fim.

Como não trazer à luz as torturas no quarto 101, que chegava ao extremo de confrontar as pessoas com seus piores medos, para que elas pudessem confessar crimes que até mesmo não cometeram. A tortura para dizer que 2+2 seria igual a 5, mesmo quando as leis da matemática asseveram que na verdade 2+2 é igual a 4. A inibição, portanto, do pensamento do verdadeiro, ainda que na base da tortura física e mental. Quantas vezes não somos inibidos, diante do poder do Estado, de trazer o real, de uma forma menos torturosa? 1984 não é um livro qualquer. É um livro que possui relevância, para além da época da guerra fria. É um livro atual, que dialoga com qualquer sistema político, mesmo nas democracias, que muitas vezes parecem esconder dentro de si o desejo irrefreável de solapar as leis e as nossas intimidades.

1984 é um livro incontornável. O que significa que nenhuma alma viva pode passar sua existência sem ter lido ao menos uma vez o livro. Está carimbado pela tradição como um clássico, atemporal, e passível sempre de ser lido e relido. As suas reflexões continuam atuais e possuem relevância mesmo nas democracias liberais.  Que a minha pequena resenha crítica possa servir de um estímulo à leitura e possibilite uma interpretação ainda mais aguçada do Livro.

PS. Também podemos pensar no livro não apenas em face do Poder do Estado, mas também no poder exercido pelas empresas privadas, que têm acesso aos nossos dados pessoais, a exemplo das plataformas de transporte por aplicativo, que sabem, por exemplo, cada canto que nós nos deslocamos, uma vez que nosso trajeto fica nos seus servidores, sem que possamos ter um efetivo controle. Obviamente, contamos, atualmente, com a Lei Geral de Proteção de Dados, prevendo multas e restrição ao compartilhamento indevido de dados. Mas a nossa privacidade encontra-se sempre no delicado fio da espada de Dâmocles, podendo ser rompida através de um leve sopro dos Poderes Privados.

Trago agradecimento especial ao Grupo do Book Club do Encontro de Idiomas por me estimularem a realizar a leitura do livro em inglês, em sua versão simplificada, o que me motivou a realizar a leitura em português do livro integral. Em especial a Henrique Takeshima e Rafael Sousa, por sempre estarem presentes no grupo de leitura, me ouvindo e suscitando o debate.

Menção especial a Carlos de Alcântara, fundador do Encontro de Idiomas, por permitir sempre trabalhar como Host do Grupo do Book Club com liberdade e sempre dando suporte às novas ideias.

Agradecimento ao Clube do livro de Russo hosteado pela Brenda Anjos e ao professor Márcio Fabiano, por me motivarem a realizar a presente resenha














 


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

NÃO SOU DESTE MUNDO

Crédito: Ainaz Musavi (PEXELS)

Não, eu não sou deste mundo.

Não, não pode ser possível.

Eu, que quando era pequeno,

Via a vida tão incrível,

Hoje me debulho em lágrimas

Neste mundo desprezível.


Naqueles tempos dourados,

Alma pura de criança,

Eu corria pelos campos,

Olhos verdes de esperança,

Mesmo sob a tempestade

Esperava por bonança.


Hoje vejo um outro mundo

Cada vez bem mais distante

Dos meus sonhos de menino,

Um lugar angustiante

Onde dinheiro e poder

É muito mais importante.


Basta olhar pra cada adulto

Pra ver tanto preconceito:

Um pronto a julgar o outro,

Achando-se tão perfeito

E pra algo sair certo

Tem que ser só do seu jeito.


As pessoas se evitando

Por todo e qualquer motivo,

Pensando só em si mesmas

E jamais no coletivo,

Hoje é cada um por si,

Nada de cooperativo.


O mundo agora virou

Gigante competição:

O outro, um adversário,

Não há colaboração.

Em que se ganha ou se perde,

Não há terceira opção.


Pessoas gastam o tempo

Com tanta futilidade

Perseguindo as ilusões,

Se afastando da verdade,

Para depois se queixar

Que falta oportunidade.


Mas os sonhos verdadeiros

Não encontram mais lugar.

Todos estão ocupados

Sem um tempo pra sonhar.

“Isto é coisa de criança”

Costumam justificar.


Crianças virando adultos

Muito bem antes da hora,

Perdendo tantos valores

Que pra sempre vão embora

E que um dia farão falta,

Mas ninguém vê isso agora.


Não sou mesmo deste mundo

E disso tenho certeza.

Jamais pensei encontrar

Males dessa natureza.

Surtos de perversidade

Roubaram minha pureza.


O mundo que conheci

Foi retirado de mim.

E deram um outro em troca,

Mas não gosto dele assim

E sei que não há mais volta,

Será este até o fim.


Por isto quero ir embora

Da cruel realidade.

O tempo de minha infância

Deixará muita saudade.

Nessa época dourada

Eu fui feliz de verdade. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

SAUDADE

Crédito: Eddie Stofe (PEXELS)

Nenhuma alegria afasta

A saudade deixada

Por tua partida


Dias de sol me deixaram

A casa escura e vazia

O tom cinza de despedida

Toca meu coração como hino

E provo cada lágrima caída


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ARQUIVO MORTO

Crédito: Element5 Digital (PEXELS)


Tranquei meus sonhos de criança 

No escuro do quarto de despejos

Ainda ali se encontram amontoados

Na disputa pelo espaço com os brinquedos.


Quando adolescente escondi a chave 

Afastando minha pureza dos olhos curiosos

Procurei esquecê-los por completo

Mesmo depois de adulto nunca abri o cômodo 

Inclusive perdi a chave, propositalmente.


Com os anos evitei aproximar-me da porta

Por medo de que as fantasias encarceradas

Iniciassem uma verdadeira rebelião, fugissem,

Ganhando mais força ao cruzar o batente

E me revelassem de forma nítida

O adulto que nunca tive coragem de ser.


ETERNIZAR

Crédito: Atypeek Dgn (PEXELS) Já não importa o tempo que demora Pra alcançar o lugar tão pretendido Logo após o propósito atingido Não recue...