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| Crédito: Wingspan Artist (PEXELS) |
“A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos do que o homem”.
Se
o amigo leitor está pensando (aí consigo): “Por que falar tanto em morte?” Simples
de responder: porque ela é, ao mesmo tempo, tema e protagonista de nosso
romance de hoje. Isso mesmo. Você não entendeu errado, meu caro leitor: a
temida e onipresente morte, a mais universalmente reconhecida criatura, em
carne e osso (não sei se esse ditado pode ser aplicado a ela). Agora, caro
amigo, envolvido por esse misto de curiosidade, mistério e temor, comecemos,
enfim, a nossa história. Tudo começa no dia primeiro de janeiro, conhecido por alguns
como primeiro dia do ano, com uma singela frase do autor: “Naquele dia ninguém
morreu”. Acontece que a morte, já cansada da ingratidão dos mortais e de ser
alvo de tantas injustiças e de tantas perdas vinculadas equivocadamente a ela,
resolve deixar de agir dentro das fronteiras desse país desconhecido.
Nessa
primeira parte do romance, temos a morte, ainda abstrata e invisível, dando uma
de Pôncio Pilatos, lavando suas mãos diante dos acontecimentos humanos,
deixando, por tempo indeterminado, os homens entregues à sua própria sorte. A
partir de agora, ninguém mais será levado por ela. Nesse ponto, o leitor
desavisado pensa em todas as maravilhas e prodígios a que se resumiria um mundo
em que o homem fosse imortal. Pense em quantas desgraças e tragédias seriam
evitadas. Não haveria mais a dor da perda. Estaríamos para sempre perto de
todos aqueles a quem amamos. Enfim, meu caro leitor, poderíamos fazer um imenso
rol dos problemas e dores que nos seriam tirados como magica. Entretanto, não
se iluda, pois é isso mesmo que Saramago faz com cada um de nós, leitores, nos
dando uma belíssima corda para que possamos nos enforcar com ela mais tarde.
Como
num jogo de estratégia, o narrador vai mudando suas peças e, pouco a pouco, nos
mostrando como seria um mundo sem a morte e, por mais incrível que pareça, o
resultado é extremamente caótico. Partindo, primeiramente, do ponto de vista
econômico: muitos negócios como as funerárias e companhias de seguro decretam
falência (já parou para pensar, por um segundo, meu caro: quantas famílias a
morte emprega? Quanto capital ela mobiliza nesse mundo?). Quanto aos hospitais,
eles entram em crise por falta de leitos, porque ninguém mais morre por lá. As
igrejas e templos tornam-se vazios, pois, nessa nova ordem, a religião não tem
função alguma. Como pregar a salvação da vida eterna ou o temor pelo juízo
final se ninguém mais tem de enfrentar a morte? A partir de agora, a fé
torna-se algo puramente obsoleto. E nas famílias? Reina a desordem: os filhos
não herdam mais os bens nem se tornam chefes dos negócios da família agora que
seus pais estarão presentes para sempre.
Na
segunda parte, a morte, depois de sete meses de greve, resolve aparecer de
volta, vendo que sua experiência não poderia ser pior e, avisa, em rede
nacional: a partir desse momento, ela voltará a agir, mas com uma diferença –
mandará uma carta avisando as pessoas com uma semana de antecedência. É quando
ela tem uma dessas cartas negadas que ela resolve visitar o mortal
pessoalmente, como naquele magnífico filme de Martin Brest “Encontro marcado”
(1998) em que a morte vem buscar um magnata, porém se apaixona por sua filha e
resolve passar uns dias entre os mortais. No livro, ela, personalizada como uma
bela mulher, humanizada, vem buscar o violinista, mas se apaixona por ele e se
nega a levá-lo com ela, passando a viver uma grande paixão com ele.
Nos
tantos livros e filmes em que a morte se materializou, sua discussão sempre foi
sobre a vida, como no filme de Ingmar Bergman “O sétimo selo” (1957) no qual a
morte vem buscar um cavaleiro das cruzadas, que a desafia para uma partida de
xadrez enquanto conversam sobre a vida. Saramago não faz diferente, caro
leitor, não o faz. A boa e velha morte continua sendo a discussão para o que
fazemos das nossas vidas. A morte, meu caro amigo, é, na verdade, o que dá
sentido à vida. Pense um pouco: é a consciência de que nossa vida tem fim que
faz dela algo assim tão precioso, que faz cada minuto ser especial e
incalculável. Mas não é só isso. Ela é a ordem desse mundo, muitas vezes tida
como a grande vilã de todos os tempos. Sem sua presença, tudo seria um caos. No
livro, o autor mostra por diversas vezes que o fim da morte em nada melhorou o
homem. Ao contrário, tornou-o ainda mais imprudente e egoísta ao encontrar-se
imortal, ou seja, uma vida que não se perde já não possui mais o mesmo valor.
Tudo isso para mostrar o quanto negligenciamos esse dom tão precioso. Desejamos
ser eternos, mas, afinal de contas, para quê? Para esgotarmos nosso planeta? Para
satisfazermos os nossos desejos mais insanos?
Saramago
fala de uma morte que acaba por apaixonar-se pela vida humana, que sente inveja
da vida que os homens podem viver, o que não é nenhuma surpresa, porque a vida,
de fato, é apaixonante. Por isso, ela larga tudo para viver seu amor com o
violinista, porque se encanta por sua música. Contudo, caro leitor, vê-se um
homem cada vez mais preocupado em prolongar sua existência à custa de terapias,
técnicas, medicamentos e pedras filosofais (já ouviu falar em criogenia?) de
que viver a vida com intensidade e entusiasmo, sem desperdiçar uma só gota.
Como diria o poeta Mário Quintana: “A morte chega cedo, / Pois breve é toda
vida / O instante é o arremedo / De uma coisa perdida. / O amor foi começado, /
O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou”. Nenhum
momento pode ser perdido, meu caro leitor, nenhum sequer.
Como
mostra um trecho da obra no início deste artigo, o homem é o grande responsável
pela maior parte das tragédias e desastres aos quais assistimos com frequência.
Claro que é mais fácil chamar tudo isso de fatalidade, destino, sina, azar e
uma sorte de tantos outros nomes que procuram isentar o ser humano de suas
atitudes. Tudo é causa e consequência. O resto não passa de pura invencionice. Não
nos esqueçamos, amigo leitor, de que a vida é breve e preciosa, que ninguém é
dono do tempo, que ninguém conhece o amanhã. Como diz uma canção de Raul
Seixas: “Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa
esteja me vendo pela última vez / A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu
não sei em que esquina ela vai me beijar”. Até a próxima viagem.
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
