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| Crédito: Flickr (Cena do filme, 1951) |
“Riquezas, glória, poder são mera fumaça, vaidade! O homem rico encontrará alguém mais rico do que ele mesmo; a maior glória de outro eclipsará um homem famoso; um homem forte será conquistado por um mais forte”.
Antes
de tudo, seria importante dizer que a expressão latina “quo vadis”, título do livro,
significa “para onde vais”. Segundo a tradição cristã, essa pergunta teria sido
feita pelo apóstolo Pedro, quando viu uma aparição do Cristo enquanto fugia de
Roma, e o mesmo teria respondido a ele que já que ela estava fugindo e
abandonando seu povo, ele (Cristo) estaria voltando para ser crucificado
novamente pelo império. Você pode estar perguntando o que isso tem a ver com a
obra. Eu respondo: tudo. Estamos no governo de Nero, um dos mais polêmicos
imperadores romanos e figuras da história da humanidade, famoso por sua
perseguição aos cristãos. Em uma festa promovida por ele, aliás, esses romanos
eram famosos por suas festas, daí que veio o curioso vocábulo “bacanal” (sobre
o qual não teremos tempo de explanar, ficando como tarefa para casa aos mais
curiosos), mas, voltando à específica festa: nela estão presentes diversas
figuras da alta sociedade, entre elas – Lígia e Vinícius.
Ao
mais aguçado leitor que já sentiu no ar o cheiro de par romântico, meus
parabéns! Embora eu acredite que isso não seria tão difícil assim de se prever.
O leitor também já sabe que onde há um par romântico, há de ter um obstáculo ao
amor dos dois. Isso é uma regra de ouro do Romantismo (sem qualquer exceção).
Eles pertencem a mundos totalmente distintos: ela, criada na fé cristã, ainda
rejeitada pelo império; ele, um centurião romano, comandante militar, entregue
às tradições. Lembra muito aquele poema divertido de Drummond “Balada do amor
através das idades”, que conta a história de dois amantes que em todas as eras
da história se encontram dos lados opostos, como na estrofe: “Virei soldado
romano, / perseguidor de cristãos. / Na porta da catacumba / encontrei-te
novamente. / Mas quando vi você nua / caída na areia do circo / e o leão que
vinha vindo, / dei um pulo desesperado / e o leão comeu nós dois”.
Infelizmente,
caro leitor, a vida desse casal não será nada fácil, visto que se encontram no
centro dos antagonismos de sua era. Esse tema é uma constante presente no
cinema mundial, do qual fica aqui uma dica: o filme “Um reino unido” (2016) do
diretor Amma Asante, baseado em uma história real de 1940, envolvendo o trono
de Botsuana. Assista e veja o que uma sociedade é capaz de fazer para matar um
verdadeiro amor. Aliás, voltando ao nosso casal protagonista: por conta do
amor, o impulsivo rapaz deseja roubar a moça e fugirem para um clássico
“felizes para sempre”, o que ela não aceita. Então ele decide enfrentar o
império, até o próprio Nero se preciso, para sua liberdade. Lígia, que antes
não tinha nenhum interesse pelo centurião, agora se vê perdidamente apaixonada
por ele. Os cristãos são frequentemente perseguidos, porém Lígia conta com a
proteção do grande Ursus, fiel criado de sua mãe, um homem simples e inocente,
dotado de uma força descomunal, o qual jurou proteger a moça com a própria
vida.
Nero, ensandecido (está mais para uma
caricatura do imperador), ateia fogo em Roma, pondo a culpa nos cristãos (inclusive,
esse é um ponto complicado da história de Roma: não confirmam que foi ele, mas
também não duvidam), gerando, assim, uma perseguição sem limites, com delações
em troca de dinheiro por parte do povo, inclusive de Chilón, um filósofo que,
por pura ambição, infiltra-se entre os cristãos, ganha sua confiança para
depois entregá-los ao império por uma boa quantia. Todos eles são entregues ao Circo Máximo (uma
espécie de estádio) onde são entregues às feras selvagens, como sacrifício e
forma de diversão (embora não tenha sido no império de Nero que isso tenha sido
feito). Não, caro leitor, não é um erro. As pessoas divertiam-se ao ver algo do
tipo, considerado até como um grande espetáculo, assistido de camarote, o que
me faz lembrar Roberto Carlos, em uma de suas canções: “Eu queria ser
civilizado como os animais...”, chocado diante da selvageria humana.
É
uma obra muito rica em conteúdo, tanto que rendeu a seu criador o prêmio Nobel
de literatura em 1905. Então, o que destacar disso tudo? Sienkiewicz critica os
grandes impérios, erguidos à custa de banhos de sangue, pilhagens, opressão e,
acima de tudo, o desrespeito pela vida humana. Escravização e exploração fazem
parte da receita da ascensão de muitas das grandes nações (poderíamos citar
muitas aqui) e com Roma não foi diferente. Quantas nações ao redor do globo
ainda provam as sequelas do imperialismo, amargando como legado a guerra civil
e a miséria? Vemos a intolerância religiosa dos romanos contra os seguidores do
Cristianismo, crença ainda em desabroche, em torno de uns trinta anos passados
da passagem do Cristo pela Terra. Ah! Como a vida pode ser irônica, caro
leitor... o que diriam os cristãos (tão perseguidos nesta época) se pudessem
ver que muitos de seus descendentes fazem, hoje, o mesmo com diversos outros
credos, em especial aqueles que são frutos da matriz africana. O homem tem uma
incrível capacidade, muito bem demonstrada pela História, de passar de vítima a
algoz. A obra nos mostra os senadores romanos, que fizeram de seus mandatos um
balcão de negócios, transformando o compromisso com o povo em uma legislação em
prol dos próprios interesses. Já se passaram dois mil anos e nada mudou neste
aspecto, basta olhar o número crescente de escândalos envolvendo os ditos
“homens públicos”.
Por
outro lado, presenciamos um povo sedento de sangue, que se banqueteia com a
desgraça alheia e assiste aos desastres como uma apresentação de gala. Não há
mais atrações no coliseu romano, mas temos a mídia sensacionalista, que ganha
preciosos níveis de audiência ao expor a desventura e pesar das famílias em
rede nacional, somada aos abutres de internet, que ficam a farejar o infortúnio
para convertê-lo em visualizações e curtidas. Infelizmente, meu caro, há gente
que sente prazer em viralizar o sofrimento alheio (e não são poucos). Por
último, a obra nos mostra que todo regime totalitário se alimenta de suprimir a
liberdade. Ah, a liberdade... todo homem nasceu para ser livre e, não sei se o
leitor concorda comigo, a liberdade é condição sine qua non para o amor, é o
seu oxigênio. Como diz o centurião, no trecho do livro que abre nosso artigo de
hoje, tudo o mais não passa de mera vaidade, material com o qual se constrói o
alicerce dos impérios. Termino nossa viagem de hoje lembrando o apóstolo Paulo
(também presente nessa obra) que por meio de sua carta aos Coríntios, inspirou
Renato Russo (vinte séculos depois) nos versos da música Monte Castelo: “Ainda
que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua dos anjos, sem amor eu
nada seria...”. Até a próxima viagem.
SIENKIEWICZ, Henryk. Quo vadis. Campinas: Sétimo Selo, 2023.
